Fios do Tempo. Marighella: uma panfletagem política muito bem encenada e produzida – por Thiago Pacheco

É muito difícil formular hoje em dia opiniões argumentadas que extravazem enquadramentos políticos pré-estabelecidos. É este o desconforto de partida de Thiago Pacheco, que faz sua análise do filme Marighella, enquanto obra ficcional pautada em uma mímesis referenciada em fatos históricos. Reconhecendo, com o filósofo Paul Ricoeur, a complexidade de toda e qualquer mímesis narrativa, Pacheco corre o risco de desagradar a todos com sua sucinta análise, baseando-se no seu conhecimento especializado a respeito do aparelho policial do Estado brasileiro, na sua posição política comprometida com a democracia e no seu gosto cinematográfico enquanto espectador.

Esta é a segunda análise do filme, após a de Aldo Tavares “Combate contra ou combate entre?. Sendo as duas análises bem diferentes entre si, tanto nos pressuspostos teóricos que assumem quanto nas interpretações que fazem, tal fato reafirma nosso compromisso com o esclarecimento público a partir de uma pluralidade de perspectivas unidas por seu compromisso com a responsabilidade intelectual.

Desejo como sempre uma ótima leitura.

A. M.
Fios do Tempo, 03 de dezembro de 2021



Marighella:
uma panfletagem política muito bem encenada e produzida…

Indo direto ao ponto: para mim, Marighella é uma panfletagem política muito bem encenada e produzida. Antes de desenvolver meu ponto, gostaria de começar com um desabafo. Quando digo isso, estou certo de que os adeptos da Direita falarão que sou defensor do comunismo e estou defendendo o guerrilheiro Marighella. E o pessoal de Esquerda? Bem, estes me chamarão de reacionário e dirão que estou atacando o filme, e por tabela, a sagrada memória da resistência à ditadura.

Tem sido difícil expressar opiniões no Brasil de hoje…

E isso não tem nada a ver com a tal da imparcialidade. Imparcialidade, da forma como se fala no senso comum, não existe. O que não significa que vale tudo na hora de formar e expor uma opinião. Uma coisa é aceitar que não existe imparcialidade nem neutralidade: isto, até mesmo o povo das ciências ditas “exatas” já entendeu, ainda que timidamente. Outra coisa é fazer uma análise ou pesquisa com uma bandeira na mão que vai determinar, desde antes, o resultado do trabalho. Ao contrário, trata-se de analisar os dados de forma racional e clara. E saber que suas conclusões podem estar equivocadas.

Dito isso, é sempre complicado analisar a arte. Não é o caso de lançar tudo na subjetividade, pois há métodos de análise para os múltiplos objetos oriundos das diversas formas de arte. Mas é preciso considerar que a recepção de uma obra, neste caso, um filme, sempre terá alto grau de subjetividade que envolverá, também – mas não só -, o bom e velho “gosto”. Trata-se da imprevisível mímesis 3, da qual Paul Ricoeur falou em Tempo e Narrativa: após estabelecer algum entendimento dos elementos coletados para sua narrativa (mímesis 1), um autor irá organizá-los numa narrativa pretensamente coesa (mímesis 2) a qual será apreendida, compreendida e reinterpretada por quem tiver contato com tal narrativa (mímesis 3).

Assim, para além do gosto, é preciso salientar o óbvio: Marighella é panfleto político de esquerda. Ponto. É uma ficção histórica, produzida a partir de dados – estes sim históricos e factuais – sobre o personagem principal (mímesis 1) mas reinventados de acordo com a agenda política de sua direção. Por esta razão, seus anacronismos e mudanças: o pastor Henrique Viera, que interpreta um dos monges aliados de Marighella, chega a pregar Teologia Negra para o Seu Jorge na metade do filme! Confesso ao leitor que cheguei a achar, em alguns momentos, que apareceria alguém propondo falar “todes” ao invés de “todos”. Os debates acerca das representações raciais de Jesus e dos desdobramentos de se aceitar ou não o gênero neutro são importantes? São. Eles existiam entre guerrilheiros do final dos anos 1960? Não, e este é meu ponto.

Sem falar no fato do protagonista Marighella ser negro. Apesar de sua mãe ser negra, o tom de pele dele era mais claro, pelo que se nota nas fotos. Problema repretensá-lo desta forma? Muito pelo contrário! Seu Jorge é sempre imponente, e tem tantos personagens pretos sendo embranquecidos, por que não um enegrecido nestes tempos de busca por representatividade? A questão aqui é que isso apenas é mais um demonstrativo que estamos diante de uma ficção.

E justamente por estarmos falando de uma ficção que qualquer análise pretensamente histórica do filme é, ao meu ver, vã. Seria como discutir historicidade das cenas de Bastardos Inglórios (2009). Wagner Moura, diretor do filme, sempre explicitou seu posicionamento político e sua crítica política, além de não esconder que está tomando licenças literárias. Grave seria ele chamar isso de “documentário”. Como faz, por exemplo, o Brasil Paralelo

Então, enquanto ficção, e uma ficção histórica de esquerda, a mensagem do filme está dada de antemão. Caberá a cada um avaliar a narrativa proposta segundo seu posicionamento político. Resta, assim, analisar a forma como tal narrativa foi construída. De minha parte, compartilho com o  leitor os seguintes pontos – alguns evidentemente subjetivos – que percebi na obra:

Primeiro, apesar de ser uma ficção o filme acerta historicamente ao mostrar que não foram os militares nem os americanos que venceram a guerrilha: foi a polícia! Mais precisamente, o DOPS-SP e o DOPS-RJ, este auxiliando com seu gigantesco banco de dados estabelecido desde a Primeira República. Sobre isso, redigi um artigo: “Polícia política, inteligência e segurança na ditadura militar (1964-1984)“.

Segundo, e seguindo nesta direção, Bruno Gagliasso está perfeito como Fleury (chamado de Lúcio”). Aquela é a síntese de um homem do DOPS, ironicamente, o personagem mais historicamente consistente desta ficção. Alguém pode argumentar que Gagliasso está raso e caricato como “vilão”, mas não fiz esta leitura. Como Wagner Moura está fazendo planfetagem política, é evidente que ele não investiu no aprofundamento humano do delegado do DOPS. Mas o personagem é bem construído nos detalhes: repare nas discussões dele com o representante americano, nas caras e bocas, na fixação sincera em combater a guerrilha, e na cena dele com a esposa e a filha ouvindo rádio.

Um adendo antes de passar ao último ponto: por que cargas dágua não chamar o personagem de Fleury? Igual o tal do “Delegado Flores” em Lamarca (1994). Fleury é marca registrada?

Por fim, minhas críticas vão para as poucas cenas de ação. Elas são excelentes, transmitindo a urgência e a adrenalina de quem se meteu em ações armadas contra as maiores Forças Armadas da América Latina e a mais experiente polícia política (DOPS) de todas as Américas. Mas eu esperava muito mais de uma ficção histórica cujo protagonista é o maior guerrilheiro da História do Brasil (independente de você interpretar este status como algo elogioso ou difamatório, considero difícil tirar este título de Marighella). Principalmente de quem, como Wagner Moura, fez Tropa de Elite

Enfim, Marighella é uma ficção sobre um importante guerrilheiro de esquerda que atuou durante o Regime Militar. Um filme sobre um homem que lutava contra uma ditadura, o que é fato (ressaltado por quem é de esquerda), mas que defendia modelos ditatoriais do outro lado do espectro político, o que também é fato (ressaltado por quem é de direita). Um filme que investe tanto ou mais na relação familiar do protagonista do que na luta armada que ele empreendeu, humanizando-o. Uma oportunidade para debatermos sobre o que querem e pensam nossas esquerdas, como agiram nossos aparatos repressores em uma de nossas várias ditaduras e como as escolhas políticas são tomadas por pessoas de carne e osso.

Uma oportunidade que passará, pelo visto.

THIAGO PACHECO é doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Graduado em História pela Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro (2006) com especialização em Ciências da Religião pela Faculdade do Mosteiro de São Bento. Atua desde 2006 em instituições religiosas de ensino, e desde 2011 leciona para cursos de graduação e pós-graduação nos campos da História do Antigo Israel, Antigo Testamento e Ciências da Religião. Desde o mestrado tem se dedicado aos estudos sobre agentes de Segurança e Inteligência. Em 2014 integrou, como bolsista FAPERJ, o grupo de pesquisa Justiça Autoritária, ligado ao Laboratório de Direitos Humanos da Faculdade Nacional de Direito – UFRJ (LADIH). No estágio pós-doutoral, integrou seus estudos aos campos da História do Direito e da Criminologia.


Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial



Últimos Posts

Deixe uma resposta

por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: