Fios do Tempo. As várias dimensões da trajetória de Ana Pizarro – por Laura Janina Hosiasson

Trazemos hoje, no Fios do Tempo, o texto “As várias dimensões da trajetória de Ana Pizarro”, escrito por Laura Janina Hosiasson (USP) por ocasião de sua fala na mesa-redonda “A América Latina nas asas de um beija-flor, realizada pelo Circuito BBLA na Casa Rui Barbosa, no 08 de julho de 2024.

Laura Hosiasson nos apresenta, aqui, uma visão de conjunto do percurso e da obra de Ana Pizarro. Sendo o contexto de lançamento de “O voo do tukui” (volume 4 da Biblioteca Básica Latino-Americana – BBLA, da Fundação Darcy Ribeiro), a autora nos propicia também, em alguns lances, a dicção poética presente nesse brilhante livro da nossa crítica literária e cultural chilena.

André Magnelli
Fios do Tempo, 24 de julho de 2024

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As várias dimensões da trajetória de Ana Pizarro

Laura Janina Hosiasson

Fala proferida na mesa redonda A América Latina nas asas de um beija-flor: a crítica literária de Ana Pizarro,
realizada na Casa Rui Barbosa, Rio de Janeiro, segunda-feira, 08 de julho de 2024

Meu primeiro contato com Ana Pizarro foi como leitora sua. Comecei com o ensaio que ela apresentou no Colóquio de Campinas, de 19831, sobre o projeto para uma nova história da literatura latino-americana. Ela e os demais participantes do colóquio exprimiam ali suas dúvidas quanto à eficácia e justiça dos desenhos realizados até esse momento para as historiografias literárias no continente sul-americano. Faltava dar conta da multiplicidade de discursos, da superposição de estágios culturais não cronologicamente mensuráveis, faltava entender melhor as complexas relações com a Europa. Beatriz Sarlo se perguntava como seríamos capazes de dar conta de sistemas literários extremamente diversos e concomitantes; Antonio Candido falava da necessidade de ampliar e reformular o conceito de literatura e insistia na necessidade do diálogo entre o Brasil e os países hispano-falantes; Ángel Rama defendia aprofundar nos comparativismos inter-regionais; Domingo Milliani propunha elaborar códigos culturais no lugar das periodizações estanques e já gastas; nesse mesmo sentido, Roberto Schwarz pensava na necessidade de novos critérios metodológicos para atender aos desafios da diversidade de discursos, dentre os quais os indígenas; José Luis Martínez mostrava a importância de incluir os documentos pré-hispânicos; e nossa Ana Pizarro já começava a apostar na tecla da inclusão do Caribe com seu plurilinguismo e pluriculturalismo. Era claro, para todos eles, que se tratava de um trabalho necessariamente coletivo, plural.

O projeto culminaria, dez anos depois, com a publicação dos três volumes de América Latina: Palavra, literatura e cultura.2

Na coletânea de ensaios reunidos que hoje festejamos aqui, neste lançamento de O voo do tukui (volume 4 da Biblioteca Básica Latino-Americana) vem um capítulo em que Pizarro volta a pensar nessa experiência, redimensionada na perspectiva do presente. Com a liberdade do seu alter ego, o beija-flor/tukuy, que pousa de pétala em pétala, numa coreografia espiralada, ela volta a se deter naquele projeto dos anos oitenta para verificar tudo aquilo que ali ainda falta. Evidencia-se assim uma das características marcantes de seu percurso crítico que consiste na liberdade corajosa com que ela exerce o fazer crítico, refletindo e se reposicionando constantemente sobre as próprias premissas, sempre atenta aos movimentos e mutações do presente.

Nesse pêndulo está, por exemplo, sua reconsideração constante da vida e da obra de Vicente Huidobro, que ela começou a visitar na década de 1970, lembrando que Pizarro chegou a ser também diretora da Fundação Huidobro entre 1991 e 1993. Esse interesse ressurge agora no capítulo “Pós-huidobrismo no Chile” para reivindicar o lugar do poeta vanguardista na base de uma poesia popular-erudita do entre séculos XX e XXI, como a do enfant terrible da antipoesia, Nicanor Parra.

O mesmo acontece com Gabriela Mistral, cuja temporada brasileira em Petrópolis, entre os anos 30 e 40 do século passado, ela estudou minuciosamente3, no rasto dos laços da poeta chilena com o Brasil e com seu conceito de uma América de duas línguas. Nossa autora não cansa de constatar, com espanto, a mudança em torno da prêmio Nobel chilena que, sendo considerada inicialmente uma poeta-professorinha rural católica, passou a ser valorizada como poeta-mulher-pensadora de seu tempo, “contraditória, complexa e interessante”.

Na trajetória de Ana Pizarro, salta à vista também sua capacidade de ir do miúdo e do particular para o geral. Os estudos de caso a levam a estabelecer paradigmas de leitura de fenômenos socioculturais abrangentes que emolduram e dão sentido concreto à criação poética. E vemos assim como sua paixão pela vida dos ribeirinhos amazônicos, surgida já faz mais de vinte anos, se transforma em matéria plástica, feito argila, para o desenvolvimento de suas hipóteses sobre a cultura latino-americana porque – diz ela em entrevista – “no Amazonas confluem todos os temas e problemas que têm no restante da América”.4 E, assim, movida por essa paixão, ela volta uma e outra vez, como hoje, em que a temos no Rio de Janeiro de passagem, de volta de Manaus.

Como nenhum pesquisador literário hispano-americano que eu conheça, Ana Pizarro conseguiu estabelecer uma relação direta e frutífera com o universo amazônico, e para tanto precisou se desvencilhar de muitas das premissas do chamado campo intelectual do qual ela partira. Se antes ela havia expressado sua convicção de que as ferramentas literárias e categoriais de análise precisavam se modificar profundamente para dar cabida às formas orais e à pluralidade de manifestações culturais na América Latina, agora seu discurso mistura a cada passo as apreciações da geografia, da fauna e, sobretudo, do sentimento poético com que os povos amazônicos se relacionam com o mundo. A poesia surge aí, entre eles, a serviço do seu dia a dia, feito pão.

Pizarro apelou recentemente para um novo formato de registro e compreensão desse universo ignorado pelo mainstream da cultura, inclusive pelas metrópoles brasileiras. Buscou no cinema a forma de documentar a imaginação criativa e as narrativas de ficção que circulam nas pequenas aldeias na Amazônia. Com direção e roteiro do filho cineasta, Sebastián Sepúlveda, o documentário O Areal de 2008 se desenvolve por elipses e silêncios que mostram e nos fazem escutar a natureza quase não tocada pelas construções dos seus habitantes. Nesse cenário vão entrando saborosas histórias de botos, lobisomens, aparições e – também – de traições e adultérios (os grandes temas da literatura universal), que narradoras e narradores locais nos entregam em seu linguajar próprio, numa oralidade particular. O cenário se encontra na iminência de ser invadido pela devastação do garimpo, fato esse que vem estimular outras narrativas para significá-lo.

Neste sentido, salta também à vista, na trajetória pluriforme de Ana Pizarro, o aspecto mais político da sua atuação, que vem acompanhando-a de seus anos de conscientização, ainda moça, durante o governo de Allende no início dos anos setenta, até os dias de hoje. Porque a sua tentativa de visibilização das culturas indígenas é política, assim como é também política sua luta incessante pela inclusão do plurilinguismo e do pluriculturalismo, do Caribe francófono, anglófono, além do português e dos muitos dialetos africanos, misturados entre eles, dentro do panorama geral da literatura, da palavra e da cultura latino-americanas. Pizarro leu Frantz Fanon, Gayatri Spivak, Homi Bhabha, leu Amin Maaluf e com eles entende que o colonialismo está no centro da discriminação histórica, o colonialismo é – diz ela – a espinha dorsal da dependência, dos subdesenvolvimentos e das muitas formas da subalternidade no nosso continente.

Para destacar essa dimensão política de seu percurso, não me parece demais lembrar aqui da carta aberta que a professora, ex-diretora do núcleo de estudos IDEA (Instituto de Estudios Avanzados), da Universidade de Santiago de Chile, escreveu em 21 de março de 2019 ao então presidente do Chile, recusando o convite para um almoço em homenagem à visita do então presidente do Brasil a Santiago. Argumentava ela, entre outros, que “(…) Para ele [o presidente do Brasil] não existem as comunidades indígenas nem quilombolas, que através de dezenas de anos de luta, e cem anos no lugar, conseguiram demarcar suas terras. Não há proteção. A instituição demarcadora é agora o Ministério da Agricultura. O lobo cuida das ovelhas…”.5 A carta publicada em variados meios de comunicação e na internet acabou viralizando e mostrou como no Chile havia uma chilena com sentimento genuinamente latino-americano e preocupada com os destinos da Amazônia brasileira.

Se comecei sendo sua leitora, devo dizer que me orgulho de ser hoje uma amiga. Nossos caminhos têm cruzado em mais de uma oportunidade, tanto no Chile como aqui no Brasil. Um desses encontros aconteceu em agosto de 2019, quando ela aceitou meu convite para participar de um pequeno evento em que tentávamos pensar os dois países em relação histórica, política, econômica, cultural e literária.6 Ana trouxe um belo texto sobre as relações entre a lira popular chilena e o cordel brasileiro, capítulo que também integra este O voo do Tukui. Nele, ela nos mostra como duas expressões da cultura popular provenientes de dois espaços geográficos e duas línguas, e apesar das muitas diferenças de forma e conteúdo, são – por suas palavras – uma poesia “que expressa o imaginário de setores populares, um modo diferente do oficial de experimentar a história, […] afirmado em relato e canto, buscando a escuta apropriada, para diferenciar a palavra do povo em relação às elites” (p. 136).

Percebe-se, em cada uma das citações do texto de Pizarro pinçadas aqui, a dicção poética que respira no texto da agora professora emérita da Universidade de Santiago de Chile.7 Há, de fato, uma matriz poética em seu pensamento que estabelece relações diretas de imagens e símbolos com o requintado desenvolvimento racional de suas hipóteses. Marca maior desta intelectual latino-americana de mão cheia. Salve, Mestra!

Notas

1 Pizarro, Ana (1993) “La noción de literatura latinoamericana y del Caribe como problema historiográfico”. In: Pizarro, Ana (coord.) La literatura latinoamericana como proceso. Buenos Aires: Bibliotecas Universitarias, Centro Editor de América Latina; pp. 132-140.

2 Pizarro, Ana (organizadora) (1993-1994-1995) América Latina. Palavra, Literatura e Cultura. São Paulo: Memorial/Campinas: Unicamp, 3 volumes.

3 Pizarro, Ana (2005) Gabriela Mistral. El proyecto de Lucila. Santiago: LOM.

4 Belíssima entrevista realizada por José Leandro Urbina em 17 de outubro de 2017. Em Pléyade (Santiago) n°24, dic. 2019.

5 Íntegra da carta em: https://revistasantiago.cl/politica/carta-abierta-de-ana-pizarro-al-presidente-sebastian-pinera-sobre-la-visita-de-jair-bolsonaro/.

6 Organizado pelo SESC-SP, a USP e a Universidade do Chile, o evento Relações Brasil-Chile: cultura e política aconteceu entre 19 e 20 de agosto de 2019, nas dependências do Centro de Pesquisa e Formação do SESC.

7 Ana Pizarro recebeu o título em outubro de 2023.

Laura Janina Hosiasson
Profa. Dra. da disciplina de Literatura Hispano-americana. Mestre pela Universidad de Chile e Doutora pela USP. Concentra sua atuação docente e suas pesquisas na atualidade nos campos da literatura hispano-americana do século XX e das relações entre literatura e história.

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