Em 08 de julho, Edgar Morin completou 104 anos, sustentando, ainda, uma impressionante vitalidade intelectual. Neste contexto de celebração, Alfredo Pena-Vega reflete sobre o estado atual da “Terra-Pátria”, conceito proposto por Morin em 1993.
A respeito disso, não há o que comemorar: os avanços foram poucos, os perigos exponenciaram. Em que estado estamos? Em que sentido a Terra-Pátria, em perigo, torna-se também, e ainda mais, um imperativo vital?
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!
André Magnelli
Fios do Tempo, 20 de julho de 2025
Ou faça um pix e nos fortaleça!

chave: direcao.ateliedehumanidades@gmail.com
Terra-Pátria em perigo
Devemos pensar em “existir para a vida” (Tetsuro Watsuji) e não em “ser para a morte” (Martin Heiddeger).
Em 1993, Edgar Morin criou o conceito de Terra-Pátria através da análise das “policrises”, convidando-nos a reconhecer os sinais de uma nova barbárie, de um novo obscurantismo, dissimulados sob as aparências de um triunfalismo tecnocapitalista eufórico. Este conceito de policrise ganha toda a sua relevância num momento em que nos deparamos com um mundo confrontado com múltiplas crises interligadas (ecológicas, políticas, sociais, conflitos etc.), uma realidade ainda mais gritante na era das emergências climáticas e sanitárias. Morin nos chamava a enfrentar as incertezas, a pensar a complexidade, a habitar a Terra de forma não destrutiva e não autodestrutiva, e a reiniciar um processo de humanização. Mais ainda, ele insistia na necessidade de desenvolver uma consciência aguda de nossa comunidade de destino planetário.
Revivemos o conceito de Terra-Pátria em 2021, por ocasião do seu centenário, através da obra L’Avenir de Terre-Patrie. Cheminer avec Edgar Morin (Actes Sud, 2021). Essa releitura se inscreveu em uma perspectiva decididamente contemporânea, integrando as grandes crises do nosso tempo: a pandemia mundial, o colapso acelerado da biodiversidade, as ameaças transnacionais, bem como a questão crucial da habitabilidade global. Tratava-se de lembrar que, embora o futuro permaneça incerto, ele pode, todavia, ser pensado, antecipado e preparado.
Neste mês de julho de 2025, por ocasião do 104º aniversário de Edgar Morin, parece oportuno fazer uma pausa reflexiva para revisitar o alcance profético das lições formuladas em Terra-Pátria. Este texto importante, ainda hoje, ilumina a nossa época, sublinhando que a nossa Terra-Pátria está agora em perigo.
***
Quatro anos depois, uma questão essencial se impõe: em que estado se encontra hoje a nossa Terra-Pátria? Ela enfrenta o agravamento das crises, as ameaças de guerras, a chegada de governos neofascistas e populistas que enfraquecem a democracia, colocando em risco a riqueza da diversidade das nossas sociedades. Esta interrogação suscita uma reflexão coletiva sobre a forma como habitamos a Terra, sobre a nossa capacidade de reencantar um horizonte comum e de mobilizar uma espécie de “renascimento” intelectual, ético e político necessário à preservação do nosso destino comum.
A incapacidade de aprender com as crises recentes revelou de forma trágica a nossa vulnerabilidade face à irrupção do imprevisível num mundo fundamentalmente complexo. Como salientou Mireille Delmas-Marty, será que estas repetidas surpresas do imprevisto acabarão por penetrar nas consciências? Em outras palavras, seremos capazes de aprender a pensar o imprevisível como um dado constitutivo de nossa condição contemporânea?
Estamos agora confrontados com uma dinâmica marcada pela imprevisibilidade, num contexto em que emerge uma geopolítica do caos. Esta caracteriza-se pelo regresso de uma diplomacia baseada na relação de forças — seja ela a lei do mais forte ou a postura do “lobo guerreiro” —, reavivando assim as lógicas nacionalistas expansionistas próprias do imperialismo do século XIX. Esta nova configuração mundial parece ser acompanhada por um enfraquecimento dos ideais universalistas que durante muito tempo fundamentaram o projeto humanista. Os princípios da moral, da solidariedade, da fraternidade e da cooperação, outrora considerados os pilares da civilização, tendem a desaparecer em favor de estratégias baseadas na dominação e no confronto.
Hoje, as formas antigas e novas de barbárie tendem a se alimentar mutuamente. A barbárie da tecnoburocracia, combinada com a arrogância de certos especialistas e cientistas isolados em suas torres de marfim, contribui para alimentar, em um contexto de crise, sentimentos difusos de frustração, angústia e ressentimento. Esses sentimentos são habilmente instrumentalizados por demagogos e figuras do populismo contemporâneo, que os orientam contra as elites intelectuais e a própria ciência, reavivando assim formas arcaicas de barbárie. O surgimento de novas formas de barbárie parece inaugurar uma nova fase de regressões e incertezas, marcada pelo desmantelamento progressivo das dinâmicas de interdependência mundial, outrora consideradas como algo natural. Este questionamento não diz respeito apenas à crise climática, mas se estende a todos os desafios globais, tais como o desrespeito ao direito internacional ou a proliferação de regimes ditos “párias”, cujo objetivo declarado é questionar os princípios democráticos e impor-se pela força. Diante de um retrocesso generalizado, é necessário refletir sobre o ressurgimento da barbárie na era do caos.
Perante os discursos dominantes que exaltam os avanços hegemônicos impulsionados pelos tecnófilos, a mundialização das trocas ou ainda a trabalhosa emergência de uma consciência ecológica à escala planetária, é essencial adotar uma postura crítica em relação às dinâmicas subterrâneas que atravessam a nossa época. De fato, sob as aparências de progresso e modernidade, se desenvolve uma forma inédita de barbárie — mais difusa, mais silenciosa, mas igualmente destrutiva.
Essa forma contemporânea de barbárie não se manifesta mais apenas por meio de violência espetacular ou de colapsos visíveis; ela tende agora a se impor de maneira normativa, com uma indiferença crescente às consequências desumanas que ela engendra nas estruturas sociais. Ela se materializa, nomeadamente, no tratamento infligido às populações civis vítimas de conflitos armados: implementação de planos de limpeza étnica, deslocamentos forçados de populações, multiplicação de crimes de guerra — fatos, por vezes incontestáveis, que permanecem impunes num contexto em que a impunidade tende a tornar-se a regra. A emergência na cena internacional de “Estados genocidas”, cujos líderes escapam às consequências jurídicas apesar das condenações proferidas por tribunais internacionais, levanta questões profundas. Quantas violações do direito internacional humanitário os Estados ainda terão de cometer antes que a comunidade internacional se decida enfim a aplicar as sanções previstas pelos instrumentos jurídicos internacionais?
Na narrativa da evolução, muitas vezes carregada de valores e assimilada a um mito moderno, a humanidade toma progressivamente consciência de sua inscrição em um tecido antropocósmico, ou seja, em uma relação de co-pertença com o conjunto do vivo e do cosmos. Essa tomada de consciência rompe com a autorrepresentação herdada da modernidade, que definia o ser humano como um animal racional destinado a dominar a natureza. Além disso, sob a ameaça permanente representada tanto pelo potencial autodestrutivo do arsenal nuclear quanto pelos desastres ecológicos e climáticos, humanos e não humanos descobrem-se envolvidos em um destino comum sem precedentes. A partir daí, reconhecer a Terra como nosso único lugar habitável não aparece mais como uma simples opção ética, mas como uma necessidade existencial.
Se a humanidade parece estar se orientando, pelo menos aparentemente, para uma forma de consciência planetária — perceptível através de diversas iniciativas relacionadas ao conhecimento, ao engajamento cidadão ou ao discurso multilateral —, seria ilusório ignorar o contraponto preocupante que se perfila simultaneamente: o de uma barbárie de um novo tipo. Menos espetacular do que nos séculos passados, essa barbárie não é menos destrutiva. Ela se manifesta em uma indiferença política generalizada em relação ao sofrimento humano, no abandono dos mais vulneráveis à lógica do mercado, na crescente invisibilização das populações deslocadas por conflitos ou catástrofes ecológicas e climáticas, bem como na normalização de uma violência algorítmica e extrativista exercida pelos novos poderes tecnoautoritários.
A própria ideia de um destino comum está ameaçada, ou mesmo desqualificada, por rivalidades geopolíticas persistentes e uma competição tecnológica desenfreada, cujo objetivo parece agora assumido: erguer-se como novos senhores do mundo, à margem — ou mesmo em substituição — dos Estados. Esses atores projetam um futuro estruturado em torno de mundos “otimizados”, livres de qualquer forma de regulamentação pública, em nome da ordem, do crescimento ou da segurança.
Em face às ameaças que pesam sobre a “Terra-Pátria”, o verdadeiro desafio reside no apelo para apoiar e acompanhar as cidadãs e os cidadãos dessa comunidade planetária. O conjunto da obra política de Edgar Morin se apresenta como uma crítica rigorosa das insuficiências das instituições existentes e como uma tentativa concreta de lhes conferir uma dimensão mais humana, mais civilizada. Constitui também uma expressão profunda de solidariedade para com as gerações futuras nesta nova era planetária. Através do seu pensamento, o que antes parecia uma utopia — a possibilidade de civilizar a Terra — torna-se um imperativo vital. A sua realização permanece incerta, sujeita ao imprevisível, mas impõe-se agora como uma tarefa possível e necessária. Cabe-nos a nós, com ele, torná-la pensável, vivível e, acima de tudo, realizável.

ALFREDO PENA-VEGA é professor-investigador em socioecologia no Laboratoire d’Anthropologie Politique, antigo Centre Edgar Morin, UMR 8177 EHESS-CNRS. Diretor científico do programa internacional Global Youth Climate.
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial

