Fios do Tempo. A potência do entre em Platão: do terceiro excluído ao terceiro elemento – por Aldo Tavares

“O que é o terceiro elemento? o que ele pode? qual a razão de excluí-lo? qual a razão de incluí-lo?”.

Neste ensaio, Aldo Tavares relê Platão com o intuito de desfazê-lo das imposturas acumuladas sobre si. Ao invés de lhe ser imputado, mais uma vez e de novo, a paternidade de um dualismo estático, Platão aparece aqui (nos seus escritos de maturidade), como o pensador da “díade”, isto é, de uma dualidade infinita que inclui o terceiro elemento – “o entre” – como constituinte do devir (em um a lógica amodal, distinta da lógica aristotélica).

Dialogando-o com Nietzsche-Foucault-Deleuze, este texto nos convida a um caminho de encontro ao barroco, questão que será abordada num ensaio a seguir.

Desejo, como sempre, uma excelente leitura!

A.M.
Fios do Tempo, 30 de julho de 2025


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A potência do entre em Platão:
do terceiro excluído ao terceiro elemento


Basta apenas um só conceito para que tenhamos a obra inteira de um filósofo, exemplo, este: pensado pela metafísica modal de Aristóteles, o de terceiro [elemento] excluído; ou ainda este: pensado pela metafísica amodal de Platão: o conceito de terceiro [elemento] incluído. Muitos os textos, porém, em que conceitos pensados por filósofos não chegam a ocupar uma só página, como é o caso destas de Fernando Haddad, O terceiro excluído: contribuição para uma antropologia dialética, onde não se aprofunda o pensamento conceitual do terceiro elemento a fim de que entendamos sua exclusão ou sua inclusão.

O que é o terceiro elemento? o que ele pode? qual a razão de excluí-lo? qual a razão de incluí-lo? É preciso lê-lo em sua origem mais remota – onde?: segundo Marcel Détienne e Jean-Pierre Vernant, na mitologia grega escrita no agenciamento-livro Métis, as astúcias da inteligência. Após o terceiro elemento ser lido, ainda que breve, como experiência humana projetada na imagem de uma deusa, o artigo conforma-se à origem desse conceito na filosofia platônica e é concluído com a refutação aristotélica. Em outro artigo, retomo o terceiro elemento na estética barroca por meio de breves passagens de A dobra – Leibniz e o barroco, de Gilles Deleuze, e do já citado agenciamento de Haddad.

1. Teoria das supercordas

As ciências humanas, pelo menos no Brasil, onde ocorre minha experiência, são a própria fragmentação ou partes incomunicáveis. Platão, por exemplo, é estilhaçado por clichês acadêmicos; porém, quando o lemos como o filósofo do terceiro elemento, tal conceito importa à vida por estar vinculado, estritamente, à política da pólis; e, com efeito, Platão, filósofo do poder, grafa-se óbvio nas belíssimas páginas de Demiurgia política, as relações entre a razão e a cidade nas Leis de Platão, de Richard R. Oliveira. Não apenas em seu último escrito, As leis, o filósofo pensa o poder. Todo conceito platônico destina-se à política.

Contudo, porque fracionado em conceitos ou desencontrados, ou secundários, ou sem importância para a vida política da cidade por causa do agenciamento coletivo de enunciação acadêmica, Platão, fragmentado, é ignorado como filósofo a pensar o conceito que atravessa Nietzsche-Foucault-Deleuze a fim de que o poder na pólis seja visto como terceiro elemento. O que é vital à cidade, a polí.tica, por meio da filosofia platônica, forma inter-relação com outros filósofos, potencializando um combate político marcado pela natureza de uma guerra que, sendo microfísica ou molecular, não é guerra. Deleuze a chamaria de guerra Menor.

[Re]leio Platão não para ser platônico. [Re]leio Nietzsche não para ser nietzschiano. [Re]leio Foucault não para ser foucaldiano. [Re]leio Deleuze não para ser deleuziano. [Re]leio-os, porém, para encontrar o conceito que, estando na vida da pólis e passando por séculos sobre séculos, atravessa-os a fim de que o poder Menor seja pensado e, uma vez encontrado, filósofos deixam de ter o sabor insosso da fragmentação. Platão me interessa porque, em uma pólis em guerra sem guerra, ele pensa o conceito primeiro desse conflito; o nome Platão não me interessa; mas, se esse conceito necessário à vida da cidade o atravessa, o nome Platão me interessa, porque, ao pensar a cidade, ele não separa o Maior e o Menor, deixando isso evidente nas obras As leis, em A república, onde nesta o Estado torna-se presente quando a mãe lê uma história para o filho na própria casa, ou seja, quando o Maior torna-se, na forma estética de fábula nobre, Menor.

Conceito agindo na cidade e, por isso, pensado em sua metafísica amodal, Platão possibilita que o Maior passe a ser Menor, sem deixar de ser Maior [outro]. Platão, o filósofo do poder, filósofo da política, e Nietzsche, assim como Foucault, assim como Deleuze, sabe, pois, para haver o jogo Maior-e-Menor, o poder movimenta-se “entre” ser-e-não-ser; e, tamanho movimento que implica relação de forças, Platão o pensa na condição de terceiro elemento, conceito presente em Nietzsche, em Foucault, em Deleuze, não ignorando que o terceiro elemento emerge da potência intermediária, isto é, do conceito primeiro, ele: o “entre”.

Se filósofos permanecem dispersos entres eles em razão de conceitos desencontrados, o “entre” dispersa-se por trás de outros significantes, fragmentando-o: o neutro e grau zero de Roland Barthes; o espaçamento e o fora de Maurice Blanchot; o traço de Jacques Derrida; o quiasma de Maurice Merleau-Ponty; a dobra de Gilles Deleuze; o dispositivo de Michel Foucault; a terceira metamorfose de Nietzsche; o brincar de Winnicott; o aberto de Heidegger; o terceiro instruído de Michel Serres; o inconsciente de Lacan; a duração de Henri Bergson. Seria ingenuidade minha pretender que pensadores dessa “dobradura”, e outros, referissem-se à potência intermediária da mesma maneira; entretanto, posto que, em A república [marcação 477a], Platão alude ao “entre” Ser absoluto-e-Não-ser absoluto, opto por retornar à origem, ao “entre”, desses significantes acima expostos, o qual atravessa o neutro, o fora, o traço, imprimindo neles semelhanças e diferenças. Se o nome Platão atravessou séculos sobre século, é porque o “entre”, movimento de uma guerra sem guerra na pólis, foi [des]coberto pelo filósofo como espaço de exceção em que acontece o terceiro elemento.

Mas qual vínculo disso com o subtítulo Teoria das Supercordas? A física quântica ou movimento quântico não vai a Heráclito para saber a natureza do movimento. Não vai à física aristotélica. O movimento quântico não vai à dialética hegeliana. A teoria das supercordas, ou melhor, o conceito das supercordas, é o casamento “entre” a lei Maior [a da relatividade] e a lei Menor [a da física quântica], espaço de exceção em que o “movimento vital” [phýsis], pensado por Platão, dialoga com o movimento quântico. Werner Heisenberg, leitor de Platão.

Mitologia grega, Métis.

2. Deusa Métis

O guerreiro Aquiles não tem métis,quem a tem é Ulisses, guerreiro que, recebendo influência de Atena, cria a passagem “entre” os extremos troianos e aqueus, importa dizer: a deusa da guerra é filha de Métis, primeira esposa de Zeus, que em Teogonia, a origem dos deuses, de Hesíodo, é traduzida em “astúcia”, isto é, em “engano”, cuja etimologia significa “passagem”. Métis, deusa que não busca a verdade, jamais recebeu a construção de um altar sagrado à sua astúcia desleal, que engana ao criar passagem “entre” os extremos. Se Atena possui algo da mãe, é a “traição” – por isso cavalo de Troia, por isso Ulisses, personagem de Homero que Platão retoma para ser pensado enquanto mentira nas páginas de Hípias Menor.

Estando “entre” o-que-é-não-é-e-o-que-não-é-é, Métis representa na mitologia grega o terceiro elemento, potência intermediária que neutraliza a guerra entre opostos por meio de passagens “entre-dois”, dado que, ao promover misturas “entre” forças antagônicas, criam-se enganos. Múltipla, diversa, sem identidade por causa de sua identidade, Métis não é igual a ela, sendo sempre diferente dela mesma, sem deixar de ser a mesma, por isso que seu olhar vê sem ser visto. Em Lógica do sentido, Gilles Deleuze diria que Métis é um tipo de paradoxo.

Aprendemos com a métis da deusa Atena que a guerra, antes de ser confronto direto do guerreiro Aquiles, é a astúcia da inteligência ulissiana; e, diferente de Ares, deus da guerra como sinônimo de violência, de batalha física, Atena representa a guerra segundo a tática pensada em Estratégia: “somente na guerra que uma estrada ruim pode ser boa, precisamente porque é ruim” (LUTTWAKP, p. 20, 2009). Cinco praias da Normandia só foram invadidas pelos aliados em 6 de junho de 1944 por causa do domínio paradoxal da estratégia ou, como diriam os gregos, só houve o dia D em virtude da deusa Métis ser mãe de Atena.

Da mesma raiz √mét.is, “participação” em grego é √méth.exis ou √met.a.lepsis, conceito platônico com a mesma raiz de “entre”, √met.axý. A raiz √met- significa “fluxo ambíguo ou paradoxal ‘entre’ extremos”, o que permite à deusa tratar das realidades fluidas que não cessam nunca de se modificar e que reúnem nelas, a cada momento, aspectos contrários, forças opostas, enfim, reúnem nela contrários que não se opõem – porque se misturam, jogam, brincam. Não só: √méth.exis é formado pelo verbo ékhein [relacionar] com a preposição metá, a qual, em português, é com. Participação, então, significa “relacionar com”, sabendo que relação sinonimiza com “entremear”, “meio”, “entre”.

Considerada essa brevíssima exposição, a deusa Métis é arkhé do terceiro elemento, não havendo, antes dela, portanto, nenhuma representação mítica de potência intermediária, cujo movimento, diga-se de passagem, afasta-se ao de Heráclito e ao de Hegel, porque estes não pensam o “entre” Ser absoluto-e-Não-ser absoluto, não pensam o espaço de exceção, mesmo espaço, aliás, com que Platão pensa a guerra civil em Menexeno. Se Métis é esse princípio na mitologia grega, a potência intermediária [métis] encontra-se pensada, pela primeira vez, na filosofia – mais precisamente na metafísica amodal – de Platão, com a finalidade de que compreendamos tamanha assombrosa potência na realidade política da polis como ou guerra familiar, ou guerra interna, ou guerra civil: stasis.

Em Ensaios Filosóficos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), publiquei o artigo A Carta e uma máquina de guerra chamada José de Anchieta, onde detalho, enquanto conceito platônico, o termo mistura na Carta de Pero Vaz de Caminha, documento de batismo que registra o terceiro elemento,mistura,como potência intermediária de nossa colonização, representado pelo rosto-palavra do poder pastoral, cuja origem de tamanho poder lemos em Político, dePlatão, no qual o filósofo continua o que deixou em O sofista, a saber, o “entre” signos desiguais – no caso de Pero Vaz, colonizador-e-colonizado.

Platão.

3. O terceiro incluído

Em A república [477a], Platão registra a potência intermediária: força “entre” o Ser absoluto e o Não-ser absoluto, que, no campo político, é representada pelo pastor Giges, um tirano, cuja arte acontece na guerra familiar [sedição], conhecida por nós como guerra civil. Em A república, tirano é o desejo desnecessário da criança, Eros, e seu poder, lido em O banquete, movimenta-se “entre” signos opostos, “entre” os extremos. O tirano, pois, representa o terceiro elemento na política.

Em Pitágoras, o terceiro surge como mimesis, e Platão, que só pode pensar o terceiro elemento pela metafísica amodal, traduz mimesis em “participação”, méthexis. Não quero, porém, referir-me a esse conceito conforme a metafísica amodal em O sofista, e sim à fábula do anel entre o pastor e o rei: Giges e Candaules, representantes de uma guerra interna da polis.

