Fios do Tempo. A cultura do Natal: rituais, símbolos e seus significados numa perspectiva antropológica

Como se estabeleceu a cultura do Natal? Quais são as origens e os significados dos distintos objetos, práticas e símbolos que se agregaram em torno dessa celebração de fim de ano?

Hoje, no Fios do Tempo, Donizete Rodrigues, professor colaborador na Columbia University (New York) – Seminar Studies in Religion, traz uma análise antropológica dos componentes dessa cultura.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura. E boas festas!

A. M.
Fios do Tempo, 17 de dezembro de 2025

Leia também outros artigos sobre o Natal publicados em anos anteriores no Fios do Tempo:

. Natal. Uma Etnografia da Festa e de Papai Noel – por Martyne Perrot;
. Então é Natal… e o que você fez? – por Lindoberg Campos

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A Cultura de Natal:
rituais, símbolos e seus significados numa perspetiva antropológica 

Do ponto de vista antropológico, o Natal constitui um complexo sistema cultural e simbólico-religioso. Como prática cultural, é profundamente marcada por rituais, elementos imaginários e símbolos, que refletem o sagrado-religioso de uma sociedade/comunidade/grupo. Realizado no solstício de inverno, no contexto doméstico, no lar(eira), constitui um dos rituais centrais de sociabilidade, funcionando como elemento de coesão familiar e social, manifestação de afetos, transmissão de valores e (re)atualização de identidades, memórias e narrativas coletivas e familiares. 

É pertinente realçar que essas tradições (e símbolos) do Natal, com origem na Europa medieval, foram incorporadas/integradas na cultura ocidental, nomeadamente na Escandinávia, Reino Unido e na América do Norte. Nos Estados Unidos, em particular, seguindo uma lógica comercial, foram materializadas em inúmeros e famosos filmes e músicas/musicais, que hoje são populares em todas as partes do mundo.

Segundo Andrew Collins, na obra Stories behind the great traditions of Christmas (2003), no contexto do Natal, destacam-se ritos, rituais, cerimônias, vários elementos e personagens, imaginários e reais. Então vejamos:

Papai Noel: é a representação do famoso bispo turco São Nicolau (séculos III e IV), admirado pela sua enorme bondade. Conta a lenda que se tornou popular quando salvou três irmãs pobres de serem vendidas como escravas, dando-lhes um dote para que pudessem se casar. Por isso, ficou conhecido como o protetor das crianças. No século XVIII, esta figura foi introduzida nos Estados Unidos, em Nieuw Amsterdam (posteriormente New York), por imigrantes holandeses; daí a evolução do nome: Sint Nikolaas/Sinter Klaas/Santa Claus. O traje vermelho (ícone cultural mundial) está relacionado a uma campanha de publicidade da Coca-Cola, realizada em 1931.

Árvore de Natal: de origem pré-cristã, ligada a rituais do solstício de inverno, foi incorporada pela tradição cristã como símbolo de renovação e continuidade. Como símbolo de vida renovada, o costume de enfeitar uma árvore na altura do Natal começou na Inglaterra, por iniciativa da rainha Vitória (que reinou entre 1876 e 1901) e do seu marido Albert, de origem alemã. Em 1889, esta tradição chegou aos EUA e hoje é uma tradição muito popular um pouco por todo o mundo.

Coroa: colocada na porta principal de entrada da casa, é uma tradição do norte da Europa e está associada à preparação da árvore de Natal: os galhos eram aparados em triângulos – os três pontos simbolizando a Santíssima Trindade (Deus/Pai, Jesus/Filho e o Espírito Santo). As sobras eram utilizadas para confeccionar a Coroa, em formato circular, simbolizando a eternidade e o conceito cristão de vida eterna.

Luzes, velas e iluminações: Thomas Edison foi o inventor da lâmpada, mas foi o seu colega Edward Johnson que teve a ideia de colocar luzes na árvore de Natal. Em 1882, substituindo as velas que iluminavam os galhos, ele amarrou lâmpadas coloridas em volta de uma pequena árvore e a exibiu na janela de sua casa, em New York. Em 1903, começaram a ser comercializados os kits pré-montados de fios de luzes. Simbolicamente, é a vitória da luz sobre as trevas, um elemento universal de esperança coletiva, de renascimento, de renovação do ciclo da vida. 

Presépio: introduzido no século XIII por São Francisco de Assis (daí a presença de animais), o presépio é uma dramatização visual do nascimento de Jesus. Simbolicamente, remete a uma “localização do sagrado”, um reforço da manifestação local da fé – por isso muitos países criam presépios com elementos da sua própria cultura (personagens, trajes, animais, objetos).

Música e cantos natalinos: operam como rituais sonoros, que marcam a chegada de um tempo especial, sagrado, ligado ao nascimento, à renovação e à esperança. Sincronizam emoções, que evocam a memória festiva, reforçando o sentimento de pertença e de afetos.

Cartão Postal: em 1840, havia na Inglaterra um membro da alta sociedade de nome Sir Henry Cole, mais conhecido como o fundador do Victoria and Albert Museum em Londres. Era comum, na época, escrever cartas de Natal e Ano Novo para as pessoas mais chegadas. O problema era que ele tinha muitos amigos e, por isso, tinha que escrever centenas de cartas do próprio punho e não tinha tempo nem paciência para fazer isso. Como resolver esta questão? Ele teve uma ideia genial – padronizar e imprimir a mensagem – “Merry Christmas and Happy New Year to you”. E surgiu assim o primeiro cartão de Natal. No caso do Calendário do advento, de acordo com o Austrian Landesmuseum, foi criado pelo editor alemão Gerhard Lang, no início de 1900, mas tornaram-se populares comercialmente somente em 1920.

Meias na chaminé: é uma tradição relacionada com a origem do Papai Noel. Na Europa do século XVII, como vimos no item anterior, havia um pai que precisava casar as três filhas, mas não tinha dinheiro para os dotes. Ouvindo as suas súplicas, São Nicolau desceu furtivamente pela chaminé e encheu as meias das filhas, colocadas junto à lareira para secar, com moedas de ouro, para que o pai pudesse pagar os dotes de casamento.

Bastões de doces: a tradição da distribuição dos bastões de doces para as crianças começou, em 1670, quando o responsável pelo coro da Catedral de Colônia (Alemanha), para manter as crianças quietas durante a apresentação, teve a ideia de distribuir palitos de doces. O formato de um cajado de pastor simboliza Jesus, o “bom pastor”, que cuida do seu rebanho. Em 1847, este costume foi levado para os Estados Unidos pelo imigrante sueco-alemão chamado August Imgard. No caso dos biscoitos, a sua origem remonta à Europa medieval. No século XIX, foram criados os populares biscoitos de Natal, com vários sabores e formatos (estrelas, árvores, figura de São Nicolau, etc.).

Biscoitos e leite para o Pai Natal comer: esta tradição remonta à Alemanha medieval. Nesta época do ano, as crianças, antes de dormir, colocavam comida nas janelas para, em troca, as pessoas deixarem presentes para elas. Nos EUA, o costume de deixar leite e biscoitos para Santa Claus começou durante a grave crise econômica (Grande Depressão, 1929); nestes tempos difíceis, era uma forma de agradecer a Deus a bênção de terem comida na mesa.

Missa do Galo: celebrada à meia noite de 24 para 25 de dezembro (na tradição, com o canto do galo, que anuncia o nascer da luz), é uma celebração litúrgica que anuncia (Boa Nova) o nascimento de Jesus, “a luz do mundo”. A vigília espiritual proclama a luz que vence as trevas, desperta e renova a fé e a esperança cristã.

Ceia: como celebração do nascimento de Jesus, a comensalidade é um ritual de (re)união. Simbolicamente, representa a abundância, a partilha, a comunhão. Com uma culinária específica de cada país, cultura, região, à mesa reúne-se a família – avós, pais, irmãos, tios, primos, adultos e crianças ocupam lugares específicos, tanto na mesa como na narrativa familiar, numa (re)afirmação do sentimento de pertença e continuidade geracional. É um momento especial, de encontro familiar, envolvendo deslocações, reorganização de rotinas e preparação cuidadosa de espaços domésticos. É um tempo extraordinário, de liminaridade, distinto do cotidiano, com narrativas históricas compartilhadas, o que contribui para a (re)produção de uma memória coletiva familiar. Do ponto de vista religioso, e numa lógica espiritual-eucarística, evoca o acolhimento de Jesus, a partilha do alimento, do pão e do vinho, onde comer juntos significa reconhecer o outro como irmão e tornar presente um mistério que une o humano ao divino.

