Fios do tempo. Falso arrependimento de Bolsonaro sobre coronavírus não pode ser aceito – por Marcos Nobre

No contexto do debate sobre a pandemia de coronavírus e em meio à crise desencadeada pelo “presidente” do Brasil, publicamos hoje no Fios do tempo a fina análise de Marcos Nobre sobre como lidar com Jair Bolsonaro de forma a enfrentar a tempestade pela qual estamos passando. Diante da seriedade da situação e do jogo jogado por Bolsonaro, Nobre nos apresenta aquela que me parece ser a possibilidade mais realista, no momento, para que se estabeleçam as condições de governo que estejam à altura dos desafios sanitários, econômicos, políticos e sociais à nossa frente.

Agradecemos fortemente a Marcos Nobre pela sugestão de republicação deste texto em nossa tribuna. Ainda hoje, publicaremos um episódio do República de Ideias (no formato de podcast e de vídeo) em que refletimos sobre nossa conjuntura política em diálogo com o presente artigo e com o de Felipe Maia (publicado aqui em 23 de março).

A. M.
Fios do tempo, 01 de abril de 2020




Falso arrependimento de Bolsonaro sobre coronavírus não pode ser aceito

São Paulo, 18 de março de 2020

Jair Bolsonaro sempre desafiou o bom senso. É a sua marca, foi o que até recentemente lhe garantiu apoio de uma base importante do eleitorado. Foi o que ele chamou de uma luta da “nova” contra a “velha” política. Funcionou até que parou de funcionar. O que aconteceu?

Traduzida em termos do dia a dia da administração pública, a luta da “nova” contra a “velha” política significa o seguinte: desde que Bolsonaro assumiu, o governo funciona apesar de seu presidente.

Diferentes forças políticas, dirigentes de instituições, servidores públicos de carreira se empenharam todos os dias em manter os serviços públicos funcionando apesar da ação desorganizadora do atual presidente.

Bolsonaro é basicamente um parasita político. Leva crédito porque os serviços públicos continuam a duras penas funcionando. E joga a culpa de todas as deficiências desses mesmos serviços públicos no “sistema”, na “velha política”.

Para Bolsonaro, quem discorda dele, qualquer coisa, pessoa ou instituição que se coloque contra sua vontade, faz parte do “sistema”. Por inacreditável que possa parecer, foi o que aconteceu com o coronavírus. Levando a sua estratégia do caos ao limite, ele interpretou a pandemia atual como uma tentativa de tentar enquadrá-lo no “sistema”.

É loucura que Bolsonaro tenha imaginado que o vírus era uma fantasia criada para derrotar seu projeto, mas a loucura continua tendo método. Combater o vírus e enfrentar a crise econômica que virá exigem que o presidente faça o que não fez até agora: governar. E isso, na lógica de Bolsonaro, é o mesmo que “se render ao sistema”.

Uma situação de emergência não permite manter a tática de levar o bônus de não governar e de jogar o ônus no “sistema” que ainda funciona, mesmo que aos trancos e barrancos. É urgente governar, é urgente que o “sistema” funcione.

Milhares de brasileiros estão sob a ameaça de morte pelo vírus e pelas consequências devastadoras da crise econômica pela qual vamos passar. É urgente evitar um desastre ainda maior do que aquele que já irá se abater inevitavelmente sobre nós. E isso Bolsonaro não sabe nem quer fazer.

Chegou o momento de colocar isso às claras. É preciso que os núcleos de racionalidade que têm operado até hoje nos bastidores para evitar o pior assumam abertamente a tarefa de dar rumo ao país, com articulações públicas e decisões transparentes. A crise é grave demais para ser enfrentada apenas pelas equipes que compõem esse governo.

O que ainda existir de racional e de institucional no Planalto precisa ignorar Bolsonaro e se articular com outras instituições e forças políticas fora do alcance dos poderes da Presidência da República para elaborar e implementar um plano de emergência eficaz para os próximos meses.

No entanto, um plano de emergência, mesmo coerente e bem estruturado, só vai funcionar se produzir confiança. E produzir essa confiança exige que as pessoas possam ver um núcleo de liderança que não seja Bolsonaro, que se mostrou inteiramente incapaz de liderar o país neste momento de grave crise. Bolsonaro é um obstáculo para a tarefa urgente de reunir o que for possível da inteligência disponível no país para enfrentar a crise e para restaurar a confiança. 