Livro II [359d]. Modesto camponês nas terras do soberano da Lídia, o pastor, a fim de ocupar o lugar do rei, comete regicídio após se servir de o poder do vago [poder anelar], que lhe confere não o dualismo “visível e invisível”, e sim o poder-entre “visível-e-invisível”: ao girar o engaste do anel para fora, em direção à parte externa da mão, torna-se visível: ele “é”; e, quando gira para dentro, à parte interna, torna-se invisível: ele “não-é”. Giges está, portanto, ao mesmo tempo, “entre” ser-e-não-ser, sendo nem uma coisa, nem outra.

Em virtude de o anel ser alegoria, o fora não sinonimiza com lugar externo e o dentro, com lugar interno, dado que, por sua natureza de curva ou de dobra, o anel aliança signos desiguais, neutralizando, portanto, o dualismo no ponto em que curva-e-reta encontram-se, a saber, nopontodeinflexão, pensado por Deleuze em A dobra – Leibniz e o barroco. Em razão disso, o anel possibilita não o dualismo “fora e dentro”, e sim o entre “fora-e-dentro”. Assim, por ser o fora que está dentro e o dentro que está fora, Giges encontra-se nem fora, nem dentro, já que se movimenta entre-dois signos desiguais.

Compreender esse paradoxo implica sua analogia com o conceito de representação em A república, onde é o mesmo que “mentira nobre”. O mentiroso não é visto por estar “entre” o-fora-parte-externa-visível-e-o-dentro-parte-interna-invisível, o que permite a não dicotomia “visível e invisível”, e sim a mistura presença-e-ausência, claro-e-escuro, dentro-e-fora. Qual a identidade da mentira? Porquanto se furta ao não se furtar, tal identidade é, ao mesmo tempo, um-e-outro, sem ser nem um, nem outro: Giges está-não-estando-e-não-está-estando. O poder pastoral, enfim, é o poder de quem vê e não é visto, e não é visto porque sempre é o mesmo (visível-presente) sendo outro (invisível-ausente).

Por ser “vão”, o signo anel, que permite a Giges experimentar a potência ontológica do vago, deriva do latim ānnŭllŭs (√ad– e √nullus-) e significa “unido ao nulo, ao vão”, “o que não é o que deve ser”, não havendo, portanto, ocupação em que se fixar. Vagar foge à dicotomia dos lugares fixos “dentro e fora”. Se o vão anula sentidos opostos, é porque o anel “aliança” oposições no ponto de inflexão. Assim, ao se servir do vão anelar, o pastor Giges chega à condição de rei por vagar “entre”visível-e-invisível; perde a identidade sem perdê-la, diga-se, não podendo ser mais identificadoembora seja identificado por encontrar-se vagando “entre”ser-e-não-ser, o poder pastoral, quando presente, ausenta-se e, quando ausente, presenta-se.

Sejamos menos abstratos: em que sentido [real] o pastor é invisível? Pergunto porque o anel de Giges, sendo “alegoria”, não-é-o-que-é, ou seja, como não pertence à natureza humana ficar invisível, e entendendo que o étimo de alegoria significa “falar de outra maneira”, o invisível [ou o ocultar-se, o não-ser] expõe-se no próprio ser [real] da representação. Uma vez entendida para, aí então, ser interpretada, a alegoria do “invisível” imprime na vida real o sentido político de “outro falar em público” [all.egor.ia].Em outros termos, o anel de Giges é representação política de ser ela, a representação [real], “visível-e-invisível” ao mesmo tempo. Ora, a relação é entre dominado e dominante, entre governado e governante, entre quem trabalha na terra e quem é o senhor dela, enfim, a relação é entre a representação do pastor e a representação do rei. Escreve Giorgio Agamben em Meios sem fim: “o rosto é o ser irreparavelmente exposto do homem e, ao mesmo tempo, o seu permanecer oculto precisamente nessa abertura” (p. 87, 2015). Com isso, se entendo a alegoria do anel de Giges para interpretá-la como jogo político [real], Giges é o ser [visível] e, ao mesmo tempo, o seu permanecer não-ser [invisível] precisamente nessa abertura de ser a representação de seu rosto. Em virtude desse paradoxo [o-que-é-não-é-e-o-que-não-é-é], o terceiro elemento é os traços do próprio rosto, mesmo porque a representação, segundo Platão, é “mentira nobre”. O rosto é político, movimentando-seentre”visível-e-invisível; éo terceiro elemento [incluído] pela metafísica amodal platônica, conceito lido nas linhas de fuga de O sofista, no qual, após o parricídio, tais linhas encontram passagem “entre” Heráclito-e-Parmênides ou “entre” movimento-e-repouso.

Platão é este filósofo a pensar a superação do dualismo, a superação de extremos por meio do terceiro elemento, e o poder pastoral representa essa potência intermediária a que Michel Foucault foi para ampliá-la no conceito de microfísica do poder, deixando isso evidente em Segurança, território, população. E mais: se Nietzsche escreveu Além do Bem e do Mal, é porque ele sabe que esse “além” só se dá pelo “entre”, no caso, pelo terceiro elemento, por isso a criança, estando “entre” o-Sim-do-asno-e-o-Não-do-leão, é metamorfose, a terceira.

O aluno, porém, refuta o mestre, substancialmente, em Metafísica, onde tantas passagens negam o conceito de “participação”; e, com efeito, em lugar de méth.exis, Aristóteles, ainda que pense o “meio”, pensa-o como méson, quer dizer, não o pensa como “entre”,por issoo responsável pelo terceiro excluído.

Aristóteles.


4.
o terceiro excluído

4.1 Díade ou dualidade infinita

Quando a leitura de Metafísica chega ao fim, fica a impressão de que Aristóteles escreveu o que escreveu com a finalidade única de negar Platão, ora no livro primeiro [a partir do terceiro capítulo]; ora no livro segundo; ora no livro quarto [a partir do capítulo quatro]; ora no livro sétimo; ora nos livros oitavo, nono e décimo, a polêmica é pouca; ora no livro décimo segundo; e ora nos livros décimos terceiro e quarto. Se minha matemática não estiver errada, dos 14 livros de Metafísica, Aristóteles nega Platão em 10 e, por causa dessa proporção, podemos chamar de continuação do terceiro elemento platônico como o terceiro excluído.

Nas linhas deste artigo, inviável detalhar em tais livros refutações e até deformações grosseiras do aluno, por isso amontanho a crítica de Aristóteles ao conceito platônico de Díade [ou de dualidade indeterminada, infinita] no livro décimo [5. A oposição do igual ao grande e ao pequeno]: “(…). Mas, se o desigual significa o mesmo que grande e pequeno tomados juntos, então ele deveria ser oposto a ambos (esta dificuldade favorece ao que sustentam que o desigual é uma díade): mas, desse modo, uma única coisa seria o contrário de duas, o que é impossível”. Antes, porém, entendamos dualidade como conceito a emergir de Ideias para que, num segundo momento, seja pensada a dualidade indeterminada.

4.2 Conceito de ideias

Impossível uma coisa ser o contrário de duas; contudo, em virtude da dualidade indeterminada, a Díade, uma coisa é o contrário de dois extremos, visto que, acontecendo “entre”, a dualidade infinita permite a um signo ser o contrário de dois signos opostos, os extremos. É o conceito de Ideias gerador da Díase, e ele, embora tenha seis marcas, destaco três como geradoras da dualidade num primeiro momento: 1. Inteligibilidade. Ela emerge em Fédon [65c-66a], onde a natureza dos sentidos, porque impede conhecer o ser, não sabe “o-que-é”, só quando a alma ou a razão governante recolhe-se em si mesma fixa o olhar no ser. Platão não despreza os sentidos, sua filosofia movimenta-se “entre” sensível-e-suprassensível; no entanto, em Fédon, o dualismo é visível e invisível – e não visível-e-invisível –, quer dizer, não há ainda a díase, o dualismo indeterminado; 2. O ser no sentido pleno. Em A república [Livro V, 478e-479d], a temática do ser é centralíssima, e ele, estando no mundo sensível, é ser misturado ao não-ser. As Ideias, cujo caráter particular é o Ser absoluto, não estão sujeitas ao vir-a-ser, ao devir, não o tendo como seu. Entretanto, embora não possamos dizer “o-que-é” o devir, saber “o-que-é” é necessário à condição humana, nem que para isso “o-que-é” não passe de uma aproximação ao ser. Sabemos: ainda que o devir não seja ser, ele necessita ter ser, o que implica também sempre o não-ser e, portanto, o que tem de ser deve tê-lo por “participação” a outro; e 3. Unidade [Livro V, 475e-476a]. Sendo o Belo contrário ao Feio, eles são dois e, sendo dois, cada um deles é uno. Justo e Injusto. Bem e Mal. As letras maiúsculas sugerem o absoluto, portanto, a Ideia, cada uma delas é una; porém, em A república, elas aparecem sempre e, em toda parte, em comunhão com ações humanas, com corpos, permitindo que cada Ideia seja múltipla – o que significa retornar próximo à unidade – ou que cada Ideia seja multiplicidade – o que significa fugir à unidade –, em outro termos, o primeiro aspecto das Ideias sobre o qual Platão chama a atenção é exatamente o da imanência, o que assevera as Ideias terem tanto de imanência quanto de transcendência. Puro e impuro não se misturam em Fédon; misturam-se em A república puro-e-impuro – e, em O sofista, Platão supera os extremos opostos ao pensar o “entre-dois”.