No que refere especificamente às tradições de natal em Portugal, na ceia de Natal, o bacalhau, a couve e o azeite assumem um profundo significado simbólico. Do ponto de vista religioso, o bacalhau, enquanto peixe evoca um antigo símbolo cristão, está ligado à tradição católica da abstinência de carne, expressando sobriedade, humildade e preparação espiritual para o nascimento de Cristo. A couve, associada à terra e à subsistência camponesa, resistente ao frio e verde em pleno inverno, simboliza vida, continuidade e esperança. O azeite está associado à bênção, consagração, proteção e a graça divina. Utilizado nos sacramentos (batismo, unção dos doentes, crisma), simboliza a presença do Espírito Santo. Na ceia, esta trilogia, de caráter sagrado, funciona como elemento mediador que sacraliza a refeição, simbolizando harmonia e bênção sobre a família e a casa. Ou seja, em conjunto, bacalhau, couve e azeite formam uma refeição ritual, reforçando a comunhão da família com Jesus, que une mar e campo e marca um rito de passagem do tempo de contenção para a abundância de comida – o farto almoço do dia de Natal, com o consumo de carne e doces.

Troca de presentes: a troca de presentes é um dos elementos estruturantes do Natal. Esta prática está associada aos três reis magos da narrativa cristã, que levam presentes para Jesus. Simbolicamente, é um gesto de reciprocidade, de afeto e amor. Na lógica da teoria da dádiva do antropólogo Marcel Mauss, cria a “obrigação” moral de receber e retribuir. A troca reforça laços de alianças e reciprocidades, vínculos afetivos de amizades, familiares e amorosos.

***

Em síntese, o Natal revela-se, do ponto de vista antropológico, como um fenômeno cultural de enorme significado, no qual se entrecruzam dimensões sociais, econômicas, religiosas, simbólicas e afetivas. Longe de ser “apenas” uma celebração religiosa ou um evento festivo do calendário cristão, constitui um poderoso mecanismo de (re)produção cultural, capaz de atualizar memórias coletivas, reforçar identidades e promover a coesão social e familiar. Os seus rituais, símbolos e personagens – resultantes de períodos históricos diversos, combinando elementos pré-cristãos, cristãos e modernos/comerciais – demonstram a notável capacidade das culturas, sociedades e grupos de reinterpretarem e ressignificarem cerimônias do solstício de inverno (Saturnália), como é o caso do Natal.

Assim, o Natal afirma-se como um tempo extraordinário, marcado pela liminaridade, pela partilha e pela esperança, onde a luz simbolicamente vence as trevas, o convívio reafirma laços e afetos e a dádiva cria pontes de reciprocidade. Quer nas tradições universais, quer nas especificidades locais, esta celebração continua a funcionar como um espaço privilegiado de transmissão de valores, de reforço do sentimento de pertença e, do ponto de vista religioso, de ligação entre o humano e o divino, confirmando o seu papel central na vida cultural e simbólica das sociedades contemporâneas.

Sugestões bibliográficas 

Barth, Fredrik (1969) Ethnic Groups and Boundaries: the social organization of culture difference. Boston: Little, Brown and Co. 

Douglas, Mary (ed.) (1972) “Deciphering a Meal”. In: Implicit Meanings: essays in anthropology. London: Routledge & Paul, pp. 249-275.

Durkheim, Émile. (1912) Les formes élémentaires de la vie religieuse. Paris: Félix Alcan.

Eliade, Mircea (1957) The Sacred and the Profane: the nature of religion. New York: Harvest, Brace & World.

Geertz, Clifford (1973) The Interpretation of Cultures. New York: Basic Books.

Goffman, Erving (1967) Interaction Ritual: essays on face-to-face behavior. New York: Anchor Books.

Lévi-Strauss (1952) “Le Père Noël supplicié”. Les Temps Modernes, nº 77, pp. 1572-1590. Paris: Les Éditions Gallimard.

Mauss, Marcel (1925) “Essai sur le Don”. In: Sociologie et Anthropologie. Paris: Presses Universitaires de France, pp. 143-279.

Strathern, Marilyn (1988) The Gender of the Gift. Berkeley: University of California Press.

Turner, Victor (1969) The Ritual Process: Structure and Anti-Structure. New Jersey: Rutgers. 

DONIZETE RODRIGUES é doutor em Antropologia social pela Universidade de Coimbra, com Livre-Docência em Sociologia. É Collaborating-Professor na Columbia University Seminars Studies in Religion.

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