Fios do Tempo. O reino do brincar – por Aldo Tavares

O Fios do Tempo publica nesta sexta-feira de Carnaval um texto de Aldo Tavares sobre o Momo e o reino do brincar. Neste texto, expõe-se a história e a metafísica presentes na figura milenar do rei Momo, que é mais profunda do que aquela com a qual estamos acostumados, a de um homem acima do peso dançando samba, sorridente, ao lado de suas rainhas. O Momo, rei das sombras e criança, é um ser que brinca com o poder e sua máscara, que (des)cobre o rosto do governante.

Uma boa leitura, um bom carnaval!

Ah sim, você pode também agora escutar o artigo, acompanhando (ou não) a sua leitura do texto! Basta clicar no áudio abaixo.




O reino do brincar

Fios do tempo, 21 de fevereiro de 2020

Sem pelo e gordo, personifica a criança recém-nascida. Filho da Noite, expressa o que o dia oculta. No final do século 16, registra-se pela primeira vez no dicionário de língua portuguesa seu nome associado ao grego mimos, passando a ser sinônimo de imitação. Mas quem ele imita? Imita o que a cidade oculta nos dias em que é séria sob o domínio de quem governa com o rosto da seriedade. Momo imita o que a aparência esconde para si mesma, mas sua imitação não copia a realidade, ele a (des)cobre como quem (des)cobre o rosto de quem diz governar para o bem público. 

Quando o prefeito entrega a chave a Momo, abre-se a porta que separa os mundos do rosto e da máscara, permitindo que o reino das sombras a atravessem e, uma vez atravessada a porta, o verso (o lado oculto) é o anverso (o lado visível) por três dias. O rosto do prefeito, sabemos, identifica-o dentro da ordem social; porém, ao mesmo tempo, oculta(-se) a verdade à luz do dia no espaço público; e a máscara do reino do brincar, por sua vez, permite a identidade falsa dentro de outra ordem social. Se o reino do trabalho determina a retenção do rosto imposta pelo sério, o reino do brincar liberta esse mesmo rosto por meio da máscara. Se o rosto do poder se põe acima a fim de declarar no espaço público que diz a verdade em nome de Deus, a máscara do folião se (ex)põe embaixo a fim de brincar no espaço público com a verdade de quem mente em nome desse mesmo Deus.

Filho da Noite, mãe que habita o extremo Oeste que percorre o céu coberta por um manto sombrio, o reino de Momo é o reino da sombra, onde “há também a sabedoria que floresce na escuridão, uma sabedoria de sombras noturnas, a qual sempre suspira: “Tudo é vão!’”, diz Nietzsche em Assim falou Zaratustra. Do grego skia, sombra significa “fenda, vão”, abertura por que passam valores do filho da Noite, mas passam porque sombra é engano, aliás, a própria palavra engano significa “passagem”. Rei de mascarados que brincam como fossem crianças, Momo promove a alegria do fingimento, porque no seu reino a fantasia sabe que o rosto de quem governa a cidade engana de forma séria. Diz Platão em A República que, “se a alguém compete mentir, é aos chefes da cidade, por causa dos inimigos ou dos cidadãos, para benefício da cidade” (389b-c) ou ainda “pode acontecer que os nossos governantes precisem de usar de mentiras frequentes e de dolos para benefício dos governados” (459d), e deles mesmos, obviamente.

Como filho da sombra, como rei de mascarados súditos e como criança que brinca, Momo não cria as oposições maniqueístas de que o rosto do prefeito tanto necessita, mas o imita e, porque imita, Momo brinca com o rosto de quem governa, pois sabe que ele sempre oculta “o que é”. Então, sem criar oposição, o que Momo cria? Momo cria o falso, sabendo que o falso é objeto errante que ocorre entre e é um entre. Sombra. Fantasia. Máscara. Brincar. Criança. Todos, objetos errantes. Todos, simulacros. Todos, entre.

Mas o que é entre? Zona de exceção. Por quê? Porque nem é a identidade A nem é a identidade B, mesmo porque entre não é identidade, isto é, como não se fixa em um dos extremos, entre é neutro. Mais: porque não é identidade, porque não é extremo, o entre não busca o centro a fim de ocupá-lo, posto que, além de não ser fixo, não se fixa em lugar nenhum. O entre, portanto, é o sempre vagando ou, como escreveu Platão em A República, “objeto errante no espaço intermédio” (479d). Qual poderia ser a imagem de um entre? Na guerra da representação, a melhor, é a do espião: um dentro que está fora e um fora que está dentro. Pulsa nesse jogo graus de brincar, e Platão sabia dos perigos do brincar na cidade-Estado grega; pois, segundo ele, “nada mais faz, na realidade, do que introduzir-se, aos poucos, deslizando mansamente pelo meio dos costumes e usanças” (424d-c). Momo, porém, não é jogo da representação, e sim o da potência do falso. 

Ao afirmar a potência do falso, Momo “magnifica ‘o mundo como erro’, santifica a mentira, faz da vontade de enganar um ideal superior”, observa Deleuze em Nietzsche e a Filosofia. Potencializar o falso inverte a verdade do poder, pois, como lembra Nietzsche em O Anticristo, “os conceitos de ‘verdadeiro’ e ‘falso’ estão necessariamente invertidos: o que é mais prejudicial à vida chama-se ‘verdadeiro’, o que realça, eleva, afirma, justifica e faz triunfar chama-se ‘falso’”.

Então, brinquemos com o governante, invertendo ou revertendo o que seu rosto oculta até que chegue a quarta-feira de cinzas.

Aldo Tavares é livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades, professor de filosofia e pesquisador na pós-graduação em filosofia da UERJ, onde pesquisa sobre a criança em Platão e em Nietzsche.


Fonte das imagens: à esquerda, o “Louco” (Momus), deus da mitologia grega, minchiate (jogo de baralho) do século XVIII; à direita, foto de boneco do Rei Momo, Carnaval de São Paulo, 1936, resgate em 2001 no Carnaval de Outrora, autor desconhecido.

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