Fios do Tempo. A fraqueza da dialética. Sob o olhar de Bergson e Deleuze, Hegel viu mal Spinoza – por Aldo Tavares

Publicar Aldo Tavares é sempre um processo interessante. Concordamos pouco nas filosofias: Aldo conjuga Platão, Nietzsche, Deleuze e visão estética de mundo numa obstinada (e criativa) “metafísica da representação e dos agenciamentos políticos”; ao contrário, possuo uma formação “germânica” (Kant, Hegel, teoria crítica), francesa (como um todo) e pragmatista, de caráter mais “classicista”, tendo meu coração batendo mais por Aristóteles do que por Platão.

Em nossa já longa amizade, discordamos muito, mas nos re-encontramos sempre.

Trazemos hoje, no Fios do Tempo, o artigo “A fraqueza da dialética. Sob o olhar de Bergson e Deleuze, Hegel viu mal Spinoza”. Partindo de Bergson, Aldo argumenta que a dialética de Hegel está fundada numa apreensão ambígua do conceito de substância de Spinoza. Com lances sobre a obra de Hegel e apoiado em Bergson e Deleuze, ele afirma que o conceito de movimento não admite a “dialética da contradição” e apela a uma lógica modal, que seja capaz de conceituar as oposições, identidades e diferenças, sem operar uma síntese.

Mesmo não sendo um “hegeliano”, confesso que tenho disposição em defender a velha filosofia diante dos agenciamentos de Deleuze e as microfísicas de Foucault, filósofos cujos caminhos são retrilhados de perto, com autonomia, por Aldo. Tenho discordâncias com relação aos “equívocos” e “dualismo” de Hegel; e considero também que há aqui saltos problemáticos da ontologia à história e à política. Se formos com vagar, percebemos que a dialética de Hegel efetua as determinações conceituais do “entre”, para falarmos como Aldo. De todo modo, estou de acordo a respeito das fraquezas da lógica dialética quando se trata de pensar o movimento e a diferença, em especial no âmbito “molecular”. Mas recordo, ainda assim, que Hegel é também o filósofo da intersubjetividade, fato que parece subsumido aqui ao ver nele uma conceituação estática de Absoluto.

O que intelectuais fazem quando discordam? Censuram-se mutuamente? Cancelam-se? Não, dialogam com franqueza. Expõem-se ao debate argumentado, pensam no dissenso.

Como não tenho tempo para escrever uma réplica que defenda Hegel a partir dele mesmo, travaremos ulteriormente, Aldo e eu, um diálogo fraterno em formato virtual em torno deste texto.

Que rufem os tambores do Espírito!

Desejo, como sempre, uma excelente leitura.

A. M.
Fios do Tempo, 10 de abril de 2024


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Sob o olhar de Bergson e de Deleuze,
a fraqueza da dialética hegeliana

Na primeira parte de O pensamento e o movente, Henri Bergson escreve que “o que mais tem faltado à filosofia é a precisão” (2006, p. 3), e essa imprecisão encontra-se quando Georg Wilhelm Friedrich Hegel, após ler, na carta 50 de Baruch Espinosa a Jarig Jelles, determinatio negatio est ou “determinação é negação”1, altera essa frase-oracional para omnis determinatio est negatio ou “toda determinação é negativa”, simplificando-a em função do propósito de voltar-se contra o Ser pensado por Espinosa2, e essa alteração se faz uma máxima central da lógica hegeliana.

Na tese de doutorado de José Eduardo Marques Baioni, Substancialidade e subjetividade: Hegel intérprete de Espinosa3, afirma-se nas primeiras linhas que Hegel exprimiu-se sobre a filosofia espinosana de maneira ambígua, vale dizer, leitura sem a devida precisão, o que deixa margem, portanto, para falhas, como estas duas observadas por Baioni: além de sinonimizar o último termo de Deus sive natura com Deus sive mundo, Hegel vincula Espinosa ao tema aparentemente estranho do orientalismo. No entanto, ainda que a ambiguidade seja evidente, isto é, ainda que a imprecisão erga-se, isso não impediu Hegel de refutar e de ultrapassar a posição filosófica de Espinosa, afinal, não seria difícil, já que, em Doutrina da essência da Lógica objetiva, Hegel diz que “(…). O espinosismo é uma filosofia deficiente (…)” (apud BAIONI, 2004, p. 17).

