Cadernos do Ateliê. Nota sobre as relações entre Tecnologia e Sociologia (1948), por André Leroi-Gourhan

A Série “A História Antropológica de um Ponto de Vista Tecnológico”

A Série, publicada em Fascículos pelos Cadernos do Ateliê, do Ateliê de Humanidades, tem o propósito de disponibilizar ao grande público ensaios de “antropologia das tecnologias”. Ela tem o intuito de publicar, principalmente, traduções de textos clássicos da história da antropologia (e de suas ciências irmãs, como a arqueologia e a etologia) que tenham assumido uma posição do “ponto de vista tecnológico”. Pretendemos trazer também ensaios contemporâneos que trabalham com uma abordagem antropológica das técnicas, dos objetos técnicos e das tecnologias.

No terceiro fascículo trazemos o artigo de André Leroi-Gourhan, Nota sobre as relações entre Tecnologia e Sociologia (1948) 

Tradução: Maryalua Meyer
Revisão: André Magnelli e Thiago Cabrera
Apresentação: André Magnelli

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André Leroi-Gourhan,
a ciência do homem informada pelo testemunho das técnicas[1]

André Magnelli

André Leroi-Gourhan (1911-1983) é pouco conhecido entre nós, filósofos e cientistas sociais do Brasil. Quando reconhecemos seu nome, isso se deve menos ao fato de termos um conhecimento de seus trabalhos e mais por causa daqueles que se lhe confessam tributários, como Jean-Claude Kaufmann, Laurent Thévenot, Nicolas Dodier, Gilbert Simondon, Edgar Morin e Bruno Latour. Pesquisador de pré-história, de etnologia, de zoologia animal e de geografia humana, Leroi-Gourhan possui um importante papel na formação da antropologia das técnicas e dos objetos técnicos na França.[2]

Tendo sido diplomado, inicialmente, em russo e depois em chinês, ele ingressou na etnologia, na qual conheceu, por intermédio de seu mestre Marcel Granet, o antropólogo Marcel Mauss, cujos ensinos na École Pratique des Hautes Études e no Institut d’Ethnologie foram seguidos por ele. Além disso, enquanto cumpria a função de “bibliotecário auxiliar”, ele assistiu de dentro à aventura de transformação do antigo Musée d’ethnographie du Trocadéro em Musée de l’Homme (fundado em 1937), um marco da antropologia francesa liderado por Paul Rivet. Entre 1937 e 1938, partiu para uma estadia no Japão, que foi importante em sua formação, onde conheceu as técnicas artesanais e as artes japonesas, tendo recolhido 1500 objetos destinados a museus franceses.

Leroi-Gourhan foi muito ativo profissional e intelectualmente, contribuindo não apenas para as pesquisas francesas em seu vasto campo interdisciplinar, como também para a formação de profissionais e a constituição de instituições e práticas científicas. Passando pelas principais instituições culturais e científicas École Pratique des Hautes Études, Institut d’Ethnologie, Musée de l’Homme, Collège de France, Centre National de Recherches Scientifiques (C. N. R. S.) e Sorbonne foi protagonista na construção institucional do ensino, da pesquisa, do método e da documentação em pré-história e arqueologia.

Leroi-Gourhan tentava mostrar nos seus cursos “como a tecnologia a mais concreta conduzia indubitavelmente à etnologia mais geral, como o estudo das ferramentas e das máquinas acarretava o das estruturas sociais, após o das mentalidades e crenças”.[3] Ele tinha aversão ao ensino meramente teórico e, por isso, “como não podia levar seus estudantes para a África ou a Ásia, vai lhes fazer realizar escavações”.[4] Tendo tido contato primeiramente com o cemitério merovíngio, passou a participar da escola de escavação de Arcy-sur-Cure (Yonne)[5], contribuindo, nestas atividades, para a renovação das técnicas arqueológicas.[6]

Uma obra de história antropológica de um ponto de vista tecnológico

Não há talvez obra mais próxima da proposta de nossa série sobre a “história antropológica de um ponto de vista tecnológico” do que a de Leroi-Gourhan. Ele desenvolveu uma análise da hominização e da evolução do humano a partir do reconhecimento de uma autonomia relativa das ações e dos objetos técnicos. Ao invés de reduzi-los ao social, ao histórico ou ao político, Leroi-Gourhan buscou desvendar a lógica própria das técnicas, articulando-a, ao mesmo tempo, com a evolução biológica e a evolução social.

Seu primeiro grande livro sobre o tema foi Évolution et Techniques, publicado em dois volumes: L’homme et la matière (1943) e Milieu et techniques (1945). Nele, percebemos o quanto seu esforço se aproxima daquele feito por Marcel Mauss no capítulo sobre tecnologia do Manuel d’ethnographie (capítulo 4).

No seu Manual, Mauss fez uma organização dos fatos técnicos classificando-os em categorias, em uma taxonomia que incluía não apenas as famosas “técnicas corporais”, como também as “técnicas gerais para usos gerais” as físico-químicas (em especial o fogo) e as mecânicas (ferramentas, instrumentos e máquinas) ; “as técnicas especiais para usos gerais ou indústrias gerais para usos especiais” (como cerâmica, cestaria etc.); e “as indústrias especializadas para usos especiais” onde incluiu as técnicas de consumo (como alimentação), as indústrias de aquisição (coleta, caça e pesca), de produção (pecuária e agricultura) e de proteção e conforto (vestuário, habitação e transporte).

Da mesma forma que seu professor, Leroi-Gourhan empreendeu após quase duas décadas, em Évolution et Techniques, uma classificação das técnicas, só que com a construção de uma sistemática teórica e uma reorganização do quadro maussiano, tendo por base um estudo documental e sistemático mais amplo. No primeiro volume, L’homme et la matière (1943), ele estuda as  técnicas  de fabricação, a partir do qual estabelece os “meios elementares da ação sobre a matéria” – percussão, fogo, água, ar e força –[7]; e no segundo volume, Milieu et techniques (1945), ele se volta para as técnicas de aquisição (armas, caça, pesca, pecuária, agricultura, mineração e siderurgia) e de consumo (alimentação, vestuário e habitação).[8]

Trata-se aí de um esforço de compreensão do universo técnico-econômico, que tem como ponto de partida o estudo e a classificação dos instrumentos, dos produtos e das ações pelos quais o homem fabrica a partir de matérias brutas oferecidas por um meio à sua atividade técnica (o meio técnico). Ele constrói toda uma sistemática a partir da qual organiza o material empírico, desenvolvendo noções como as de fatos técnicos, tendências técnicas e meios técnicos. Para ele, as técnicas formam uma cadeia operatória que liga o homem a seu meio. A noção de meio técnico permite estudar a lógica da esfera técnica, como mediadora entre meio interior (o organismo) e o meio exterior; esfera que possui uma lógica própria, com fatos e tendências de desenvolvimento passíveis de serem analisadas.

Neste sentido, além de realizar uma sistemática, Leroi-Gourhan aborda problemas relativos às origens e difusões das técnicas, tratando das formas de invenção e de empréstimos, de inércias e de progressos técnicos. O resultado é a realização dos primeiros passos para uma paleontologia das técnicas, uma antropologia econômica e uma tecnologia comparada.

Como o texto aqui traduzido é quase contemporâneo do Évolution et Techniques, tendo sido escrito apenas três anos depois do segundo volume, consideramos que não é espaço aqui para discorrermos sobre os outros livros da vasta obra do autor (o que pretendemos fazer em outros fascículos de nossa série). Por ora, basta sinalizar que a obra ulterior de Leroi-Gourhan se desdobra em duas frentes maiores (e outra menores, como a zoologia animal e humana): de um lado, os estudos sobre arte pré-histórica e, de outro, os estudos sobre as técnicas humanas em sua relação com o gesto e a linguagem.

