Fios do Tempo/Cadernos do Ateliê. Nossa má-educação monoteísta – por Fábio Costa

Chegamos ao terceiro fascículo da série de Ensaios Teóricos do Cadernos do Ateliê. Após “Una filosofía doble y potente del reconocimiento: hacia un modelo de la sabiduría filosófica“, de Gabriel Restrepo, e “A natureza do social: contribuições e limites do realismo crítico para as ciências humanas“, de Thiago Panica Pontes, trazemos agora “Nossa má-educação monoteísta“, de Fábio Costa.

Em seu estilo incisivo de costume, o autor dilapida as projeções monoteístas sobre o candomblé, mostrando como elas acobertam (e fazem esquecer) o sentido efetivo das suas práticas. Ao costurar uma aproximação comparativa entre o candomblé e as religiões antigas (egípcios, babilônios, gregos, romanos, judaísmo), Fábio Costa dialoga com uma miríade de autores (Luciana Duccini, Jan Assman, Thomas Römer, Pierre Verger, Rita Segato, Nina Rodrigues, Marcel Détienne, Goethe etc.), a fim de realizar uma releitura de eventos supostamente conhecidos.

Engana-se o leitor que considera que este ensaio diz respeito apenas às religiões. Ele é, muito mais, uma reformulação dos termos pelos quais a tradição enfrenta problemas histórico-filosóficos. O que se transforma no nosso pensamento/ação quando passamos a reconhecer, cuidadosamente e na prática, o modo de feitura próprio aos rituais? Eis a questão.

André Magnelli
Fios do Tempo/Cadernos do Ateliê
11 de dezembro de 2024


Ou faça um pix e nos fortaleça!

chave: direcao.ateliedehumanidades@gmail.com


Nossa má-educação
monoteísta

Fábio Costa

Não posso oferecer aos leitores sopas Campbell de causas minoritárias; tampouco cabem aqui retratos de Beyoncé em estilo Andy Warhol. Tenhamos, pois, um mínimo de suspeita para com o fato de que está prestes a estourar a bolha especulativa do mercado financeiro das gentes sofridas. Por óbvio, a injustiça é um problema grave. Contudo, verdadeiramente fascinantes são as indústrias financeiras, editoriais, de prestígio, midiáticas, de blusinhas e de musiquinhas que se desdobram a partir da verdade, dos fraseados da verdade sobre as grandes causas urgentíssimas. A injustiça é uma verdade. O carretel de fraseados sobre a verdade, porém, já começa a engendrar um profundo nojo. Há um nojo que começa a corroer a fábrica de profetas, de produção de figuras representativas. Quem não sabe fazer santo produz ídolos: eis como a má-educação monoteísta entra em terreiros.

Expressar ojeriza a se prosternar diante de pessoas mais velhas ou reivindicar um sistema de normas e conceitos precisos, tais são duas ações que aparentemente nada têm em comum. Talvez supuséssemos que ambas são bastante esclarecidas: a primeira, expressão da autonomia, recusa a arbitrária autoridade do tempo; já a segunda, como prova de reflexividade, clama por publicidade e fundamentação. Duas posturas tidas como excelentes, sob o prisma do nosso espaço público, mas catastróficas em um terreiro de candomblé. Cada coisa em seu lugar, diriam alguns. Mas como haver múltiplos lugares, já que uma série de pressupostos monoteístas constitui o nosso lugar-comum? Não digo que os sedimentos que perfazem esse chão sejam apenas representações, crenças ou coisas dentro da cabeça. São, sim, em boa medida, nossa forma de trato; ou melhor, de falta de tato, de diplomacia, de negociação.

