Fios do tempo. Em tempos de solusvírus, será possível convivialismo? – por Marco A. de C. Silva

No contexto do debate sobre o coronavírus, lançado por Paulo Henrique Martins, publicamos o artigo de Marco Aurélio de C. Silva, escrito com colaborações pontuais de André Magnelli. Fazendo uma interlocução entre distintas interpretações da atualidade, como Byung-Chul Han, Richard Sennett e Marcel Gauchet, Marco reflete sobre a possibilidade do convivialismo: em tempos de coronavírus, surgirão novas formas de convivialidade ou se reforçarão formas de vida em solus virulento? Temos aqui uma reflexão sobre os riscos de um acirramento do neoliberalismo, mas também a aposta em uma psicanálise que faça avançar a experiência convivial e democrática.

A. M.




Em tempos de solusvírus
será possível convivialismo?

Rio de Janeiro, 21 de março de 2020

Escrevo este texto mobilizado pela leitura de Coronavírus: da crise do capitalismo neoliberal às vias para uma democracia convivial. Como sempre, os textos do Paulo Henrique Martins mexem com os leitores. Fiquei pensando em algumas questões e me deparei comparando esse evento da pandemia com o evento de 11 de setembro. Talvez as leituras de Topologia da violência de Byung Chul Han e de Declínio do Homem Público de Richard Sennett, que estamos fazendo em nossa livre-pesquisa no Ateliê de Humanidades, tenham feito mais sentido a partir do que Paulo escreveu sobre a crise do neoliberalismo e a necessidade de “des-hipertrofiar” o eu.

Distâncias encolhidas, indivíduos distanciados

O ataque às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001 foi marcante por várias razões. Uma delas, com certeza, foi o fato de termos visto o ataque à segunda torre em tempo real. Pode ter sido, então, a primeira vez que nos demos conta de que o mundo se tornara menor, ou talvez, melhor dizendo, mais conectado.

O que é feito em uma pequena cidade no Alasca pode ser visto em vários lugares do mundo exatamente no mesmo instante. Apesar de não poder afirmar sem maior investigação, parece-me que essa tomada de consciência também pode ter influenciado a proliferação de reality shows e a exposição e hipertransparência de hábitos individuais da vida cotidiana. Coincidentemente, após o entendimento de que ver algo em tempo real era possível, os hábitos e as preferências de várias pessoas no mundo mudaram. 

Poderíamos pensar que essa tomada de consciência seria efeito da globalização e que o mundo conectado seria um lugar melhor para se viver. Passou, inclusive, a ideia de que nada escaparia aos nossos olhos e, portanto, as diferenças e indiferenças do mundo seriam expostas. 

O mundo ficou menor e mais conectado, mas as pessoas não necessariamente ficaram mais próximas. Há uma relação paradoxal entre a aparente diminuição das distâncias por conta do mundo virtual e o aumento do distanciamento entre os indivíduos. Podemos ver o modo de vida de alguém da China, mas não sabemos o nome dos nossos vizinhos de porta.

É importante retomar Richard Sennett, em seu livro sobre O declínio do homem público, no tocante à arquitetura das cidades americanas. Desde os anos 70 elas foram projetadas para carros e não pessoas. Essas não ocupavam mais as ruas, pois passaram a transitar de um ponto a outro. A arquitetura das cidades era comparada à arquitetura de um novo processo de subjetividade, o qual ele chamou de “declínio do homem público”. O homem da segunda metade do século XX tornara-se mais privado, privado do espaço público, privado do contato físico com o outro e, consequentemente, privado de confiança. Como nos lembra Byung-Chul Han, “a confiança é um estado intermediário entre o saber e o não-saber” (HAN, 2019, p. 203). Esse homem descrito por Sennett deixa de confiar em uma democracia convivial e passa a buscar o saber e a verdade nele próprio.

Esses egos isolados entraram no século XXI e se depararam com o mundo virtual, onde eles gozaram com a ideia de poder aniquilar a distância do mundo. Porém, esses mesmos egos diminuíram a possibilidade de uma ação em conjunto, que só é possível a partir de uma democracia convivial, sobre a qual Paulo Henrique Martins descreve tão fluentemente em seu artigo sobre um segundo evento marcante do mundo: o novo Coronavírus.

O coronavírus reforçará um solus virulento?

O Covid-19 deflagra, mais uma vez, depois de 19 anos, que o mundo está cada vez menor, cada vez menos distante. Vimos o adoecimento, o pânico e o sofrimento de uma cidade na China em tempo real, acompanhamos a trajetória desse vírus em outros países até sua chegada no nosso país. Esse vírus, assim como o homem do século XXI, não conhece fronteiras. É oriundo da desterritorialização. O mundo é território de todos, física ou virtualmente, de todos que possam pagar por ele! Mas todos acabam pagando por ele de alguma maneira…

Indubitavelmente, a pandemia do COVID-19 que vemos no mundo globalizado é uma crise no âmago desse capitalismo neoliberal que faz uso do imperativo da transparência para transformar a vida privada em uma propaganda de si mesmo e faz do outro um espectador enquanto consumidor desses estilos de vida de egos isolados, o que Byung-Chul Han incessantemente debate em seu livro A topologia da violência.

De uma maneira impressionante, os países, que se gabavam por não mais demarcar limites geográficos por conta da globalização, incentivando o comércio entre países e a indústria do turismo, tiveram de voltar atrás e tentar impor limites e fronteiras. Precisam criar regras para que as pessoas voltem a pensar no bem estar público. Não podem tampouco incentivar o consumo, pois pedem que seus cidadãos fiquem em casa. Em contrapartida, estão preocupados com o neoliberalismo que necessita do trânsito dos consumidores, não da ocupação do espaço público de uma maneira convivial, e liberam entretenimento através de TV a cabo e internet para manter esses mesmos cidadãos entretidos em seus próprios lares. Se como esclareceu Sennett sobre o declínio do homem público, o socius deu lugar ao solus (HAN, 2019, p. 244), agora, temos de ver fazer o caminho inverso, ou seja, fazer com que o solus, esse ego isolado, dê lugar a algum socius.

Damo-nos conta, hoje, de que os egos isolados do mundo contemporâneo, que sabem o que fazer com o tempo real, ocupado, mesmo aceleradamente ocupado, não sabem o que fazer com o tempo livre. Essa inabilidade de lidar com o tempo livre pode levar a complicações psiquiátricas tais como crises de ansiedade, pânico e depressão.

A minha questão é: será que o efeito dessa pandemia vai fazer com que a sociedade se torne mais convivial ou será que as medidas impostas de isolamento social acabarão por piorar o esvaziamento do público? A experimentação do home office pode dar ideias ao capitalismo neoliberal. Pode aumentar a vontade de downsizing dos espaços de trabalho e do quadro de pessoal. Pode borrar mais ainda as fronteiras entre trabalho e lazer já que as pessoas podem trabalhar cada vez mais em casa. Para usarmos a distinção que Han faz entre vivência e experiência, como a sociedade contemporânea pode rever o imperativo do desempenho e da transparência, abrindo mão das vivências e focando mais nas experiências da ação em conjunto? 

Um reforço da imunologia na relação com o outro?

O capitalismo neoliberal tentará de tudo para fazer as pessoas esquecerem dessa pandemia assim como acontece no Instagram. Os stories estão visíveis por 24 horas e depois são para sempre apagados (excetos os que ficam em destaques para fins de manutenção de “publicidade” do perfil). O neoliberalismo está tão enraizado nos sujeitos que os camelôs viram a possibilidade de ter lucro na compra de álcool em gel. Estavam vendendo um frasco por 40 reais em frente aos supermercados e farmácias que já não tinham mais o produto. A preocupação com o outro vem em segundo lugar. Primeiro é o lucro.

Byung-Chul Han aborda com brilhantismo a questão da relação à alteridade. Numa sociedade que busca o igual, sem fronteiras, a questão da alteridade dá lugar à inclusão. Porém, é uma inclusão que quer vendar os olhos para o diferente. Portanto, não inclui. Para o autor, saímos de um paradigma imunológico e adentramos o paradigma neuronal. No primeiro, algo estranho deveria ser assimilado para que eu pudesse criar defesas. Em outras palavras, se fazia necessária a assimilação do estranho para desenvolver defesas imunológicas a ele. No segundo caso, não há reconhecimento do estranho, pois o sistema engloba ou engole tudo que gira em torno dele. O sistema não adoece de um corpo estranho. Ele superaquece e trava, como num burnout…  

O capitalismo neoliberal é consonante ao paradigma neuronal proposto pelo filósofo. Busca apagar as diferenças, as estranhezas. China e Estados Unidos vibram na mesma sintonia porque estão imersos nesse mesmo sistema. O aparecimento do Covid-19 provocou um curto circuito. Assim, a emergência do Coronavírus nos coloca mais uma questão. Estamos todos tão obcecados pelo nosso próprio sistema que deixamos de ver algo que está totalmente fora dele: um agente estranho ativa nosso sistema imunológico de repente, lembrando-nos de que, se o sistema de defesa não funciona bem, ele pode se autodestruir, perdendo a capacidade de se identificar e diferenciar-se do que não é, fragilizando-se em relação ao que pode destruí-lo ou voltando-se contra si mesmo (como nos adoecimentos autoimunes).

O que é imposto aos sujeitos neste momento é a necessidade de termos de olhar para fora do sistema que inventamos e nos acostumarmos e assimilarmos esse corpo estranho. Como diz Nietzsche, uma dose de veneno faz viver; analogamente, uma dose de estrangeiros, de corpos estranhos, que nos ameaçam mas com os quais temos que aprender a viver, pode nos tirar do indiferenciamento geral da sociedade da transparência e da letargia ativista da sociedade do desempenho. 

Entretanto, nosso sistema parece ter criado uma ilusão ou até mesmo um delírio de que não podemos perder tempo com o que está fora do sistema; o que importa é fazer girar de novo a roda da produção e do consumo, e que gire ainda mais rápido assim que puder. Desta forma, atribuímos às ciências médicas a tarefa de resolver esse problema do tempo de assimilação e cura. Tempo é dinheiro e ter de parar, esperar e atuar para assimilar o diferente para ficarmos imunes parece nos remeter à era das pestes, como se fosse mero retrocesso do qual se livrar rapidamente. Há uma histeria pela saúde para manter vivo um sistema que não pode perecer, e que confunde o desafio posto pela alteridade à vida com um mero obstáculo sobre o qual saltar.

Sairá disso uma democracia convivial?

Por isso temos que nos perguntar: será que essa pandemia vai abalar o paradigma neuronal apontado por Byung-Chul Han? Não temos como saber. A tomada de consciência do tempo real no evento de 11 de setembro teve desdobramentos comportamentais imprevisíveis. O socius se tornou mais solus e acharam uma maneira de fazer dinheiro com isso. E agora? Será que o Covid 19 não vai nos tornar mais isolados ainda, criando uma aversão ao contato físico, promovendo o contato virtual? Sem dúvida, a mobilização feita pelas mídias sociais na última eleição presidencial provou ser bem eficaz. Mas isso tornou os cidadãos mais socialmente engajados? Como seria uma democracia convivial no virtual? Como se faz a inversão do socius dando lugar ao solus? Corremos o risco de que a única “heterotopia” a vingar desta crise é a de uma sociedade de home office e de netflix e pornhub com acesso aberto para todos. Na contracorrente desta tendência, é importante reforçar a questão apontada por Marcel Gauchet, como sendo a grande questão pela qual poderíamos sair do processo de autodestruição de uma democracia voltada contra si mesma, o de retomar o político, desafio para o qual a psicanálise pode ter um papel fundamental: o de estabelecer para si o objetivo de fazer com que o ser-si mesmo (être-soi) possa existir e agir como ser em conjunto (être-ensemble).


Marco Aurélio de Carvalho Silva é psicanalista, mestre em teoria psicanalítica pela UERJ e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades.


Fontes das imagens: Imagem de capa: Fonte não identificada; Imagem 1: Fonte não identificada; Imagem 2: Sarleinsbach Pfarrkirche/Academy of Ideas; Imagem 3: Cena do filme ‘TOC, TOC ‘, estrelado por Paco León, Alexandra Jiménez e Adrián Lastra.

Um comentário em “Fios do tempo. Em tempos de solusvírus, será possível convivialismo? – por Marco A. de C. Silva

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  1. Olá Marco, excelente seu artigo ! Você aborda com riqueza os impactos da emergência do coronavírus nesse momento existencial da humanidade engolida pelo neoliberalismo claudicante diante do desafio que o “bichinho” impôs ao “sujeito-mercado” e em seus véus ,os quais não podem mais disfarçar os percalços de seu “curto-circuito”..Estamos diante vigorosos impasses e suas indagações ,creio, estimulam o pensar… para “agir” na busca de real “inclusão” . Os passos portanto demandam operatividade, iniciativas que forcem a “curva da morte” para que a vida se regenere. Interessante que mesmo com isolamento social , no Brasil os “panelaços” estão acontecendo , e nossa colega psicanalista está num “grupo de humanidades” se dispondo a atendimento gratuito nesta crise .Será “o si mesmo como outro”‘ de Ricoeur Fluidos de nossa capacidade de amar de verdade reagindo às pressões de dispersão? Os movimentos de solidariedade crescem… todavia sua indagação continuará enquanto mercado for “sujeito” e não ferramenta, creio.

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