Pontos de Leitura/Fios do Tempo. A política no Brasil como vertigem: práticas discursivas, antagonismos e cisão (Resenha de “Eles em nós”, de Idelber Avelar – por Marcos Lacerda

Trazemos hoje, no Ateliê de Humanidades, a resenha de Marcos Lacerda sobre o livro “Ele em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI“, de Idelber Avelar. Esse texto é publicado como preparativo para o terceiro encontro do Ciclo “Nenhum Brasil existe” (quinta-feira, 14/12, às 19h), que consiste numa conversa com o autor em torno do livro.

Nesta resenha, Marcos Lacerda expõe a inteligente interpretação de Idelber Avelar acerca das estratégias retóricas e das práticas políticas na sociedade brasileira contemporânea. Através das ferramentas da análise de discurso e da arte retórica, o livro acompanha o processo de gestão (e de explosão) dos antagonismos políticos, permitindo esclarecer o processo histórico recente, desde os governos lulistas, passando pelas Jornadas de 2013 e a Lava Jato, até o governo Bolsonaro.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.

André Magnelli
Pontos de Leitura/Fios do Tempo, 13 de dezembro de 2023 



A política no Brasil como vertigem:
práticas discursivas, antagonismos e cisão

Resenha de:
Idelber Avelar. Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI
Record, 2021.

Um dos acontecimentos históricos, e também discursivos, mais importantes do Brasil na última década é a ascensão da nova direita. Uma movimentação política, social e fortemente ligada às redes digitais, além de bastante difusa e heterogênea, mas que teve na eleição do ex-presidente Bolsonaro a sua consolidação como fenômeno social consistente e vigoroso. Ou, em linguagem mais coloquial, trata-se de algo “que veio para ficar”. 

Todos, inevitavelmente, nos perguntávamos a respeito do significado do fenômeno e, mesmo após a perda da reeleição por parte do ex-presidente, com o retorno de Lula à presidência da república, muita tinta continua a ser gasta em torno do tema, e também muito do espanto se mantém. 

O livro Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI (Record, 2021), de Idelber Avelar, é uma das mais bem-sucedidas tentativas de compreensão do fenômeno, abrangendo também o período histórico da redemocratização, especialmente através dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores, o primeiro e segundo mandato de Lula, o primeiro mandato e o segundo, interrompido, de Dilma Rousseff. 

Além disso, o autor inclui no bolo acontecimentos históricos não menos importantes como Junho de 2013, a operação Lava Jato, as manifestações massivas de 2015-2016 e, claro, a ascensão da nova direita com a eleição do ex-presidente, hoje inelegível, em 2018. 

A sua abordagem é bastante original, especialmente por colocar no centro a análise de discursos ou, poderíamos dizer, as práticas discursivas que permearam todos esses processos, mostrando uma série de linhas de continuidades, muitas vezes insuspeitas, entre, por exemplo, os projetos desenvolvimentistas dos governos lulistas e determinados projetos dos governos militares. São conhecidos por todos, e estrategicamente esquecidos, os diversos elogios que o atual presidente fez à gestão dos governantes militares, entre eles Médici e Geisel. 

Aqui o discurso da hipérbole tem papel fundamental, tanto pelo exagero que se associa a esta figura de linguagem, quanto por criar uma série de horizontes de expectativas que vão sempre sendo deixados para depois, com uma realização que nunca acontece propriamente e que sempre permite algum tipo de ajuste. Foi assim com as políticas que tentavam justificar grandes construções e obras duvidosas, com efeitos catastróficos para determinados grupos sociais, como nos casos da Usina de Belo Monte, por exemplo, obra inicialmente desenhada pelos governos militares.

Mas se a hipérbole tem um papel fundamental para mostrar linhas de continuidade insuspeitas, existe uma outra figura de linguagem não menos importante, cuja presença terá significado especial no período de hegemonia lulista: o oximoro. O oximoro remete a um tipo de discurso que afirma, simultaneamente, polos opostos e neutraliza o que pode haver de antagonismos entre eles. A neutralização de antagonismos é uma das principais funções, vamos dizer assim, do discurso baseado no oximoro, e foi usada com frequência no período de hegemonia do lulismo.

E aqui temos um segundo aspecto, que confere o tom de originalidade do livro: a questão da gestão, ou seria melhor dizer, as modulações do sistema de antagonismos na sociedade brasileira. 

O livro faz, assim, uma análise discursiva tendo como base a problemática dos antagonismos. Aproxima práticas discursivas e sistema de antagonismos, vinculando a eles uma série de acontecimentos históricos e políticos importantes.

O autor faz um estudo acerca da relação entre sistemas de antagonismos e análise de discurso na política brasileira, tendo como foco principal o período que vai da redemocratização, abrange os períodos FHC, se consolida com a hegemonia lulista e, posteriormente, se espatifa, vamos dizer assim, com Junho de 2013, Lava Jato e a ascensão da nova direita.

Introdução

No ano de 2021 estávamos diante da confirmação da pandemia do Coronavírus. O mundo todo vivia uma situação de espanto diante do número enorme de contágios e mortes, que vinha inclusive desestabilizar os sistemas de saúde dos países e continentes, além das inúmeras consequências sociais, econômicas e psíquicas. O Brasil se integrava à onda da nova direita, que tinha nos EUA a sua maior expressão, mas que se espraiava por muitos outros países do mundo. No período do Coronavírus, a relação entre antagonismo, especialmente entre o populismo da nova direita, a imprensa e a comunidade científica, se intensificou e ganhou ares trágicos. Nunca foi tão importante ficar atento às práticas discursivas dos governantes. O que dizia determinada liderança política performava desde já práticas, interações, decisões governamentais, percepções sobre a realidade e assim por diante. Além de reativar antagonismos, na maior parte das vezes, de caráter inconciliável. 

Foi neste período que saiu um livro como Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI, de Idelber Avelar. Um livro atento à relação entre antagonismos e práticas discursivas, concentrado na política brasileira recente. 

Existem dois temas centrais para a estrutura argumentativa do livro. De um lado, o problema da relação e gestão dos antagonismos. Uma análise voltada para o sistema de antagonismo que permeia a sociedade brasileira. Embora estendendo a reflexão, ao menos nos primeiros capítulos, aos períodos varguistas e da ditadura militar de 1964, o autor tem como centro da análise a redemocratização e, em especial, a estupefação em torno da ascensão da nova direita no Brasil. 

Ao lado do trabalho em torno da compreensão do sistema de antagonismos que permeia a sociedade brasileira, está a análise de discurso e o estudo a respeito do conjunto de práticas discursivas na política brasileira. 

Assim, temos uma dupla dimensão que se interrelaciona. O estudo do sistema de antagonismos ao lado da análise discursiva, tudo tendo como centro de referência a sociedade brasileira, num período histórico bem delimitado, embora podendo também se estender para outros momentos históricos. 

Em torno do sistema de antagonismos circundam conceitos como os de “presidencialismo de coalizão”, peemedebismo e a metáfora do ornitorrinco, explicitada pelo sociólogo Francisco de Oliveira. Ao mesmo tempo em que ele abarca o processo de redemocratização, a forma de funcionamento do sistema político brasileiro a partir daí e, claro, o lulismo, um dos principais elementos da análise do autor. O esfacelamento da gestão dos antagonismos gerou, por sua vez, novos arranjos no sistema de antagonismo, trazendo à tona a explicitação dos conflitos como traço fundamental. Isso vemos em Junho de 2013, na Lava Jato, e na ascensão da nova direita, com as manifestações massivas de 2015-2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018.

Já em torno da análise de discurso, são fundamentais as figuras de linguagem como a hipérbole, o eufemismo e o oximoro, para tratar da linha de continuidade discursiva entre o varguismo, a ditadura militar e o lulismo;  num segundo momento a antinomia, que consegue enlaçar, a meu ver, Junho de 2013, Lava Jato e Nova Direita, esta última nomeada como “bolsonarismo”. Temos também a tautologia, que atravessa alguns desses momentos, e tem a sua presença no lulismo e na Lava Jato, por exemplo. No caso dessa última, ela se dá especialmente nas relações duvidosas e nada republicanas da operação com grande parte da imprensa brasileira. Além disso, temos a metonímia e a sinédoque, que aparecem como referencial mais difuso. 

Existe também, é preciso que se diga, um tema que é fundamental ao autor, como as políticas para a Amazônia e a dizimação de povos originários, em especial os Guarani-Kaiowá, como reflexo sinistro do nosso sistema de antagonismos e da forma como ele vai se constituindo através de práticas discursivas e, claro, de acontecimentos históricos específicos. Aqui também temos uma figura de linguagem importante: o eufemismo. Políticas como as de “integração” nacional através de uma espécie de “colonização” interna da Amazônia, refletidas em grandes construções, ou em obras megalômanas, como a Transamazônica, no período da Ditadura Militar, ou a Usina de Belo Monte, no governo de Dilma Rousseff, são exemplares para se mostrar a forma como governos brasileiros trataram a floresta e os povos originários em geral. Claro que o descaso se estende e ganha ares mais selvagens com o governo Bolsonaro, a partir de 2018, se estendendo por todo o período de mandato, até o ano de 2022.

Em suma, o quadro em geral é este. Vale agora passar um pouco pela engenhosa construção do autor e ver como sistema de antagonismos e análise de discursos podem servir como mecanismo de elucidação de acontecimentos históricos significativos da sociedade brasileira.

1. Hipérbole, oximoro e eufemismo. A “pátria grande” e a neutralização dos antagonismos

No período da redemocratização começa a se desenhar o que podemos chamar de uma prática discursiva hegemônica na política brasileira, associada ao gerenciamento de antagonismos, ao lado do que se convencionou chamar de “pacto de conciliação” baseado no esquecimento, ou vamos dizer assim, na anistia ampla, geral e irrestrita. Conciliação, aliás, que veio ao lado do “esquecimento” dos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar de 64. 

Existem conceitos que ecoam, de forma analítica mas também prescritiva em alguns casos, este tipo de gerenciamento de antagonismos. Por exemplo, o presidencialismo de coalizão, o peemedebismo, a metáfora do ornitorrinco, desenvolvidos por um cientista político, um filósofo e um sociólogo, denotando a consistência e validade do problema. 

O gerenciamento de antagonismos pode ser situado também ao lado de um tipo de discurso muito presente na vida brasileira: o discurso da pátria grande, da grandeza nacional. Muito próximo, como parece claro, a uma figura de linguagem, a hipérbole.

A partir desta dupla dimensão, o gerenciamento de antagonismo e análise de discurso, o autor se concentra em dois tipos de discursos característicos do lulismo: o discurso hiperbólico e, ao lado dele, o discurso do oximoro.  

É a junção entre os dois temas, antagonismo e discurso, que permite ao autor apresentar uma linha de continuidade, no âmbito da análise de discursos, com ressonâncias claras nas práticas políticas concretas, ou seja, como prática discursiva, entre o discurso dos governos federais petistas e o discurso de parte do governo da ditadura militar. 

Ele tem como mediação fundamental a hipérbole, especialmente na ideia de “Pátria grande”, ou em uma imagem grandiosa do Brasil, tanto no presente quanto em algo que sempre se coloca na condição de porvir, de futuro, daquilo que irá se realizar. Talvez possamos dizer, como a criação permanente de horizontes de expectativas, que nunca se realizam como tal. 

Esse discurso da pátria grande vem acompanhado pela valoração de certas práticas e concepções da política, entre elas, especialmente noções como a de desenvolvimentismo, estatização, planejamento estratégico, de tal modo que parece haver uma linha entre o varguismo, a ditadura militar e o lulismo. 

No dizer do autor:

Há uma linha de continuidade, um diálogo real entre as hipérboles varguista, ditatorial-militar e lulista. Vale a pena mapear essas coincidências discursivas, para além das óbvias diferenças políticas entre os três regimes — ou quatro, considerando que o varguismo teve um período ditatorial e outro democrático.

Este livro, como poderá ver o leitor, é um livro de análise de discurso e, podemos dizer, das práticas discursivas. O autor faz questão de mostrar claramente que as práticas discursivas não estão necessariamente associadas ao âmbito do verdadeiro ou falso. A questão não é essa. A questão é saber como elas atuam sobre a realidade, e também sofrem, claro, constrangimentos da realidade.

Ao atuarem sobre a realidade, elas moldam percepções e estimulam ações concretas. No caso do discurso da pátria grande, a figura de linguagem principal, como vimos, é a hipérbole. 

Mas, saindo propriamente do discurso da pátria grande, que engloba uma série de movimentos políticos, como o varguismo, a ditadura militar e o lulismo, e pensando num discurso próprio ao lulismo, temos uma outra figura de linguagem importante para o argumento do livro: o oximoro. 

Ele começa a se consolidar no primeiro governo, mas especialmente com a virada após o Mensalão, tornado público em 2005. Trata-se de uma prática discursiva que afirma simultaneamente polos opostos. E, com isso, gerencia antagonismos. Regulando e colocando os antagonismos sob o seu controle.