É preciso isolar Bolsonaro, impedi-lo de continuar a ameaçar nossa segurança e nosso bem-estar. Isso não tem nada que ver com impeachment. Em um momento de emergência, apostar em um processo de cassação traria apenas mais confusão  – e confusão é o ambiente em que Bolsonaro se sente confortável, é o que ele busca permanentemente.

Precisamos neste momento é de rumo, serenidade e firmeza. O afastamento legal de Bolsonaro da Presidência é assunto que não deve ser esquecido, mas não é assunto para agora.

O ideal seria constituir um núcleo de coordenação de ações com caráter de união nacional para isolar Bolsonaro e para dar rumo ao país. Pelo menos enquanto durar a crise atual. Poderia ser um núcleo de coordenação liderado pelo Congresso Nacional e composto por diferentes equipes técnicas, forças políticas, organizações da sociedade civil e mesmo integrantes da administração pública e do atual governo que aceitarem participar do esforço para o total isolamento de Bolsonaro.

Caso não seja possível um núcleo de coordenação com caráter de união nacional, que seja pelo menos um núcleo o mais amplo possível, que vá muito além das equipes que compõem o governo. Precisamos, a todo custo, evitar um desastre ainda maior do que aquele que já irá se abater inevitavelmente sobre nós.

Está claro, para a maioria da população, que Bolsonaro é um risco grande demais para continuar a ser tolerado como uma aberração sob controle. Todavia, risco ainda maior é voltarmos à situação anterior, à situação que nos trouxe à desorganização e ao caos que vemos hoje. O risco maior é Bolsonaro novamente pedir desculpas, dizer que está arrependido e que vai se comportar, como ocorreu nesta quarta (18/03). Até que não se comporte, novamente.

Isso não pode e não deve ser mais tolerado. A tática de Bolsonaro de atentar, todos os dias, contra a vida e contra as instituições e depois se safar com um suposto recuo não pode mais continuar. É preciso pôr um fim à armadilha de pensar que ele é um coitado que está sempre cada vez mais fraco, acuado, nas cordas.

É assim que sempre renasce de cada mergulho na insensatez que pratica: como um lutador incansável contra o sistema, como um humilde guerreiro do povo contra o dragão da maldade. Ficar sempre contando com que ele irá se enfraquecer, como que irá se comportar como presidente e governar, é acreditar na pantomima que ele representa. É jogar o jogo nos termos dele.

Foi, porém,  o que se fez até hoje. Pessoas e instituições garantiram que iriam conter, controlar e tutelar Bolsonaro. Isso é impossível. Precisamos acabar de uma vez por todas com a ilusão de que apelar para a razão e para o bom senso do atual presidente terá algum efeito. A lógica de Bolsonaro é destrutiva e destruidora, nada de construtivo pode sair de suas palavras e de seus atos.

Quando chegou a crise do vírus, o plano autoritário de Bolsonaro, mesmo que ainda muito vago, estava apenas em sua primeira fase, a fase do desmonte das instituições democráticas. Ele contava com a reeleição em 2022 para passar à fase seguinte, à construção do novo autoritarismo brasileiro, seja lá que cara viesse a ter.

A crise do vírus colocou a nu esse momento destrutivo de sua intenção autoritária. Colocou a nu sua incapacidade de enfrentar uma verdadeira emergência, sua incapacidade de governar.

Bolsonaro acha que ganhou o mandato não para governar, mas para destruir toda a ordem institucional construída na luta contra a ditadura de 1964 e no longo trabalho de elaboração e implementação da Constituição de 1988 ao longo de três décadas.

Para ele, a ditadura era um regime democrático. É típico de pessoas autoritárias dizer que uma ditadura pode ser democrática. É típico de grupos autoritários tentar chegar ao poder por meio de eleições democráticas e depois implantar o autoritarismo. Fazem isso falando em nome da democracia.

Para Bolsonaro, todo mundo que aceitou as regras da Constituição de 1988 é “de esquerda”. Não importa se for PSDB, DEM, PT ou PMDB. Não importa se for a Rede Globo, o Brasil 247 ou a Folha. Não importa se for uma organização como o MTST ou como o Todos pela Educação. Não importa se for uma peça de teatro ou um documentário.

A própria Constituição é “de esquerda”, faz parte da “falsa democracia”. Para Bolsonaro, a redemocratização é responsável por todos os males do país. A “verdadeira democracia” é apenas aquela que existia durante a ditadura militar. Quem conseguir entender a expressão “a democracia da ditadura era a verdadeira democracia” conseguirá entender Bolsonaro.

