Fios do Tempo. Então é Natal… e o que você fez? – por Lindoberg Campos

Trazemos hoje, no Fios do Tempo, o belo texto de Lindoberg Campos sobre o sentido do Natal. Tomando como mote a canção “Então é Natal”, que foi consagrada em português na voz de Simone (e composta em inglês por John Lenon e Yoko Ono), Lindoberg tece sua reflexão dialogando com a teologia, a literatura e, sobretudo, com nossa experiência cotidiana, cujo sentido está imerso em nossa capacidade de narrar a existência e agir em sua correspondência.

Então é Natal, e o que você fez?
O ano termina e renasce outra vez
[…] E assim é o Natal (a guerra acabou)
[…] Para preto e para branco
Para os amarelos e vermelhos
Vamos parar toda a luta

Um Natal muito Feliz
E um Feliz Ano Novo
Deixe-nos a esperança de que seja bom
Sem qualquer medo

A guerra acabou
Se o quiser
A guerra acabou
Agora

Uma feliz passagem de festas para todos!

A. M.
Fios do Tempo, 24 de dezembro de 2021



Então é Natal……e o que você fez?

“Então é natal”. Sim, essa frase ecoa nos ouvidos brasileiros quase como um conclame milenar que nos desperta do sono profundo em que o tempo nos absorveu durante o ano e nos lança num tempo de reflexão, mobilização e esperança. A frase aciona instantaneamente uma melodia na memória coletiva que nos aponta, como uma estrela de Belém, o início de um novo momento. “Então é natal” resgata certa “memória afetiva” que é acompanhada de imagens de propagandas veiculadas em diferentes mídias, shoppings lotados, correria para comprar presentes, uma lista enorme que envolve parentes mais distantes a serem agraciados com uma “lembrancinha”. É preciso comprar, o Natal chegou e com ele a necessidade de consumo. Mas o capitalismo está aí para isso, vender; compra quem deseja (e pode). “Então é natal” figura ao lado do jingle de propagandas da rede Leader (o famoso “Já é natal na Leader!”) como os prenúncios de uma nova época. Esses dois exemplos nos mostram que o anúncio natalino contemporâneo está a cargo da propaganda e do marketing. 

Mas não nos enganemos com a apropriação indébita do chamado “espírito natalino” pelo capitalismo. Não quero dizer que Jesus não possua performance de vendas nem que seja marqueteiro, se o fosse não teria sido crucificado. Mas a verdade é que o capitalismo é antropofágico, devora tudo que pode ser vendido. Narrativas movem os humanos. E neste caso, a milenar história do nascimento de um deus que se faz carne é muito atraente. Falta explicar como a pobreza do menino se tornou numa opulência tamanha que até a Coca-cola fez dessa narrativa uma poderosa máquina de propaganda. Seria interessante ver Maria e José abrindo uma coca para celebrar o nascimento da criança. Mas não pensemos que isso passa despercebido aos olhos dos paladinos da fé que estão de plantão para nos alertar do verdadeiro sentido do Natal e a preservar a hermenêutica que nos conduz para o cerne da celebração. 

A proximidade do fim de ano mobiliza um arsenal de discursos religiosos que proliferam narrativas que incitam ao período de reflexão em que, segundo sua tradição, Deus se manifesta na carne humana em condição social de pobreza. O fenômeno do Natal torna-se importante ponto de observação desde uma perspectiva antropológica e nos aponta para infinidade de possibilidades que uma hermenêutica pode operar sobre a história do “Deus criança”. É interessante notar como algumas igrejas (algumas filhas diretas do capitalismo) tentam resgatar as ovelhas que começam a se perder num mundo híbrido e móvel que abandona as raízes religiosas de uma experiência pretérita. No entanto, o mito precisa de dogmática para expressar sua efetividade? Diante de uma tradição que se vê permeada de símbolos novos a cada momento e que transmuta a essência celebrativa em verve consumista, os discursos que retomam a necessidade de austeridade, de recolhimento para uma introspecção que possibilite uma revisão na forma como compreendemos e formulamos nossas ações no mundo não deixam de ser necessários e urgentes. Numa época em que ganha corpo um apelo por mudanças estruturais nas nossas ações, retomar a imagem de um deus que comunga da miserabilidade em que seus semelhantes vivem pode ser um caminho alternativo que nos leve a pensar em ações mais concretas de convivência.

Não à toa, apesar da apropriação capitalista da música cantada por Simone e composta por John Lenon e Yoko Ono (Então é Natal), a canção traz logo após a feliz afirmação que é chegado o Natal uma pergunta que parece incômoda: “e o que você fez?”, para então arrematar num lance cíclico de término temporal, “o ano termina e renasce outra vez”. É quase um anúncio apocalíptico que lança os fiéis à beira do fim logo após o êxtase celebrativo da vida. A pergunta torna-se incômoda porque nos coloca diante de um espelho em que nos questiona como humanos. Daí percebemos porque “Narciso acha feio o que não é espelho”. Se a pergunta “e o que você fez?” é pertinente é porque a radicalidade da experiência cristã não pode (e isso já foi exaustivamente debatido nos meios teológicos) repousar numa metáfora linguística. Ela requer um ethos, uma ação, uma experiência própria que apesar de ser singular, se amplifica no tempo e se renova em ações concretas.

