Fios do Tempo. O espírito crítico como obscurantismo, por Marcel Gauchet

Somos todos críticos, somos todos contra! E é por isso que nos suportamos cada vez menos e nos destruímos cada vez mais. Ironicamente, ser crítico tornou-se um estilo de existência e, desta forma, a crítica pode ter se tornado um dissolvente rumo ao inesperado “obscurantismo crítico”.

Neste sábado, primeiro de agosto, o Fios do Tempo traz a tradução de um incisivo texto de um dos principais pensadores franceses contemporâneos, muito pouco conhecido ainda no Brasil, o filósofo e historiador Marcel Gauchet. Ele coloca aqui, em frases lapidares, questões cruciais: como a crítica pode estar a nos conduzir a um obscurantismo, quando se articula ao individualismo soberano e a pretensões de mera autenticidade? Por que a crítica depende de um compartilhamento de vida em comum e do exercício da faculdade de julgar? Deste modo, ele nos permite entrar nos problemas como o da “pós-verdade” e das “fake news” desviando-nos da adesão às modas terminológicas e aos confrontos políticos, mostrando como os fundamentos do problema se enraízam nas promessas e fracassos da modernidade, e apelam por sua vez a uma renovação da questão antropológica da relação entre o pensar, o julgar e a comunidade política.

Este texto é uma contribuição ao debate no interior do Plano de Convergência do Ateliê de Humanidades “Cartografias da crítica: entre crise, crítica e reconstrução”; convido que seja lido conjuntamente com meu artigo “Todos críticos, nada a crítica!” (publicado no JB em 11 de julho de 2018) e com o livro Cartografias da crítica: balanços, perspectivas e textos, publicado pelo Ateliê de Humanidades/Sociofilo.

A. M.
Fios do Tempo, 01 de agosto de 2020



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O espírito crítico como obscurantismo

Paris, 29 de Setembro de 2019

Quem teria pensado, três ou quatro décadas atrás, que a questão do “bom uso do espírito crítico” deveria ser feita? A própria ideia de crítica não parecia conter o antídoto para suas eventuais derivas? O espírito crítico não deveria, em essência, estar em guarda também contra si mesmo? Havia de fato a lembrança de certos abusos da hipercrítica em matérias de história que, por suspeita em relação a documentos e testemunhos, haviam chegado a conclusões delirantes – Napoleão, por exemplo, jamais existiu. Tínhamos conhecido uma reativação dessas abordagens e dessa problemática a propósito da negação da existência de câmaras de gás nazistas, no início dos anos 1980. Mas realmente pareciam ser apenas excentricidades marginais, excessos individuais sem grandes consequências, pois estavam destinados a desacreditar a si próprios. Nossos antepassados não deixaram de erigir o espírito crítico em faculdade rainha de nossa cultura.

O momento comumente chamado “pós-moderno” terá representado a apoteose da crítica, como uma palavra de ordem generalizada. Neste sentido, ele foi a culminação do Iluminismo. Mas também voltou contra as Luzes o seu próprio instrumento intelectual, no qual havia investido as esperanças de uma humanidade adulta através da autonomia da razão. Em vista da exigência crítica, era preciso constatar, com o benefício de uma visão retrospectiva de dois séculos, que estas esperanças pecaram por ingenuidade, se não por uma fé dogmática inconsciente nestes novos ídolos chamados “progresso” ou “razão”. Sua autoridade foi, por sua vez, colocada na berlinda, e havia razões para isso.

Assim, as “grandes narrativas” – para usar a famosa expressão de Jean-François Lyotard – que prometiam emancipação humana para o amanhã, recontando seu percurso passado, tornaram-se objetos de ceticismo. A revolução, o comunismo, a ciência da história e a sociedade se dissolveram no ácido da descrença, assim como a perspectiva de uma era positiva ou de um governo científico que garantisse definitivamente a aliança da prosperidade com a liberdade. O aumento da preocupação ecológica colocou na ordem do dia o exame impiedoso dos danos do chamado “progresso”. A própria “razão”, essa faculdade soberana que é um sinal de superioridade humana ou de dignidade eminente, foi apresentada à justiça e foi muito relativizada nas pretensões que tinham sido muito rapidamente reconhecidas.

A crítica, tomada como um imperativo e uma abordagem, tem permanecido sozinha na corrida, livre dos companheiros com os quais tinha feito seu caminho na era moderna, e de acordo com uma filosofia da época que privilegia os processos em detrimento dos resultados necessariamente provisórios. A evolução social, marcada por uma individualização onipotente, selou esta preeminência, dando à crítica um novo status, o de garantia de liberdade individual. Isto já havia sido adquirido em princípio, sob o título de “liberdade do fórum interno em matéria de crença religiosa”. Assumiu outra dimensão quando foi elevada à categoria de “liberdade geral de descrença”. A crítica é o direito através do qual a individualidade é atestada. “Sou contra, logo existo”. Isso significa que finalmente encontramos a ferramenta necessária para garantir a autonomia humana e o funcionamento adequado de uma sociedade de liberdades? É óbvio que não.