Também por isso temos de contar com a possibilidade de que Bolsonaro nos reserve algo ainda pior do que falso arrependimento e falsas promessas de bom comportamento no futuro. Pode ser que tente mobilizar o que ainda tem de apoio para confrontar o “sistema” de maneira radical.

Bolsonaro pode partir para uma ruptura institucional de gravidade máxima. Não podemos permitir que um radical atentado à democracia venha a se somar à gravíssima emergência sanitária que já enfrentamos. Na situação atual, um ato como esse seria tresloucado até mesmo para ele. Não é, entretanto, um cenário que pode ser descartado.

Daí a importância de que os núcleos de racionalidade democrática da política tragam à luz do dia as operações de salvamento cotidiano que estejam dispostos a realizar frente a um governo desarticulado e incapaz de administrar um quadro de emergência.

Um polo público de organização e de liderança precisa surgir e servir de referência para a população. Em um momento de crise aguda, a política precisa voltar a ser jogada dentro das instituições. Mesmo que sejam instituições avariadas e capengas, que precisam urgentemente de renovação e de reforma.

Quando a crise passar, não podemos, simplesmente, deixar de lado a necessidade de renovação e de reforma das instituições, não podemos voltar à situação em que estávamos, como se nada tivesse acontecido. Isso, contudo, também terá de ficar para depois.

O momento da reorganização da política brasileira para além de Bolsonaro chegará. Uma vez mais a sociedade vai se mobilizar e fazer das tripas coração para realizar o que Bolsonaro não permite realizar. Mas para superar a crise da maneira menos dolorosa possível é preciso colocar Bolsonaro em quarentena política já.

Publicado originalmente na Ilustríssima, Folha de São Paulo, 18 de março de 2020.


Marcos Nobre é presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e professor de filosofia da Unicamp.


Como citar este artigo:
NOBRE, Marcos (2020), Falso arrependimento de Bolsonaro sobre coronavírus não pode ser aceito, Fios do Tempo (Ateliê de Humanidades), 01 de abril. Disponível em: https://ateliedehumanidades.com/2020/04/01/fios-do-tempo-falso-arrependimento-de-bolsonaro-sobre-coronavirus-nao-pode-ser-aceito-por-marcos-nobre/


Lançamento do Segundo Manifesto Convivialista

Na próxima quarta-feira, 25 de novembro, às 11h da manhã (Brasília), teremos o lançamento do “Segundo Manifesto Convivialista: por um mundo pós-neoliberal“, publicado pelo Ateliê de Humanidades Editorial. Sendo fruto da colaboração entre as redes conviviais internacional e brasileira, após ter sido publicado na França com quase 300 assinaturas, o Manifesto vem a público agora… Continuar Lendo →

Livro. Segundo Manifesto Convivialista (lançamento do e-Book / pré-lançamento do livro)

Segundo Manifesto Convivialista:por um mundo pós-neoliberal Internacional Convivialista (lançamento do e-Book / pré-lançamento do livro) Apresentação Nada é mais urgente que elaborar um pensamento e uma inteligibilidade do mundo alternativos àqueles que o neoliberalismo soube impor a todo o planeta. Nós precisamos de uma filosofia política, e essa não pode consistir em um simples retorno… Continuar Lendo →

Ciclo de Humanidades. Bem vindos à humanidade digital?

Chegamos ao último encontro do Ciclo de Humanidades 2020! Ele ocorrrá na próxima quinta-feira, 26 de novembro, com o tema “Bem-vindos à humanidades digital?”. Nos vemos lá! Apresentação Questão As sociedades humanas se encontram em meio a um devir digital. Quais são suas consequências sobre a cultura, a educação e o debate público? Deveremos dar… Continuar Lendo →

Fios do tempo. O que pode o Apocalipse? – por André Magnelli

Hoje, quando começa nosso curso sobre Diante de Gaia de Bruno Latour, publicamos um pequeno escrito meu que propõe uma interpretação estética e teológico-política da experiência modernista de tempo e história, com suas desastrosas consequências ecológicas e políticas. Por que somos tão insensíveis às catástrofes em curso? Como podemos responder a elas? Proponho aqui, com… Continuar Lendo →

