As eleições antecipadas na Alemanha foram realizadas no último final de semana, com um resultado expressivo do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) e, tal como esperado, o início das negociações de uma “nova velha coalizão de centro”, sob liderança de Friedrich Merz (União Democrática Cristã – CDU).
Escrevendo diretamente da Alemanha, Roberto Dutra (autor de “Teoria sistêmica da desigualdade“, Ateliê de Humanidades Editorial) nos traz uma análise da conjuntura política alemã em meio a uma “policrise” . Observando o cenário através do quadro da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, ele reflete sobre os desafios de uma Alemanha que é internamente diferenciada e que se encontra desafiada tanto pelos efeitos da guerra na Ucrânia quanto pelo novo contexto internacional dos EUA de Trump.
Para ele, o establishment alemão está diante da chance (a última?) de uma política sem tutela, com os “riscos e perigos da maioridade política e geopolítica”. Todavia, se a política está em jogo, qual política fazer?
Desejo, como sempre, uma excelente leitura.
A.M.
Fios do Tempo, 28 de fevereiro de 2025
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A última chance do establishment político alemão?
Depois do Brasil, a Alemanha é o país que mais me interessa. Não apenas por ter passado uma parte de minha vida aqui para fazer meu doutorado e agora novamente para fazer um pós-doutorado, mas também por entender que os destinos deste país, que liga geograficamente “ocidente” e “oriente”, importa bastante para os destinos da humanidade. Sempre acompanhei de perto a vida alemã e agora observo de dentro o momento mais dramático de sua história recente desde o fim da segunda guerra mundial.
Eleições antecipadas e a nova velha coalizão de centro
No último domingo, dia 23 de fevereiro, os alemães foram às urnas para escolher, em eleições antecipadas, o novo parlamento, do qual deverá sair um novo governo para suceder a fracassada “coalizão semáforo”, formada por socialdemocratas, liberais e verdes. O resultado das eleições marcou a maior vitória da ultradireita (o partido Alternativa para Alemanha, AfD) desde que o país saiu do regime nazista e voltou a ser uma democracia com sua reconstrução no pós-segunda guerra. A AfD dobrou seu eleitorado (20,8% dos votos) e sua participação parlamentar em comparação com as eleições parlamentares de 2021(10,4%), tornando-se a segunda maior força política do país, apenas oito pontos percentuais atrás do primeiro colocado, formado pela aliança entre União Democrática Cristã e o partido bávaro União Social-Cristã (28,5%), rebaixando os socialdemocratas para a terceira posição (16,4%). O avanço espetacular da AfD evidencia também seu enraizamento social.
Dois dados demonstram bem esteve avanço: sua vitória quase completa nos estados que formavam a antiga Alemanha Oriental, onde o partido não ficou em primeiro lugar na capital cosmopolita Berlim, e sua consolidação como “partido dos trabalhadores e desempregados”. Apesar de seu perfil fortemente “oriental”, também cresceu no lado “ocidental” do país, e a tendência não é que a parte “oriental” se torne mais parecida com a “ocidental”, segundo a crença na convergência modernizadora pós-reunificação, mas sim o oposto. Na verdade, para os padrões europeus atuais, o lado “ocidental” é a exceção e o “oriental” a regra. Por sua vez, sua consolidação nas classes menos abastadas demarca claramente sua condição de “partido popular”, desbancando desta condição os socialdemocratas e ameaçando a democracia cristã. Neste aspecto, a dificuldade mais palpável é que a aliança entre democracia cristã e socialdemocracia, que deverá formar o novo governo chefiado por Friedrich Merz, já não pode ser chamada de “grande coalizão”, como ainda era o caso do tempo de Merkel, pois sequer possui maioria qualificada de dois terços, necessária para decisões de mudança constitucional.
Neste momento, em que as negociações de coalizão entre democratas cristãos e socialdemocratas já estão iniciadas, os dois partidos discutem a possibilidade de colocar em pauta a quebra do teto de endividamento ainda na atual legislatura, que termina no final março. A ideia é aproveitar o restante de maioria qualificada que os dois partidos juntos ainda podem formar, até a posse do novo parlamento e do novo governo. O próximo chanceler Friedrich Merz negou durante a campanha que viesse a apoiar esta medida, uma mudança constitucional que exige maioria de dois terços. Mas a reorganização geopolítica global provocada pelo novo governo de Donald Trump parece justificar uma guinada com o motivo de conseguir margem orçamentária para elevar os gastos com defesa de uma Alemanha que agora precisa garantir sua própria segurança. Essa possível tentativa de “emendar” um governo no outro, aproveitando os cacos de uma coalizão encerada para resolver prováveis dificuldades de outra que se inicia, mostra bem o tamanho do desafio enfrentado pelo establishment político alemão, em relação não só ao tema da guerra/paz, mas também em relação a todos os outros assuntos que marcaram estas eleições antecipadas.
Os desafios da política alemã na policrise
A ruptura da “coalizão semáforo” e os desafios do próximo governo alemão devem ser entendidos no contexto de uma crise política circundada e amplificada por outras crises, como a guerra na Ucrânia, a estagnação econômica, os problemas com o fluxo descontrolado de pessoas que pedem asilo no país, a reorganização geopolítica global e, não menos importante, uma crise da identidade nacional da Alemanha enquanto suporte europeu dos ditos “valores liberais e democráticos ocidentais” na aliança transatlântica com os EUA. Trata-se de uma policrise, uma crise multidimensional que envolve vários sistemas sociais de modo simultâneo e que corrói rapidamente uma série de certezas e pressupostos que orientaram a vida do povo alemão (e da sociedade mundial como um todo) por algumas décadas desde a reconstrução do país a partir do final da segunda guerra mundial.
Não tenho a pretensão de analisar com profundidade esta situação complexa cheia de incertezas. Apenas desejo traçar as linhas gerais dos desafios que o establishment alemão não poderá evitar, sob pena de aprofundar seu processo de deslegitimação e de fortalecer ainda mais a direita radical. O conceito de policrise, como nos ensina Edgar Morin, descreve uma situação complexa de crises múltiplas, interconectadas e que tendem a se amplificar mutuamente. No entanto, como também nos ensina o sociólogo Niklas Luhmann, embora as crises em sociedades hipercomplexas estejam interconectadas em sua emergência e amplificação, a sociedade não dispõe de um sistema central capaz de criar e coordenar com segurança as múltiplas soluções para os diferentes problemas. O dilema da política é que ela pretende ser este sistema coordenador central, sem nunca poder sê-lo como promete. Tentarei tratar da policrise a partir de seus significados especificamente políticos, e não econômicos ou climáticos, ou religiosos, por exemplo.
O fato da política não ser o centro absoluto da sociedade não significa que ela não consiga coordenar, em medida significativa e suficiente para resolver problemas importantes, o funcionamento da economia, do ensino e dos demais sistemas envolvidos na produção das policrises. Significa apenas que ela precisa contar com um grau igualmente significativo de imprevisibilidade e decepção em seus esforços, ou seja, que políticas públicas podem sempre falhar. A política consegue realizar uma coordenação “contextual”, no tempo e no espaço, dos demais sistemas sociais, mas pode perder esta capacidade em determinados contextos. O problema da política alemã é que ela tem falhado sistemática e continuamente em várias áreas. O longo governo de Angela Merkel não foi capaz de preparar o país para um futuro sem o estrondoso sucesso do modelo fordista de exportações que garantiu o bem-estar dos alemães por décadas a fio. A produtividade do trabalho e a inovação tecnológica estagnaram. O exemplo mais significativo é que hoje, até mesmo na Europa, os carros elétricos chineses deixam os carros alemães no chinelo. As consequências sociais desta decadência econômica são evidentes: retração drástica dos empregos industriais de qualidade, aumento da pobreza e da desigualdade econômica, aniquilamento das chances e perspectivas de ascensão social para as maiorias. É nesta situação de estagnação econômica, desintegração social e insegurança sobre o futuro que o tema da imigração ganha nova relevância política.
Durante muito tempo, os partidos de esquerda negaram as consequências negativas e a percepção popular sobre os fluxos descontrolados de refugiados entrando no país, quase sempre ocasionados por guerras criadas pelos EUA, e recentemente pela guerra da Rússia contra a Ucrânia. Mas estas consequências são visíveis nas escolas e nos bairros de todas as cidades que recebem grande fluxo de pessoas, embora sejam ignoradas pelos progressistas boêmios de Berlim e Hamburgo. Existem gerações de turcos com cidadania alemã incluídos de modo efetivo na economia e no sistema de ensino observando escolas e bairros sem capacidade de acolher mais gente. Muitos deles votaram na direita radical na esperança de frear o fluxo. Não são apenas “alemães orientais”, acusados de baixa adesão aos “valores democráticos”, que estão preocupados com o descontrole dos fluxos de refugiados. A preocupação é geral e os políticos de esquerda e centro pelo menos decidiram priorizar o assunto, que certamente estará na mesa de negociações da nova coalizão entre democratas cristãos e socialdemocratas.
A guerra na Ucrânia é outra crise importante para a política alemã. Como as demais, ela não pode ser entendida isoladamente. Mas, no seu caso, há a especificidade de que seus efeitos foram importados muito gentilmente pelo governo de Olaf Scholz, com apoio não apenas dos governistas verdes e liberais, mas também da própria democracia cristã. A Alemanha decidiu romper o comércio de gás com a Rússia e assim agravar a tendência de aumento da energia, afetando não só a vida das pessoas comuns, como também sua competitividade industrial. Seu volume de ajuda financeira à Ucrânia só é superado pelos EUA. E o apoio popular a esta política de guerra, que no começo era alto, caiu drasticamente, catapultando, junto com a estagnação econômica e a crise de controle dos fluxos de refugiados, a subida da AfD (direita radical) ao patamar de 20% dos votos.
Até aqui a única fórmula para limitar o poder da direita radical é o chamado “muro de contenção de incêndio”: o acordo entre todos os partidos ditos “democráticos” de não fazer aliança, de não governar com a AfD, chamada por eles e pela imprensa erudita de “fascista”. Bonito, civilizado, diria a turminha do “amor vai vencer o ódio” aí no Brasil. Acontece que nesta “apoteose do amor”, como zombava Marx de seus amigos humanistas, o medo da guerra parece ser alimentado mais pelos antes pacifistas socialdemocratas e verdes do que pela AfD, que sempre defendeu a retomada do canal diplomático com a Rússia. Até o começo do ano, a direita radical alemã parecia estar isolada em sua posição pró-negociação com a Rússia. Todos os demais partidos, acreditando na duração eterna da “aliança transatlântica” com os EUA, acusavam a AfD de ser uma sucursal de Putin na Alemanha.
Mas com a volta de Trump tudo mudou. Agora não só a negociação de paz entrou na pauta, como entrou para isolar politicamente e geopoliticamente seus antigos opositores na Alemanha e na Europa. No dia 14 de fevereiro, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, esteve na conferência de segurança de Munique para dizer que a Europa e a Alemanha, e não a China ou a Rússia, é que ameaçam a democracia e a liberdade. A crença na perenidade da “aliança transatlântica de valores” como suporte de uma “ordem global baseada em regras”, na qual a Europa tinha sua posição de centralidade garantida pela aliança, foi frontalmente atacada pelo seu principal parceiro. Não bastasse, Vance ainda atacou o muro de contenção de incêndio contra a AfD, declarando que a democracia tem a ver com a vontade do povo manifesta nas urnas e que um partido relevante segundo as urnas não deve ser isolado. Na dimensão prática, as negociações sobre o fim da guerra na Ucrânia, iniciadas na Arábia Saudita com a exclusão sumária dos europeus enquanto interlocutores, assumem um formato no qual a crescente periferização geopolítica da Europa e da Alemanha estão claramente indicadas. Do ponto de vista econômico e geopolítico, é como se a Alemanha tivesse novamente perdido uma guerra. Seus prejuízos só são menores que os da própria Ucrânia.

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O fim da era habermasiana e a política sem tutela
Até a posse de Trump, o status quo alemão ainda insistia em contar que os EUA estavam lá do outro lado para endossar a distinção entre amigos e inimigos da democracia, com a qual a imprensa e os partidos dominantes podiam garantir a exclusão de quem eles resolviam definir como antidemocráticos, com o apoio de um excêntrico tribunal de proteção constitucional com a incumbência de vetar partidos definidos como extremistas. Este consenso moral antiextremismo, envolvendo o establishment político, midiático, jurídico e até as humanidades, se constituiu a partir da derrota do nazismo e da conversão da Alemanha aos valores da democracia liberal ocidental como uma condição moral para sua reconstrução no âmbito da “aliança transatlântica”. Acontece que esta conversão tinha como pressuposto uma “América” que professasse os mesmos valores e que assim atuasse como um tutor legítimo do “aprendizado moral” alemão.
Com a volta de Trump, a tutela americana ruiu e os alemães parecem despreparados para uma maioridade política sem a proteção da distinção moral e juridicamente ancorada entre “democráticos” e “antidemocráticos”. A Alemanha do pós-segunda guerra parece ter realizado o antigo sonho de sua velha burguesia cultural e acadêmica de uma política disciplinada, limitada e vigiada pelo direito e pelo consenso moral. Nesta “era habermasiana” – o teórico do consenso e da racionalidade comunicativa –, a política deveria ser fortemente protegida de tendências “populistas” dispostas a trazer a vontade popular para o jogo sem antes passar pelos devidos filtros civilizatórios e comunicativos incumbidos de esfriar e desacelerar a relação entre maiorias sociais e governos. A combinação de parlamentarismo com estilo acadêmico, tutela jurídico-moral da vida partidária e consenso dos “democratas” em torno de muros de contenção dos “populistas” parece ter servido bem a esta política contida e protegida das emoções perigosas de segmentos populares tidos como pouco afeitos aos valores democráticos, como são considerados os próprios alemães dos estados que antes formavam a Alemanha Oriental pelos principais partidos, todos de raízes no lado ocidental.
O problema é que este consenso “democrático” entre socialdemocratas, democratas-cristãos e verdes, ao excluir como “antidemocrático” um partido que já consegue ser maior que todos estes outros na parte oriental e em camadas sociais crescentes da parte ocidental, é percebido cada vez mais como uma violação arbitrária da própria democracia por esta parcela do eleitorado. O efeito Trump é aumentar a pressão e o calor contra este muro dos “democratas”, fazendo com o que a “era habermasiana” do consenso ceda cada vez mais espaço para uma nova era de conflitos que a tutela moral e jurídica já não pode mais conter. É a política, estúpidos! A política com emoções perigosas, divisões sociais e culturais fortes, partidos velhos morrendo, partidos novos surgindo, e tudo isso sem tutela interna ou externa.
Ao sistema político alemão só resta processar esta situação “caótica” para os padrões anteriores e tentar criar e oferecer novas alternativas para lidar com as múltiplas crises que afetam o país. Da perspectiva política, a crise é tanto de “demanda” quanto de “oferta”, tanto de input como de output: os partidos e lideranças atuais não conseguem mais, como era o caso antes, obter o apoio de grandes maiorias que enxerguem nestes partidos e lideranças a representação de seus interesses e visões de mundo, e isso porque não conseguem também ofertar programas distintos, com linhas de ação e políticas públicas capazes de se diferenciar nas eleições e nos governos e assim ganhar a confiança dos eleitores.
O novo governo liderado por Friedrich Merz pode ser a última chance do establishment alemão de recuperar legitimidade através de políticas inovadoras para enfrentar a combinação de problemas. Se falhar, talvez a AfD consiga crescer ainda mais e se tornar a maior força política do país. Não há mais espaço para mais do mesmo. É preciso ousadia e gosto pelo risco. A esperança é que Merz, que passou quase uma década afastado do parlamento, atuando como empresário, depois de disputar e perder o comando do seu partido para Angela Merkel, parece estar entendendo isso, pelo menos nos primeiros passos depois de sua vitória. Ainda na noite do domingo eleitoral, num programa de TV com os líderes de todos os partidos, ele afirmou que chegou o momento da Alemanha e da Europa construírem rapidamente sua independência geopolítica e militar em relação aos EUA, num formato institucional bem distinto da atual OTAN, já que agora os americanos não estão mais interessados no destino do velho continente. E emendou: ele mesmo nunca imaginaria pensar nem dizer isso, mas os tempos haviam mudado. Com relação à crise econômica, também são fortes os sinais de que o novo governo pretende abandonar a doutrina antiendividamento não só para impulsionar os gastos com defesa, mas também com infraestrutura e inovação tecnológica.
Neste quadro, é muito claro que o debate dentro do establishment sobre a “última chance” tenha ganhado corpo apenas depois das eleições, que ainda reiterou a crise programática da política, cujo indicador mais seguro é a crescente indiferenciação dos principais partidos, o que certamente não é um traço peculiar da Alemanha. Hoje, ela está presente em quase todas as grandes democracias, em maior ou menor grau. No caso Alemanha, o agravante é que a crise programática envolve não só as múltiplas crises antes mencionadas, mas também o desafio inadiável de reconstruir sua identidade nacional depois do fim da “era habermasiana” do consenso, da política domesticada e da “aliança transatlântica” em torno dos valores liberais e democráticos. Para que o Estado alemão recupere sua capacidade de resolver problemas e enfrentar crises diversas, é preciso que a nação alemã imagine e invente novamente o futuro, desta vez sem tutela, com os riscos e perigos da maioridade política e geopolítica, sem medo de expandir seus horizontes, mesmo que tenha que combinar novamente com os russos.

Roberto Dutra é sociólogo e professor da UENF. Atualmente professor visitante em pós-doutorado na Universidade de Bremen, Alemanha. É autor do livro Teoria sistêmica da desigualdade (Ateliê de Humanidades Editorial, 2023) e foi organizado do Ciclo Niklas Luhmann pelo Ateliê de Humanidades.

Teoria sistêmica da desigualdade, de Roberto Dutra
Teoria sistêmica da desigualdade é um trabalho inovador de teoria sociológica sobre a estruturação de desigualdades e a dinâmica dos sistemas sociais na sociedade moderna contemporânea.
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Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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