Neste sentido, Leroi-Gourhan publica em 1965 sua magnum opus em dois volumes: Le geste et la parole, vol. 1, Technique et langage (1965), vol. 2, La mémoire et les rythmes (1965). Nesta obra de suma importância para os propósitos de nossas investigações, Leroi-Gourhan faz com que sua “paleontologia da ferramenta” se articule com uma “paleontologia do gesto e dos símbolos”, aperfeiçoando seu conhecimento dos meios elementares da técnica com a análise da cadeia dinâmica de impulsão, transmissão e ação, assim como pelo uso de noções como de máquina, cadeias operatórias, programa e memória.

Uma tecnologia comparada para as ciências do homem

Nota sobre as relações entre Tecnologia e Sociologia (1948) é um ensaio situado no que Leroi-Gourhan denomina de “tecnologia comparativa”. Ele se inicia em diálogo direto com o supramencionado Manual de Etnografia de Mauss, que tinha acabado de ser publicado.[9]

Situando-se na linha evolutiva do pioneirismo de Mauss, Leroi-Gourhan trata da relevância da “ciência das técnicas” (isto é, de uma tecnologia) para a compreensão dos fenômenos históricos, culturais e civilizacionais. A tecnologia tem um importante papel de “ciência dos testemunhos” materiais e técnicos das civilizações humanas e da história do homem. Contudo, para que ela se desenvolva, é preciso uma metodologia científica. Este texto do jovem Leroi-Gourhan é um esforço de situar os termos metodológicos de tal investigação. Ele indica que isso é feito por meio de três orientações: (a) um trabalho de exegese histórico-crítica dos testemunhos técnicos, que permita efetuar uma interpretação dos documentos materiais; (b) uma sistemática teórica dos fatos técnicos; e (c) um estudo das transformações históricas das técnicas.

Ressaltam-se aqui alguns pontos importantes. Primeiramente, ele defende a indissociabilidade entre as orientações metodológicas, o que demanda um trabalho interdisciplinar onde os tecnólogos unem seus esforços aos ramos literário, filosófico e sociológico, trazendo um aparato técnico-científico para descrever os objetos em sua materialidade físico-química e em sua forma e função. Assim, para que se desenvolva adequadamente, a sistemática teórica depende deste estudo científico e criterioso dos objetos técnicos.

Em segundo lugar, percebe-se que as duas abordagens estão articuladas a uma preocupação histórica; mais ainda, é afirmado que a compreensão do presente está articulada a uma investigação histórica de longa, ou mesmo longuíssima, duração. As ciências do homem devem ser compreendidas como ciências históricas; e a crítica dos documentos históricos permite que esta evidência seja reafirmada. Toda etnologia – e acrescentaríamos sem dificuldades, toda sociologia – que não abandona o humano em sua complexidade, acaba por cair em questões históricas. Uma ciência do homem tem que se fundamentar não apenas nos saberes etnológicos e históricos, mas também na arqueologia e na pré-história.

Ora, essas últimas lidam não tanto com documentos, mas muito mais com vestígios artísticos e técnicos: de um lado, as figurações artísticas, de outro, os artefatos técnicos. Portanto, uma grande parte da história humana deve ser interpretada por uma tecnologia histórico-comparada. Isso põe no centro o conhecimento da diversidade das experiências corporais e dos objetos e das técnicas. Todavia, o principal está em outro lugar, a saber, a defesa de uma relação recursiva, ao mesmo tempo independente e complementar, entre a tecnologia e a sociologia.