O oximoro mantém uma relação significativa com a lógica de regulação dos antagonismos. Diferentemente da antinomia, que explicita e torna irreconciliável o antagonismo; ou da contradição, que explicita como forma de possível superação através da síntese; o oximoro suspende no ar os dois polos do antagonismo e os faz frequentemente variar de posição, afirmando ambos simultaneamente. Ao mesmo tempo em que faz um esforço para neutralizar o antagonismo e impedir tanto a antinomia quanto, sobretudo, a contradição.

Tal discurso pode ser exemplificado na forma de atuação e na construção discursiva do lulismo. Por exemplo, num determinado momento, ou poderíamos dizer, numa manhã, está lá o presidente estimulando a militância a fazer críticas virulentas à Rede Globo de televisão, dando a entender que a empresa de comunicação é inimiga do governo. Já pela tarde está lá o mesmo presidente nomeando para o ministério das comunicações uma figura de proa da mesma empresa de comunicação. Podemos seguir com mais exemplos. Numa manhã estão lá os ideólogos governistas do PT incitando a militância a atacar o “neoliberalismo” de Marina Silva e seu compromisso com o hipercapitalismo das ONGs transnacionais, que querem “controlar” a Amazônia. Já pela tarde, está lá o presidente adulando Blairo Maggi e José Sarney. Fazendo loas a algum agente poderoso do mercado financeiro. Entre outros exemplos possíveis. 

Ainda sobre o oximoro. É importante ressaltar que, através deste discurso, os antagonismos são neutralizados. Digamos que a dialética fica suspensa no ar. Os polos podem variar de posição continuamente e nunca entram em conflito real. O antagonismo é neutralizado, de tal modo que qualquer esboço de explicitação da contradição ou da antinomia será logo alvo de intensa repressão. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o levante popular de Junho de 2013, como veremos mais adiante. O levante explicitava, voluntária ou involuntariamente, as contradições reais do sistema de antagonismo gerido pelo lulismo, suas limitações, seus pontos cegos.  

Mas voltando ao período ainda anterior a 2013. Quando hipérbole e oximoro não mais funcionam, digamos assim, é necessário uma outra figura de linguagem: o eufemismo. É através do eufemismo que uma série de ações claramente problemáticas, em muitos casos até mesmo francamente criminosas, vão ser reposicionadas discursivamente e mascarar o seu caráter nocivo. 

É o caso por exemplo do genocídio em relação ao povo guarani, resultado de políticas de cunho desenvolvimentistas, planejamentos “estratégicos” e ações duvidosas em relação especialmente à Amazônia. Aqui podem ser agrupadas o conjunto de obras megalômanas, entre elas, por exemplo, a construção da Usina de Belo Monte, e a difusão de projetos que unem hipérbole, na sua concepção; oximoro, no seu jogo retórico convenientemente maleável de viabilização; e eufemismo, na forma de nomear seus resultados e, sobretudo, consequências sociais. 

Existem, ainda, três elementos fundamentais que se associam ao discurso hiperbólico da pátria grande, ao discurso do oximoro e também ao eufemismo, e que tiveram consequências sociais e políticas francamente trágicas. Usando das expressões do próprio autor, eles são os seguintes: a “integração nacional” levada a cabo ao custo de genocídio indígena; uma concepção da Amazônia como espaço vazio e colônia energética; por fim, a vinculação da autoestima nacional com grandes construções.

2. O abalo na gestão do antagonismo e suas dimensões discursivas

Pois bem, a gestão dos antagonismos através da hipérbole, do oximoro ou do eufemismo foi hegemônica nas práticas discursivas da política brasileira da redemocratização. Como tal, definiu todo um período histórico que abrange a constituinte de 1988; o período ainda um pouco conturbado da eleição do primeiro presidente civil, Collor de Mello; para depois chegar num período longevo de 16 anos que compõe os governos da era FHC e Lula. Este último ainda se manteve com a presidente Dilma, em seu primeiro mandato, ou parte dele. Com o lulismo chegou ao máximo de intensidade, tendo o bordão do “nunca antes na história desse país” se transformado em expressão retórica sintetizada dos exageros discursivos do atual presidente. 

Se incluirmos aí ainda o fato de o país ter conquistado o direito de sediar eventos globais como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016, e juntarmos a uma outra frase, dessa vez de Dilma Rousseff, que falava em “depois de alcançar a meta, dobrar a meta”, sem definir propriamente o que era objetivamente a “meta” a ser alcançada, temos a perfeita tradução do discurso hiperbólico. 

Mas existe uma movimentação impressionante da sociedade civil brasileira que interrompe, ou coloca em suspenso, o gerenciamento de antagonismos e, por conta disso, traz à tona a explicitação do conflito, em suma, a contradição propriamente dita da sociedade brasileira.

