Após a série sobre o papado de Francisco, publicamos hoje, no primeiro final de semana após o Conclave, um novo ensaio de Carlos Eduardo Sell, autor de Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes, 2025), sobre a eleição de Leão XIV e as significações dos primeiros gestos e palavras do papa. Trata-se de uma brilhante análise simbólico-dramatúrgica feita no calor dos acontecimentos.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!
André Magnelli,
Fios do Tempo, 11 de maio de 2025
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Uma sociologia dramatúrgica da epifania papal:
o que ela pode nos revelar de Leão XIV?
Carlos Eduardo Sell
(Professor da UFSC e autor do livro Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes)
A eleição de um novo papa inaugura não apenas uma etapa institucional no governo da Igreja, mas também um novo ciclo de interpretações, expectativas e disputas simbólicas. Cada gesto inaugural, cada escolha simbólica ou discursiva é minuciosamente observado, analisado e disputado – por fiéis, jornalistas, analistas e teólogos – num processo que, na era da informação, adquire contornos de espetáculo global.1
Longe de pretender oferecer respostas conclusivas baseadas no imediatismo dos acontecimentos recentes, este ensaio propõe uma abordagem analítica que privilegia a gramática simbólica dos rituais de transição pontifícia. Inspirando-se na perspectiva dramatúrgica de Erving Goffman2, compreende-se o pontificado como um processo de encenação pública, no qual a identidade do novo papa não é simplesmente revelada, mas performativamente constituída. A lógica teatral sugerida por Goffman permite explorar a complexa coreografia de gestos, silêncios e escolhas que marcam o início de um novo governo papal.
Neste contexto, três cenas rituais estruturam a análise: (a) o conclave, enquanto espaço de clausura e discernimento coletivo; (b) a escolha do nome pontifício, como primeiro ato de autointerpretação simbólica do eleito; e, por fim, (c) a aparição no balcão central da Basílica de São Pedro – a chamada epifania papal –, momento em que o novo pontífice se apresenta ao mundo, condensando em sua figura a continuidade da tradição e a abertura a uma nova etapa. Esta última cena, em particular, será examinada a partir de uma dupla chave interpretativa: (c1) como performance simbólica, isto é, como ritual de visibilidade carregado de signos teológicos; e (c2) como ato de comunicação institucional, no qual se inaugura um regime de linguagem e uma estratégia discursiva que marcarão o estilo e as prioridades do novo papado.
O objetivo desta investigação, portanto, é esboçar uma espécie de sociologia do instantâneo em chave dramatúrgica. Mesmo que ciente de ser um exercício hermenêutico de caráter ainda impressionista, ele se esforça por decifrar os signos inaugurais de um papado ainda em formação. Tal esforço se assemelha, por analogia, à observação astrofísica do nascimento de uma galáxia: uma tentativa de captar, a partir dos primeiros sinais luminosos, a estrutura de um universo simbólico em expansão. Sabemos, no entanto, que os vetores que orientarão o desenvolvimento futuro desse pontificado – seus equilíbrios internos, suas tensões constitutivas, seus potenciais de reforma ou conservação – ainda permanecem em estado germinal. Por isso mesmo, a análise aqui proposta não busca antecipar prognósticos definitivos, mas apenas oferecer instrumentos interpretativos provisórios e iniciais para uma escuta crítica e atenta ao que ainda está por vir.
Ato 1 – O conclave como mecanismo de seleção de lideranças
A eleição de Leão XIV, realizada em um conclave notavelmente breve, sugere que seu nome já circulava com força entre os cardeais antes mesmo do início das votações formais. Esse dado aponta para uma preparação prévia e uma teia de consensos cuidadosamente construída pelos “pope makers” nos bastidores das 12 Congregações que ocorreram antes do Conclave. No entanto, mais do que reconstruir tramas ocultas3, o interesse deste ensaio é compreender o conclave como um mecanismo sociopolítico específico – dotado de lógicas próprias que articulam o espiritual, o institucional e o simbólico.
Nesse sentido, o conclave pode ser visto como um sofisticado mecanismo de seleção de liderança. Sua estrutura se assenta sobre três pilares fundamentais: (a) o isolamento deliberado de interferências externas; (b) uma lógica interna de construção de consenso; e (c) sua função como rito de passagem e transformação simbólica.
(a) Historicamente, os conclaves foram concebidos para proteger a eleição papal das pressões exercidas por monarcas, impérios e facções civis. A clausura dos cardeais não constitui apenas um recolhimento espiritual, mas também um dispositivo de despolitização externa – ou melhor, de contenção das ingerências do poder temporal. Mesmo sem os vetos imperiais de outrora, permanece ativo o princípio da non ingerência, que resguarda o conclave como espaço autônomo de decisão religiosa, ainda que jamais neutro.
(b) Do ponto de vista processual, o conclave guarda algo da dinâmica política consensual, conforme definido por Arend Lijphart.4 Em vez de favorecer confrontos majoritários, o processo eleitoral tende à construção de candidaturas que agreguem convergências amplas e despertem o mínimo de resistência. Por isso, nomes ligados a correntes muito visíveis ou polarizadoras frequentemente são descartados, enquanto figuras percebidas como moderadas ou integradoras – como Prevost – ganham terreno. A lógica subjacente não é a da hegemonia, mas a do equilíbrio institucional e da continuidade estratégica.
(c) Finalmente, o conclave desempenha uma função ritual de transição, que reconfigura identidades e legitima simbolicamente a nova liderança. O eleito deixa de ser um cardeal entre pares e passa a encarnar, performativamente, o princípio da unidade e da sucessão apostólica. Nessa passagem, consagra-se não apenas uma pessoa, mas uma função: o novo pontífice emerge como sinal visível de um projeto eclesial – ainda indefinido, mas já carregado de expectativas.
Ao conjugar essas três dimensões – clausura, consenso e rito –, o conclave revela-se como um dispositivo sofisticado de reprodução institucional. Trata-se, pois, de um momento de alta densidade simbólica, no qual o poder e a fé, a tradição e a estratégia se entrelaçam na definição de um futuro ainda em aberto.
Ato 2 – O anúncio do nome Leão XIV
A escolha do nome pontifício possui uma dupla função social: (a) identitária e (b) expressiva. Vejamos cada uma delas separadamente.
(a) No plano identitário, o novo nome não é um mero artifício simbólico, mas um gesto ritual de descontinuidade ontológica. Ao adotá-lo, o eleito deixa de ser uma figura pessoal e histórica – Robert Francis Prevost – para tornar-se uma figura institucional e representacional – Leão XIV. Esse processo de reidentificação não se limita a uma metamorfose individual, mas representa a assunção pública de uma função que transcende a biografia pessoal e o insere na continuidade simbólica do papado.
Esse gesto remete à lógica dos ritos de passagem, conforme delineada por Arnold van Gennep5: a mudança de nome opera como marcador visível de uma transição ontológica. É o momento em que o indivíduo se eclipsa para que emerja a função; a subjetividade privada cede lugar a uma identidade vicária, canônica e transindividual. O nome pontifício, nesse contexto, age como um dispositivo performativo de autoridade: não apenas designa, mas consagra. Ele condensa sentido, inscreve o pontífice em uma genealogia histórica e lhe confere uma identidade que é, simultaneamente, pessoal e institucional – a do Sucessor de Pedro.
(b) Na dimensão expressiva, a escolha do nome não é neutra: ela constitui uma declaração de intenções, um esboço simbólico do que poderá ser o tom de um pontificado. Em outras palavras, o nome pontifício funciona como um programa condensado – um gesto inaugural que articula a direção do papado.
No caso de Leão XIV, a evocação do nome aponta para uma intenção clara: reatualizar uma herança histórica significativa, ao mesmo tempo em que se distancia de polarizações e expectativas imediatistas. Vejamos por quê.
O lado moderno: a herança de Leão XIII
A referência mais evidente é ao Papa Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum (1891), marco fundacional da Doutrina Social da Igreja. Ao escolher esse nome, o novo pontífice parece sinalizar sua disposição de enfrentar, com sensibilidade teológica e prudência política, os desafios sociais do presente. Leão XIII foi um papa que buscou abrir a Igreja ao mundo moderno, sem capitular ao individualismo liberal nem ao materialismo socialista (terceira via).
Leão XIV, ao retomar essa figura, parece anunciar uma atenção renovada à questão social em sua complexidade contemporânea: não apenas às desigualdades econômicas, mas também aos dilemas técnicos (inteligência artificial), ecológicos e geopolíticos que atravessam a sociedade globalizada. Sua escolha sugere uma continuidade crítica com essa tradição de diálogo – um diálogo que busca abrir-se ao mundo, mas sem dissolver-se nele.
É ainda significativo lembrar que Leão XIII foi o primeiro papa a buscar uma superação da rejeição sistemática à modernidade, característica do longo e conflitivo pontificado de Pio IX. Enquanto Pio IX se notabilizou pelo Syllabus Errorum e por uma postura de resistência antimoderna, Leão XIII representa uma inflexão: a tentativa de pensar a modernidade como espaço de discernimento e interlocução, sem submissão, mas também sem condenação absoluta. Nessa chave, Leão XIV parece querer inscrever-se em uma linhagem reformista que se abre às urgências do presente.
O lado tradicional: equilíbrio e despolarização
Simultaneamente, a escolha de Leão XIV revela uma recusa deliberada dos nomes que poderiam carregar significados demasiadamente vinculados às disputas e tensões recentes da Igreja. Ele não se apresenta como João XXIV – o que poderia reforçar a expectativa de continuidade conciliar desejada por Francisco –, nem como Francisco II, nome que explicitamente sinalizaria adesão direta à agenda reformista de seu predecessor (ou, inversamente, seria lido como provocação por seus opositores). Tampouco escolheu Paulo VII, nome que evocaria o papa do Vaticano II e das reformas litúrgicas, mas também das fraturas pós-conciliares.
Trata-se, em suma, de um gesto de prudência estratégica e de densidade simbólica: Leão XIV opta por ancorar sua identidade pontifícia em uma linhagem que conjuga tradição e abertura, autoridade e escuta, passado e futuro. O nome que escolheu não apenas diz algo sobre o papa; ele começa a dizer algo sobre o pontificado.
Ato 3: A aparição no balcão da Basílica de São Pedro.
Tratemos agora do momento fundamental da epifanial papal, sua aparição na loggia da Basílica de São Pedro, pois ele constitui um fenômeno profundamente simbólico, no qual se entrelaçam elementos litúrgicos, políticos e comunicacionais. Pode-se compreender esse momento inaugural o centro da “epifania do carisma papal”: um rito público de reconhecimento que atualiza, diante das massas, o poder simbólico do sucessor de Pedro. Trata-se de uma performance de autoridade que, ao mesmo tempo em que consagra o novo pontífice, inicia sua narrativa de governo.
A comoção coletiva que se desencadeia nesse tipo de evento – multidões emocionadas, gestos coreografados, palavras medidas (Habemus Papam) – opera como uma forma de efervescência social (Émile Durkheim6), na qual se estabelece um vínculo emocional e imaginário entre o pontífice e o povo de Deus, legitimando carismaticamente sua figura (Max Weber7).
Essa apoteose papal articula-se em duas dimensões interdependentes. A primeira é imagética: diz respeito à estética da presença, ao estilo gestual, à escolha das vestes, à postura corporal – todos elementos que compõem a encenação visível da autoridade. A segunda dimensão é discursiva: envolve o conteúdo das primeiras palavras do pontífice, a seleção dos temas, o tom adotado, os silêncios. Ambas as dimensões não estão dissociadas; pelo contrário, como já alertava Marshall McLuhan8, o meio é a mensagem. A forma como o papa se apresenta já comunica – mesmo antes que diga qualquer coisa – a natureza e os contornos possíveis de seu pontificado.
3.1. A performance de Leão XIV ou a imagética papal
No caso de Leão XIV, a epifania foi cuidadosamente modulada em termos estéticos, litúrgicos e comunicacionais. Diferente do que se viu em 2013 com Francisco – cuja primeira aparição foi marcada por uma expressiva desinstitucionalização simbólica, ao surgir apenas com a batina branca e improvisar uma saudação fraterna –, Leão XIV fez questão de restaurar o tom solene da tradição. Utilizou integralmente as vestes papais, incluindo a mozzetta vermelha, os paramentos litúrgicos tradicionais e o crucifixo dourado – símbolos visuais que não apenas o investem de autoridade, mas reconstituem a continuidade visual do ofício petrino.
Ao escolher esse caminho mais cerimonial, o novo papa sinaliza uma inflexão estilística relevante. Sai o improviso, entra a cautela; sai a espontaneidade gestual, entra o comedimento formal. O discurso inaugural, cuidadosamente escrito e lido com voz contida, reforçou essa postura. Não houve frases de efeito nem rupturas retóricas. O tom era terno, não entusiástico; firme, mas não empolgado. Essa sobriedade discursiva parece refletir não apenas uma disposição pessoal, mas um modelo eclesial de governo: menos performativo, mais institucional; menos centrado na figura carismática, mais ancorado na função representativa.
Esse contraste com o estilo inaugural de Francisco é revelador. Onde seu antecessor optou por um gesto de despojamento simbólico – recusando inclusive a tradicional bênção urbi et orbi antes de pedir a oração do povo –, Leão XIV restaurou a simetria entre autoridade e representação. Sua epifania sugere uma concepção mais clássica do papado, na qual o papa é antes de tudo o guardião de uma herança, o fiador de uma continuidade doutrinal e ritual. Não se trata, aqui, de um retorno ao cerimonialismo por nostalgia ou por conservadorismo estético, mas de uma reafirmação da forma como se estrutura a autoridade visível – uma forma que, em tempos de dispersão simbólica, busca conferir estabilidade à função.
3.2. A mensagem de Leão XIV ou o programa papal.
As primeiras palavras de um papa recém-eleito são mais do que uma saudação protocolar. Elas funcionam como marcadores simbólicos que condensam uma orientação, um ethos e um horizonte de expectativas. No caso de Leão XIV, três palavras se destacam como eixos interpretativos de sua manifestação inicial: 1) Paz, 2) Francisco e 3) Santo Agostinho. Cada uma carrega densidade política, eclesial e teológica e sua articulação sugere um estilo de pontificado que pretende unir sensibilidade geopolítica, continuidade pastoral e profundidade espiritual. Analisemos cada uma delas em particular.
a) “Paz desarmada e Paz que desarma”
Em um cenário global marcado pelo recrudescimento de conflitos armados – como na Ucrânia, em Gaza, no Sahel e na Armênia –, a invocação da paz por Leão XIV assume, antes de tudo, uma dimensão diagnóstica. Mais do que um apelo moral, trata-se de um chamado urgente diante de uma crise civilizacional, caracterizada pelo colapso das mediações políticas, pelo enfraquecimento das instâncias multilaterais e pela degradação do tecido ético internacional.
Por isso, essa busca pela paz não se dirige exclusivamente a figuras como Donald Trump – cuja política anti-imigratória Leão XIV já havia criticado publicamente enquanto ainda era cardeal –, mas se projeta sobre um horizonte verdadeiramente global. O chamado papal à paz interpela atores-chave da ordem mundial, como a União Europeia, potências regionais como a Rússia, a própria Ucrânia, e protagonistas geopolíticos emergentes como a China e até mesmo o Brasil. O novo papa conclama à reconstrução de uma ordem internacional alicerçada em mecanismos multilaterais de estabilidade, diálogo e corresponsabilidade.
Fiel à tradição da diplomacia pontifícia, Leão XIV parece adotar uma política externa não alinhada, que transcende governos, ideologias e conjunturas específicas. Seu posicionamento expressa o desejo de reafirmar a Santa Sé como voz moral autônoma no cenário internacional – uma instância capaz de articular princípios evangélicos com discernimento geopolítico, promovendo uma paz integral, fundada na dignidade humana, na justiça global e na solidariedade entre os povos.
b) “Francisco”: continuidade simbólica, distanciamento estratégico
A menção explícita a Francisco – seu predecessor – é outro gesto carregado de sentido. Não se trata apenas de cortesia, mas de conexão simbólica com a herança que se encerra e da continuidade possível que se inicia. Ao nomeá-lo, Leão XIV acolhe o legado de uma “Igreja sinodal”, uma “Igreja missionária”, “sempre aberta para acolher a todos” e “de braços abertos para todos”9, três pilares de seu antecessor. Resta saber em que medida.
No entanto, ao não adotar o nome Francisco II, ele também estabelece um grau de separação simbólica, sinalizando que deseja traçar seu próprio caminho, sem negar os avanços anteriores, mas talvez reinterpretando-os sob outra gramática. Essa menção, portanto, equilibra deferência e autonomia: retoma conteúdos do pontificado de Francisco, mas não se submete inteiramente à sua moldura simbólica. É uma maneira de manter viva a inspiração de Francisco sem se prender à figura do papa argentino.
c) “Filho de Santo Agostinho”: espiritualidade e Cidade de Deus.
A terceira palavra-chave – Santo Agostinho – introduz uma nota de profundidade teológica e espiritual. Agostinho, teólogo do desejo e da graça, pensador da Cidade de Deus10 em meio à derrocada do Império Romano, é aqui invocado como referência à interioridade cristã em tempos de dispersão, insegurança e crise civilizacional. Sua presença simbólica sugere que Leão XIV pretende enfrentar os grandes desafios contemporâneos não apenas por meio da doutrina social da Igreja, mas também por meio de uma reforma da interioridade – uma “política da alma” na qual Cristo ocupa o centro e orienta toda a vida.
Agostinho é, por excelência, o pensador da Cidade de Deus, mas consciente de que ela caminha entrelaçada com a Cidade dos homens. Os destinos dessas duas ordens – a temporal e a eterna, representada pela Igreja – coexistem no tempo presente, embora não se confundam. Por isso, a Igreja não está alheia à Cidade dos Homens, nem pode se omitir diante de seus dramas: deve assumi-los com lucidez e compaixão. Ao mesmo tempo, a Cidade de Deus aponta para uma transcendência que não absolutiza a missão social da Igreja. Como um verdadeiro filho espiritual de Santo Agostinho, Leão XIV parece lembrar à Igreja que seu destino é caminharmos “juntos rumo à pátria que Deus nos preparou”.11 Ou seja, ainda que apenas no termo da história, o fato é que a Cidade de Deus se destacará plenamente da Cidade dos Homens, revelando sua origem e destino celestes.
Conclusão: o pontificado como processo em aberto
Leão XIV parece, à primeira vista, articular uma síntese entre a forma estético-litúrgica de Bento XVI e os conteúdos pastorais de Francisco. Porém, mais do que um ponto de equilíbrio entre dois estilos, ele talvez sinalize uma tentativa de avançar em direção a uma reforma com linguagem mais tradicional, ou a uma tradição com horizonte mais reformador. Trata-se, por ora, de uma convergência tensa, cujos contornos definitivos ainda estão por se delinear.
Como outrora João Paulo II – que apareceu na varanda central pedindo desculpas por seu italiano, mas logo se revelou uma força estabilizadora inesperada –, Leão XIV pode estar apenas nos primeiros gestos de uma trajetória que ainda se desdobrará. É possível que, após pagar sua “hipoteca simbólica” ao pontificado anterior, decida voltar a uma linha estabilizadora. O mais plausível parece ser que leve adiante o impulso dinamizador de Francisco, ainda que sob outra gramática, com novos fundamentos teológicos, litúrgicos e políticos e, principalmente, outro ritmo. E não está descartada a hipótese de que opte por manter-se na tênue linha do equilíbrio entre tendências, exercendo um papado de moderação tática e prudência simbólica.
O tempo, aliás um dos aspectos mais centrais do pensamento de Santo Agostinho, mais do que qualquer análise apressada e imediatista, será o verdadeiro intérprete do pontificado que se inicia.
Notas
1 DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
2 GOFFMAN, Erving. A Representação do Eu na Vida Cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2011.
3 A melhor análise dos bastidores que encontrei até agora é a seguinte: https://www.ihu.unisinos.br/651753-o-conclave-votos-de-todos-os-partidos-e-sim-dos-bergoglianos-moderados.
4 LIJPHART, Arend. Modelos de Democracia: formas de governo e desempenho em trinta e seis países. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
5 VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Petrópolis: Vozes, 2011.
6 DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
7 WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. 2 v.
8 MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. São Paulo: Cultrix, 1974.
9 As expressões foram empregas pelo próprio papa em seu discurso de 09 de maio e estão disponíveis em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-05/papa-leao-xiv-primeiras-palavras-basilica-sao-pedro-paz.html.
10 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Tradução de Raimundo Vier. São Paulo: Paulus, 1990.
11 Cf. https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-05/papa-leao-xiv-primeiras-palavras-basilica-sao-pedro-paz.html.

Carlos Eduardo Sell é doutor em Sociologia Política e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor de Max Weber e a racionalização da Vida (Vozes, 2013), Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber (Vozes, 2015) e Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes, 2025)
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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