Fios do Tempo. Uma nova consciência global: A reinvenção da imaginação cosmopolita – por Daniel Chernilo

Retomando as atividades do Fios do tempo depois de uma semana dedicada a fechamento de projeto editorial e de escrita acadêmica, retornamos hoje com mais um importante texto do sociólogo e filósofo chileno Daniel Chernilo. Neste pequeno artigo, Chernilo nos traz uma profunda reflexão sobre a emergência de empatia universal e de solidariedade global em face a acontecimentos trágicos compartilhados midiaticamente.

Tendo por referência o pensamento cosmopolita de Immanuel Kant, o autor faz uma comparação entre a emergência de uma consciência de humanidade decorrente do terremoto de Lisboa em 1755 e a possibilidade de uma nova imaginação cosmopolita oriunda da atual pandemia. Nesta reflexão, ele nos coloca questões centrais: o que faz com que haja uma solidariedade com sofrimentos de pessoas distantes? Devemos ter experiências e vivências compartilhadas? Ou podemos contar apenas com nossa imaginação diante de nossa comum condição humana?

Desejamos uma excelente leitura!

A. M.
Fios do Tempo, 07 de julho de 2020



Uma nova consciência global:
A reinvenção da imaginação cosmopolita

Santiago do Chile, 19 de maio de 2020

Em 1º de novembro de 1755, por volta das 9h30, um terremoto sacudiu o porto de Lisboa em Portugal. Algumas horas depois, a cidade foi praticamente destruída por incêndios, desabamentos de edifícios e um tsunami. As perdas materiais e humanas foram extremas no que era, naquela época, uma das cidades mais importantes da Europa. Como um bom porto, Lisboa também era uma cidade internacional, um local de encontro e intercâmbio de pessoas, ideias e mercadorias de todo o mundo. Isso, juntamente com o fato de o terremoto ter ocorrido durante a celebração católica do Dia de Todos os Santos, apenas aumentou o simbolismo da tragédia. Em pouco tempo, o “terremoto de Lisboa” já havia se tornado o primeiro evento global da modernidade.

O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) está entre os que consideram a tragédia de Lisboa um evento altamente significativo. Além de suas convicções religiosas pessoais, a importância que Kant atribui ao terremoto não é teológica, pois ele a usa para marcar o início de uma nova era na história da humanidade. Com os mortos e a destruição de Lisboa em mente, Kant escreve em 1795 que uma nova consciência cosmopolita se abre diante de nós, definida como um pertencimento humano universal (Kant, 1999 [1795]). Por um lado, viagens, comércio e notícias já estavam viajando por todo o globo e permitiam conhecer realidades remotas; por outro, Kant diz que, graças a essa consciência de pertencimento comum, sentimos como nossas as tragédias e eventos que ocorrem em qualquer lugar do mundo.

O pesar pelo terremoto de Lisboa mostra que não precisamos de uma conexão direta, concreta ou pessoal com esses eventos, porque nossa participação comum na espécie humana é robusta e significativa o suficiente para criar vínculos de solidariedade com aqueles que experimentam eventos dessa magnitude. Não é necessário falar a mesma língua, ter crescido nos mesmos lugares ou ter experimentado qualquer experiência em sua própria carne para que esse tipo de empatia geral entre os seres humanos surja.

Nesta versão renovada da velha ideia de empatia como “colocar-se no lugar do outro”, esse outro pode ser qualquer um, estar localizado em qualquer lugar do mundo, e não somos obrigados a compartilhar nenhuma característica específica. Trata-se de uma solidariedade que se baseia unicamente em nossa condição humana comum: medo, fome, amor ou amizade. Como nunca antes, nós, os seres humanos, podemos entender a nós mesmos como cidadãos do mundo.

Falar do terremoto de Lisboa de 1755 como o primeiro “evento midiático global”, no sentido em que usamos o termo hoje, significa entendê-lo como um acontecimento que atrai a atenção de públicos com interesses diversos, espalhados por todo o mundo, e que, por razões circunstanciais, assume um significado mais geral.

Desde esta época, a lista de eventos que foram construídos de forma semelhante tem sido extensa: a Revolução Francesa em 1789, a abertura do Canal do Panamá em 1914, a explosão da primeira bomba nuclear em Hiroshima em 1945 ou o ataque às Torres Gêmeas em Nova York em 2001. Todos esses eventos têm em comum o princípio geral que Kant também destaca no terremoto de 1755: não é necessário ter testemunhas oculares ou vítimas diretas para entender sua relevância, nos admirar por sua magnitude ou ter empatia com os danos que puderam causar. São todos eventos que transcendem fronteiras nacionais, diferenças de gênero ou posições políticas e que, a partir daí, nos falam do destino que compartilhamos como membros da mesma espécie humana.

A pandemia da COVID certamente será incluída na lista de eventos globais do século XXI. O tempo que levaremos para deixar para trás a “distância social” necessária para impedir a disseminação do vírus, o número de mortes que se acumulam como resultado direto do contágio, bem como a gravidade da crise econômica que já está surgindo, serão algumas das principais dimensões com as quais os futuros historiadores narrarão os eventos dramáticos de 2020. Desde este ponto de vista, essa pandemia é perfeitamente comparável a situações anteriores e só pode ser entendida como análoga a elas. Trata-se de um evento implacável, onde a globalidade do mundo em que vivemos se encontra em nossas interações mais triviais e na maioria dos espaços mais cotidianos. É uma situação que nos permite entender e mostrar solidariedade com experiências semelhantes em diferentes partes do mundo, um evento cuja cobertura midiática reforça a consciência de uma existência humana compartilhada além ou independentemente de nossa nacionalidade ou religião.

De Lisboa em 1755 a Nova York em 2001, uma característica comum desses eventos é que seu significado global não reside necessariamente no número de pessoas afetadas, muito menos em ter tido participação direta nelas. Seu potencial global está relacionado à narrativa que é construída posteriormente e, em grande parte, a partir das consequências imprevistas que geraram. Assim, no caso do ataque terrorista de 2001 nos Estados Unidos, o número de pessoas diretamente afetadas foi comparativamente pequeno, mas suas consequências geopolíticas, bem como a mudança nos protocolos de segurança em todos os aeroportos do mundo, foram globais e de longa duração. A reflexão moderna sobre eventos globais que criam a possibilidade dessa empatia generalizada se baseia no fato fundamental de que não precisamos compartilhar diretamente sua experiência para gerar consciência e solidariedade comum.

No caso da COVID-19, há uma diferença significativa em relação aos eventos anteriores, mesmo quando suas consequências mais profundas ainda são impossíveis de prever. Em grande parte, essa pandemia contradiz um dos pilares fundamentais da ideia de um evento global que começou com o terremoto de Lisboa. Uma dimensão sem precedentes da crise atual é que é a primeira crise global em tempo real para a maior parte da humanidade. Ou seja, como nunca na história das espécies, estamos conscientes atualmente de que a maioria dos habitantes do planeta está passando pela mesma situação em primeira pessoa. As quarentenas, as restrições de movimento, os cancelamentos de viagens, as comemorações e os eventos de todos os tipos, bem como a transição acelerada para formas um tanto improvisadas de “teletrabalho” e “teleeducação”, são experiências compartilhadas por cerca de 90% dos poucos mais de 7 bilhões de seres humanos que habitam a terra hoje. Não precisamos esperar até que suas consequências se desdobrem no tempo adequado para que se entenda seu significado global.

Mas há uma segunda característica, talvez menos impressionante no imediato, mas mais significativa no médio prazo, que também diferencia a pandemia da COVID-19 dos eventos globais do passado. Como dissemos, a consciência cosmopolita da qual Kant fala no final do século XVIII refere-se à possibilidade de criar formas de solidariedade com quem não temos experiências comuns. Kant não precisava estar em Lisboa em 1755, ou ter perdido um parente direto no terremoto, para sustentar a existência de um vínculo humano com aqueles que experimentaram esses sofrimentos.

Inversamente, uma dimensão fundamental da pandemia da COVID-19 é justamente o fato de a grande maioria dos habitantes do planeta estar passando efetivamente por experiências semelhantes. Não somos espectadores de um evento gigantesco ocorrendo em outro lugar, porque a COVID-19 interrompeu a vida cotidiana em Tóquio, Quito, São Petersburgo e Cidade do Cabo. Também não exigimos o exercício cognitivo de ampliar nossos horizontes para nos colocar no lugar dos outros, já que agora podemos recorrer aos repertórios emocionais mais íntimos e pessoais. Estamos diante da emergência de uma nova forma de consciência global que surge de uma experiência diária compartilhada em escala global.

Como inevitavelmente precisamos testemunhar pelo menos uma diminuição temporária nas viagens e nas trocas globais, haverá uma tentação de declarar o fim ou a derrota não apenas da “globalização econômica”, mas também da própria ideia de cidadania global e de co-responsabilidade coletiva. Aqueles que preferem o fechamento de fronteiras receberão tanto da direita nacionalista quando da esquerda protecionista uma nova energia, argumentando que a culpa de tudo está em não ter entendido ou respeitado os limites naturais da experiência humana.

Assim, essas transformações nos apresentam tanto uma ameaça quanto uma oportunidade. Como ameaça, o risco atual é remover nossa responsabilidade em relação ao desconhecido. Ao expandir o domínio do biográfico comum para abranger o mundo inteiro, corremos o risco de ficar sem espaço para essa solidariedade gratuita que não requer outro elemento além da nossa  comum humanidade. A inovação intelectual e moral apontada por Kant estava precisamente em imaginar e, assim, contribuir para tornar realidade, o vínculo mais amplo possível de solidariedade e reciprocidade sem outra restrição além das nossas experiências antropológicas mais fundamentais de amor e ódio, amizade e medo. Trata-se de uma inovação crucial porque nos tira da nossa zona de conforto e nos devolve à incerteza do mundo pelo mero fato de nele residirmos. É uma solidariedade altruísta, que não pode ser instrumentalizada, justificar-se de modo egoísta ou tampouco apelar para um comportamento estratégico ou hedonista.

A oportunidade, por outro lado, é que, pela primeira vez na história da humanidade, a experiência comum de uma ameaça planetária nos motiva efetivamente a agir de maneira coordenada e determinada para enfrentar os problemas globais. Na era das mudanças climáticas, da superexploração de recursos naturais e da desigualdade global, estamos ficando sem desculpas para competir nossas lealdades particulares com nossa responsabilidade global. A esperança, talvez iludida, é que a vivência comum da pandemia se constitua em uma nova forma de imaginação cosmopolita e se materialize em formas de ação coletiva que tornam realidade a ideia de nos constituir, genuinamente, em cidadãos do mundo.

Notas e referências

Kant, I. (1999 [1795]) Rumo à paz perpétua. Um esboço filosófico, Editorial Biblioteca Nueva: Madrid.


Daniel Chernilo é professor Titular da Escola de Governo da Universidade Adolfo Ibáñez no Chile. Entre suas publicações se destacam A Social Theory of the Nation-State (Routledge, 2007), Nacionalismo y Cosmopolitismo (UDP, 2010) e Debating Humanity. Towards a Philosophical Sociology (Cambridge UP, 2017).


O presente artigo foi publicado originalmente no site do Centro de Investigación Periodística (CIPER)/Académico, no Chile: Una nueva consciencia global: la reinvención de la imaginación cosmopolita.

O projeto CIPER/Académico é uma iniciativa da CIPER que busca ser uma ponte entre a academia e o debate público, cumprindo um dos objetivos fundamentais que inspiram nosso ambiente. É um espaço aberto a todas as pesquisas acadêmicas nacionais e internacionais que buscam enriquecer a discussão sobre a realidade social e econômica.


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