Ele se dá num momento curioso, em que o lulismo vai para o seu terceiro mandato, com a presidência da Dilma. A presidente tinha até então quase 60% de aprovação.

Ao mesmo tempo em que havia um entusiasmo por conta da vitória do país para sediar os megaventos que mencionei, a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016 e, em menor medida, a copa das confederações de 2013. No entanto, surge ali, em meio a este ambiente festivo, uma movimentação da sociedade civil de âmbito nacional, radicalmente nova e prenhe de negatividade crítica: Junho de 2013

O acontecimento vai ter importância significativa tanto para colocar em suspenso a pax lulista, quanto como desdobramento para os próximos acontecimentos que se seguirão: Lava Jato, reorganização da direita popular, eleição presidencial da nova direita, esta última com frações francamente reacionárias e extremistas. 

Dizer que vai ter desdobramento não significa dizer que será a causa da ascensão da nova direita. Trata-se mais de um acontecimento chave que divide o país em um momento de consolidação do gerenciamento de conflitos, para um momento de explicitação de antagonismos. 

Existem, assim, fatos históricos que confirmam o desmantelamento do sistema político, ou se quisermos, a perda de hegemonia e regulação normativa do regime de governança e neutralização dos antagonismos que vinha se dando desde a redemocratização e que tinha ganhado ares de eternidade no período dos governos lulistas, haja vista a alta popularidade do presidente e a inexistência de qualquer tipo de oposição mais claramente antagônica.

Os fatos são Junho de 2013 e também um outro acontecimento importante: a eclosão da Operação Lava Jato. Posteriormente, tais fatos iam vir acompanhados de uma série de manifestações massivas claramente à direita, com alvo definido abertamente antipetista e pró-impeachment da presidente Dilma. Mas, ao mesmo tempo, sem vínculo com a outra parte do sistema político vigente, em especial os caciques do PSDB. O alvo principal, no meu modo de ver, era o PT. Mas pode-se dizer, como diz de forma muito consistente e precisa o autor, que também eram alvos todo o sistema político, em especial o PSDB e companhia.

Assim, o impulso inicial contra o sistema político visível em Junho de 2013 foi se consolidando com a operação Lava Jato e depois ganhou ares de revolta política organizada e com perspectiva ideológica legível, mais claramente à direita. Além de ter um alvo principal, embora não único, o PT, Lula e o governo Dilma. 

Acontece que é justamente no mandato da presidente Dilma que a gestão de antagonismo entra em estado de ebulição e começa a perder a sua força hegemônica.

É a partir das jornadas de junho que o pacto de conciliação, a gestão dos antagonismos e as práticas discursivas que lhes são coetâneas, como a hipérbole e o oximoro, começam a perder a sua força discursiva, prática e política.

Junho pode ser considerado uma forma de explicitação dos antagonismos, que estavam sendo neutralizados pelo gerenciamento. E Junho o faz, inicialmente, como antinomia e conflito aberto. Mas coloca no horizonte a possibilidade da contradição, ou seja, do enfrentamento real dos antagonismos como forma possível de superação e, quem o sabe, síntese.

Como todos sabemos, a reação do sistema político foi de repressão, punição e anulação geral das demandas de Junho. No entanto, o impulso contra a gestão dos antagonismos estava dado e consolidado.

A sociedade brasileira dificilmente voltaria atrás. A explicitação dos conflitos foi se desenhando de diferentes formas e se vinculando a outros atores sociais, não necessariamente comprometidos com o que realmente estava em jogo em Junho.

Quem acompanhou, participando ou não, do levante popular lembra bem que, embora o caráter fosse realmente difuso, havia pautas como as da construção de uma política pública com maior participação decisória das pessoas; com ênfase nos serviços públicos como saúde, educação e moradia; com a melhoria real das condições de vida e trabalho de uma série de profissionais, cabendo destaque, por exemplo, para as revoltas dos professores da rede pública e dos garis no Rio de Janeiro; com o desejo de superar a mediação, aquela altura engessada e governista, dos sindicatos e movimentos sociais oficiais, procurando colocar no centro movimentações sociais mais amplas e autonomistas da sociedade civil, e assim por diante. 

Mas foi contemporâneo a Junho, como dissemos acima, uma outra manifestação organizada, dessa vez com feição distinta, e com consequências também distintas, embora também associada a um desmantelamento da gestão do sistema de antagonismos da sociedade brasileira até então. Era a operação Lava Jato. Muito mais festejada e mesmo estimulada por parte significativa da imprensa nacional. 

