Uma política em memória das vidas interrompidas – Artigo de André Magnelli para o Jornal do Brasil

Há dois anos André Magnelli escreveu um artigo no Jornal do Brasil defendendo “Uma política em memória das vidas interrompidas”. De lá para cá, infelizmente, a normalização das mortes se ampliou ainda mais e de forma surpreendente, com uma nova normalização, oriunda das quase 60 mil mortes provocadas pela pandemia.

O Brasil é uma máquina de triturar gente sem perder o humor. Isso porque persiste em negar e desresponsabilizar, em um ciclo de indiferença. O que fazer? Foi proposta ali uma política de memória das vidas interrompidas. Vale notar que houve louváveis iniciativas durante a pandemia, trazendo corpos, rostos e relações para além dos números, como o projeto Inumeráveis (https://inumeraveis.com.br/ @inumeraveismemorial/). Elas devem ser reforçadas, difundidas e ampliadas.



Uma política em memória
das vidas interrompidas

Rio de Janeiro, 28 de junho de 2018

Todos sabem que o Brasil é um dos países mais violentos e com uma das maiores taxas de homicídio do mundo. Para saber da tragédia, basta lermos o “Atlas da Violência”, publicado em junho de 2018. Certamente, temos consciência da violência disseminada, porém somos em parte insensíveis às vidas interrompidas. No mais das vezes, elas figuram como meros números anônimos sem história, acrescidos às estatísticas e mencionados, às vezes, pela imprensa. Evidentemente, na tempestade informacional, escutamos volta e meia um nome; vemos rápidas imagens de um corpo; e ouvimos narrativas de mais uma vítima, compassivos, muitos de nós, ao sofrimento inominável dos seus.

 As crianças inocentes assassinadas nos dão extrema consciência de nossa culpabilidade. Sai dia entra dia, os nomes dos Guilherme Henrique Pereira Natal e dos Marcus Vinicius da Silva, muito embora sejam presença permanente na vida de seus familiares, serão quase certamente apagados, como um rosto na areia, de nossa memória coletiva, gerando, no rastro do esquecimento, um ciclo perverso de desresponsabilização, negacionismo e indiferença. Ora, uma sociedade que perde a viva consciência de suas mortes violentas dissemina, inconscientemente, uma política de morte; uma sociedade que recalca as crueldades das quais é capaz as deixa operar livremente em seus porões. Saídos da opressão da ditadura, vivemos ainda uma violência opressora que demanda uma “comissão da memória e da verdade” que seja vigilante, difusa e enredada no social. Um país com assassinatos em grande escala a varejo tem muito a aprender com os que viveram genocídios. Sendo a morte violenta amplamente difundida, cogitemos da possibilidade de um direito difuso à memória das vítimas e um dever social de mantê-la viva e pública.

Considero urgente uma política em memória de vidas interrompidas como uma forma de reação à nossa banalização cotidiana do mal. Como toda identidade se forma por uma narrativa ao longo da vida, como nos ensina o filósofo Paul Ricoeur, a violenta supressão da existência corporal dos indivíduos pode ser restituída por um direito à perenidade de suas identidades, dando-lhes face, corpo, vontade, história e duração. Aos poucos podem ser construídas redes em memória pelas narrativas de vida e de morte deixadas em rastros documentais e na mente dos que com eles se relacionaram. Tal rede pode ser exposta em meios físicos, mas também em meios virtuais, com a possibilidade, inclusive, de aplicativos que a apresentem em tempo real e dinamicamente. Instituições locais (escolas, prefeituras, associações e igrejas) podem começar por fazer tais iniciativas. Os diversos grupos de ativistas (comunitários, LGBT, mulheres, paz, raciais, religiosos etc.) podem também confluir em tal causa que lhes concernem diretamente. Por sua vez, o Estado pode fomentar a atividade, financiando, gerando dados e prestando contas sobre as providências tomadas e a responsabilização assumida.

Uma rede de narrativas de vidas interrompidas cumpre seu papel não apenas na forma da culpabilidade, mas também na reconstituição das passagens singulares de humanos por este mundo. Tendo em vista que as mortes no Brasil são altamente seletivas em determinadas camadas da população (com cortes de raça, classe etc.), tal rede daria materialidade ao fato, enfrentando nosso persistente negacionismo; e, ao mesmo tempo, traria à luz a humanidade daqueles que uma parte da sociedade persiste, historicamente, em desumanizar. Além disso, repercutindo sobre as narrativas da sociedade e as memórias do país, ela atuaria sobre a própria compreensão de quem somos enquanto nação e de qual horizonte no qual queremos nos mirar. Sendo uma aposta na humanidade em nós adormecida, seu efeito esperado é o aumento da solidariedade recíproca e da responsabilização mútua.

Claro, grande parte do combate à violência passa pelas questões penal, policial e social. Mas uma parte não menos significativa envolve a luta contra nossa barbárie interior, nossa indiferença a outrem e a deterioração dos laços de cidadania. Proposta irrealizável? Pode ser. Mas em uma situação que parece, ao mesmo tempo, insuportável e insuperável, comecemos por tentar o que aparenta ser impossível, mas desejável.


André Magnelli é fundador, livre-pesquisador e diretor do Ateliê de Humanidades. É doutor e pós-doutor em sociologia pelo IESP-UERJ.


*Agradecemos a Lucas Faial e Raphael Castro pela leitura atenta da primeira versão deste pequeno artigo e pelas sugestões que, em parte, foram integradas na versão publicada

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