O contexto em que se situam as duas ações mencionadas é dado pelo livro Diplomas e decás, da socióloga Luciana Duccini.1 Trata-se de uma investigação sobre as formas de identificação dos membros da classe média no candomblé, tendo como pesquisa de campo o terreiro Ilê Axé Torrundê Ajagun, localizado no bairro de Paripe, na periferia de Salvador. Apenas nos interessam aqui as atitudes de duas personagens desse estudo. Uma delas, Rosana, mulher branca, por volta dos 47 anos à época da pesquisa, de classe média. Tanto era ela viajada pelo mundo, quanto já havia circulado pelo espaço das opções religiosas. Quando tentou criar raízes em um terreiro, sentiu enorme dificuldade para deitar o corpo no chão e pedir a benção aos mais velhos. Não enxergava os outros membros, ainda que alguns deles proviessem de sua classe social, como iguais a si. Somente pedia a benção ao pai de santo, um efetivo par, porque de classe média, estudado e médico. O outro personagem, Francisco, diplomado em história, era ogã suspenso, mas não confirmado. Jamais chegou a sê-lo no terreiro Torrundê, pelo seu desgosto com a falta de rigidez das regras e de precisão dos conceitos; pelo desagrado com o ambiente, ao seu juízo, de fofocas. Por tudo isso, ele se afastou. Francisco é da opinião de que uma federação dos terreiros de candomblé deveria ter o estatuto de um Vaticano: centralizador, regulador e fiscalizador.

Rosana e Francisco sofrem de má-educação monoteísta. Inicialmente, em termos breves, podemos dizer que a incivilidade monoteísta está calcada na absolutização da verdade. Em Rosana, a verdade absoluta está no juízo que faz sobre si. No caso de Francisco, o anseio por verdade absoluta se expressa na requisição por regras: talvez, uma teologia à la Aquino; certamente, uma instituição universal; e, por óbvio, a segurança de um direito canônico. Somente a nossa vulgaridade justifica a suposição de que, em não havendo verdade absoluta, tudo vale. O absolutismo, tanto da interioridade quanto da exterioridade, então parece desconhecer a tradução, a interpretação negociada e a percepção das analogias. Lançando mão do título de uma obra do egiptólogo Jan Assmann, eis que estamos diante d’O Preço do Monoteísmo.2 Tentarei sintetizar as teses desse autor em poucas linhas.

***

As religiões ditas antigas, aquelas praticadas por egípcios, babilônios, gregos, romanos, em muito se assemelham ao candomblé. Nenhuma delas está calcada em um livro que seja suposto como contendo a revelação de um deus e, mais precisamente, que este deus seja o único verdadeiro. Notemos o detalhe: há uma identificação entre um único deus e a verdade, caindo todos os demais deuses sob a pecha da falsidade. Tais religiões não se sustentam em livros, uma vez que não dependem de nenhuma teologia, ou seja, de um conjunto sistemático de proposições ao qual um sujeito deve aderir. Antes, sendo elas cosmoteológicas, os deuses estão no plano da imanência, manifestos nas ações da natureza e nas próprias atividades humanas. O divino não repousa, de tudo apartado, em um plano transcendente. É claro que essas populações possuem teologias, mas a nossa má-educação monoteísta não tem o cuidado histórico-filológico de perceber que elas são discursos: aitiologias (do grego aítios: causa, causativo, responsável); prescrições e descrições de práticas rituais; apresentações de teofanias. Crer, para elas, nada mais é do que fazer, cumprir as práticas e prescrições rituais legadas pelos seus antepassados, já que antiguidade também é posto: quanto mais antigo, mais próximo aos deuses. Dizemos dessas religiões que são ortopraxias, por oposição à ortodoxia, essa tão mais característica do legado abraâmico.

O resultado de um único deus como sendo a verdade pode ser visto, por exemplo, no livro bíblico de Isaías (44: 9-19), onde graça o menosprezo aos deuses: rebotalhos de ferros e paus retorcidos, sem vida, frutos da criação meramente humana. O monoteísmo opera como uma religião secundária, reativo aos contextos politeístas que o circundava; e, por isso, converte em negativo tudo o que era saudado pelos numes. Nega até mesmo a sua história, deixando apenas em estratos filológicos e arqueológicos o passado em que havia uma escultura de Javé no templo; que este mesmo Javé era casado com uma deusa, Asherah; e que o próprio Javé nada mais era do que um dentre inúmeros Baals, um Baal da tempestade: um verdadeiro Xangô. Exatamente por isso o monoteísmo é dito secundário: a condição de possibilidade de sua existência está na pura negação do próprio solo cosmológico do qual foi oriundo.

