Iniciando as publicações do Fios do Tempo em 2025, trazemos a análise fílmica de Rocky, feita por Nelson Lellis, a partir da sociologia do cinema de Pierre Sorlin.
Neste exercício sociológico, a análise busca apreender as razões pelas quais Rocky foi um grande sucesso a ponto de se tornar o vencedor do Oscar de 1977 disputando com candidatos tão fortes quanto Taxi Driver e Todos os Homens do Presidente.
Não estamos diante de um texto de denúncia; trata-se muito mais de uma tentativa de compreensão intelectual de uma relação afetiva, marcada pelo impacto de Rocky sobre a pequenina criança que o autor era então.
A.M.
Fios do Tempo, 14 de janeiro de 2025
Ou faça um pix e nos fortaleça!

chave: direcao.ateliedehumanidades@gmail.com
Revisitando Rocky:
análise fílmica a partir da sociologia do cinema
Minha vida é feita de 96% de fracassos e 4% de conquistas, fazer o Rocky foi o maior êxito, uma das poucas coisas que me fez realmente bem.
(Sylvester Stallone)
Comecei no teatro amador em 1993 com O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Um ano depois, com 13 anos, tive meu primeiro emprego numa vídeo-locadora. Ganhava 10 reais por semana e assistia filmes praticamente todos os dias. Enquanto as aulas de teatro refinavam meu gosto pela arte e concediam ferramentas teóricas – a partir do método do ator russo Constantin Stanislavski – para discutir interpretação, meu local de trabalho facilitava o acesso a todos os gêneros de filme: das animações criativas de Walt Disney aos trabalhos sofisticados do cineasta polonês Krzystof Kieślowski (como O Decálogo). Nomes que, em teoria, contrastariam com o do cineasta norte-americano John G. Avildsen, responsável pela direção da trilogia The Karate Kid (1984, 1986, 1989) e Rocky (1976), filme que lhe rendeu o Oscar de melhor direção em 1977, além de nomeações pelo mesmo trabalho no Globo de Ouro e BAFTA; por outro lado, o diretor também recebeu nomeações à Framboesa de Ouro, prêmio concedido aos piores do ano (como uma paródia do Oscar), pelos trabalhos em The Karate Kid III (1989) e Rocky V (1990) – talvez o mais criticado da franquia.
O filme Rocky, além de vencer o Oscar de melhor direção, levou de melhor filme (Sylvester Stallone – Sly) e melhor edição (Richard Halsey e Scott Conrad). Foram 10 indicações no total; além das mencionadas, melhor ator (Sly), melhor atriz (Talia Shire), ator coadjuvante (Burgess Meredith / Burt Young), melhor roteiro original (Sly), melhor mixagem de som (Harry W.Tetrick, William McCaughey, Lyle J. Burbrigge e Bud Alper), melhor canção original (“Gonna Fly Now”; Bill Conti, Carol Connors e Ayn Robbins). Rocky também recebeu outros prêmios como melhor filme (drama) no Globo de Ouro (e mais cinco indicações, além de outras cinco no BAFTA), melhor ator estrangeiro (Sly) no prêmio David di Donatello, melhor filme estrangeiro pela Academia Japonesa de Cinema e melhor atriz coadjuvante (Talia Shire) no Prêmio New York Film Critics Circle Awards – EUA.
A mais contestada das premiações supracitadas certamente foi o Oscar de melhor filme, que desbancou outros grandes trabalhos como Taxi Driver (Martin Scorsese), Todos os Homens do Presidente (Alan J. Pakula), Rede de Intrigas (Sidney Lumet) e Esta Terra é Minha (Hal Ashby) – este último talvez em menor proporção. Mas a quem interessaria uma análise tão tardia de Rocky? Por que retomar seu roteiro? Que importância há em dialogar com um filme desses? Na verdade, o presente texto retoma a discussão sobre o porquê Rocky venceu o Oscar de melhor filme tornando-se um clássico do cinema e que lhe renderia uma franquia que hoje somam 9 filmes (Rocky, II–V, Rocky Balboa, Creed I-III).
Para esse exercício, valho-me da teoria crítica do francês Pierre Sorlin, que realizou aproximações entre sociologia e cinema na década de 1970 e que lançou sua Sociologie du Cinema no ano em que Rocky garantiu a estatueta de melhor filme. Sorlin concede ferramentas para interpretarmos, do ponto de vista sociológico, a relevância de Rocky para os EUA do pós-guerra do Vietnã e do caso Watergate.