Com ela começam uma série de ações, feitas por um operação que era, a um só tempo, policial, jurídica e especialmente política. As práticas dos atores sociais da Lava Jato foram chamadas, pelo cientista político Christian Lynch, de “tenentismo de toga”. E isso por conta do uso das ações jurídicas como forma de ação política, tendo como bandeira inicial o confronto contra a corrupção sistêmica também característica do país na redemocratização. Especialmente o uso de caixa 2, vindo de empreiteiras, como financiamento de campanhas eleitorais e, mesmo, caixa de partido político. O financiamento era, posteriormente, “compensado” com licitações fraudadas, especialmente em grandes obras. 

Difícil atribuir a prática a apenas um partido. Pelo contrário, trata-se de um tipo de corrupção que atravessou campanhas eleitorais nas eleições brasileiras em diferentes níveis: federal, estaduais e municipais. Tudo sintetizado numa expressão bem conhecida e que geralmente é usada como ativo político poderoso: “a luta contra a corrupção”.

A Lava Jato foi um acontecimento jurídico-policial e político cujos desdobramentos modificaram substancialmente o pacto de conciliação nacional feito pelas elites políticas do “presidencialismo de coalizão”. Ao mesmo tempo em que a operação foi, ela mesma, uma operação política, feita por juízes e promotores com interesses de ação real na vida política do país, a ponto de no caso mais emblemático, a sua figura mais conhecida, o ex-juiz Sérgio Moro, ter se transformado em ministro de Estado do presidente que tinha como adversário principal um ex-presidente condenado e preso pelo mesmo ex-juiz. Uma barafunda bem brasileira, com seus jogos de trapaças e volteios que sempre beneficiam os donos da vida.

Além disso, a operação contou com uma situação inusitada: a relação de apoio irrestrito da imprensa que atuava junto com a operação e transformava fonte, matéria e inquérito numa coisa só, a ponto de as próprias matérias “plantadas” pelos juízes e promotores serem utilizadas como material probatório de confirmação das condenações e prisões. O discurso da Lava Jato em grande medida foi um discurso tautológico

Por fim, um acontecimento também discursivo foi fundamental para mostrar o caráter político explícito da operação: a Vaza Jato. Ela mostrou, através das conversas privadas hackeadas entre os integrantes da operação, uma relação promíscua, para não dizer criminosa mesmo, entre promotores e o juiz dos casos. Assim, promotores da acusação combinavam com o juiz todo o processo, incluindo o uso de testemunhas estratégicas, passando por cima de qualquer princípio republicano relacionado ao processo penal. O raciocínio é simples. Se o juiz combina o resultado com o promotor da acusação, o processo está inevitavelmente contaminado e francamente corrompido. Valores básicos e centrais para a democracia foram colocados em suspenso, corrompidos abertamente, como os valores do direito amplo de defesa, da presunção de inocência e do princípio de impessoalidade do poder judiciário. 

Junho e Lava Jato expressam, podemos dizer, o encontro entre movimentação política e práticas discursivas de uma maneira ainda mais exemplar. Estamos diante da curiosa transformação de dois substantivos comuns, junho e lava a jato, em nomes próprios, junho em Junho de 2013 e lava a jato em Lava Jato.

Ao mesmo tempo em que os dois nomes próprios representam acontecimentos significativos para se compreender um momento em que o sistema político de gerenciamento de antagonismos começa a perder a sua força e, mesmo, entrar em processo de dissolução.

Junho e Lava Jato são, cada um a seu modo, e com suas próprias complexidades, pontas de lança deste processo e permanecerão, também a seu modo e com níveis distintos de atuação, como elementos decisivos muitos anos depois.

Após estes acontecimentos discursivos temos alguns outros momentos importantes. As manifestações massivas da nova direita em 2015-2016; o impeachment de Dilma em 2016; a condenação em 2017 e posterior prisão em 2018 do presidente Lula; por fim, a consolidação da ascensão da nova direita com a eleição de Bolsonaro em 2018. 

São todos eventos que estão associados a esta quebra da lógica no sistema de antagonismos, que demarcou o sistema político até Junho de 2013. 

São eventos que fazem irromper os antagonismos como antinomia e já não permitem, ao menos tem sido assim, pensar numa dimensão mais propriamente da contradição, ou retornar ao período que unia hipérbole, eufemismo e oximoro. 

Como antinomia, os antagonismos foram explicitados até o limite. E quando chegou ao limite, a coisa não terminou. A lógica passou a ser a aniquilação do Outro, do adversário político, transformado em inimigo a ser até, em alguns casos, fisicamente eliminado. 

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


3. A ascensão da nova direita e a antinomia como dissolução da gestão dos antagonismos

A ascensão da nova direita está associada a uma série de elementos que permitem ver uma organicidade no processo, ainda que mantendo o caráter heterogêneo e relativamente autônomo dos elementos.

Assim, existe o partido do boi, mais precisamente, a bancada latifundiária/ruralista que defende os interesses próprios a estas classes de grandes proprietários de terra.

Existe o partido da ordem, que se subdivide em outros dois partidos: polimilicano e lavajatista. O primeiro, em torno das pautas das polícias militares e das relações com os milicianos. O segundo, em torno de promotores, juízes, advogados associados ao “tenentismo de toga”.

Existe o partido teocrático, associado a frações significativas da comunidade evangélica, tanto como movimento social vindo de baixo, quanto com suas lideranças políticas no Congresso.

Existe o partido do Mercado, que teve papel crucial, especialmente na figura de Paulo Guedes, mas não só. Houve uma relação calculada dos agentes do grande Mercado com a eleição do ex-presidente Bolsonaro. Aqui poderiam ser incluídos também os ancaps, por exemplo, e todo um movimento de popularização digital da perspectiva ultraliberal entre os mais jovens.

Existe, por fim, o partido do troll. Um tipo de comunidade digital difusa que construiu uma linguagem fundamental para a difusão e extensão das ideias e perspectivas da nova direita, nos mais diversos canais digitais, youtube, twitter, facebook, chans, whatsapp etc.

E, claro, uma base orgânica, horizontal, associada à construção de redes de sociabilidade populares, com o compartilhamento de mensagens via whatsapp e enlaçando bairro, escola, igreja, trabalho e assim por diante. 

A movimentação social que levou à vitória do ex-presidente tinha uma complexidade e uma organicidade real, por isso que as interpretações que reduzem todo o processo à manipulação de massa ou a uma espécie de maldade congênita nos que não se alinharam ao petismo/lulismo parece ser, no mínimo, bastante redutora e superficial, embora tenha sido hegemônica no campo progressista, incluindo os campos cultural, acadêmico e artístico. 

Mas existem alguns traços característicos. Podemos apresentá-los levando em consideração a proposta deste texto que é enlaçar sistema de antagonismos, análise de discurso e acontecimentos históricos específicos. 

A ascensão da nova direita vem associada aos acontecimentos históricos mencionados. Junho de 2013 abalou o gerenciamento de antagonismos, o que não quer dizer que devesse conduzir necessariamente para a nova direita, claro. A Lava Jato é parte do mesmo processo e também, a seu modo, colocou em suspenso o presidencialismo de coalizão e o peemedebismo. Posteriormente, tivemos a reorganização da direita, que mostrou a existência de uma direita francamente popular, ao mesmo tempo em que abriu espaço para o conservadorismo moral como tema do debate público e, mesmo, da vida cultural e intelectual. 

O conservadorismo moral acompanhou outras movimentações, como a de renovação do ultraliberalismo, que se transformou em fenômeno da juventude, especialmente com os chamados “anarcocapitalstas”, por exemplo. Junte a isso o militarismo e frações significativas de movimentos abertamente reacionários. Inclusive, naquela altura, pedidos minoritários de golpe militar. Também foi nesse período, aliás, que as redes, no caso redes olavistas, foram às ruas. Viam-se já cartazes com os dizeres: “Olavo tem razão”. Foi este o caldo que deu origem às movimentações massivas da direita em 2015-2016. 

Depois o caldo foi engrossando. “Olavismo” e “Bolsonarismo” não eram irmãos siameses, com costumam ser apresentados. Tinham, e tiveram mesmo no governo Bolsonaro, uma série de rusgas e claras diferenças de orientação normativa, cultural e política. Mas este é assunto para um outro texto. O fato é que após as movimentações massivas de 2015-2016, vem o impeachment e a entrada de Temer como presidente da república. Com ele, em 2018, uma curiosa GLO no Rio de Janeiro, que vinha a consolidar a participação também das elite militar, inclusive da ativa, no mesmo processo. Também assunto para um outro texto. 