A história do verdadeiro deus solipsista recebe seus arremates em Tertuliano3, Lactâncio4 e Agostinho.5 Para os dois primeiros, a sabedoria produzida fora dos esquadros monoteístas nada mais seria do que pura vaidade. O que há de correto nos antigos, passível de ser assimilado pela cristandade, apenas se justifica como destroços e sementes que restaram na razão humana após a queda do paraíso. Assim sendo, estamos diante do estabelecimento de uma única sabedoria, a alegação da existência de uma única filosofia verdadeira: aquela que é perfeita pela revelação do cristo. Como uma avalanche de testemunhos dos antiquários não deixava passar em branco os feitos e efeitos das antigas divindades, sendo assim difícil reduzi-las a simples matéria morta, Agostinho, na Cidade de Deus, equaliza as ações dos deuses com atividade dos demônios e, portanto, do erro e da ilusão.

Da parte de Francisco, o clamor pela rigidez das regras é anseio por dogmática. Ele simplesmente esquece que o culto é fundamentalmente dinâmico. Há, sim, escrupulosidade para os antigos, no sentido que o filósofo Cícero havia conferido ao termo religião: a manutenção e retomada dos costumes ancestrais.6 Mas isso passa longe da recusa à diversidade, à transformação, à negociação. Como bem reconhecem algumas tradições hindus, a realidade regularmente apodrece, coloca problemas, soçobra. É necessário periodicamente cozinhar o mundo, como aquele que defuma as carnes da caça a fim de que perdurem: o que somente é possível através dos rituais. Se o mundo nos coloca novos problemas, e mesmo se muito nos desviamos do desejado pelos antepassados, sempre há a comunicação dos deuses e dos ancestrais. Eles, por meio de portentos e advertências oraculares, apontam o erro e indicam a solução. Aliás, a falta de educação de Francisco possui suas simetrias com uma proverbial deselegância de alguns cientistas sociais, historiadores e literatos: a suposição de que religiões antigas estejam fundadas em puras palavras, narrativas, discursos produzidos enquanto são reproduzidos. Eles não observam que há um sistema de comunicação com os deuses, por meio do qual humanos e não-humanos negociam. Nossa posição monoteísta, já iluminada pela dieta protestante – a qual julgou por mais racional ter em deus o relojoeiro que montou o mundo e nele deu corda –, apenas tem nos oráculos e portentos manipulações mistificadoras; adulterações realizadas com fins políticos ou econômicos. Uma elite faria uso do oráculo para legitimar sua vontade e manter o poder.

Não recorrerei aqui aos testemunhos históricos e aos fundamentos metodológicos contrários a tal hipótese de um “cinismo originário”. Eu me volto para um dos lugares ainda possíveis no Brasil, àquilo que é comum para algumas vertentes das religiões de matriz africana, em que perguntas são publicamente feitas pelo sacerdote ao oráculo do obi, aos pés do assentamento do orixá, e todos os iniciados são capazes de ler as caídas dessa semente. Quantas não são as vezes em que o oráculo responde, reiteradamente, o contrário daquilo que era a expectativa, ou anseio, ou aquilo que o sacerdote havia planejado? Todo um ritual pode vir por terra simplesmente porque o orixá disse não, que não aceita.

A má-educação de Rosana nos é especialmente familiar. Após a revolução de ideias promovida pelo protestantismo, em meio às guerras religiosas, um pacto de paz foi sugerido colocando deus, a verdade absoluta de deus, como residente nos recônditos do coração humano. Se deus é a verdade, e a verdade habita em mim, por uma operação metonímica eu também sou a verdade. A estrada ao império do eu acabou por ser pavimentada pelo romantismo, como impulsos e forças internos, constitutivos da mônada que sou, tenham eles os nomes de vontade ou de imaginação, que fazem brotar um mundo em minha cabeça. Para que sejamos autênticos, faz-se necessário dar vazão à verdade do que sou.

Pois o trabalho sociológico de Luciana Duccini é uma excelente oportunidade para demonstrar que as religiões antigas, em seus aspectos iniciáticos, são mais propriamente um desmonte daquilo que eu acho que eu sou.7 Enfiar as mãos nas entranhas do animal sacrificial para retirar as vísceras que serão ofertadas aos deuses, como ocorre entre candomblés, entre gregos e entre troianos, não exige somente transformações dos nossos ascos e repulsas. Requer também modificações dos nossos esquemas motores, porque é necessária a pegada precisa para, por exemplo, não estourar a bile e com isso amargar toda a carne. O processo de iniciação, nos mistérios de Elêusis ou nos candomblés, possui aspectos duais entre o mundo dos mortos e o mundo uterino. Antigas roupas, nome e status social são removidos.

Aqui a expressão “conhece-te a ti mesmo” começa a recobrar sentido. Conhecer-se não tem nenhuma relação com processos de introspecção que apanhariam a joia da minha verdade em um fluxo qualquer de consciência. Conhecer-se é saber qual é o seu lugar, o seu lugar em relação a toda a diversidade de lugares distribuídos entre humanos e não humanos. Logo, quem não se situa, geralmente comete desmedidas. Para o psicólogo James Hillman, a compreensão do ego como um núcleo duro deve ceder espaço para o seu entendimento como uma constelação.8 Nada de novo para um antigo que, como o personagem principal de Apuleio em O asno de ouro, ao fim de um percurso iniciático se deparará com a deusa Isis, de múltiplos nomes e de diferentes epifanias. Além do assentamento do seu orixá principal, algumas tradições de matriz africana atribuem ao iniciado tantos outros assentamentos, tantas outras divindades que, em maior ou menor grau, participam da constituição daquilo que ele é. Não é por menos que a antropóloga Rita Segato, em sua preciosa obra Santos e daimones, dedica-se a traçar paralelos entre o candomblé e as religiosidades greco-romanas para explicitar que a pessoa é um esquema de deuses e ancestrais, sempre em negociação.9

Se não me arrogo dizer que estamos diante de uma nova pedagogia, pelo menos posso alegar que fomos introduzidos a uma outra etiqueta. O comparativismo é aquilo que nos cabe realizar no plano mental, enquanto os antigos nele tinham um compromisso prático. Se realizo um acordo comercial com um estrangeiro, e se o acordo deve ser selado por um juramento sob os auspícios dos deuses, é necessário saber qual é o nome do deus estrangeiro que equivaleria ao meu deus. Se meu povo está em guerra com outra população, o mais auspicioso não é amaldiçoar os deuses estrangeiros, mas sim propiciá-los, seduzi-los, com a promessa de que serão reverenciados pelos oponentes do seu povo de origem. E, diante de uma catástrofe qualquer, não é surpresa que o oráculo ordene a importação de um deus de terras estrangeiras, com isso inaugurando um culto. Marcel Detienne diz que os gregos e romanos devem ser encarados por nós como alienígenas, em termos de prática e de mentalidade, porque a maior parte do que defendemos como herança por eles legada não passa de flash de imagens e fraseados.10 Quando, entre nós, seríamos tomados por um terror reverente perante imigrantes, refugiados em um templo da nossa terra, que suplicam exílio? Para a nossa Europa, uma mera questão de polícia.

Mais uma vez abismada, a má-educação monoteísta pode bradar contra a suposta zona das religiões antigas, vendo em tudo isso um salve-se quem puder das divindades. Dois mecanismos participam dessa ilusão. O primeiro está em supor que o passado não possui peso, e que a verdade flutua como uma proposição mental, enquanto ela é, propriamente, um processo que se afunda nos estratos do solo e nas camadas do tempo. Os antepassados constituem o chão, e a verdade é a corrente de comunicação com a terra. Não vale tudo porque é necessário se orientar pelas antigas vozes, as quais ecoam nas organizações políticas do presente. Em vários candomblés, o início dos rituais ocorre com o ato de pingar três gotas de água no chão e evocar, pelo nome iniciático, os ancestrais que sustentaram aquela linhagem. Com isso, é difícil esquecer que estamos sistematicamente respondendo aos mortos.

Vale recordar que a cidade antiga não conhece clivagens entre o político, o religioso e o que chamamos de cultural. Formalidades devem ser respeitadas para que um novo culto seja reconhecido publicamente. O que em nada impedia, por exemplo, na Roma do período helenístico, que estatuetas de Epicuro e de Platão ocupassem os altares domésticos: uma divinização de filósofos. Ressalto que aqui não estou vendendo a barata suposição de uma paz perpétua dos antigos. Guerreavam, eram violentos, mas nunca por causa da religião ou da verdade de um deus. A coisa apenas mudou de tom com o crescimento daqueles tidos por grosseiros e incivilizados, aqueles que em nome da verdade de um único deus negavam a diversidade da vida pública.

O segundo mecanismo é retórico, no sentido do mau uso da retórica. O discurso tem o poder de estabelecer cisões: o verdadeiro e o falso; o bem e o mal; o belo e o feio. Ficam esses nomes como etiquetas, na figura de pares de opostos assimétricos, porque em um lado está a positividade radical e, do outro, o sumo negativo. Significa isso que não há mediação, não há processo, não há transformação. Desconsiderar que a verdade esteja na operação, e não na proposição, justifica a ininteligibilidade de que uma coisa feita de búzios, ferros e pedras possa ser um deus.

No seu processo de iniciação, em determinadas vertentes do candomblé, o suplicante fica ajoelhado, mirando de cabeça baixa um grande alguidar que tem diante de si. A água é vertida no recipiente e, enquanto são entoados cânticos específicos, folhas são maceradas. O líquido cristalino é, aos poucos, tomado por um verde escuro, enquanto mãos, de cujo rosto a visão não alcança, mãos ali anônimas, mãos divinas, lavam recipientes, pedras, búzios e ferros. Cada objeto mergulhado naquele fundo opaco deve ser resgatado pelas mãos do próprio suplicante, como se tivesse encontrado por acaso o conteúdo que faz emergir. Suas mãos, acompanhadas por cantigas, são conduzidas pela mão sem face em um gesto ritual. Os objetos resgatados são cuidadosamente depositados no recipiente que abrigará cada uma das divindades. Valendo-me das palavras de Pausânias, nada mais posso dizer aos não iniciados, pois dos mistérios o pertinente é oferecer tão-só indicações. A opacidade da água reflete a necessidade do mistério, porque aos ignorantes está vetado vislumbrar o que há por detrás do mariwo. Eis somente um dos momentos em que o deus e o suplicante iniciam o seu nascimento. Ora, a verdade sobre si não é medida por proposições, mas por oposições, pelo poder de resistir e de empreender: o quanto alguém suporta de um segredo, por exemplo. Isso não me é dado saber sem antes ter feito a prova, ainda que a autocomplacência nos diga o contrário. Em tempos de mercado da autoexposição, quando a opacidade é suspeita em nome de outra verdade absoluta, a completa transparência, nada pode ser mais aberrante do que a intimidade com um deus. Ironicamente, dos males que afetam os deuses também padecem as ciências. Já que desconhece os protocolos experimentais, os sistemas de testagem e de verificação, o mau hábito monoteísta espera que a ciência profetize, que dispare sentenças eternas e imutáveis. Qualquer indício de controvérsia é motivo de suspeita. Porque, ao fim e ao cabo, se Deus é a verdade e a verdade é Deus, só resta a monotonia angelical do coro que enuncia sua glória.

Romper a opacidade, e por aí largar segredos que só foram requisitados para entreter a curiosidade, nada mais é do que grosseria. Fato que talvez um monoteísta estranhe, porquanto sua verdade deva ser difundida pelos ventos, na porta de todo e qualquer desavisado, até mesmo às sete horas da manhã do sono dominical. Da grosseria para a brutalidade faltam poucos passos, tanto quanto é diminuta a distância entre a transparência absoluta e a disponibilidade total. Próximo ao final da segunda parte de Fausto, Goethe resgata a imagem do casal de idosos que ofereceu abrigo a Zeus e Hermes, quando estes caminhavam disfarçados de mendicantes. Filémon e Baucis são os últimos obstáculos que entravam nos planos empresariais de Fausto. Sequioso por tudo tornar disponível, utilizável e rentável, Fausto aspira represar até mesmo as águas do mar. Os idosos moravam em um antigo casebre, que Zeus e Hermes haviam transmutado em um templo como forma de agradecimento pela hospitalidade dada. Como o dinheiro não era meio suficiente para que Fausto os convencesse a ceder o terreno, sua solução para esse impertinente resto de mundo antigo foi assassinar o par de velhos. Também aos monoteístas são incômodas as resistências do assim chamado “mundo pagão”. O ritualismo que governa a ortopraxia seria apenas uma repetição vazia e monótona de gestos complicados, pois a verdade da religião estaria abrigada no coração, na convicção de ter boas intenções. Temos aqui um passe de mágica em teoria da história das religiões. Os atos rituais e coletivos aguardariam sua superação pelo advento da figura do indivíduo, que somente então teria como foco, não mais o bem estar coletivo, mas sim a salvação individual. O coletivismo dessas práticas arcaicas estorva o pleno desenvolvimento do empreendedorismo individual, particularmente porque obstaculiza o livre fluxo do dinheiro com a impertinente ideia de que há coisas que são inegociáveis, que não são dissolvidas pelo ácido de um meio de troca como equivalente universal.

Da disponibilização das coisas externas para o controle das coisas internas, observemos agora um outro gesto fáustico. Como já foi dito, muitos modernos passam a supor que, mesmo não havendo o divino como objeto dado e verificável, sua persistência como representação deve ser justificada pela verdade de alguma mecânica dentro da cabeça. O célebre médico Nina Rodrigues relata, no livro O animismo fetichista dos negros baianos, um caso constrangedor.11 Diz ele que havia conhecido, em um terreiro, uma jovem que caia em transe com o santo antes mesmo de ser iniciada. A mãe de santo havia explicado que o caso era raro, que aquela forma de transe expressava o santo em seu estado bruto, razão pela qual os gestos e comportamentos da moça pareciam descontrolados no ato da possessão. Pois Nina Rodrigues estava convencido de que o estado de santo poderia ser explicado como estado sonambúlico hipnoticamente induzido, o que tornaria a condição reprodutível experimentalmente em um consultório. Para o deleite da nossa ironia, o nome da jovem era Fausta. Pois que Nina Rodrigues a encontrou, circunstancialmente, na rua; e de pronto a convidou para o seu consultório, com a promessa de que ajudaria nos custos de sua iniciação. Na primeira sessão, constatou que Fausta era facilmente induzida ao estado hipnótico. Tendo convidado um seu amigo médico para testemunhar o experimento, realizou a segunda sessão. Estando Fausta já hipnotizada, Nina Rodrigues emitia comandos que reconstruíam ações e imagens do terreiro. Até cantou cantigas, e pediu que o santo de Fausta se manifestasse. Fausta era uma mulher de Obatala. O médico começou a puxar cantigas, como se imitasse a sequência da ordem de um xirê, a começar por Exu. Ao chegar no momento em que o santo de Fausta deveria dançar, Obatala simplesmente se negou. Nina Rodrigues insistia. No primeiro momento, Obatala recusa porque estava sem suas roupas adequadas. Após o médico dar a sugestão ao santo de que portava seus trajes de gala, Obatala se recusava, porque agora a sua cantiga já havia passado. Muito diplomático em sua teimosia, quando instigado, Obatala dava outras desculpas para não dançar. E Nina Rodrigues se viu na obrigação de desdobrar arrazoados teóricos para justificar que, mesmo com a absoluta certeza de que Fausta estava hipnotizada, ainda assim resistiu aos comandos. Santo bom é o que diz não, mesmo que isso valesse o dinheiro da obrigação de Fausta. Porém, façamos justiça: Nina Rodrigues ajudou nas obrigações da jovem, mesmo que tenha fracassado no experimento.

***

Retomemos o fio das ideias para que possamos concluir. O lugar-comum que sustenta a má-educação monoteísta não é a suposição de que há um deus supremo, sendo esse um caso que poderia ser chamado de monolatria, ou que bem combina com o henoteísmo. O problema está em que esse único deus seja a verdade. Tudo piora quando a absoluta verdade cai dos céus e se afunda dentro da cabeça humana. Todo um esforço enorme, todo um escavar sem fim, toda uma postura muito compenetrada para escarafunchar a pedra filosofal da interioridade. Comparar é compor e contrapor, o que pulveriza a univocidade do lugar-comum da absoluta verdade e cria a possibilidade, não necessariamente da equivocidade, mas antes, das analogias. Com isso, apresenta-se uma singela dieta contra a estranha figura em que nos transformamos: cretinos das sentenças. De um lado, proposições estanques sobre verdades eternas; do outro lado, fraseados sobre nosso autêntico ser. Uma vez que ambos se consubstanciam, já que não reconhecem processos, transformações e deslocamentos, diremos que o cretino das sentenças é o perfeito morador do último círculo do inferno de Dante: o frio absoluto como negação da vida. Caminho para o fim trazendo um caso de comparação.

Um dos comportamentos mais mal-educados é aquele do estraga-festa. Assim se deu na abertura dos jogos olímpicos de Paris. A mesa de um banquete ocupada por deslumbrantes drag-queens, de cujo centro aparece uma figura satírica pintada de azul, causou rebuliços, muxoxos e a ira dos monoteístas. Seria uma paródia blasfema da Santa Ceia, de Leonardo da Vinci? Ou seria uma alusão ao quadro A Festa dos Deuses, de van Bijlert? A proposição absolutamente correta é a primeira ou a segunda? Já se percebe que a pergunta é cretina. De pronto, porque em termos de imaginário popular, dada a reprodutibilidade das imagens na cultura pop, qualquer figura central, ladeada por outras, perante a mesa de um banquete, de pronto pode ser especulada como alusiva à Santa Ceia. Em seguida, é importante recordar que a ceia com o divino, com os deuses, não é um apanágio da cristandade: há entre os gregos, há entre os romanos e há nos candomblés, para que fiquemos só com alguns exemplos. Além disso, a imagem do banquete produzido nas olimpíadas de Paris é um primor de tradicionalismo católico. Vejamos, pois.

Na Idade Média circulavam textos satíricos que causariam mais assombro do que o parisiense Dioniso eucarístico. Não eram proibidos ou secretos, porque um deles, o mais pesado, foi sistematicamente apresentado e encenado, tendo ocasião até mesmo na coroação do rei Carlos, o Calvo. Estou me referindo especificamente ao texto Cena Cypriani, equivocadamente atribuído a São Cipriano, bispo de Cartago no século III. A autoria verdadeira? Pouco importa. O mais importante está na corrente de transmissão e de recepção desse texto, principalmente nos seus usos. Feita para que a cristandade risse e memorizasse personagens bíblicos, temos uma ceia com figuras do antigo e do novo testamento, bem como de obras apócrifas. Ali se encontram Abraão, Sara, Davi, Jesus, o apóstolo Pedro, a serva Agar, Judas, dentre outros. Uma das versões diz que um rei convida esses personagens para um banquete no seu palácio de Canaã. No primeiro dia, tudo corre bem, com as estripulias e algazarras típicas da comilança. Contudo, no segundo dia, quando os convidados levavam presentes ao rei, surge uma denúncia de roubo entre os personagens. Injúrias, difamações e acusações fluem do texto, das quais nem Jesus escapa. Sem encontrar um culpado, os convidados escolhem a serva Agar como bode expiatório, e promovem um linchamento, do qual tampouco Jesus se priva de dar o seu quinhão de cacetadas. Como nos ensina Bakhtin, dessas sátiras e paródias medievais nasceu Rabelais.12 Ora, se os monoteístas são tão mal-educados em relação à sua própria tradição, o que se dirá em relação aos outros, aqueles que ainda sabem rir dos deuses e com os deuses?

Notas

1 DUCCINI, Luciana (2016) Diplomas e decás: Identificação religiosa de membros de classe média no Candomblé. Salvador: Edufba.

2 ASSMANN, Jan [2003] (2021) O preço do monoteísmo. Tradução de Markus Hediger. Rio de Janeiro: Contraponto.

3 TERTULIANO (2021) Apologético. Tradução de Luís Carlos L. Carpinetti. São Paulo: Paulus.

4 LACTÂNCIO (1992) Institutions divines. Livro IV. Introdução, tradução e notas de Pierre Monat. Paris: Du Cerf.

5 AGOSTINHO (2002) A Cidade de Deus. Parte I. Tradução de Oscar Paes Leme. Petrópolis: Vozes.

6 CÍCERO, Marco Túlio (1999) Sobre la naturaleza de los dioses. Introdução, tradução e notas de Ángel Escobar. Madri: Gredos.