Em poucas palavras, a tecnologia não pode ser reduzida a uma “sociologia da tecnologia”, pois, tal como os linguistas fizeram com a construção do objeto língua, a tecnologia deve organizar, por meio do estudo documental e sistemático, o mundo da atividade material, estabelecendo seus princípios e regras de transformação. Os objetos técnicos têm sua própria evolução e, por princípio, possuem características e tendências universais. Por outro lado, a sociologia permite conhecer as variações sociais e culturais das técnicas e dos objetos.

Portanto, sendo de certo modo um precursor das correntes sociológicas contemporâneas, que recuperam, como Laurent Thévenot e Bruno Latour, a importância dos objetos para as associações humanas, Leroi-Gourhan nos deixa como lição as colaborações recíprocas entre tecnologia e sociologia, em que os testemunhos técnicos nos informam sobre o meio em que vivem os seres humanos e os modos como vivem, tanto dos que nos antecederam quanto dos que nos são contemporâneos:

Não é menos indispensável para quem estuda a ferramenta ir ao encontro do homem que a utiliza, do que é necessário para aquele que coloca o indivíduo em sociedade sustentar em segurança os testemunhos [técnicos] que o rodeiam.

Notas:

[1] GAUCHER, Gilles. (1987) André Leroi-Gourhan, 1911-1986. Bulletin de la Société préhistorique française, tome 84, no 10-12. p. 302-315. Gilles Gaucher foi pesquisador colaborador de Leroi-Gourhan, membro do Laboratório de etnologia pré-histórica do C. N. R. S.

[2] Fala-se, hoje, de uma “escola francesa de etnologia das técnicas”, mais conhecida em países anglo-saxônicos e na Itália do que na própria França; até onde sabemos, ela também é desconhecida no Brasil. Ver o verbete francês sobre Leroi-Gourhan do Wikipedia para maiores informações sobre suas influências contemporâneas.

[3] GAUCHER, Gilles. op. cit. p. 306.

[4] Ibid. p. 305.

[5] Lá, ele começa por trabalhar na caverna do Cavalo, onde foram descobertas em 1946 gravuras paleolíticas; depois vai, sucessivamente, para a escavação da caverna do Lobo, a caverna da Hiena e caverna da Rena (em 1949).

[6] “A escola de escavação de Arcy se torna rapidamente célebre. Na época, os pré-historiadores ainda são, na maioria das vezes, pessoas que contratam alguns escavadores para escavar verticalmente com picareta e pá, sem fazer planos; os mais esclarecidos mostram apenas as estratigrafias extraídas; aliás, é o estabelecimento da sucessão dos níveis de ocupação que os preocupa. Leroi-Gourhan ensina, de forma completamente diferente, a necessidade de extrair de forma minuciosa os elementos, de fazer o plano antes de seguir adiante, de estudar a disposição dos vestígios…” (GAUCHER, Gilles. op. cit. p. 307).

[7] Elas equivalem, em grande parte, às “técnicas gerais para usos gerais” de Mauss.

[8] Categorias que dão outra organização para as técnicas agrupadas por Mauss nas categorias de “técnicas especiais para usos gerais ou indústrias gerais para usos especiais” e “as indústrias especializadas para usos especiais”.

[9] MAUSS, Marcel. (1926) Manuel d’ethnographie (publicado originalmente em 1948), op. cit.


 

Nota sobre as relações entre Tecnologia e Sociologia (1948)

André Leroi-Gourhan[1]

É tarefa difícil fazer um balanço de uma disciplina sem passado e situar a Tecnologia Comparativa nas Ciências Humanas. A recente publicação do Manual de Etnografia de Marcel Mauss[2], cuja primeira parte é dedicada às técnicas, reabre para mim a perspectiva dos anos em que eu procurava, por trás de uma exposição [feita em aulas] em que os erros não eram raros, o pensamento tecnológico daquele que guiou a maioria de nós.

