Fios do Tempo. Doze apontamentos sobre a situação venezuelana — Jeudiel Martinez

O cenário de acirramento das tensões na região do Caribe, com foco sobretudo na Venezuela, nos demanda um esforço de análise cuidadosa da conjuntura política mundial e latino-americana, norte-americana, venezuelana e brasileira.

Buscamos contribuir para essa compreensão política do que se passa com a publicação de dois artigos.

Em “Marco Rubio, vice-rei do Caribe?“, o espanhol Pablo González Velasco realiza não apenas uma interpretação do que está sendo jogado por parte do governo trumpista, como também faz uma excepcional análise da conjuntura política contemporânea.

Em seguida, em “Doze apontamentos sobre a situação venezuelana“, o venezuelano Jeudiel Martinez escreve brilhantes reflexões, em diálogo com o artigo de Velasco, que possibilitam uma adequada compreensão do campo dos possíveis do “arquipélago venezuelano”. Arrisco-me a dizer que é uma leitura obrigatória para todos os que querem compreender a situação venezuelana.

E digo mais: rogo que esses dois brilhantes textos, escritos por um espanhol e um venezuelano, estimule a nós, brasileiros, a querer conhecer de fato a realidade do nosso continente, ao invés de nos contentar a ser indiferentes, decretar imperativos ou fantasiar utopias.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

Fios do Tempo, 01 de setembro de 2025
A.M.

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 Doze apontamentos sobre a situação venezuelana

Surgidos no meio das trocas no grupo do Ateliê de Humanidades, esses apontamentos são uma tentativa de colocar o leitor brasileiro no contexto do debate no “Arquipélago Venezuelano”. Esse último é geralmente bem diferente do debate internacional sobre a Venezuela – exceto por alguns meios que cobrem fontes e temáticas muito especializadas como petróleo, seguridade ou finanças.

Nestes dias, nos quais todo mundo fala da frota americana que se aproxima as costas venezuelanas, a postura mais comum entre os venezuelanos é não esperar nada, até porque, no contexto de nossa política, esperança e fé foram instrumentalizadas pelos políticos da oposição, assim como, no passado, o patriotismo e o ufanismo foram instrumentalizados pelo Chávez. Os resíduos dessa instrumentalização do nacionalismo são as ridículas mobilizações e demonstrações de uma “milícia” cheia de idosos que parecem de um sitcom tipo The Office, mas a ridícula religião do “mano tengo fé”, isto é, a expectativa de uma queda miraculosa da ditadura, depois da qual iria iniciar um futuro utópico, segue viva, infelizmente.

Isso não quer dizer que governo e oposição sejam simétricos ou que na Venezuela existe uma polarização similar à de outros países: a polarização morreu com Chávez, e todas as oposições, inclusive a oposição de esquerda, estão sob perseguição da ditadura. A diferença de forças é extrema e não existem simetrias reais entre os bandos. Precisamente, essa sensação de impotência é uma das razões pela qual, para muitos, a política virou uma questão de fé religiosa, fé na ação de poderes superiores. Assim, se no passado, para Chávez, os Estados Unidos eram a principal figura de uma demonologia soberanista, que usava a retórica do velho anti-imperialismo como decoração, os Estados Unidos são, para Maria Corina, uma força crística, messiânica e salvadora.

Diante disso, muitas pessoas – talvez a maioria – estão com uma atitude mais sóbria e estóica, fazendo memes, zombando de tudo etc. No Caribe, estamos na temporada de furacões e é provável que o povo esteja mais preocupado com os apagões e com o preço da comida e das medicinas do que com a salvação ou a destruição às quais podem nos levar os Estados Unidos. E embora Maria Corina tenha sido muito popular durante a campanha eleitoral, agora só o público de extrema-direita leva a sério sua pregação sobre o fim dos tempos.

Nesse sentido, talvez o correto é entender que está acontecendo uma mudança real, mas calibrar as expectativas, mesmo porque, inclusive se o Maduro cai – o que não é garantido –, sua queda não significaria necessariamente o final do regime e o final do regime não significaria necessariamente democratização.

Eu recomendo, para nossos amigos da América Latina – para mim Brasil é parte dela, embora muitos brasileiros não concordem com isso – e do mundo, a mesma circunspecção que têm os venezuelanos que esperam que a luz volte. E, aliás, é preciso evitar deduzir o futuro do passado (vai acontecer o que aconteceu em Panamá ou Iraque) ou cair em dicotomias (imperialismo contra anti-imperialismo ou democracia contra autoritarismo), vícios que não prestam nem nesse nem em nenhum outro contexto.

Os seguintes apontamentos, muito breves, tentam resumir não só as minhas impressões, mas também o próprio debate venezuelano. Eles são bem acompanhados pelos respectivos links, em inglês e espanhol, que o leitor curioso fará bem em seguir quando achar preciso.

Vaya.  

1. Melhor não achar que a queda do Maduro é um fato, ou que é um fato que vai acontecer uma invasão. Fazê-lo implica confundir não somente o possível com o provável, como também a ficção com a realidade: como qualquer outra demonstração de poder no reino animal, essa tem um importante contingente teatral, e o “trumpismo”, como toda a direita, tem uma grande dependência das hipérboles e da retórica triunfalista. Então, a questão é separar a hipérbole e a demagogia militar das intenções reais.  

2. Também é importante lembrar que Trump ameaça, intimida e tenta submeter a todo o mundo, inclusive seus “aliados”, e esse é apenas outro desdobramento de sua semiótica da intimidação. A humilhação quase ritual da Venezuela e dos venezuelanos virou um componente importante dessa semiótica. Aliás, a ameaça é também contra todos os países da região e provavelmente só essa demonstração de força justifica, desde o ponto de vista dele, a mobilização da frota.

3. Uma razão para ser cético é que além da facção anticomunista de Marco Rubio existe outra facção, representada pelo Richard Grenell e pelo  Harry Sergeant, que é favorável à cooperação com o Madurato. Trump está balançando entre as duas tendências.

4. A ideia de que o governo venezuelano vai liderar uma luta anti-imperialista, ou seja, que, no meio de uma intervenção, a causa do Maduro viraria a causa venezuelana ou grancolombiana ou latinoamericana, pode rolar com alguns estrangeiros, e com a esquerda internacional, mas definitivamente não vai rolar com os venezuelanos, pois todo mundo odeia Maduro. O que poderia acontecer é que o ódio pelo Trump – que, fora dos ambientes de direita não é muito apreciado – seja maior que o ódio ao Maduro, mas Maduro não vai virar um desses tiranos “legitimados” pela intervenção imperialista, como no passado foi o Cipriano Castro ou Haile Selassie.

5. Como não é garantido que aconteça uma intervenção, também não é garantida a queda do Maduro. Ele é um sobrevivente e o entusiasmo dos que, fora da Venezuela, acham que seu regime vai acabar em poucos dias, ecoa às dos venezuelanos otários que estão há vinte anos acreditando que o chavismo vai acabar em breve.

6. Também não é seguro que o fim do Madurato implique uma democratização. Como estão as coisas, qualquer governo pós-Maduro vai ser autoritário: o Partido Voluntad Popular é parte da ditadura de El Salvador, e Maria Corina Machado – admiradora de Bukele, Trump, Milei e Netanyahu – já é claramente autoritária, mas não só isso: às vezes demonstra um nível de delírio parecido ao de ditadores que levam anos no poder. Sendo as alternativas atuais políticos messiânicos ou corruptos e, em geral, incompetentes, o “melhor” que a gente poderia ter após Maduro seria algo parecido com o “Boulartismo” Peruano.

7. O Cartel de los Soles é realmente como os personagens fictícios baseados em pessoas reais. A versão de Pablo Escobar do Wagner Moura, com seu péssimo sotaque antioqueño, não é real, mas o Pablo Escobar era bem real. O complexo clientelar-criminal-militar venezuelano é, sim, uma peça importante no tráfico da cocaína, que, junto ao tráfico do ouro ilegal, são rendas importantes para o regime. Mas o Cartel de los Soles é simplesmente um personagem numa narrativa.

8. Na realidade, a evolução lógica das ações de Trump seria um bloqueio naval que poderia levar o país ao caos, mas a frota deslocada para o Caribe não é suficiente para esse fim. E para que o Maduro fosse derrubado e se realizasse a fantasia infantil de sua detenção – como em um episódio de Law and Order: Caribbean –, seria preciso o desembarque de tropas e a disposição a assumir riscos e fazer investimentos muito sérios, que não temos razões para pensar que o Trump quer fazer. Só a extrema-direita e alguns setores politicamente muito ingênuos acreditam que Trump tem essa intenção.

9. Porém, além da fantasia da intervenção tipo Panamá/Granada (e a possibilidade de ataques pontuais com drones e mísseis), a realidade é que a interrupção dos tráficos e a pressão militar podem ter inúmeros efeitos caóticos na política e economia venezuelanas, e muitas coisas podem acontecer: nesse sentido, navegamos em águas desconhecidas. Boa parte das receitas da Venezuela vem dos tráficos de ouro, de cocaína e do contrabando de petróleo e, se eles são interrompidos, a situação ficará muito difícil para a ditadura, como também para o venezuelano comum.

10. Neste ponto, o mais provável é que, se o Maduro sai, o Complexo Clientelar-Criminal-Militar continue no poder, e mesmo que os gringos e os políticos de oposição acabem coexistindo ou negociando com ele. Claro, poderia acontecer um “efeito malvinas” que os deixe muito vulneráveis, mas essa é só uma especulação. Se aceitarmos que é improvável que Trump tenha a intenção de fazer o que melhores governos que o seu tentaram e não conseguiram no Iraque e no Afeganistão, então, não há razão para pensar que as forças armadas e seu complexo empresarial e criminal vão sumir ou ser depuradas.

11. Mas se, após algum ataque americano, as forças armadas ficassem num estado de vulnerabilidade parecido àquele das argentinas depois das Malvinas, os venezuelanos, mais do que celebrar, teriam que atuar rápida e inteligentemente antes que os verdes se recuperassem do choque e que os políticos tomassem o controle da situação.Se unimos os pontos e pensamos qual pode ser a relação entre as forças armadas com caráter de facção criminosa e os políticos fisiológicos e as lideranças messiânicas, não será difícil ver os vários cenários, nada bons, que poderiam acontecer numa Venezuela  pós-Maduro.

12. Talvez mais do que esperar ou se esperançar com a queda do Maduro, nós, venezuelanos, teríamos que tratar de nos preparar e organizar (além da oposição dos velhos políticos) para qualquer situação: seja a continuidade da ditadura, uma crise do bloco dominante ou um novo autoritarismo. Os germes de uma nova oposição estão ali, nos sindicatos, nas organizações de direitos humanos, nas redes de solidariedade, mas poder fazê-lo, em meio à repressão, às necessidades cotidianas e à sabotagem dos políticos da oposição tradicional é também improvável. Todavia, se eu tivesse que apostar por uma improbabilidade, acreditar em alguma coisa impossível, seria nessa causa, e não em ser resgatado da ditadura não apenas pelos marines como por outro ditador. Pelo menos acreditando nessa improbabilidade, nessa outra ficção, não seríamos testemunhas passivas de nossa própria história como somos agora.

Jeudiel Martinez é sociólogo e escritor colombo-venezuelano, refugiado no Brasil. Foi professor convidado da Universidade Central de Venezuela e coordenador do projeto Biblioteca Ayacucho Ilustrada, adaptando a literatura clássica latino-americana aos quadrinhos. É autor do livro A rebelião obediente: sobre o colapso da Venezuela.

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