O fato é que a eleição de Bolsonaro, uma liderança do populismo de ultradireita em 2018, consolidou o processo e o direcionou para os interesses de frações mais abertamente reacionárias, como o próprio ex-presidente. A relação de organicidade entre a Lava Jato e o ex-presidente viria se mostrar reluzente com a entrada do ex-ministro Sérgio Moro no governo como ministro da justiça. O partido da ordem estava montado. Polimilícia e Lavajatismo. As atuais movimentações de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol comprovam ainda mais a aliança de sangue entre os dois grupos políticos. 

Muito se falou no “antissistema” não só como característica do ex-presidente, mas também como traço constitutivo dessa nova onda de direita. Talvez faça sentido se pensarmos como contrário ao sistema de antagonismos através da regulação via presidencialismo de coalizão, peemedebismo ou lulismo, por exemplo. Assim, a nova direita poderia ser considerada, neste sentido, antissistema. Mas e quanto ao partido do boi e ao partido do mercado? Difícil considerá-los como antissistema, em qualquer situação. 

De todo modo, existe um traço que enlaça essas movimentações, com níveis de intensidade distintos, claro. Que é o discurso baseado na antinomia.  

No que diz respeito ao gerenciamento de antagonismos, a forma de expressão da nova direita é de explicitação radical dos antagonismos, através de antinomia. Diferentemente do oximoro, a antinomia não só explicita os polos antagônicos, como desconsidera qualquer possibilidade de conciliação. 

O estímulo ao antagonismo é parte vital da reprodução da nova direita e atinge também a Lava Jato. Existem vários casos emblemáticos. Talvez o mais incisivo e trágico deles tenha sido o pronunciamento oficial do ex-presidente no período do auge da pandemia, quando ele falou para todas as redes de televisão que o Coronavírus era uma “gripezinha”, algo menor, menos relevante, se contrapondo intencionalmente à comunidade científica, aos principais governantes da maioria dos países, ao consenso que vinha se construindo na imprensa mainstream

Mesmo num caso como esse, o discurso continuou a ser o da antinomia, da cisão, da negação de qualquer conciliação com o “sistema”, vamos dizer assim. 

É como se houvesse uma mudança significativa na prática discursiva hegemônica do sistema político brasileiro. Até então ela era predominantemente ligada ao gerenciamento dos antagonismos, os neutralizando através de diferentes práticas, como as que se associaram ao presidencialismo de coalizão, ao peemedebismo ou à dualização social. Entre estas formas de gestão dos antagonismos, o discurso oximorônico lulista seria um dos bons exemplos.

Assim, a ascensão da nova direita consolida o processo de cisão na gestão dos antagonismos na política brasileira. Ao mesmo tempo em que coloca em primeiro plano uma nova figura de linguagem, embaralhando também o campo discursivo, com a antinomia. Ao fazer isso, instaura uma lógica de reativação permanente do antagonismo, como estratégia de reprodução do sistema político, alterando assim a lógica do sistema de antagonismos, até então baseado numa gestão que buscava, justamente, neutralizar antagonismos.

Por fim, falta mencionar, seguindo a argumentação do livro, a importância das redes digitais, com sua linguagem própria e com sua forma própria de reprodução, difusão e produção de mensagens, tipos de engajamento e adesão política. É importante ressaltar, e com isso terminamos o texto, as estratégias discursivas da linguagem do troll, tão bem encarnada pelo ex-presidente, por seus ideólogos e por sua militância. O ex-presidente, uma figura vinda do baixo clero da política nacional, conhecido nacionalmente por seus impropérios e falácias sobre temas delicados da vida nacional, relacionado ao que há de mais perverso e anacrônico nos arcaísmos, tradicionalismos e reacionarismos de sociedades como a brasileira, de repente encarnou e transformou na tradução mais perfeita da novilíngua digital, e de uma juventude com competência técnica, publicitária e política para se relacionar com a ambiência high-tech

Em suma, o arcaísmo retrógrado percebeu uma afinidade estética, ética e cultural com o ultramoderno do mundo digital, mais um dos muitos volteios e complexidades próprias à sociedades como a brasileira, às modulações do seu sistema de antagonismos e, por fim, ao conjunto das suas práticas discursivas.

Marcos Lacerda

Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFPel e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades. Doutorado em Sociologia pelo IESP/UERJ (2011-2015). Foi Diretor do Centro da Música da Funarte / Ministério da Cultura, responsável pelas políticas públicas para a música no Brasil, entre maio de 2015 e março de 2017. Autor de “A sociedade das tecnociências: Introdução à obra de Hermínio Martins” (Ateliê de Humanidades, 2020) e organizador, com André Magnelli, de “Sociologia das tecnociências contemporâneas” (Ateliê de Humanidades, 2020). 

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