Ao contrário, o campo cultural contemporâneo se apresenta como devastado por este desencadeamento desconsiderado da arma crítica.  Ela foi libertadora, mas tornou-se esterilizadora, se não uma fonte de obscurantismo de um tipo inesperado. Da arte à pedagogia, abundam os exemplos das esperanças indevidas depositadas em suas virtudes e das consequências perversas de que resultaram.

Limitar-me-ei ao campo que oferece talvez a ilustração mais marcante destes efeitos destrutivos da sacralização da crítica, o campo político-intelectual. O notável aumento do nível de educação, o aumento do poder dos dispositivos de informação, as inovações técnicas que tornam todo o conhecimento universalmente acessível pareciam prometer, graças em particular às redes digitais, um florescimento sem precedentes do debate democrático. Isto teria sido de grande importância sem o direito à crítica erigido em uma citadela da subjetividade. Pelo contrário, gerou uma desconfiança generalizada, inclusive dos melhores fatos atestados e dos conhecimentos mais solidamente verificados. A credulidade, que uma longa tradição atribuía aos povos, transformou-se em suspeita automática em relação a qualquer palavra oficial ou especializada, imediatamente acusada de abuso de autoridade. Uma suspeita que, além disso, abre a porta para as crenças mais loucas, mas que ganha credibilidade por ser “crítica” das ideias comumente aceitas. Desta forma, torna-se quase impossível o exercício democrático, que consiste, por excelência, na construção de diagnósticos compartilhados a fim de autorizar escolhas razoáveis e raciocinadas.

Poder-se-ia ao menos esperar que o mundo acadêmico escapasse desta atração fatal. Mas não o fez. Ele também fez sua conversão crítica. O conhecimento da sociedade tem vindo a ser mais ou menos confundido com a “crítica social”. Uma coisa é que o conhecimento tenha efeitos de revelação, de desilusão, de acusação. Outra coisa, bem diferente, é colocar a vontade de revelar ou acusar em primeiro plano, colocá-la como o a priori da atividade intelectual, o que desnatura a operação do conhecimento. Denunciar não é compreender. Pior, denunciar impede, na maioria das vezes, a compreensão. Assim, vimos o aparecimento de algo que teríamos crido impensável: um “obscurantismo crítico”, onde a ambição de desmascarar, de desconstruir, de se opor, de se levantar contra o estado das coisas se torna uma tela para pensar a sua própria realidade.

O velho Auguste Comte não teria deixado de ver nesta situação o sinal de que uma “era crítica” estava chegando ao fim, e teria exigido a passagem para uma “era orgânica”. A perspectiva de uma sociedade tão orgânica, unida em suas certezas, não é mais atraente e, além disso, pertence a um passado que se justifica acreditar ter terminado. Há, entretanto, algo a ser retido da ideia de que a vida do espírito só adquire seu verdadeiro significado quando se trata da construção de um mundo comum e de um mundo que pode ser governável em comum, graças à inteligibilidade que o espírito nos permite adquirir dele.

Deste ponto de vista, o pensamento crítico não é suficiente, como estamos experimentando agora. Ele é indispensável, mas não pode ser um fim em si mesmo. É um instrumento a serviço de uma exigência maior, e exige ser guiado por essa faculdade difícil de apreender, mas ao mesmo tempo vital, esta faculdade que é o recurso supremo do espírito humano e que as máquinas não estão prestes a disputar conosco: o julgamento. No dia em que encontrarmos uma maneira de fazer um bom uso do espírito crítico através do julgamento, nós teremos dado, de uma vez por todas, um passo gigantesco.

— Texto publicado em Books, L’esprit critique comme obscurantisme.


Marcel Gauchet é um filósofo e historiador francês nascido em 1946 em Poilley (Manche). Diretor de Estudos Emérito da École des hautes études en sciences sociales (Centre de recherches politiques Raymond Aron), ele é editor-chefe da revista Le Débat (Gallimard) e autor de uma vasta obra que inclui livros como: Le désenchantement du monde: une histoire politique de la religion (Gallimard, 1985) e L’avènement de la démocratie, em 4 volumes (Gallimard, 2007-2017)



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Publicamos hoje o segundo episódio de uma temporada do República de Ideias sobre o Plano de Convergência “Cartografias da crítica: entre crise, crítica e reconstrução”, do qual resultou uma publicação do Ateliê de Humanidades Editorial: “Cartografias da crítica: balanços, perspectivas e textos”. Neste episódio, Felipe Maia (professor da UFJF) e André Magnelli conversam sobre a… Continuar Lendo →

Resenha do “Cartografias da Crítica – por Jaime Torres Guillén (Revista Piezas, México)

Divulgamos hoje a excelente resenha feita pelo sociólogo mexicano Jaime Torres Guillén (Universidade de Guadalajara, México) sobre o livro Cartografias da critica: balanços, perspectivas e textos. A resenha não apenas expõe, com clareza, a proposta do livro e do projeto Cartografias da Crítica, como também abre caminhos de uma interlocução intelectual que serão, certamente, explorados…. Continuar Lendo →

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