Fios do Tempo. Entrevista com José Luís Garcia (II)Teoria social crítica, filosofia da tecnologia e tecnociências

Após a parte sobre a formação e as influências intelectuais de José Luís Garcia, trazemos hoje no Fios do tempo a segunda parte de sua entrevista, feita a Marcos Lacerda e André Magnelli e publicada no livro Sociologia das tecnociências contemporâneas: ensaios de teoria social portuguesa. A segunda parte versa sobre o papel da teoria para a pesquisa sociológica e importância da sociologia das tecnociências para a realização de toda investigação sobre as sociedades contemporâneas. As duas questões que norteiam as reflexões de Garcia são; para que teoria? E para que uma sociologia das tecnociências contemporâneas?

Desejamos uma excelente leitura!

A.M.
Fios do tempo, 17 de agosto de 2020



Teoria social crítica, filosofia da tecnologia, pesquisa sociológica e tecnociências

A.H. O Sr. enfatiza a importância da reflexão teórica para a pesquisa sociológica e possui uma agenda de investigação própria da tradição de teoria social crítica. Além disso, percebemos em sua obra uma passagem pela teoria social clássica e pela filosofia e sociologia das tecnologias (com livros organizados sobre Pierre Musso e Jacques Ellul). Gostaríamos que o Sr. não apenas nos falasse sobre seus principais referenciais teóricos, mas também refletisse sobre o papel da teoria para a pesquisa social.

J.L.G. Retomo na resposta a esta pergunta as principais ideias que elaborei num texto que publiquei recentemente, intitulado “Em Louvor da Teoria”, como primeira lição para uma coletânea de sociologia clássica, editada em 2019, e que foi mais um projeto em que me envolvi com Hermínio Martins, um projeto sugerido por ele mas que só agora foi possível concluir. Tenho uma posição no domínio da epistemologia das ciências sociais que, à falta de melhor expressão, consideraria racionalista crítica ou racionalista filosófica e historicamente reflexiva, no sentido específico de que defendo que a pesquisa, em termos de empreendimento analítico, só pode cumprir a sua função desde que orientada por um esforço de teorização que não prescinda de uma ponderação aberta a e consciente dos valores. Partilho da ideia de que não há estágio algum da pesquisa em ciências sociais em que se possa dispensar de algo da natureza de uma teoria porque só ela nos pode levar à compreensão do que é o seu desenvolvimento, do que é pesquisar, enfim, do que é pesquisar enquanto “coisa-realidade” e simultaneamente “coisa-sentido”. Só a teoria nos situa na pesquisa com a pretensão da possibilidade de que existe algo real para lá do que sentimos e pensamos frente ao mundo. Se se usar a linguagem comum da tradição racionalista epistemológica das ciências sociais, a defesa da teoria é geralmente feita através da alegação de que é sempre ela que orienta a investigação, porque lhe cabe gizar com coerência uma problemática, de delimitar o campo empírico e finalmente tentar encontrar explicação ou compreensão para os problemas. O método, a observação e os dados carentes de substância teórica significam “metodolatria”, “empiricismo” e, em última análise, fetichismo das técnicas de investigação. O meu trabalho, como estudioso e pesquisador do mundo histórico e social, está ancorado na elaboração teórica permanente, na busca da consciência sobre os pressupostos que sustentam o trabalho de análise e abrange um escopo interdisciplinar no qual tem lugar a reflexividade filosófica e histórica. Oponho-me à ideia de que a teoria não é uma atividade prática no mesmo sentido que recuso restringir a atividade prática de uma pesquisa ao domínio empírico. Às teorias ou às hipóteses não se chega através da empiria. As teorias não podem ser deduzidas dos dados empíricos; partir de observações e delas derivar teorias é uma inexequível generalização indutiva.