A imagem de um “Deus criança”, cujos pais necessitam refugiar-se para preservar a vida franzina que ali se apresenta, parece metaforizar no século XXI uma pergunta que questiona o que fizemos com os pobres das periferias e subúrbios; o que fizemos com o migrante que busca sobreviver e prolongar por mais um pouco a sua miserável existência. O problema não parece ser a apropriação indébita do capitalismo que antropofagiza a celebração, mas justamente uma prática cristã que seleciona os tipos sociais convidados ao banquete celebrativo. 

Freud já havia alertado para a radicalidade que a mensagem cristã carregava em seu bojo. O que o pai da psicanálise parece não ter alcançado era a compreensão de amor a partir do campo das ações e não dos afetos. No cristianismo, o conceito de amor passa por uma ação que requer deslocamentos dos sujeitos numa seara de atuação pública. Para alguns, a pobreza do “Deus criança” é um discurso encantador quando opera na ficcionalidade, quando dispõe sua potência no plano estético. É bela a tradição dos presépios que herdamos de Francisco de Assis, aquele mesmo sujeito que rasga suas vestes em praça pública e se faz inteiramente carne despida. Mas a loucura do corpo nu (presente na fragilidade divina da criança ou na ousadia contestatória do santo) é interessante quando seu plano estético não se substancializa no plano ético. Aceitar a nudez de uma divindade que “escolhe” a marginalidade para se revelar, é no mínimo constrangedor para as classes abastadas que, apesar de basearem sua experiência de mundo a partir dessa narrativa, a deslocam de sua efetividade prática.

Fernando Pessoa havia capturado essa necessidade de se renovar a narrativa, de modo que ela corresponda com anseios novos e novas perspectivas ao fazer o “menino deus” tornar-se outra vez criança, a brincar em sua aldeia numa constante renovação do ato de nascimento em que se rejeita todas as figuras que imprimiram uma dogmática nefasta à atuação. Também João Cabral de Melo Neto nos reservou uma interessante imagem de um “Deus criança” que ao nascer no mangue das periferias do Recife, exibe a vitalidade de uma vida franzina, mesmo surgindo em meio à miserabilidade social que se perpetua a cada dia no Brasil.

Por vezes esquecemos que o poema-narrativo Morte e vida Severina é um auto de Natal; isto é, uma peça teatral em que se encena o nascimento do “Deus criança”. Mas o que se apresenta, ante um espectador atento ao desenrolar dos fatos, é a mutação e permanência constante da morte. Uma morte que se manifesta em elementos do cotidiano, pela miserabilidade das condições de experiência, pela insensatez das relações de dominação e poder humanos. O evento do nascimento – belissimamente construído com elementos de uma experiência história e geográfica singular – ocupa pequeno cenário no auto natalino, mas aí reside sua força poética. O Natal torna-se ponto de inflexão numa experiência própria de mundo que retoma ao ponto inicial, à origem. 

O anúncio de nascimento é resistência que a própria vida imprime à sua natural condução para a morte. O Natal, sendo anúncio de esperança – pois lança no porvir sua concretização – é um fenômeno em que morte e vida se irmanam. A vida exibe-se, mesmo quando é assim franzina, numa potencialidade infinita. Ainda que seja uma vida marcada pela desesperança, pelo abandono de seus semelhantes e de escassez de recursos, ela se realiza justamente nesse ato. Cabe uma condução de ações pautada pela responsabilidade com o outro, com o acolhimento e o ensinar. 

No entanto, diante de uma experiência que nos conduziu durante milênios, formulou nossa compreensão de mundo e que impôs novas formas de relação com outros povos (o caso do encontro traumático entre colonizadores e povos originários, além da expressiva mobilização de contato com povos contemporaneamente isolados), cabe ainda replicar essas reflexões baseadas numa seletividade de narrativas?

A vilipendiada Teologia da Libertação parece ter percebido isso há tempos ao afirmar que o anúncio evangelístico, apesar de belo, para ser universal é preciso mergulhar na particularidade de cada momento. Numa América Latina marcada pela exploração desenfreada, sob os auspícios de uma religião que se fazia palaciana, estar ao lado do oprimido não pode e não deve ser retórica discursiva. Requer uma prática e ação que desestabiliza projetos estabelecidos de poder. Reconfigura os modos de relações sociais e aponta para novos horizontes de possibilidades. (Re)narrar a jornada de um “Deus criança” que se encarna naquilo que chamamos de periferia da sociedade, numa situação que comunga da miserabilidade social e que emerge como símbolo de uma experiência de mundo, pode nos obrigar a repensar a situação do migrante, do escravizado, do peão de obra, do operário da fábrica que, mergulhados numa sociedade consumista, podem se deixar levar para um abismo de desejos nunca realizados. Muitas vezes um desejo vendido como peça publicitária que incita o sujeito ao desânimo e tristeza quando não veem suas casas repletas de luz e apetrechos que servem apenas para saciar um vazio existencial de uma sociedade narcisista. 

A imagem de uma divindade vulnerável, que necessita fugir para o Egito com o intuito de preservar sua mirrada existência é a expressão máxima de uma necessidade de acolhimento; acolher o estrangeiro, aquele que aparenta ser uma ameaça. É quase inumano seguir a máxima do amor ao próximo. Requer deslocamento pessoal, abertura a uma alteridade que desestabiliza. A recente imagem de um garoto no lixo a segurar uma pequena árvore de Natal parece acender centelhas de comoção e reflexão, resta saber se essa reflexão abraçará a radicalidade do núcleo da mensagem cristã. O ciclo entre vida e morte se aproxima no limiar da percepção temporal. O ano termina, renasce outra vez, Então é Natal, e o que você fez?


Lindoberg Campos é professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), fundador-proprietário da instituição e marca Rodeador Cultural e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades.



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