Com essas três marcas do conceito de Ideias, a filosofia platônica abre-se para o dualismo transcendência-imanência; tal dualismo, entretanto, supera-se quando o filósofo nos oferta a beleza de o dualismo infinito, a Díade, visto que seu pensamento, não se fixando nos extremos, movimenta-se “entre” os fixos contrários, “entre” os limites opostos. Para Aristóteles, entre grande e pequeno, “igual” é o termo médio; para Platão, não obstante, “entre” grande-e-pequeno, emerge “infinita-grandeza-e-infinita-pequenez”, na medida em que, de o espaço de exceção, o “entre”, irrompe o terceiro elemento: o grande é pequeno sem deixar de ser grande [outro] e o pequeno é grande sem deixar de ser pequeno [outro]. “Uma única coisa seria o contrário de duas, o que é impossível”, assevera a metafísica modal de Aristóteles; mas, conforme a metafísica amodal de Platão, o grande é o contrário do grande e do pequeno, sem deixar de ser grande; e o pequeno, o contrário do pequeno e do grande, sem deixar de ser pequeno: uma coisa é o contrário de duas. O terceiro elemento épossível, mas Aristóteles, conforme a lógica modal de o princípio de não-contradição, sentencia “não ser possível que a mesma coisa ao mesmo tempo seja e não seja” (p. 499, 2013).

5. A terceira metamorfose

Nietzsche escreveu Introdução ao estudo dos diálogos de Platão, e não ao estudo de Aristóteles, por quê? O próprio Nietzsche poderia responder: “porque ele mostra a imagem paradoxal de uma transbordante natureza filosófica, (…)” (2020, p. 3) em seus 40 últimos anos e, na página 173, o filósofo alemão desfecha que Aristóteles não conhece ou conhece pouco o mestre, pois, para o aluno, os últimos escritos de Platão são os mais fracos. Dos 14 livros, repito, Metafísica refuta o terceiro elemento em 10 deles, numa clara demonstração de que o conceito de participação, em síntese, “é não dizer nada e recorrer a meras imagens poéticas” (2020, 1079b-25, p. 613).

Não há episteme com o terceiro elemento, por isso, se ele, o terceiro, é excluído, é porque “não é possível que as asserções contraditórias, isto é, as afirmações e as negações, possam ser verdadeiras de um mesmo sujeito ao mesmo tempo” (2020, 1062a-20, p. 501); tais asserções, entretanto, podem ser afirmações e negações de um mesmo sujeito ao mesmo tempo quando esse sujeito é a criança, quer dizer, porque joga ou porque brinca, criançar é o terceiro elemento em A república ea terceira metamorfose em Assim falou Zaratustra. A criança, portanto, um tipo de episteme, qual seja, a estética.