Comungo, pois, da ideia de que as teorias despontam como roteiros de análise da realidade, são condutoras da observação, entre imensos objetos possíveis de serem observados, e sobretudo cabe-lhes proporcionar uma compreensão dos problemas científicos, talvez em certos casos uma explicação ou até resolução. Mas uma vez dito isto, é crucial acrescentar que nas ciências sociais abundam as posições que defendem a importância da teoria, mas simultaneamente fetichizam o método e as técnicas. O condicionamento mútuo entre o conhecimento científico e a realidade social é, assim, esquecido, do mesmo passo negando-se a distância e os problemas de mediação entre o sujeito e o objeto nas ciências sociais, em particular a condição de que tanto o sujeito da pesquisa como o sujeito que é observado são portadores de valores. Tal posição, geralmente apelidada de positivista, procedente do monismo epistemológico baseado na dualidade sujeito-objeto, resvala para o empiricismo, embora ao mesmo tempo se revele como racionalista de tipo dogmático, pois sobrepõe abusivamente o valor da ciência e o valor da verdade por via da idolatria do método. É assim que o empiricismo e o racionalismo dogmático convivem generalizadamente nas ciências sociais. Para os racionalistas dogmáticos, o conhecimento assim alcançado é considerado a forma superior dos saberes humanos, o que os conduz à tendência para a subestimação de todo o conhecimento não-científico (entendido como susceptível de verificação ou falsificação) e ainda à desvalorização de todos os fatores não diretamente humanos. O conhecimento sociológico, nesta ótica, torna-se imune em absoluto ao questionamento do seu próprio conhecer, quer dizer, o conhecimento sociológico propõe-se conhecer todo o mundo social, menos a si próprio, embora seja dele parte integrante, quer como criação simbólica, quer como ação, do mundo social. Por sua vez, muitas das orientações que se distanciam desta visão, defendendo justificadamente que às análises empíricas subjazem concepções epistêmicas e teóricas e que a estas são inescapáveis os valores, inclinam-se para negar a possibilidade de uma fundamentação ponderada dos valores. São estas orientações herdeiras extremistas das tradições céticas defensoras de que a razão humana é incapaz de resolver os conflitos entre valores distintos. Para elas, é impossível pôr de lado os valores na análise social, mas também é inaceitável uma valoração racional dos valores. Neste sentido, tanto o positivismo como vários dos que aparecem como sendo os seus críticos mais radicais perfilham afinal a ideia de que não pode haver um conhecimento fundamentado, ou distinto de uma mera crença, dos valores. Assim, se, em nome da defesa da razão frente ao relativismo epistemológico, o racionalismo dogmático/positivismo procura afastar os valores morais, deixando o caminho livre para o relativismo moral na pesquisa social, em nome da luta contra o positivismo muitas das abordagens alternativas prosseguem o relativismo moral e desabam no relativismo epistemológico. Inclusivamente, as versões mais radicais do relativismo propendem para abandonar qualquer pretensão à verdade da pesquisa social, rejeitando como um todo as epistemologias clássica e moderna, chegando a postular uma certa indiferenciação de todos os saberes e descurando a construção, o tratamento e a verificação de dados.
Quanto a mim, admitir que o conhecimento das ciências sociais não pode ser praticado segundo as categorias do racionalismo dogmático inerente à corrente dominante das ciências sociais e à tradição epistemológica moderna, através da alegação certeira de que as ciências sociais têm uma dimensão discursiva e da rejeição da absolutização do conhecimento científico como única garantia de sentido, tal não tem de implicar a sua inversão, de que tudo não passa de mera interpretação, de que tudo é condicionado por significações incomensuráveis, impedindo a formulação de qualquer juízo de validade universalizante (no sentido de aberto, não fechado em categorias supostamente fixas ligadas a uma só experiência social e civilizacional do mundo). O racionalismo dogmático/positivismo não tem capacidade para cotejar, explicitar e retificar apropriadamente as visões ou as ideologias que impregnam todo o conhecimento científico-social e por consequência também as suas, ao não as conseguir reconhecer, mas muitas abordagens alternativas, especialmente as de pendor fortemente subjectivista, não têm nem meios de submeter à validação cognitiva a adequação entre o discurso do conhecimento e o seu objeto, nem ainda a capacidade para a avaliação racional dos valores. Este impasse aparece-me como herdeiro do conflito há muito assinalado entre objetivismo empirista e subjetivismo transcendental.

Propugno uma ciência social comprometida em todos os seus passos com a teorização, uma ciência social que não abandone os processos de observação e verificação, mas que não seja ingênua ao ponto de pensar que o elemento analítico por si só tem a capacidade de resolver os dilemas teóricos; uma ciência social que pondere os valores por via de uma atitude universalizante, embora não fechada, uma atitude de grande abertura. As ciências sociais não deveriam estar a seguir nem os passos nem os impasses das ciências naturais que colocaram a natureza num quadro de esvaziamento ético e assim a cederam como coisa para o mercado e o consumo. A posição que defendo é, pois, excêntrica às duas variantes mais importantes da atual epistemologia das ciências sociais, a monista cientificista e a relativista subjetivista extrema, o que me afasta também – creio ter boa consciência disso – das modas, dos ritos, dos “gurus” e dos lugares de consagração dessas duas perspectivas.