Lançamento da Revista REALIS na Universitá degli studi di Salerno, Itália

Em 16 de novembro (próxima segunda-feira), às 11 horas de Brasília (15h de Roma), será realizado o lançamento do dossiê “A pandemia em um mundo complexo e global: pós-colonialidade e solidariedade em perspectivas”, do número 2020.1 da Revista de Estudos Antiutilitaristas e Pos-Coloniais (REALIS), realizado pela Universitá degli studi di Salerno, Dipartimento di Studi Politici… Continuar Lendo →

Fios do Tempo. A política de invisibilidade do Governo Bolsonaro – por Nelson Lellis

Como controlar sua imagem pública diante de um cenário de riscos fora do controle e um cenário de grave crise? Uma das formas de fazer isso é com uma política de invisibilidade. É isso que propõe o artigo de Nelson Lellis a partir de uma oportuna leitura do último livro do sociólogo do risco Ulrich… Continuar Lendo →

Fios do Tempo. Dar/receber/dar: um ciclo sagrado – por Diana IriArte

Tenho a alegria de trazer hoje outro artigo de outro intelectual colombiano, a psicóloga e escritora colombiana, Diana Patrícia IriArte. Para tocar as virtudes, é preciso fazê-lo com simplicidade e sensibilidade. Isto é o que Diana faz aqui, analisando cuidadosamente o ciclo de dar (de dar/receber/retribuir) em sua relação com a ética do cuidado e… Continuar Lendo →

Dar/recibir/dar: un bucle sagrado – por Diana Patricia IriArte

Tengo la gran alegría de traer hoy otro artículo de otro intelectual colombiano, la psicóloga y escritora Diana Patrícia IriArte. Para tocar las virtudes, hay que hacerlo con sencillez y sensibilidad. Esto es lo que hace Diana aquí, analizando cuidadosamente el ciclo de dar (de dar/recibir/dar) en su relación con la ética del cuidado y… Continuar Lendo →

Curso Livre. “Diante de Gaia”, de Bruno Latour: introdução e leitura

Apresentação O livro “Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno” (UBU/Ateliê de Humanidades Editorial, 2020) é uma obra mestre da maturidade intelectual do antropólogo e filósofo Bruno Latour. Ao tratar dos desafios a serem enfrentados no Antropoceno, o livro conflui os distintos fios do pensamento em entrelace de Bruno Latour – as… Continuar Lendo →

Les fils d’une pensée en entrelac – entretien avec Bruno Latour (realisé le 04 novembre par André Magnelli)

Présentation Cher Bruno Latour, merci beaucoup d’avoir accepté de faire cet entretien. Nous, de l’Ateliê de Humanidades, sommes heureux de cet opportunité. Heureusement, la publication de Face à Gaïa est un succès commercial au Brésil. Cependant, comme il n’y a pas de débat intellectuel, ni de lutte contre les ennemis négationnistes, laissant des beaux livres… Continuar Lendo →

Fios do Tempo. La clave de Melquíades: abrir las puertas de una educación ladino-americana – por Gabriel Restrepo

Estoy muy contento de publicar hoy nuestro primer ensayo de Gabriel Restrepo sobre educación, ciencia y cultura, “La clave de Melquíades”. En este espléndido texto, que ganó el Premio Internacional de la Multi-Universidad Edgar Morin en Hermosillo, México, Restrepo hace un viaje narrativo sobre nuestra historia latinoamericana, haciendo uso del personaje Melquíades, de la novela… Continuar Lendo →

Curso livre. Moisés: a figura mosaica no Antigo Testamento e na contemporaneidade

Apresentação Moisés é um dos mais influentes personagens da História das Religiões e é um traço fundamental, ao lado de Jesus, do tecido que forma a civilização judaico-cristã ocidental. Ao mesmo tempo, é uma figura de origens enigmáticas, enevoada no mistério das montanhas sagradas nas quais, ensinam as Escrituras, Deus teria se revelado a ele…. Continuar Lendo →

Fios do tempo. La idea de una Sociología Filosófica – Daniel Chernilo

Como adelanto de nuestro Panel Internacional “Una humanidad insoslayable“, que se celebrará el próximo jueves (22, a las 18 horas), traemos hoy al Fios do Tempo [Hilos del Tiempo] el artículo seminal de Daniel Chernilo donde se presenta la idea de una sociología filosófica. Chernilo defiende el fuerte tese del carácter insoslayable de la cuestión… Continuar Lendo →

Um comentário em “Fios do tempo. Falso arrependimento de Bolsonaro sobre coronavírus não pode ser aceito – por Marcos Nobre

Adicione o seu

Deixe uma resposta

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: