Fios do tempo. Em busca do Proust perdido – por Roberto Pedretti

Publicamos hoje no Fios do tempo o artigo “Em busca do Proust perdido”, de Roberto Pedretti. Ele é o primeiro de nossa tribuna a tocar diretamente o tema da literatura, o que é feito como preparativo do ciclo “Para Ler o Século XX através da Francofonia: autores, movimentos e perspectivas”, que ocorrerá na BiblioMaison, consulado da França no Rio de Janeiro, nos meses de maio e junho de 2020.

Neste texto, Roberto nos convida a um encontro com Proust, à sua leitura por todos, sobretudo os jovens leitores, sem se deixarem intimidar com a natureza da obra proustiana, nem com a abundante fortuna crítica que faz a mediação de sua recepção.

Você pode ler e também escutar o artigo. Uma boa leitura, uma boa escuta!




Em busca do Proust perdido

Rio de Janeiro, 02 de março de 2020

“À la Recherche du Temps Perdu” faz parte popularmente do que costumo chamar de “obras da aposentadoria”: uma categoria literária conectada à célebre frase “agora que tenho tempo para me dedicar a mim mesmo…”. Na prática, isso significa que a “Recherche” está reservada àquele ponto da vida em que não temos mais grandes responsabilidades, os filhos estão adultos, e pode-se sentar tranquilamente na cadeira de balanço ao lado da janela para ser embalado por pássaros canoros, enquanto um oceano de tempo estende-se à frente para a leitura. E não só tempo; é o momento em que será possível ter a devida ATENÇÃO ao que se está lendo.

Esta categoria tem a honrosa companhia de Finnegan’s Wake, de James Joyce; dos Faustos, de Goethe (os dois volumes são tão radicalmente diversos que, sim, são dois livros finamente conectados); e, numa recente nova adesão, “Infinite Jest”, de David Foster Wallace.

O problema não é que sejam livros longos (“1Q84”, de Haruki Murakami, e “Les Misérables” de Victor Hugo são gigantescos, mas as pessoas podem ser vistas abertamente lendo-os no metrô ou na fila do banco, porque têm a perspectiva leve de que serão “entretidas” por eles): o desafio é justamente o fato de que foi criada uma fortuna crítica tão densa, quase impenetrável, a respeito de cada uma dessas obras que o leitor se sente apequenado e hesitante. Ao ler, ele não pode errar. Ele tem que estar no estado mental correto. Ele tem que estar armado com as melhores ferramentas. Ele precisa estar atento para não perder os detalhes, correndo o risco de, depois, ser socialmente classificado como tolo dentro de seu círculo de leitores próximos.

Se fosse trazer até aqui dois momentos exemplares de quando Marcel resolve se debruçar sobre seu próprio projeto e nos dá uma boa pista do que tem em mente, seriam esses. Primeiro:

“… E então, muito fora de todas essas preocupações literárias e em nada ligados a ela, eis que de súbito um telhado, um reflexo de sol numa pedra, o cheiro de um caminho, me faziam parar pelo prazer único que me davam, e também porque pareciam ocultar, além do que eu via, alguma coisa que eles me convidavam a colher e que me era impossível descobrir, apesar dos esforços que fazia.”

Este momento de reflexão de “No Caminho de Swan” mostra um pouco do grande drama proustiano de forma, digamos, leve: como chegar à matéria de forma direta, sem intermediários, ou pelo menos consciente de que sempre há algo mediando esta relação.

“Muitas vezes, no decurso da existência, a realidade me decepcionara porque, ao vislumbrá-la, a minha imaginação, meu único órgão para sentir a beleza, não se lhe podia aplicar, devido à lei inevitável em virtude da qual só é possível imaginar-se o ausente.”

Aqui, no último volume, “O Tempo Redescoberto”, encontramos a barreira entre o sentido e o imaginado como uma espécie de grande pedido de desculpas por, talvez, não ter sido possível fazer mais, ir mais fundo nesta análise do prosaico, do frívolo, do aparentemente insignificante. Mas, que fique claro: não estamos diante de linhas e mais linhas de digressão. A Recherche é, antes de tudo, um romance. E ela pode perfeitamente ser lida como tal.

A dica: não se deixe intimidar. A “Recherche” é central para o desenvolvimento da literatura em língua francesa que vem depois, sim. Por alguns tantos motivos que haverá oportunidade de abordar em nosso segundo encontro da série “Para Ler o Século XX…”. Mas, acima de tudo, é uma história contada por uma pessoa para ser lida por alguém como você. Antes que os céus se abrissem e toda a revolução caísse sobre a cabeça de críticos e pesquisadores (que fizeram o preciosíssimo trabalho de sistematizar esse impacto), a “Recherche” era apenas alguém tentando comunicar algo a uma face anônima que está ali, exatamente naquele momento em que você abre o volume para lhe dar atenção.

Não pense que há necessidade de vencê-lo: conviva com o livro. Leve na sua bolsa um dos volumes e absorva trechos aqui e ali. Tenha empatia pela busca do protagonista. Critique-o, tenha pena e odeie suas decisões como você faria com um romance de espionagem ou uma comédia de costumes. E se esse Marcel (que não é o Proust, mas um personagem que se abastece de suas memórias) parecer insuportável, se você não aguentar mais seus problemas, abandone-o. Não tenha vergonha. Abandonar leituras é um direito inalienável do leitor, conforme já ditava Daniel Pennac em seu decálogo. Mas abandone-o com o devido conhecimento de causa.

Jovens leitores deveriam entregar-se mais às leituras fundamentais, e ler menos “em torno” delas. Até para que tenham o poder de dispensá-las.

Afinal, na minha modesta opinião, a “Recherche” pode ser entendida como o thread de Twitter mais longo que o começo do século XX jamais comportou. E deve haver influenciadores dos quais você já leu mais do que a obra de Proust inteira.


Roberto Pedretti é diretor da Mediathèque do Consulado da França no Rio de Janeiro (BiblioMaison).



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