Em face ao anti-intelectualismo: para que as humanidades? por Elton Luiz Leite de Souza

No dia 30 de maio, como parte do Ciclo de Humanidades, ocorrerá na BiblioMaison o evento Em face ao anti-intelectualismo: para que as humanidades? com Elton Luiz Leite de Souza.

Como preparativo para o que discutiremos no dia 30, Elton preparou um breve texto introdutório.

Em face ao anti-intelectualismo: para que as humanidades?

A filosofia não é apenas o conhecer (epistemologia), ela também é o sentir (estética), o agir (ética) e, sobretudo, o pensar (metafísica). Essas atividades não devem ser tomadas de forma estanque e segmentada, é preciso compreendê-las agenciadas. Essa tarefa não se faz sem o despertar da mais filosófica dessas atividades: o pensar. Quando o pensar é despertado, também o encontramos no sentir, no conhecer e no agir. Compreende-se então que a filosofia não é apenas teoria, mas modo de vida que se afirma e constrói no pensar da própria existência, envolvendo todos os seus aspectos. Sob esse crivo, tudo se torna matéria para a indagação filosófica: a liberdade, o amor, a política, o poder… Aqui, a filosofia se mostra em íntima relação com a não filosofia. Nem todos os filósofos têm da filosofia uma compreensão tão próxima da vida, sobretudo da vida dos não filósofos.

Entre aqueles que fazem da filosofia uma prática inseparável de pensar a vida, destacam-se Sartre e Deleuze. Não por acaso, em ambos a filosofia é apresentada em relação fundamental com as artes. Convivem em Sartre, por exemplo, o filósofo e o escritor. Em Deleuze, a questão do pensar perpassa toda sua obra, sem dúvida. Porém em três livros a questão do pensar, e daquilo que o impede, é assim nomeada: “A imagem do pensamento”. As obras são Nietzsche e a filosofia, Proust e os signos e Diferença e repetição . A questão da “imagem do pensamento” é retomada também em O que é a filosofia? (escrito em conjunto com Félix Guattari), no capítulo “O plano de imanência”. Nessas obras, a questão do pensamento, ou do pensar, une um escritor (Proust), um poeta-filósofo (Nietzsche) e um conjunto plural e heterodoxo de filósofos, cientistas, cineastas, pintores, músicos, poetas, enfim, de pensadores.

Em Deleuze e Sartre, portanto, cada um à sua maneira, a filosofia se torna mais do que prática teórico-acadêmica: ela devém exercício crítico e clínico cujo alvo também são os modos de vida padronizados e reativos. Em suma, tais filosofias são luzes que mostram a ação nem sempre visível do poder. É esse mesmo poder assim revelado que se volta também contra a filosofia, expressão máxima das humanidades, tentando calá-la com as mais variadas formas de cicuta: a cicuta literal, que calou Sócrates, e as cicutas simbólicas, travestidas em modelos antidemocráticos de escola e ensino.

Referências

Deleuze, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Edições n-1, 2018.
______________. Proust e os signos. Rio de Janeiro, Forense Universitário, 1987.
______________. Diferença e repetição. Edições Graal, Rio de Janeiro, 1988.

Deleuze, Gilles; Guattari, Félix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34,1992.

Sartre, Jean-Paul. O ser e o nada . Petrópolis, Vozes, 2007.

______________. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis, Vozes, 2010.

Obs.: nas três primeiras obras de Deleuze citadas a referência são os capítulos intitulados “A imagem do pensamento” – em O que é a filosofia? consultamos o capítulo “O plano de imanência”. Em O ser e o nada, de Sartre, destacamos a Introdução.

Imagem: A morte de Sócrates, por Jacques-Louis David (1787)

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