A.H. O sr. trabalha com um universo bem amplo de temas sobre tecnociências, principalmente as tecnologias e as biotecnologias. Na introdução a um dossiê na revista Análise Social, escrita com Hermínio Martins, os Srs. afirmam que “com respeito às sociedades tecnológicas contemporâneas […] não seria excessivo sugerir que a sociologia das tecnologias não deveria ser encarada como uma subdisciplina — estudo de um subsistema do sistema social ou de uma instância do universo sócio-cultural entre outras —, mas como praticamente a sociologia tout court”. Gostaríamos que o Sr. explicasse as razões de tal centralidade das tecnociências não apenas para sua obra, mas também para a compreensão das sociedades contemporâneas.

J.L.G. Na segunda pergunta desta entrevista, já tive oportunidade de me referir de passagem, a propósito das tecnociências, à introdução que o Hermínio Martins e eu escrevemos a esse dossiê da revista Análise Social n. 181. Nesse texto, a compreensão que eu e ele revelávamos da importância decisiva das tecnociências no mundo contemporâneo tinha como base, e menciono usando quase sempre as mesmas palavras, que as ações humanas intencionais, ou as trans-ações humanas, são hoje principalmente impulsionadas por dispositivos técnicos, envolvidas em sistemas técnicos automatizados ou informatizados, mediadas por nexos técnicos, sujeitas aos constrangimentos da tecnosfera e mesmo direcionadas pelo dinamismo técnico que aponta para rumos a seguir nas práticas sociais. Defendíamos que, de certo modo, as ações ou trans-ações humanas, certamente as mais relevantes nas suas consequências sociais, se tinham convertido sobremaneira em co-ações de homens e máquinas, no sentido lato da palavra “máquina”, ou em co-ações técnico-humanas, inseridas em redes e sistemas tecnológicos, e que tal disposição não deixaria de aumentar no futuro previsível. Em consequência, sustentávamos nesse texto que a definição clássica das tarefas das ciências sociais poderia ser enunciada e atualizada da seguinte forma: o objetivo principal das ciências sociais deveria consistir, nos dias de hoje, em compreender e explicar as formas e os mecanismos de produção das consequências, desfechos e subprodutos inesperados, imprevistos, não intencionais, e especialmente negativos, das co-ações ou trans-ações técnico-humanas para o mundo societal e humano, e para o mundo extra-societal, e também procurar esclarecer o sentido humano e histórico global desses processos. Sugeríamos ainda que tal definição era consentânea com o que foi a ambição principal da sociologia clássica em relação à sociedade industrial do seu tempo. Surgia, pois, dessa premissa o conceito segundo o qual, com respeito às sociedades tecnológicas contemporâneas, a sociologia das tecnologias ou das tecnociências deveria ser encarada como praticamente toda a sociologia.
Deixávamos bem claro que com esta caracterização da sociologia não se pretendia absorver totalmente a tecnologia na sociedade, como faz o construtivismo social mais radical, pois os objectos técnicos têm, para além do seu papel social (mesmo que não sejam bem caracterizados como “actantes”, ou, por maioria de razão, “agentes”), um modo de existência (recorrendo a uma noção de Simondon) não social, com uma certa irredutibilidade ontológica. E tão-pouco se pretendia reduzir a sociedade à tecnologia ou à cultura material, embora vários autores asseverem que a nossa cultura hodierna é precisamente a cultura material, a nossa realidade cada vez mais a realidade virtual, o nosso espaço o ciberespaço, a nossa inteligência cada vez mais incorporada em software e o social tendencialmente nada mais do que flash crowds evanescentes, e acentuem os processos de virtualização da realidade social em curso que adiantam a eventualidade de as nossas funções sensoriais virem a ser assumidas por sentidos eletrônicos. Acrescentaria hoje que a sociologia das tecnociências é crucial para conhecer e reverter, no quadro da atual aceleração tecno-econômica-mercantil, as fraquezas congênitas que revelam as sociedades do século XXI por ser impelidas por forças que as direcionam para que sejam em simultâneo sociedades de mercado e sociedades tecnológicas. As sociedades do século XXI estão num processo veloz de conformação aos processos movidos pelas tecnociências e pela dinâmica do mercado ao serviço da expansão da economia crematística e do aumento de poder, havendo uma pletora de razões para analisarmos o seu rumo e nos preocuparmos.

A entrevista na íntegra está no livro
Sociologia das tecnociências contemporâneas

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