A sociologia do cinema
A sociologia do cinema de Pierre Sorlin aborda a relação entre o cinema e a sociedade, explorando como a produção e o consumo de filmes estão enraizados no contexto social, cultural e político. O autor propõe uma abordagem multidisciplinar para dar conta da complexidade trazida dessa relação. Um dos principais conceitos utilizados é a noção de que o cinema é uma forma de comunicação que reflete e também influencia estruturas e dinâmicas sociais. Seu argumento é de que os filmes, enquanto produtos culturais, podem revelar condições sociais de um determinado período, seja discutindo questões sociais (pontuais ou abrangentes), políticas ou da própria cultura.
Um dos conceitos centrais de Sorlin passa pela ideia de que a identidade do cinema pode desempenhar um papel na formação tanto individual quanto coletiva. Para isso, explora como os filmes podem retratar grupos sociais específicos e influenciar a percepção do público sobre esses grupos. Seguindo o raciocínio, destaca que os filmes podem contribuir para a construção de mitos sociais e representações simbólicas, influenciando a visão de mundo.
A sociologia do cinema não se limita apenas à análise dos filmes em si, mas também engloba o estudo das práticas sociais que envolvem o cinema e seus contextos, como as interações entre indivíduos durante a exibição, as formas de consumo e as influências externas. Dito de outra maneira, Sorlin aborda o cinema como uma forma de comunicação e cultura que reflete e molda estruturas e dinâmicas sociais. E, para nós, duas questões são importantes para análise do filme Rocky:
a. Identidade e representação: a sociologia do cinema investiga como os filmes retratam grupos sociais específicos para a formação da identidade pessoal e coletiva. Isso envolve examinar como diferentes identidades, como de gênero, de classe, de raça, são representadas ou estereotipadas nos filmes;
b. Contexto histórico: uma análise sociológica do cinema considera o contexto histórico no qual os filmes foram produzidos. Isso inclui examinar como as mudanças sócio-políticas se inserem nos estilos de narrativa e nas técnicas de filmagem utilizadas.
Portanto, a sociologia do cinema carrega consigo elementos essenciais para compreendermos a importância do filme Rocky não apenas para a Academia, mas para a política estadunidense da década de 1970 – quiçá seus desdobramentos. O que para alguns intelectuais pode parecer uma grande perda de tempo discutir um filme que não ocupa a prateleira de filmagens cult mais exigentes (e, diga-se de passagem, tecnicamente o filme inovou com o uso da steadicam no cinema), para mim se tornou um exercício prazeroso a fim de descrever, a partir desta obra cinematográfica, um cenário cultural, político e social em transformação. Vejamos.
Rocky como “encenação do social”
Rocky não pode ser interpretado como um personagem solitário. O enredo é, antes de tudo, solidário a outros grupos. O filme é composto por personagens desacreditados e ambíguos da sociedade norte-americana e que ajudam na “realidade” do filme, contrariando, de certa forma, a magia e o tempo de outras filmagens hollywoodianas. Através de Sorlin, é possível interpretar os personagens como ferramentas críticas ao espetáculo do puro entretenimento, e, ao mesmo tempo, trazer, paradoxal e politicamente, o “sonho americano” para o sujeito pobre e desconhecido que precisa lutar na vida para sobreviver e, consequentemente, ajudar a construir uma nova sociedade.
Um dos personagens que compõem a trama e o drama de Rocky é Paulie, interpretado pelo ator Burt Young (indicado ao Oscar como melhor ator coadjuvante). Paulie, além de ser um alcoólatra, tem problemas com emprego. Trata-se de um sujeito triste e que se coloca como aquele que sempre foi deixado para trás. Curiosamente, o cenário dos EUA na década de 1970 trouxe grande sofrimento para a população com a recessão e a inflação, ocasionando desemprego, diminuição substantiva no padrão de consumo, crise em relação aos direitos civis.
Segundo levantamento feito por Havana Marinho sobre a realidade econômica dos EUA1, as despesas militares no exterior tiveram um acréscimo de US$ 800 milhões em 1967; e, em 1970, o déficit era de 9,8 bi. O PIB da nação que representava 34% da produção mundial teve uma queda para menos de 30% em 1971, além do enfraquecimento da moeda, revelando um cenário cada vez mais complexo. Curiosamente, a Filadélfia (cidade onde se passa o filme) da década em questão enfrentava dificuldades em relação ao consumo de drogas, crimes e pobreza. Nas telas, Paulie representa o grupo que busca alienar-se no álcool, anestesiar-se diante das dificuldades enfrentadas pelo desemprego. Ou seja, formas de fuga diante de falhas sistêmicas do Estado. Sua esperança, desde o início, é tentar que Rocky seja um mediador para que consiga um trabalho como agiota. Aliás, uma “profissão” aparentemente muito comum e emergente numa época em que as pessoas se viam desesperadas.2 É plausível, portanto, que o expectador que se identificasse com Paulie fosse levado a focar suas esperanças em Rocky, ou como mediador, ou como o redentor.
Aoutra personagem é Adrian, irmã de Paulie, vivida por Talia Shire (indicada ao Oscar como melhor atriz). Funcionária de uma loja de animais (pet shop), apresenta características de uma mulher tímida… tímida não é a palavra ideal… Adrian é uma mulher reprimida por seu irmão mais velho e que se vê na obrigação de cuidar dele, deixando a casa limpa, a comida pronta e, ainda assim, recebendo, em silêncio, todo o tipo de insulto e humilhação. Uma mulher que dificilmente altera sua voz e quando fala, fala olhando para baixo. Vivendo numa jornada profissional sem nenhuma perspectiva e, mesmo após ter engravidado de Rocky, suas atividades na loja, como carregar sacos de ração, realizar movimentos que poderiam comprometer a gravidez, ainda eram constantes.
Curiosamente, o feminismo estadunidense da década em questão discutia, além da repressão no lar, sua relação com a questão de classe (tendo Gramsci como um dos autores trabalhados), e de cor (com duplas jornadas de trabalho). A questão doméstica e econômica estão presentes nesse cenário, bem como no roteiro de Rocky (ainda que tratado de maneira muito delicada).
Adrian é alguém que mantém um senso de dependência emocional com o irmão até o momento em que Paulie, com um taco de baseboll, quebra objetos em sua casa numa noite de ação de graças. A razão deste ato de violência se deve ao fato de Rocky não ter conversado com Tonny Gazzo para conseguir um trabalho como agiota. A cena recebe a iluminação principal da tela da TV enquanto Paulie acusa sua irmã dizendo que nunca se casou por sua causa e que Adrian está “devendo” bondade a ele por este ter conseguido mediar a relação amorosa com Rocky. Após seu discurso, Adrian, pela primeira vez, levanta sua voz e segura Paulie pela gola de seu casaco. Estes seriam sinais importantes para uma vertente feminista: a voz e o corpo da mulher em reação. Adrian responde sacudindo-o: “Não te devo nada! Eu trabalho, cozinho para você e lavo suas roupas imundas! Não lhe devo nada e ainda me faz sentir uma perdedora!”. E sai para seu quarto. Enquanto Paulie a classifica como “vagabunda”, Rocky faz o mesmo movimento e o segura pela gola.
– “Não adianta. Não me bata”, diz Paulie rendendo-se à sua “insignificância”.
Sentir-se uma “perdedora”. Esse é o sentimento de Adrian, mas também de Paulie. Todos são perdedores nesse contexto. Após essa cena cheia de informações, Adrian sai de casa como quem demonstra aos expectadores que é possível uma mulher sair de uma história carregada de violências e escolher aonde e com quem deseja viver. Eis um caminho para uma vitória.
Apollo Creed seria um antagonista? Bem, ele é o vendedor do sonho americano interpretado pelo ator negro Carl Weathers. Creed seria uma espécie de personificação dos EUA, uma imagem similar à do Tio Sam que dizia já no século XIX: “Eu quero você para o exército dos EUA”. A frase “Eu quero você” é repetida por Apollo antes da luta contra Rocky (conforme imagem).
“Terra das oportunidades” também é uma frase usada por Apollo quando se refere à oportunidade dada a Rocky, um lutador até então desconhecido. Na história, Creed seria um sujeito semelhante a Ken Norton ou Joe Frazier – pugilistas negros com importantes marcas. Mas seria o conservadorismo da tradição estadunidense que traria a diferença no filme. A impressão é que o novo “Tio Sam” não pretendia apenas fortalecer organizações militares e políticas. Ao apontar para o público comum (conforme imagem), buscava demonstrar preocupação dos EUA com indivíduos como Rocky.
Apollo vem para representar uma nação que agora não apenas oferece oportunidade/espaço, como gera novos heróis nacionais. E como é importante que esse personagem, Apollo, venha como um negro… logo nos EUA! É uma armadilha: não pensemos ser uma total abertura para a discussão sobre cor, pois, antes de mais nada, o discurso desse campeão está totalmente submetido ao discurso do capital. Possivelmente o personagem mais complexo nesse roteiro porque vem cheio de armadilhas: um negro representando o país, cujo interesse está em promover uma luta para fins “comerciais” e, consequentemente, lucrativos. Não se pode dar créditos a Sly quando se trata de questões progressistas. O filme venceu o Oscar justamente por saber conectar desacreditados com uma nova oportunidade que só os EUA poderiam oferecer. Apollo chama à luta todos os que se identificam com Rocky. O movimento é todo motivacional.

Embora ainda quisesse falar da adolescente Marie (que reaparecerá em Rocky Balboa), Gazzo (agiota), Mickey (treinador), dentre outros, nosso mais importante personagem (Rocky) surge como “símbolo de coração e esperança”, um “herói popular”3, que se transforma, diante do conceito de Sorlin, em um “mito”. Tornou-se um alter-ego fictício para indivíduos que se identificavam com ele. De acordo com o seu próprio criador: “As pessoas querem ser campeãs em suas próprias vidas”4. Diante de Travis Bickle (protagonista de Taxi Driver) e Bob Woodward (… Todos os homens do presidente), Rocky trazia elementos menos críticos à política estadunidense e mais aguçados para atender ao chamado nacional em motivar seus cidadãos. A trilha sonora, por exemplo, tornou-se icônica – diversos setores (dos esportivos até empresariais) fizeram e fazem uso da trilha como método de estímulo de seus atletas ou funcionários.
Retornando… Rocky e Sly são praticamente a mesma pessoa, conforme já mencionado acima. Para lembrar, a história do filme foi criada em três dias após Sly ter assistido a luta entre Muhammed Ali e Chuck Wepner que, embora tenha perdido a luta, derrubou o campeão por um momento. Ou seja, da realidade para as telas e das telas para tentativa de ser um espelho para a sociedade. E, de acordo com a sociologia do cinema, a questão cinematográfica também é discutida, por exemplo: Rocky, que foi gravado em 28 dias, teve um orçamento de pouco mais de 1,1 milhão e faturou 117 milhões de dólares. Sly ganhou 2,5 milhões como faturamento do filme. Pouco, mas para quem tinha apenas 106 dólares, demonstrou, ironicamente, o quanto a indústria do cinema e o capitalismo norte-americano conseguem mascarar suas intenções.
Impressionantemente, todo o fracasso do personagem Rocky tanto em sua saga quanto na franquia está em sua relação com o poder, com a mídia e com o sucesso. O segredo é continuar sendo um lutador, independentemente de seu status. Quem sabe esse status seja mesmo um alter-ego inalcançável fazendo com que o indivíduo seja enquadrado como um eterno lutador? Certamente, há uma autoconsciência da sociedade norte-americana que ocorre a partir de filmes como Rocky e que permite uma autoanálise, ainda que em nível raso de crítica social (sobretudo dos EUA), capaz de perceber que é possível ir além. Na concepção de Sorlin, são mentalidades e representações, ou seja, o expectador diante do filme em que se reconhece, se identifica e se projeta. É exatamente aqui que Sorlin pensará a dimensão social observando o filme não apenas como uma história ou como uma duplicação do real, mas como uma “encenação social”.
O que isso quer dizer?
Que, na leitura metodológica aqui adotada, o mais importante no filme Rocky é a forma como a História se transforma em narrativa, observando os valores que orientam a construção do roteiro. Sorlin entende que a sociologia do cinema faz com que a câmera registre coisas reais. Essas “coisas reais” são coisas “da vida” percebida, ou reconstruídas, ou imaginadas por quem realiza filme. O sistema narrativo permite três dados fundamentais:
1. ele combina, em proporções, variáveis, microconjuntos, que são lutas ou desafios;
2. está inscrito em uma temporalidade orientada e está enquadrado entre um início e um fim;
3. coloca em cena personagens identificáveis.
Neste aspecto, Sorlin ressalta que a história do filme reorganiza elementos tomados da realidade, admitindo parâmetros valorativos preocupados em atender à dimensão simbólica do roteiro.
Rocky agregaria grupos em confronto onde personagens estão vivenciando disputas constantes. Na organização da análise sociológica, o fenômeno social é reconstruído para facilitar o encontro com outro lugar. Isto é, como a ficção leu a realidade e como, agora, a sociedade pode ler a ficção para torná-la realidade? O filme reconstrói a realidade para que a sociedade a reinterprete.
A história do personagem Rocky confunde-se com a própria história de seu roteirista. Em 1964, o presidente dos EUA, Lyndon Johnson, criou a Great Society, um programa que tinha por objetivo eliminar a pobreza e a injustiça racial; e que cada americano tivesse “a oportunidade de desenvolver seus melhores talentos”5. Esse período já era marcado pela Guerra do Vietnã, que iniciara em 1955 e terminou em 1975. Os investimentos do país entre os anos 1965 e 1973 para o programa Great Society foram de 15,5 bilhões de dólares, enquanto que os valores gastos na referida guerra chegaram à cifra de US$ 686 bilhões (em valores atuais ultrapassariam 950 bi), segundo um relatório divulgado em 2008 pelo Congresso norte-americano.6 Martin Luther King dissera que a Great Society foi “abatida no campo de batalha no Vietnã”.7 Isso sem contar com a Guerra Fria, em que a mídia utilizou a expressão American way of life (que buscava demonstrar a autoimagem norte-americana, seu nacionalismo, sua liberdade de mercado e consumo) a fim de provocar ainda mais as diferenças entre um mundo capitalista e outro socialista.
O discurso norte-americano era sobre prosperidade e essa imagem era “vendida” ao mundo como o caminho para a conquista dos sonhos. Os mecanismos utilizados para divulgar esse ideal eram os noticiários, as produções musicais e, sobretudo, a indústria cinematográfica. Embora o discurso fosse esse, a década de 1970 foi marcada por recessões e altas inflações nos EUA. Um cenário de desemprego com diminuição no consumo e debates acirrados sobre direitos civis. Curiosamente, não faltavam recursos para financiamentos políticos para afastar o “fantasma comunista”, como ocorreu no Chile em 1970, em que a Casa Branca chegou a intervir em suas eleições para que os EUA não se assemelhassem à Cuba.
A fragilidade da imagem norte-americana não estava apenas na questão econômica. A questão da moral política foi brutalmente afetada no escândalo do caso Watergate (1972-1974), cuja rede de espionagem trazia o presidente Richard Nixon (Partido Republicano) como um dos protagonistas; 48 pessoas, de quase 70 indiciadas, foram condenadas pela justiça, culminando, inclusive, na renúncia de Nixon. O caso foi parar nas telas do cinema com o filme Todos os Homens do Presidente, que perdeu o Oscar de melhor filme para Rocky. Não bastasse esse evento, a derrota na Guerra do Vietnã revelou um país que fracassou por não priorizar tanto seus próprios cidadãos em situação de vulnerabilidade, sem contar com soldados que voltaram sequelados do Vietnã, como relatado no filme Taxi Driver, que também foi indicado para melhor filme em 1977, sendo derrotado pela criação de Sly.
Concluindo…
Sly foi um indivíduo que fez parte do cenário político-econômico acima descrito. Tendo feito algumas participações em filmes, encontrava-se sem rumo e esperança na profissão. Teve experiência de morar na rua no início da década de 1970. Depois, morando numa quitinete com seu cachorro Butkus, viveu momentos de tensão na esfera econômica a ponto de ter apenas 106 dólares, uma esposa grávida, um carro quebrado e, por isso, teve de vender seu “amigo” (cão).

Sly e o personagem Rocky representariam, nos termos de Sorlin, a sociedade norte-americana. O filme não é sobre esporte, mas sobre uma sociedade que agora precisa se reerguer e, consequentemente, ajudar o país a esquecer de suas “derrotas” e “fracassos políticos” motivando os sujeitos a lutarem numa nação de oportunidades (na figura de Apolo Creed, oponente de Rocky).
Eis aí minha hipótese do porquê a Academia, encharcada dessa visão, preferiu fazer com que Sly erguesse a estatueta por Rocky que, além de buscar diminuir as luzes sobre outras grandes produções e roteiros, tornou-se um modelo de superação que transcendeu os limites norte-americanos.

NELSON LELLIS é doutor em Sociologia Política e bolsista pós-doc em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).
Notas
1 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LLlupHLXgvU.
2 Disponível em ibid.
3 BELÉM, Euler de França. Lyndon Johnson: o presidente dos Estados Unidos eu lutou ao lado dos negros por direitos civis, Jornal Opção, 07 de junho de 2020. Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/lyndon-johnson-o-presidente-dos-estados-unidos-que-lutou-ao-lado-dos-negros-por-direitos-civis-259432/.
4 SHEA, Mark. Guerra do Vietnã, 50 anos depois…, G1, 30 de março de 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/03/30/guerra-do-vietna-50-anos-depois-7-razoes-para-a-derrota-dos-eua.ghtml.
5 Ibidem.
6 MARINHO, Havana. Estados Unidos: o contexto dos anos 1970 e as crises do petróleo. História em reflexão, vol. 4, n. 7, p. 1-10, 2010.
7 Para saber mais, ver: ALPENDRE, Sérgio. A representação do mal-estar da sociedade americana em Rocky e Os Embalos de Sábado à Noite, 2016. Disponível em: https://journals.openedition.org/ideas/1590.
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial





Deixe uma resposta