Outra tese que detalha a imprecisão hegeliana foi escrita por Mariana de Gainza, Espinosa: uma filosofia materialista do infinito positivo, a partir da qual podemos asseverar que Hegel, por causa de sua leitura contrária à filosofia de Espinosa, tece uma crítica “espinosista”, visto que foge à riqueza do pensamento “espinosano”.4 Considerada essa distinção, a leitura de Hegel é, pois, espinosista, e não espinosiana, já que esta corresponde à filosofia real de Espinosa, e Hegel lha desobedece. Mesmo assim, a tese de Gainza busca encontrar, ainda que divergentes, um “diálogo” entre Hegel e Espinosa ou entre a filosofia positiva deste e o pensamento negativo daquele, e ela inicia com a carta 50 a Jarig Jelles. Escreve Gainza:

Como bem sabemos, é Hegel quem canoniza uma frase espinosana extraída de uma carta a Jarig Jelles: “Determinatio negatio est”. E graças à generalização de uma asserção que se referia estritamente à concepção da figura como a determinação externa de um corpo, reconhece Espinosa como um dialético quase consumado por ter sabido compreender o princípio fundamental que preside a constituição de qualquer existência: toda determinação é uma negação. Espinosa soube ver, então, que a negação tem uma função constitutiva. Mas a negação tem também uma função crítica, dissolvente e produtiva no interior do sistema, pois contradiz a inicial posição do Deus espinosano como um ser substancial absolutamente positivo. Contra seus próprios postulados, a filosofia de Espinosa acaba admitindo alguma realidade ao não-ser, ao outro do ser, ao finito, ao negativo, e, com isso, concede um espaço para o esboço de um movimento que parecia definitivamente impedido pela definição abstrata da substância única
(2008, pp. 23-4).

A carta de Espinosa, portanto, não corresponde, segundo Gainza, ao que Hegel leu, deixando isso irrefutável nas páginas de sua tese de doutorado. Este artigo, por sua vez, mostrou cortes em duas teses que refutam a crítica de Hegel a Espinosa, refutação, aliás, importantíssima para que leiamos em um segundo momento, à luz deleuziana, a oposição e a diferença como conceitos que, superada a dialética da contradição, possibilitam compreender a natureza do poder molecular ou microfísico, na medida em que não existe oposiçãoentre ser e não-ser no lugar Menor. Nesse sentido, negada a dialética hegeliana por meio do ser, Gilles Deleuze imprime sua crítica precisa por meio de uma composição filosófica que envolve Duns Scotus, Espinosa, Nietzsche e Henri Bergson.

O não hegelianismo

Em Ciência da lógica: a doutrina do Ser, publicada em 1812, Hegel fundamenta sua crítica ao conceito de substância. Sociólogo e jurista russo, Georges Gurvitch escreveu páginas que o asseguram a fama de doublé de filósofo, por exemplo, em Dialectique et sociologie, em que a dialética não se consagra conforme Hegel a pensou, tecendo uma crítica que se assemelha à de Henri Bergson, qual seja, o conceito de movimento não admite síntese. Antes, em fins de setembro de 1844 até fevereiro de 1845, na segunda chegada de Karl Marx a Paris, este e Pierre-Joseph Proudhon discutiram também sobre o hegelianismo e, anos depois, Marx continuou a afirmar que Proudhon não entendeu a dialética hegeliana (MENEZES, 1966, pp. 23-4). Assim como Gurvitch e Bergson, Proudhon sustentou este pensamento, o da dialética sem síntese, defendendo, no lugar da dialética da contradição, a dialética serial, sempre aberta, baseada no matemático-físico Jean-Baptiste Joseph Fourier. A contradição é não superada.

No agenciamento-livro Lettre à Michel Cressole, Deleuze declara abominar, acima de tudo, o hegelianismo e a dialética, e tamanha repulsa justifica-se porque, para a geração de pensadores europeus que chegava à maturidade nos anos 1960, Hegel apresentava-se como o centro do antagonismo. Do russo Alexandre Kojève ao francês Jean-Paul Sartre, passando pelos italianos Antonio Gramsci e Norberto Bobbio, Hegel domina os horizontes da filosofia, da teoria social e da prática política. A filosofia deleuziana, porém, no tocante à dialética da contradição de Hegel, nega tais pensamentos. No caso de Sartre, seu rosto-palavra, que representa Maio de 1968 por encarnar o confronto e valores universais, perde força representativa pós-68 para Michel Foucault, pois a derrocada frontal do poder não está mais na ordem do dia. Em 1971, a criação por Foucault do Grupo de Informação sobre as Prisões (GIP), em que Deleuze se engaja, apresenta outra forma de combate político, cujo confronto não é direto por causa da natureza conceitual de microfísica do poder. Em virtude disso, identidade, diferença, por exemplo, conceitos pensados por Hegel, já tinham recebido outra consistência filosófica em Diferença e repetição, de 1968. Diferença e identidade hegelianas são refutadas.