Leiamos Nietzsche. A criança, por se movimentar “entre” primeira-e-segunda metamorfoses, é a terceira, sendo o outro “Sim” do asno e o outro “Não” do leão, sem deixar de ser ela mesma. A criança, um sagrado “dizer-sim” a um novo começo; e, se o “dizer-não” do leão quer se tornar inimigo do derradeiro senhor, a criança nega o ser contra leonino, porque o “dizer-não” da criança cria, ri, enfim, brinca entre “o novo ídolo”, entre “os sacerdotes”, entre “os virtuosos”. O “Sim” do asno afirma o “deve ser”, afirma, pois, a representação, mas o “dizer-sim” da inocência afirma o lúdico criador, cuja estética não se movimenta contra, e sim entre-dois signosassimétricos; e o “Não” do leão afirma o “não deve ser”, mas o “dizer-não” da criança é criação que perturba a representação, o ser. “Entre” o-que-deve-ser-e-o-que-não-deve-ser, a terceira metamorfose é potência do falso a emergir “entre”o-doméstico-Sim-do-asno-e-oselvagem-Não-do-leão. Emerge, pois, do paradoxo, Nietzsche reverte ou inverte a criança platônica, Eros, o desejo – o tirano em A república.

Para concluir este artigo, meus olhos visitam Deleuze em Primeira série de paradoxos: do puro devir [capítulo de Lógica do sentido], onde se projeta nas primeiras páginas a imagem não dogmática do pensamento ao pensar o paradoxo como afirmação dos dois sentidos ao mesmo tempo; o objeto paradoxal, porém, não é, ao mesmo tempo, maior e menor, mas, ao mesmo tempo, torna-se um e outro, não sendo nem um nem outro. Por isso, Deleuze (1974, p. 2) escreve “o paradoxo deste puro devir, […]”, na medida em que, ao se tornar1 ao mesmo tempo, o objeto paradoxal dobra-se e desdobra-se, visto que a natureza desse objeto paradoxal é barroca.

Como separei o terceiro elemento em dois artigos, as outras linhas [de fuga] serão destinadas a passagens de A dobra – Leibniz e o barroco e de O terceiro excluído: contribuição para uma antropologia dialética. Até!

Nota

1 O verbo tornar, do latim torno, significa “voltar”, “volver”, ou seja, “dobrar-se”.

Referências

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2013.

BADIOU, Alain. A república de Platão. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2014

DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o barroco. Tradução Luiz B. L. Orlandi. Campinas, SP: Papirus, 1991.

DELEUZE, Gilles. Primeira série de paradoxos: do puro devir. In: DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 1974.

DÉTIENNE, Marcel; e VERNANT, Jean-Pierre. Métis, as astúcias da inteligência. Tradução de Filomena Hirata. São Paulo: Odysseus, 2008.

FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2023.

HADDAD, Fernando. O terceiro excluído: contribuição para uma antropologia dialética. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.

HEISENBERG, Werner. Physics and philosophy: the revolution in modern science. Nova Iorque: Harper Perennial, 2007.

HESÍODO. Teogonia, a origem dos deuses.Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2001.

LUTTWAK, Edward N.. Estratégia: a lógica da guerra e da paz. Tradução de Álvaro Pinheiro. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Introdução ao estudo dos diálogos de Platão. Tradução de Marcos Sinésio Pereira Fernandes e de Francisco José Dias de Moraes. São Paulo: Martins Fontes, 2020.

OLIVEIRA, Richard R. Demiurgia política: as relações entre a razão e a cidade nas Leis de Platão. São Paulo: Loyola, 2011.

PLATÃO. As leis: (incluindo Epinomis). Tradução e notas Edson Bini. 2. ed. Bauru, SP: Edipro, 2010.

PLATÃO. A república. Tradução Carlos Alberto Nunes. 4. ed. Belém: EdUFPA, 2016.

PLATÃO. A república. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 6.ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.

PLATÃO. Fédon. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EdUFPA, 2011.

PLATÃO. Hípias Menor. In: Hípias Maior. Hípias Menor. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EdUFPA, 2016. (Obras completas de Platão, v. 9).

PLATÃO. O sofista. Tradução de Henrique Murachco, Juvino Maia Jr e José Trindade Santos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011b.

Aldo Tavares é livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades, professor de filosofia e mestre em filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde defendeu a dissertação “A inocência infantil como potência do falso: platôs entre as fábulas de Platão e a criança de Nietzsche-Deleuze”.

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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2 comentários em “Fios do Tempo. A potência do entre em Platão: do terceiro excluído ao terceiro elemento – por Aldo Tavares

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  1. Este denso e provocativo ensaio de Aldo Tavares sobre a potência do entre em Platão me faz pensar imediatamente nas ressonâncias que encontro em minha pesquisa sobre Michel de Certeau, particularmente na forma como ambos os pensadores, separados por mais de dois milênios, convergem numa mesma intuição fundamental: a de que existe uma potência criativa que opera precisamente nos interstícios, nos espaços intermediários que escapam às lógicas binárias do poder constituído.

    Quando Tavares reabilita a figura da deusa Métis como arkhé do terceiro elemento, reconheço nessa astúcia da inteligência a mesma μῆτις que Certeau identifica nas táticas cotidianas dos mais fracos. Há uma genealogia secreta que conecta a astúcia ulissiana, o poder pastoral de Giges com seu anel que torna visível-e-invisível, e as artes de fazer dos praticantes ordinários que estudei em minha pesquisa sobre a retórica do caminhar. Em todos esses casos, trata-se de uma forma de inteligência que não se confronta diretamente com o poder, mas que cria passagens laterais, dobras no tecido do real onde novas possibilidades podem emergir.

    O que me fascina na leitura que Tavares propõe é como ela desfaz os clichês acadêmicos que transformaram Platão num pensador do dualismo estático. Essa operação de releitura ecoa profundamente minha própria experiência com Certeau, frequentemente reduzido a um teórico das “resistências” quando na verdade desenvolve uma sofisticada reflexão sobre os processos de criação social. A metafísica amodal platônica que inclui o terceiro elemento ressoa com aquilo que identifiquei na mística certeauniana: uma forma de experiência que não se deixa capturar pelas oposições rígidas entre transcendente e imanente, individual e social, mas que opera precisamente nesse entre-lugar onde o mesmo se torna outro sem deixar de ser si mesmo.

    A alegoria do anel de Giges que Tavares analisa com tanta sutileza me remete àquilo que Certeau chama de “fábula”: uma forma narrativa que não se contenta em descrever o real, mas que o produz através do próprio ato de narrá-lo. O pastor que se torna rei não através da violência direta, mas mediante essa potência intermediária do vagar entre ser e não-ser, espelha perfeitamente as táticas cotidianas que permitem aos praticantes ordinários reinventar continuamente os espaços que lhes são impostos. Em ambos os casos, estamos diante de uma política que não se organiza segundo a lógica do confronto direto, mas segundo uma lógica da dobra, do desvio, da criação de realidades paralelas.

    O que mais me interessa nesta aproximação entre Platão e Certeau, mediada pela brilhante análise de Tavares, é como ela nos oferece ferramentas conceituais para pensar a complexidade política contemporânea. Vivemos tempos em que as lógicas binárias tradicionais mostram sua insuficiência, e a recuperação do terceiro elemento platônico, lida através das lentes da microfísica do poder foucaultiana e das práticas certeaunianas, sugere caminhos promissores para uma filosofia política capaz de acolher o paradoxal, o intermediário, o que escapa às capturas totalizantes do poder.

    A crítica de Tavares à fragmentação acadêmica também me toca profundamente enquanto professor de filosofia. Quando ele propõe ler Platão não para ser platônico, mas para encontrar conceitos que atravessam diferentes pensadores, reconheço aí o mesmo gesto metodológico que pratico ao estudar Certeau: trata-se de fazer filosofia não como exercício de fidelidade a um autor, mas como criação de novos agenciamentos conceituais capazes de iluminar questões contemporâneas.

    Este ensaio é uma contribuição valiosa não apenas para os estudos platônicos, mas para todos nós que tentamos pensar formas de vida e de política que não se deixem reduzir às alternativas impostas pelas lógicas dominantes. A potência do entre que Tavares resgata em Platão é, ao mesmo tempo, muito antiga e absolutamente contemporânea: é a potência daqueles que criam mundos possíveis nos interstícios do mundo existente.

  2. Gabriel, ainda que vc considere meu nome, sabemos que o nome é matilha, e nós pertencemos à mesma matilha, de que faz parte Platão e Certeau.

    Em qual livro posso ler a sugestão do entre em Certeau?

    Abraço fraterno em teu destino!!! e vida longa aos inquietos!!!

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