O que Mauss pensou sobre a Tecnologia é simples e permanece verdadeiro. Ele sentiu a necessidade absoluta de o etnólogo (que para ele era implicitamente o sociólogo) observar, o mais rigorosa e cientificamente possível, os fatos da atividade material. Ele sentiu que uma ciência dos testemunhos devia existir. Ele via nessa ciência uma estrutura classificatória rigorosa, de certa forma lineana.[3] Este quadro ele não nos deu, mas soube sugeri-lo usando as divisões já aceitas da indústria humana. Basta comparar O Homem e a Matéria[4] com seu Manual [de Etnografia] para constatar que, em quinze anos de remanejamento, as principais divisões permanecem na Tecnologia atual; esse quadro, que já é evidente no velho Ratzel[5], é lógico demais para não servir ainda; Mauss o melhorou, depois o transmitiu para que seja adaptado às pesquisas atuais

Sob a forma que lhe preservaram no Manual, o texto de seu curso de Tecnologia enfatiza apenas a necessidade de a Etnologia se abrir à crítica de testemunhos materiais: sessenta e cinco erros permanecem nas quarenta e cinco páginas do texto e, se fosse necessário realçar a utilidade da Tecnologia, esse exemplo seria suficiente.

Como a Tecnologia é vista? Não pode ser um complemento menor ao estudo do homem, uma coleção de curiosidades técnicas classificadas. Assim como a História não pode ser concebida sem a crítica dos textos, a Etnologia não pode ser aceita sem a crítica dos testemunhos materiais. Seria talvez possível, numa parte das Ciências do Homem que abrangesse valores mais universalmente humanos, sentir a verdade através de documentos falsos; é impossível basear a História dos homens em dados aproximados.

A Tecnologia[6] parece ter um papel primeiro, capital: desmascarar os testemunhos falsos, os objetos cuja universalidade não significa nada, as descobertas mecânicas que conduzem a tipos convergentes, as técnicas que só podem se prestar a aproximações em um espírito que ainda lembra demais a ingenuidade dos antigos viajantes. A Paleontologia tem começado a saber distinguir seus fósseis ruins dos bons. Mas a Etnologia ainda tem um caminho a percorrer.

A crítica dos materiais exige que o esforço se desenvolva simultaneamente em três vias: a sistemática, a crítica interna dos documentos e o estudo da evolução histórica. Cada uma delas progride à medida que as outras duas são desbastadas; como um todo, elas são suficientes para as peregrinações de um especialista, e a Tecnologia pretende constituir uma disciplina em si e não uma técnica adjuvante [technique d’appoint ].

A sistemática, como em todas as ciências, sofrerá, periodicamente, revisões. O quadro de Mauss era suficiente para as necessidades de organização daquilo que o sociólogo entrevia, há trinta anos, do campo material. O quadro que propus em 1936[7] fazia esforço para introduzir uma compreensão do fato técnico em função da própria técnica. Seu caráter de ruptura com a tradição talvez desculpe a insuficiência ainda bastante perceptível de seus meios. A classificação de Evolução e Técnica, dez anos depois, tinha para mim um significado definido: orientar a sistemática das técnicas pela crítica dos documentos.[8] Esta classificação está longe de ser satisfatória; é preciso que ela espere até que as outras duas vias estejam suficientemente abertas para progredir.

A crítica dos documentos técnicos é a compreensão interna de nossos testemunhos. Ela só poderia aparecer a Mauss como uma abstração, e só se lhe podiam apreender os meios de uma maneira ainda muito incompleta. Ela supõe um aparato científico considerável para a descrição objetiva do objeto em sua forma e em sua função. Assim posto teoricamente, o problema parece ser fácil de resolver: na verdade, é tão difícil descrever a morfologia e a fisiologia de um objeto quanto as de uma espécie animal, o que supõe uma terminologia imensa e precisa, centrada em uma sistemática que libera as características básicas da descrição e elimina valores supérfluos. Descrever a cerâmica de certo povo ou descrever uma certa cerâmica pressupõe uma formação cuja necessidade nem sempre aparece para os etnólogos; os tecnólogos são chamados a formar um corpo independente de especialistas de orientação científica, mas os ramos literário e filosófico de nossa ciência terão cada vez mais que levar em conta o documento material e sua interpretação.

Isto é particularmente verdadeiro para a Arqueologia e a Pré-história, que são Etnologia no sentido mais estrito e que, mais do que qualquer outra disciplina, precisam da crítica de materiais. Um exemplo será suficiente para ilustrar os riscos de uma crítica inadequada: em um artigo recente sobre sepulturas merovíngias[9], um autor, ademais altamente competente, descreve o conteúdo enigmático de certas “bolsas” encontradas perto dos corpos: plaquetas de ferro, fragmento de sílex ou de rochas duras silicosas, ponta de flecha neolítica cuja presença é bastante inesperada. Ora, o conteúdo é de qualquer bolsa de isqueiro da África Negra contemporânea ou da Europa de dois séculos atrás; a própria forma de uma das plaquetas de ferro ainda estava viva há cinquenta anos na Europa Oriental.

Ignorar a natureza exata do testemunho constitui uma perda para a História do fogo, mas quando o autor admite o caráter “filactérico”[10] desses objetos, ele introduz um grave erro no domínio da História das religiões.

Isso leva à abordagem da terceira via da história da tecnologia, a de uma crítica ampliada das técnicas que desemboca diretamente na História. Periodicamente, perde-se de vista que a Etnologia é uma ciência histórica, da mesma forma que as Ciências Naturais, e que tende, não formalmente à História dos Estados e dos Homens, mas sim a pôr em situações sucessivas o complexo humano. Nenhum etnólogo abordou seriamente um problema atual sem entrar na história ou pensar sobre isso.

Por uma reação saudável contra aqueles que, nos tempos heróicos, viram em toda parte “origens”, chegamos ao estudo separado dos sucessivos planos da humanidade e todos estavam um pouco trancados em seu século, não sem contrair às vezes uma ligeira miopia. À medida que o documento é fortalecido pela crítica interna, devemos retornar a uma concepção histórica das ciências do homem. Isto é mais difícil, aparentemente, para o sociólogo cujos materiais desaparecem de geração em geração, mas as ciências do homem constituem um bloco e, de uma maneira até mesmo muito indireta, a sociologia se beneficia do progresso de cada disciplina. É suficiente pensar na riqueza de imagens antropológicas e tecnológicas despertadas por um fato da sociologia australiana, para sentir o que o sociólogo pode obter ao conhecer, através do especialista, as possibilidades do corpo e da técnica dos Australianos.

A crítica histórica aparece como um dos campos férteis da tecnologia; ela supõe a máxima implementação de seus meios de investigação científica. Salvo a feliz exceção, além da terceira geração, o contexto oral está faltando, o contexto escrito é somente excepcional e toda a história dos Homens é baseada na crítica de seus vestígios. Se deixarmos de lado a crítica das figurações do historiador da arte, tudo depende da interpretação tecnológica. Isso vale não apenas as ferramentas, mas também a todos os objetos, já que sua significação é compartilhada entre o uso técnico e o senso social que eles possuem ou possuíram.

Aliás, não é preciso ceder à ilusão e fazer da tecnologia comparativa um passe-partout melhorado: a história da cerâmica não será totalmente esclarecida por uma uma análise físico-química. O laboratório é um primeiro passo, necessário para fornecer um relatório [signalement ], mas devemos evitar a criação de falsos testemunhos: duas fórmulas similares não são necessariamente comparáveis: as junções [raccords ] no tempo e no espaço devem assegurar seu parentesco real. Vernizes de resina são encontrados no Brasil, na Melanésia e no Norte da África, a identidade do processo não é um indício de parentesco obrigatório. Por outro lado, a continuidade pode existir entre fórmulas dessemelhantes, pelo jogo da marcação de materiais substitutos.

No início de minhas tentativas de pesquisa histórica, fiquei particularmente impressionado com as similitudes existentes entre os povos que trabalham com ossos e marfim ao redor do Círculo Polar Ártico. Desde então, pareceu-me que há conexões mais discretas, mas mais seguras, veladas pela transposição de matérias-primas entre certos grupos árticos e os grupos temperados direcionados para a costa sul. O exemplo das mutações de forma e de matéria da enxó no Pacífico me deu a oportunidade de sentir que a distância é curta entre os procedimentos da filologia que trabalha com palavras instáveis ​​em sua fonética e os da tecnologia que deve vir a retirar deles as regras de mutação, tal como a regra fundamental do machado: pedra = encaixe com bainha, bronze = encaixe de invólucro, ferro = encaixe no pescoço – com as transições e exceções que justificam os contatos. Essa regra, verificada pela progressão histórica, é controlada pelos casos de regressão, em que o machado de invólucro torna-se de novo um machado com uma bainha ao retroceder do bronze para a pedra.[11]

Essas regras ainda são sumariamente esclarecidas, sua afirmação implica uma longa experiência crítica prévia e os testemunhos muitas vezes perdem-se em momentos decisivos. Mas a tecnologia já especifica a importância das leis de convergência, que parecem ter escapado muitas vezes dos teóricos da evolução histórica, em um momento em que as “migrações” garantiam a explicação para todas as coincidências. Isso prova, por si só, que ela não pode bastar sozinha para uma explicação dos homens, sem que corra o mesmo risco de esclarecer tudo por meio de algumas leis. Afirma-se que a tecnologia comparada deve proceder em bases diferentes daquelas que foram previstas pelos primeiros etnólogos, não obedecendo aos mesmos princípios da sociologia, uma vez que o técnico e o social não têm suas raízes no mesmo solo, pois os objetos trabalham em grande parte para sua própria evolução, e as técnicas sempre têm um estilo nacional, mas raramente uma nacionalidade. Essa foi uma das consequências de O Meio e as Técnicas[12], quando chegou a essa concepção de que a técnica ultrapassa inevitavelmente seus inventores pela progressiva adição de seus aperfeiçoamentos.

Se, precisamente, a evolução das técnicas tem leis próprias, essa é uma das principais razões para confrontá-la com as ciências religiosas e sociais. A Tecnologia adquirirá tanto maior significação para o sociólogo quanto mais se afastar da Sociologia em seus procedimentos de investigação. Qual significado teria retribuído ao sociólogo se ela fosse [apenas] um reflexo passivo do que lhe havia sido pago?

Consequentemente, o confronto entre a Sociologia e a Tecnologia Geral tende a ordenar o mundo da atividade material de acordo com seus próprios princípios, mas a junção ocorre, indispensável, quando a tecnologia se aproxima do domínio particular da unidade étnica: um machado é um machado em todo o mundo; no entanto, há quase tantas “raças de machados” quanto povos. Aqui, a personalidade social pesa, com todo o seu peso, na técnica. Poucos exemplos atingem as proporções grandiosas do arsenal iraniano: punhais, facas, adagas, espadas cuja lâmina de aço vem em lingotes das Índias e cujos cabos são cortados em marfim de morsas da Rússia ártica.

Um continente inteiro, com suas tradições técnicas e suas rotas comerciais, é mobilizado na produção de objetos que, por sua fabricação e seu estilo, são indiscutivelmente persas. A análise tecnológica na primeira etapa não entrega nada: faca de tradição asiática, lâmina de aço indiano, cabo de marfim de morsa do Oceano Glacial. Na segunda etapa, o trabalho tecnológico que busca estabelecer “o porquê iraniano” do objeto, se aproxima diretamente das preocupações do sociólogo. Isso resulta na implementação de dados relativos à tecnologia militar e à estética geral para um diagnóstico preciso do objeto. Como resultado curioso, esse diagnóstico dificilmente usa terminologia tecnológica; ele traz à tona as condições econômicas, as tradições manuais ligadas aos costumes de combate que levaram à busca de aços com cortes particulares, os princípios estéticos que controlam a curvatura do cabo, a sinuosidade do fio da lâmina, a doçura do tom de um aço admirável preso a um cabo de marfim polido. Seria errado pensar que isso não é mais tecnologia; é simplesmente o círculo que está se fechando. Não é menos indispensável para quem estuda a ferramenta ir ao encontro do homem que a utiliza, do que é necessário para aquele que coloca o indivíduo em sociedade sustentar em segurança os testemunhos que o rodeiam.

[1] [Nota de tradução, N. T.] Este texto é tradução do original: LEROI-GOURHAN, André. Note sur les rapports de la technologie et de la sociologie L’Année sociologique (1940/1948-), Troisième série, T.2 (1940-1948), p.766-772. Tradução de Maryalua Meyer e revisão de André Magnelli e Thiago Cabrera.

[2] [N. T.] MAUSS, Marcel. (1926) Manuel d’ethnographie. Paris: Éditions sociales, 1967 (publicado originalmente em 1948). Disponível no site Les classiques en sciences sociales, da Universidade de Québec (aqui).

[3] [N. T.]: O autor alude a Carl von Linné (1707-1778), botânico, zoólogo e médico sueco, criador da nomenclatura binomial e da classificação científica, sendo assim considerado o “pai da taxonomia moderna”, querendo dizer que Mauss propunha, tal como na zoologia, uma rigorosa taxonomia das tecnologias.

[4] [N. T.] Livro do próprio autor: LEROI-GOURHAN, André. (1943) L’Homme et la Matière: Évolution et Techniques. Paris, Albin Michel.

[5] [N. T.] O autor se refere a Friedrich Ratzel (1844-1904), geógrafo e etnólogo alemão, notável por ter criado o termo Lebensraum (“espaço vital”).

[6] [N. T.] “Tecnologia” deve ser entendida aqui no sentido empregado por Mauss em As técnicas e a tecnologia, tal como usado na tradição francesa, enquanto “ciência das técnicas”, e não como “artefato técnico”. Cf. MAUSS, Marcel. (1941/1948) As técnicas e a tecnologia. Cadernos do Ateliê, vol. 1, n. 2, fascículo 1 (tradução de André Magnelli, revisão de Maryalua Meyer e Rafael Damasceno).

[7] [N. T.] LEROI-GOURHAN, André. (1936) La Civilisation du renne. Paris, Gallimard.

[8] [N. T.] O autor se refere a sua obra em dois volumes: LEROI-GOURHAN. Évolution et Techniques: vol. 1. (1943) L’Homme et la Matière, vol. 2. (1945) Milieu et techniques, Paris, Albin Michel.

[9] [N. T.] Os merovíngios foram uma dinastia que governou os francos numa região correspondente à antiga Gália, onde estão localizados atualmente a França, a Bélgica e uma parte da Alemanha e da Suíça.

[10] [N. T.] Caráter filactérico significa a presença de significações mágicas, ou melhor, a sua representação como amuleto com que se busca afastar o infortúnio.

[11] cf. Archéologie du Pacifique Nord. [N.T.] Leroi-Gourhan remete à sua tese de doutorado, que foi defendida em 1945 e publicada em 1946, onde ele analisa os vestígios arqueológicos de todo o arco norte do Pacífico, do Japão à Califórnia: (1946) Archéologie du Pacifique Nord. Matériaux pour l’étude des relations entre les peuples riverains d’Asie et d’Amérique. Paris: Travaux et Mémoires de l’Institut d’Ethnologie.

[12] LEROI-GOURHAN. Évolution et Techniques, vol. 2. (1945) Milieu et techniques , Paris, Albin Michel, op. cit.

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