7 DUCCINI, Luciana (2016) Diplomas e decás, op. cit.

8 HILLMAN, James (2022) Psicologia arquetípica. Tradução de Lúcia Rosenberg e Gustavo Barcellos. São Paulo: Cultrix.

9 SEGATO, Rita (2021) Santos y daimones: el politeísmo brasileño y la tradición arquetipal. Buenos Aires: Prometeo.

10 DETIENNE, Marcel (2008) Os gregos e nós: uma antropologia comparada da Grécia antiga. Tradução de Mariana P. Sérvulo da Cunha. São Paulo: Loyola.

11 RODRIGUES, Nina (2006) O animismo fetichista dos negros baianos. Apresentação e notas de Yvonne Maggie e Peter Frey. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional.

12 BAKHTIN, Mikhail (1987) A cultura popular na Idade Média e no Renascimento:o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: HUCITEC.

Bibliografia

AGOSTINHO (2002) A Cidade de Deus. Parte I. Tradução de Oscar Paes Leme. Petrópolis: Vozes.

ASSMANN, Jan [2003] (2021) O preço do monoteísmo. Tradução de Markus Hediger. Rio de Janeiro: Contraponto.

BAKHTIN, Mikhail (1987) A cultura popular na Idade Média e no Renascimento:o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: HUCITEC.

CÍCERO, Marco Túlio (1999) Sobre la naturaleza de los dioses. Introdução, tradução e notas de Ángel Escobar. Madri: Gredos.

DA SILVEIRA, Renato (2006) O Candomblé da Barroquinha. Salvador: Malanga.

DETIENNE, Marcel (2008) Os gregos e nós: uma antropologia comparada da Grécia antiga. Tradução de Mariana P. Sérvulo da Cunha. São Paulo: Loyola.

DUCCINI, Luciana (2016) Diplomas e decás: Identificação religiosa de membros de classe média no Candomblé. Salvador: Edufba.

HILLMAN, James (2022) Psicologia arquetípica. Tradução de Lúcia Rosenberg e Gustavo Barcellos. São Paulo: Cultrix.

LACTÂNCIO (1992) Institutions divines. Livro IV. Introdução, tradução e notas de Pierre Monat. Paris: Du Cerf.

LIVERANI, Mario (2014). Para além da Bíblia. História antiga de Israel. Tradução de Orlando Soares Moreira. São Paulo: Loyola.

SCHEID, John (2019) Rites et religion à Rome. Paris: CNRS Éditions.

MALAMOUD, Charles (1989) Cuire le monde: Rite et pensée dans l’Inde ancienne. Paris: La Découverte.

PARKER, Robert (2011) On Greek Religions. Nova York: Cornell University Press.

PIRENNE-DELFORGE, Vinciane (2008) Retour à la source: Pausanias et la religion grecque. Liège: Presses Universitaires de Liège.

RODRIGUES, Nina (2006) O animismo fetichista dos negros baianos. Apresentação e notas de Yvonne Maggie e Peter Frey. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional.

RÖMER, Thomas (2014) L’invention de Dieu. Paris: Seuil.

SCARPI, Paolo (2007) Le religioni dei Misteri. Vol. I. Milão: Fondazione L. Valla – A. Mondadori.

SEGATO, Rita (2021) Santos y daimones: el politeísmo brasileño y la tradición arquetipal. Buenos Aires: Prometeo.

TERTULIANO (2021) Apologético. Tradução de Luís Carlos L. Carpinetti. São Paulo: Paulus.

VERGER, Pierre (2012) Notas sobre o culto dos orixás e voduns. Tradução de Carlos Eugênio M. de Moura. São Paulo: Edusp.

VESPERINI, Pierre (2019) La philosophie antique. Essai d’histoire. Paris: Fayard.

Fábio Costa é professor de Filosofia do Colégio Pedro II. Mestre e Doutor em Filosofia das Ciências e Teoria do Conhecimento pela UERJ.

Últimos posts

Deixe uma resposta

Acima ↑

Descubra mais sobre Ateliê de Humanidades

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading