A encenação faz parte da vida política. Isso todo mundo sabe. Mas que performances estão em jogo, para o bem ou para o mal? No contexto das eleições municipais, Nelson Lellis nos apresenta, com Erving Goffman em suas mãos, uma espécie de regras da “arte dramatúrgica” para os políticos. Que práticas defensivas eles põem em jogo? O que é preciso ocultar nos bastidores para que a performance no palco tenha o devido controle com o efeito esperado na interação?
Alguma coisa parece haver aqui de “lições de cinismo” no estilo de Maquiavel de O Príncipe, que ao dizer como as coisas são feitas, acaba por alertar ao povo para como a política se faz. Mas temos, mais profundamente, uma ponderação típica de um realismo democrático.
Isso me fez recordar Claude Lefort, que evidenciou a mise en scène como parte constitutiva da vida política. Além das “regras de ação” na luta pelo poder, o que temos é um problema da democracia em seu sentido mais amplo: “o que nos resta é entender (não digo “aceitar todos os meios”) que a política na democracia sempre se fez e só será possível (feliz ou infelizmente) com dois planos: o da transparência (a cena em si – onde os sonhos e encantamentos nascem e, em parte, se concretizam) e do ocultamento (os bastidores – onde a outra parte dos sonhos se torna realidade)”.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!
A. M.
Fios do Tempo, 06 de setembro de 2024
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Consumo secreto:
O político e sua performance nos bastidores
A figura de um político só se torna popular a partir da performance. Atuar é uma das maneiras de se aproximar do público (ou de um público específico). Qualquer tipo de campanha política passa pela “máscara”; e essa não pode ser interpretada como algo pejorativo, pois trata-se de um papel apre(e)ndido e assumido – neste caso, profissionalmente – para cumprir uma função.
Erving Goffman (2014) disse que cada ator precisa de uma plateia para representar. Representação (ator + interlocutor) também é um meio de socialização. Por outro lado, o próprio cientista social canadense se referirá a indivíduos que, longe dos olhos do público, carregam certos costumes de obedecer ao que denomina de “consumo secreto”. Como – ele exemplificará – os eclesiásticos que entram para uma determinada igreja nos EUA dando a impressão de uma “sincera vocação” enquanto que o real interesse seria ascender socialmente (Goffman, 2014, 59). Ou a clássica história de quando Max Weber esteve nos EUA no ano de 1904: numa cerimônia de batismo, o pastor pergunta se alguém mais gostaria de ser batizado; um homem gritou “Eu quero!”, e foi batizado; um homem próximo a Weber cochichou: “Eu sabia que ele queria ser batizado”; “Como sabia?”, perguntou o sociólogo alemão; “É que ele quer abrir um banco na cidade”, respondeu.
Certamente que a religião, sobretudo o cristianismo, tem sido um excelente espaço para promoção de candidaturas nas Américas. Tem sido uma via de mão dupla: por um lado, políticos se valem do público fiel, por outro, as igrejas entendem poder ocupar cada vez mais espaços institucionais com seus representantes na política. Convencimento para alcançar o poder. Quando se trata de interesses, pautas que movimentarão a economia (do próprio coletivo), igrejas não são tão diferentes de outras associações, grupos, ONG’s. Todos esses grupos possuem desejos que, diante de cada discurso, são tornados sagrados.
Para isso, o sujeito que se quer representante no executivo ou legislativo, além de assumir um papel, precisa aprender a manipular a impressão durante e após a campanha. E essa manipulação é uma arte, pois há necessidade de práticas defensivas que envolvem um contingente fiel e maior para cumprir devidamente o roteiro:
– Lealdade dramatúrgica: fazendo com que sua equipe de seguidores aja como se tivesse aceitado regras morais ali estabelecidas – para isso, a discrição é indispensável;
– Disciplina dramatúrgica: cada membro da equipe precisa representar o próprio papel, ter “presença de espírito”, e não cometer gestos involuntários ou faux pas; e
– Circunspecção dramatúrgica: para além da lealdade e disciplina, deve-se compreender a importância de garantir a representação com seriedade (idem, p. 229-246).
E, conceitualmente, o que vem a ser esse consumo secreto? O “consumo secreto” é o que ocorre nos bastidores da cena e que, consequentemente, denota certa incompatibilidade com o discurso promovido em cena e diante de seu público. Trazendo o exemplo entre hindus:
Eles obedecem a todos os seus costumes enquanto são observados, mas não são tão escrupulosos quando sozinhos. […] Fui informado, por fonte de confiança, que alguns brâmanes foram em pequenos grupos, muito secretamente, à casa de sudras nos quais podiam confiar, para participar de carne e bebidas fortes, que tomam a liberdade de consumir sem escrúpulo. […] O uso secreto de bebidas embriagantes é ainda mais frequente que o da comida proibida, porque é menos difícil de ocultar. Contudo, nunca se ouviu dizer que um brâmane tenha sido encontrado bêbado em público. (idem, p. 55)
Embora Goffman não discuta diretamente o papel do político neste ponto, a expressão – pensada em diálogo e a partir da análise do Relatório Kinsey (pesquisa sobre hábitos sexuais de norte-americanos [coisas que só se discutiam entre quatro paredes] do final da década de 1940) – mostra-se relevante às portas das eleições municipais. Vejamos:
a) Ocultar o (ab)uso da política; afinal, existem expectativas:
“[…] o ator pode estar empenhado em uma forma lucrativa de atividade que oculta de seu público por ser incompatível com a noção dessa atividade que ele espera que o público tenha” (p. 55).
Existem aqueles que usam da política ilegalmente para alavancar seus negócios e avolumar os extratos bancários de suas vidas e de seus parentes. Um exemplo raso: valores não gastos devidamente (para viagens, alimentação, dentre outros recursos específicos) são convertidos em valores sem impostos; isto é, ao receber o valor de 400 reais por uma diária para participar de um evento ou reunião ou atividade no cumprimento da função, o ator político poderá optar por um hotel que cobre a metade disso; ele continuará recebendo o mesmo valor: 400 reais. Embolsará a outra metade para si sem precisar emitir nota. O local do trabalho passa a ser um espaço “que esconde a vida do ator”, uma vez que questões como essas são ocultadas de seu público, cuja expectativa não seria outra senão crer que o que ocorre nos bastidores é a expressão do que se demonstra em cena.
b) Ocultar os indícios; afinal, um político deve ser moralmente capaz:
“Os erros e enganos são muitas vezes corrigidos antes da representação, enquanto que os indícios que mostram terem sido erros cometidos e corrigidos são ocultos” (p. 56).
O que isso quer apresentar? A imagem de infalibilidade do sujeito que representa. O carisma não pode ser diminuído, despotencializado; antes, deverá ganhar uma dimensão e credibilidade cada vez maiores. Que médico, ao atender um paciente, começa a consulta apresentando seus erros? Que candidato vai para um debate acatando as críticas justas de seu adversário e assumindo o não cumprimento de metas e promessas de seu mandato anterior ou dos apoiadores próximos ou do programa de seu partido? Outro exemplo sobre ocultar os indícios: um secretário que apaga e acerta dados de um processo antes de chegar à mesa de seu chefe. Crer na infalibilidade está no campo da moral: quanto mais se acreditar na pureza (termo com conotação religiosa) do político, mais credibilidade ele terá. Desconfiar de personagens que querem assegurar sua moralidade através de vitórias consecutivas na justiça, de propagandas constantes de sua imagem e família, de sua participação em alguma religião, pode ser um caminho para sair de um olhar domesticado. Nada garante atividade infalível na política. Aliás, Weber já dizia que não há santos nessa seara.
c) Ocultar a sujeira; afinal, crime perfeito não deixa suspeito:
“Há muitas representações que não poderiam ser feitas se certas tarefas não tivessem sido realizadas” (p. 56).
Que tarefas? As sujas, quase ilegais (ou ilegais), degradantes. Não é raro esconder o “trabalho sujo” realizado no particular. Ele pode ser praticado pelo próprio ator ou ordenado por quem detém o poder. As atividades de criação de falsidades (mentiras) contra o adversário, de retenção de benefícios ou ameaças a terceiros, compra de votos, são poucas das muitas sujeiras articuladas na calada da noite. E isso não está no mesmo plano das críticas ou do jogo de enfraquecimento do adversário. Isso é outro assunto.
d) Ocultar as “fontes ocultas”; afinal, ninguém solta a mão de ninguém:
“Se a atividade de um indivíduo tem de incorporar vários padrões ideais e se é preciso fazer uma boa representação, então, provavelmente, alguns desses padrões serão mantidos em público à custa do sacrifício privado de alguns outros” (p. 57).
A imagem deve ser poupada diante de seus seguidores, clientes, eleitores, público, interlocutores. Diante de uma demanda urgente, o político poderá fornecer o esperado, mediante fontes ocultas. Grupos de interesse na sociedade precisam ser supridos com certa urgência para que sua carência ou desejo não se transformem em concorrência, inimizade, quebra de compromisso e de apoio. Há um preço para saciar essa demanda. Geralmente, o protagonista precisa ter sua imagem mantida diante da sociedade. Eis que surge uma espécie de dublê, aquele que fará as cenas mais perigosas, repletas de riscos. Ou seja, o sacrifício deve ser feito por outro. As fontes precisam ser “seguras” para um canal contínuo de satisfação. Ainda que exista um dublê, o ator principal jamais dormirá em plena paz.
e) Ocultar a ignorância; afinal, a técnica “molda o caráter”:
“Atores que alimentam a impressão de ter motivos ideais para assumir o papel que estão representando, que possuem as qualificações ideais para o papel, e que não precisam sofrer quaisquer indignidades, insultos e humilhações, ou fazer “acordos” tácitos para consegui-lo” (p. 58).
O que reforçaria essas impressões ideais passa pela retórica do treinamento. Esse ator é reconstituído e colocado à parte de outras pessoas. O que forma um político profissional não passaria por uma universidade cujo programa estabelecesse um rico campo teórico para análise da sociedade, mas sim o treinamento no espaço da coisa em si. Cacoetes, contatos, conchavos, trocas, caminhos, só se conquistam no campo. Isso é dogmático! Contudo, os partidos, com seus programas e estatutos, já não são capazes de construir um treinamento capaz de produzir no sujeito uma certa institucionalização. Muito maior do que a ideologia partidária, está o personalismo político. Daí, o plural molda o sujeito que, consequentemente, é plural. O treinamento dependerá do que mais será rentável, mas também precisa ser ágil, tal como as redes sociais. Aliás, este é outro ponto: o ator precisa saber se portar nas redes sociais. O engajamento é fundamental para promoção e devoção da imagem.
Por fim, temos um povo que também passa por treinamentos contínuos. Isso ocorre nos campos de militâncias, da religião, da academia, até do senso comum. E muitos, nesses distintos grupos, afirmam que, a partir do movimento tão vexatório dos bastidores (ainda que muitos deles sejam contemplados pelas decisões ali tomadas), a política não prestaria para mais nada. A verdade é que a solução passa, impreterivelmente, pela esfera política. Não há outro caminho possível. Mesmo assim, não se pode negar a realidade dos bastidores. Reconhecer esse campo nos torna menos moralistas, até porque, como Maquiavel entendia, a política é autonormativa, onde se justifica os meios pensando em um bem maior (um Estado estável). Nesse caso, o que nos resta é entender (não digo “aceitar todos os meios”) que a política na democracia sempre se fez e só será possível (feliz ou infelizmente) com dois planos: o da transparência (a cena em si – onde os sonhos e encantamentos nascem e, em parte, se concretizam) e do ocultamento (os bastidores – onde a outra parte dos sonhos se torna realidade).
Referências
Goffman, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 20ª ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2014.

NELSON LELLIS é doutor em Sociologia Política e bolsista pós-doc pelo mesmo programa na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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