Pontos de leitura. Para que uma ciência bela responda pelas crianças – por Michel Serres

A partir de uma certa altura de sua história, a ciência deve responder por sua face, pela beleza que apresenta e produz. Desinteresso-me do saber que adquiriu a forma atual porque enfeia homens e coisas, porque ele envelhece mal e fracassou na formação de nossos filhos. Mostra feiúra e morte, a máscara contorcida da tragédia. A partir de uma certa altura, a ciência deve responder pelas crianças. Sai o sábio, eis a criança.

Esta ideia tão difundida de que tudo deve ser dito e resolvido pela linguagem, de que todo verdadeiro problema dá assunto para debate, de que a filosofia se reduz a perguntas e respostas, de que só podemos nos tratar pela fala, e que o ensinamento passa exclusivamente pelo discurso; esta ideia falastrona, teatral, publicitária, sem vergonha nem pudor, ignora a presença real do vinho e do pão, seu gosto tácito, seu odor, esquece o ensino pelos gestos apenas esboçados, a conivência, as cumplicidades, o que não se precisa dizer, a súplica de amor insigne, as intuições incríveis que faiscam como o raio, o encanto que perdura após uma atitude; esta ideia judicária condena os tímidos, os que nem sempre têm opinião própria, e nem sabem o que pensam, os pesquisadores; esta ideia de professor exclui os que não assistem à aula, os inventores e os humildes, os que hesitam e são tocados, as pessoas de espírito. Conheci tantas coisas sem texto e pessoas sem gramática, crianças sem léxico, velhos sem vocabulário, vivi tanto no estrangeiro, mudo, aterrorizado atrás da cortina das línguas, que teria realmente saboreado mais a vida se tivesse feito mais do que ouvir ou falar, pois o que sei de mais precioso está encastoado em silêncio.

Não, nem o mundo, nem a experiência, nem a filosofia, nem a morte se deixam encerrar no teatro, no tribunal, ou numa aula. Esta ideia verdadeira esquece a física e a vida, a ciência e a literatura, a modéstia e a beleza.

O saber sábio cura e forma o corpo, embeleza-o. Quanto mais presto atenção e busco, mais eu penso. Penso, logo, sou belo. O mundo é belo, logo, penso. O saber não pode prescindir da beleza. Busco uma ciência bela.

A partir de uma certa altura de sua história, a ciência deve responder por sua face, pela beleza que apresenta e produz. Desinteresso-me do saber que adquiriu a forma atual porque enfeia homens e coisas, porque ele envelhece mal e fracassou na formação de nossos filhos. Mostra feiúra e morte, a máscara contorcida da tragédia.

A partir de uma certa altura, a ciência deve responder pelas crianças. Sai o sábio, eis a criança.

Michel Serres, Os cinco sentidos: filosofia dos corpos misturados I
(Bertrand Brasil: 2001 [1985], p. 102-103).

Achado de André Magnelli

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