O problema central dos conceitos hegelianos de oposição, de diferença e de identidade é o ser, e Deleuze problematiza a dialética de Hegel a partir desse princípio,o ser, compreendendo arkhé (άρχή) como não havendo fundamento anterior, nada antes que engendre, diga-se, o problema primeiro e central da dialética da contradição de Hegel é o ontológico, portanto, metafísico.

No que tange a isso, então, consideremos dois agenciamentos hegelianos: Lecciones sobre la historia de la filosofia III (1833, publicação póstuma) e Ciência da lógica: a doutrina do Ser (1812). Antes, porém, leiamos o que Espinosa compreende por substância, que é “aquilo que existe em si mesmo (…) cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado” (2013, p. 13), não podendo existir, portanto, várias substâncias, mas tão somente uma única substância (2013, p. 15). Assim, por não haver o fora ao ser, não há o não-ser. O ser, portanto, é absoluto, uno, indeterminado.Esse pensamento encontra-se na primeira parte de Ética, obra em que Espinosa entende como ontologia e tem como título “De Deus”.

1833

Em o agenciamento-livro Lecciones, Hegel pensa a filosofia de Espinosa de 299 a 332, e a página 303 (primeiro parágrafo) merece relevo porque está escrito que “a substância absoluta é a verdade, mas não é toda a verdade” (2016), ou seja, para ser “toda a verdade”, a substância precisa ser determinada: “algo é, frente a um outro, alterável e finito, não somente frente a um outro, mas determinado pura e simplesmente de modo negativo nele. Essa sua negação inicialmente em contraste com o algo finito é infinito; a oposição abstrata, na qual essas determinações aparecem, dissolve-se na infinitude sem oposição, no ser para si” (HEGEL, 2016 [1833], p. 113). Ou universal, ou una, ou abstrata, a substância pensada por Espinosa, segundo Hegel, dissolve-se na infinitude sem oposição, quer dizer, embora possa fundar todas as verdades, ela não funda como bases determinadas, e o determinado – essencial para Hegel – funda a negação e essa, a oposição ao ser.

Nesse agenciamento-livro de 1833, portanto, encontram-se na página 303 clareza e simplicidade da crítica de Hegel ao conceito de ser em Espinosa, ainda que tenha sido fundamentada em 1812, quando Hegel publica Ciência da lógica: a doutrina do Ser, cujas páginas, porque metafísicas, pensam o ser de Espinosa como, uma vez não determinado pela negação, permanece indiferente e abstrato; ser, portanto, que não é posto como diferente de seu oposto. Pensada por Espinosa, a indeterminação do ser impede o surgimento da negação de que se serve Hegel e, por conseguinte, inviabiliza os conceitos hegelianos de oposição, de diferença e de identidade.

1812

Em A doutrina do Ser, Michael Hardt observa que “a Lógica começa com o puro ser em sua simples imediatidade; mas este ser simples não tem qualquer qualidade, qualquer diferença – é vazio e equivalente ao seu oposto, o nada” (1996, p. 28) ou igual ao não-ser. Assim, porque o ser puro não se opõe ao objeto, posto que o ser puro é ele mesmo, faz do objeto algo interior, sabe-o como a si mesmo e, em razão desse saber imediato e simples, o objeto “abandonou o saber de si mesmo como de algo que está em oposição com aquilo que é objetivo” (HEGEL, 2016 [1812], p. 71), o que permite dizer que o ser puro é o que é sem diferença e, portanto, igual a si mesmo, não desigual frente a outro, mesmo porque não há diversidade dentro de si nem para fora, o ser puro é a indeterminidade e o vazio puros (HEGEL, 2016 [1812], p. 85). Em virtude disso, o ser é o mesmo que o não-ser, o que permite pressupor a negação externa. A filosofia de Espinosa, porém, em razão do ser puro, do ser indeterminado, é não dualista, não havendo, pois, frente a um outro.

Ler Espinosa, contudo, implica para Hegel perseguir a determinação do Ser, pois, uma vez determinado, fixam-se os termos; define-se a natureza, havendo, nesse sentido, negação externa e, por conseguinte, oposição; porém, em razão do início puro, não é possível, segundo Hegel, negação interna a partir do próprio ser. Se não é o nada ou se ainda não é o não-ser, o não-ser deve tornar-se algo. O início não é o nada puro ou não é o não-ser puro, mas um não-ser do qual algo deve sair; o ser, portanto, também já está contido no início. Para Hegel, o início contém ambos, ser e nada ou ser e não-ser, ou seja, é não-ser que, ao mesmo tempo, é ser e ser que, ao mesmo tempo, é não-ser. Apenas do início não puro, algo deve sair e, uma vez saído, “ser e não-ser estão, no início, presentes como diferentes, pois o início aponta para algo outro; – (…)”(HEGEL, 2016 [1812], p. 76). O que inicia, dado que a filosofia hegeliana concebe dualismo, ainda não é; o que inicia apenas avança para o ser. “O início contém, portanto, o ser como tal que se afasta do não ser ou o suprassume como algo contraposto a ele” (HEGEL, 2016 [1812], p. 76), ou seja, o que inicia já é; mas, da mesma maneira, também ainda não-é, o que nega, portanto, o Ser de Espinosa.

1956

Pensar a dialética é pensar o conceito de movimento, e a dialética hegeliana pensa o movimento como unidade dualista a fim de haver, pelo próprio movimento, a superação do dualismo por meio da síntese. No agenciamento-livro Bergsonismo,de 1966, há dois artigos que Deleuze publicou em 1956 e, no intitulado Bergson,o filósofo francês afirma que “um grande filósofo é aquele que cria novos conceitos: esses conceitos ultrapassam as dualidades do pensamento ordinário e, ao mesmo tempo, dão às coisas uma verdade nova, uma distribuição nova, um recorte extraordinário” (p. 103). Hegel não ultrapassou o dualismo.

Antes de continuarmos com o Bergson deleuziano, retornemos a Espinosa, a uma das páginas de Ética, a 33, onde lemos que o Ser absoluto é causa eficiente, conceito, aliás, “não lido” por Hegel, mas muito bem lido por Deleuze, que o vê como aquele que concebe a negação interna ao Ser absoluto e, com efeito, nega a oposição entre ser e não-ser, entre tese e antítese. Leitor do teólogo-filósofo escocês John Duns Scotus, o Doutor Sutil, Deleuze sabe que o Ser é necessário e, para que seja, a causa ontológica fundamental não pode ser externa ao Ser, o que é óbvio, devendo ser, portanto, tão somente interna ao seu efeito. A causa eficiente é a causa interna, quer dizer, é a que sustenta o Ser como substância espinosana: se uma coisa não pode ser a causa necessária de algo fora de si mesma, o Ser, portanto, é causa sui.

Ao ter lido Duns Scotus, Deleuze mostra que não se afasta da metafísica, mas reafirma seus pontos mais elevados, por exemplo, o do ser; não se pode afirmar, porém, que Deleuze buscou argumentação nos escolásticos para interpretar Bergson, visto que podemos atribuir ressonâncias escolásticas a este. A questão, então, é que, em razão da causa eficiente – causa que não destrói a qualidade substancial e necessária do ser –, o conceito hegeliano de diferença não se sustenta; pois, ao receber nova consistência filosófica, a diferençaéinterna,o queimplica dizer que, não havendo negação externa, não há oposição entre ser e não-ser.

Para sabermos que a diferença vital é diferença interna, Bergson escreve Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, de 1889, onde o conceito de movimento puro, porque nega a oposição, porque nega a diferença externa, impossibilita a síntese. A causa eficiente torna-se vastíssima no momento em que Bergson cria o conceito de duração, conceito de que parte Deleuze para pensar ainda mais diferença. Antes, uma observação: por ser um filósofo da diferença, Platão já tinha pensado esse conceito, e Bergson sabia. “A grande semelhança entre Platão e Bergson é que ambos fizeram uma filosofia da diferença em que esta é pensada como tal e não se reduz à contradição, não vai até a contradição” (DELEUZE, 2012 [1966], p. 133).

Diferença

Conceito pensado pelo Bergson deleuziano, a diferença, porquanto não mais emerge da oposição entre identidades distintas, pertence à compreensão de um combate político que, por ser acontecimento conceito que atravessa as páginas deleuzianas de Lógica do sentido movimenta-se no lugar Menor, lugar em que não pulsa oposição por causa da natureza da representação do mesmo, pensada por Erving Goffman em A representação do eu na vida cotidiana. Em razão disso, porque não há oposição entre ser e não-ser no lugar Menor, a diferença hegeliana não responde à natureza do poder que circula nesse lugar, qual seja, não responde à natureza do neutro. Em Hegel, a coisa difere de si mesma porque difere primeiro de tudo aquilo que não-é; mas, no lugar Menor, a coisa difere apenas dela mesma, não havendo, portanto, o outro, o estranho, a oposição.

Nesse aspecto, o da diferença, o conceito bergsoniano de duração afirma a dialética hegeliana como falso movimento, o qual, por sua vez, falseia a própria diferença, que é a razão da nuança. Entre tese e antítese de Hegel, não há graduações, graus; e, nesse sentido, não havendo a potência do entre na diferença hegeliana, o conceito de duração é diferença que se diferencia de si mesma. Escreve Deleuze na página 146 de Bergsonismo:

Quando a diferença de natureza entre duas coisas torna-se uma das coisas, a outra é somente o último grau desta. É assim que, em pessoa, a diferença de natureza é exatamente a coexistência virtual de dois graus de extremos. Como eles são extremos, a dupla corrente que vai de um a outro forma graus intermediários.

Notas

1 “No que concerne ao problema da figura, digo que não é algo positivo, mas uma negação. É manifesto que a matéria em sua integridade não pode ter figura e deve ser considerada indefinida, a figura só existindo nos corpos finitos ou determinados. Com efeito, quem diz que percebe uma figura indica somente que concebe uma coisa determinada e de que maneira ela o é. Esta determinação, portanto, não pertence ao ser da coisa, mas indica o seu não ser. Portanto, a figura é apenas a determinação e a determinação é negação [et determinatio negatio est] e, assim, ela não pode ser algo, mas só uma negação”: Espinosa, Correspondência (trad. Marilena Chaui), em Os pensadores, ed.cit., p. 398-399.

2 Para uma análise extensiva dos equívocos de Hegel na leitura do “negativismo” de Espinosa, ler Pierre
Macherey. Hegel ou Spinoza.

3 Tese citada em A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa, de Marilena Chauí, editora. Companhia das Letras, p. 613, rodapé 61.

4 Ibid., p. 613, rodapé 61.

Referências

BAIONI, José Eduardo Marques. Substancialidade e subjetividade: Hegel intérprete de Espinosa. 2004. 202 f. Tese (Doutorado em Filosofia), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.

BERGSON, Henri. O pensamento e o movente. Tradução de Bento Prado Neto. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

BERGSON, Henri. Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Tradução de Maria Adriana Camargo Cappello. São Paulo: Edipro, 2020.

CHAUÍ, Marilena. A nervura do real II: imanência e liberdade em Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 2012.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Tradução de Luiz Orlandi e de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1988.

DELEUZE, Gilles.Lettre à Michel Cressole. In: Michel Cressole, Deleuze. Editions Universitaires, Paris, 1973.

DOSSE, François. A saga dos intelectuais franceses 1944-1989: o futuro em migalhas (1968-1989), vol. 2. Tradução de Leila de Aguiar Costa. São Paulo: Estação Liberdade, 2023.

GAINZA, Mariana. Espinosa: uma filosofia materialista do infinito positivo. 2008. 231 f. Tese (Doutorado em Filosofia), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

GURVITCH, Georges. Dialectique et sociologie. Paris: Éditions Flamarion, 1962.

HARDT, Michael. Gilles Deleuze: um aprendizado em filosofia. Tradução de Sueli Cavendish. São Paulo: Editora 34, 1996.

HEGEL, Georg W. Friedrich. Ciência da lógica: 1. A doutrina do Ser. Tradução de Christian G. Iber, de Marloren L. Miranda e de Federico Orsini. Petrópolis, RJ: Editora Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2016. Coleção Pensamento Humano.

HEGEL, Georg W. Friedrich. Lecciones sobre la historia de la filosofia III.

MENEZES, Djacir. Proudhon, Hegel e a dialética. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1966.

SCOTUS, John Duns. Escritos filosóficos. Coleção Os pensadores, vol. 8. Tradução de Carlos Arthur Nascimento e de Raimundo Vier. São Paulo: Editora Abril, 1973. (Os Pensadores).

SPINOZA. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horozonte, MG: Autêntica Editora, 2013.

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