Generosidade e vida social, por Paulo Henrique Martins (artigo em O Povo)

A tradição budista prega a bondade fundamental como condição para a harmonia interior. No entanto, a tradução do termo no nosso imaginário cristão sofre, muitas vezes, uma inflexão ambígua em que o bem apenas se reconhece na luta contra o mal, o que se afasta claramente da dádiva franciscana. Para sair desta armadilha maniqueísta é importante ressignificar a bondade budista como generosidade, o que leva necessariamente a se mergulhar na experiência interior do nosso ser. Na sua origem etimológica, generosidade vem de gens, uma disposição genética de fazer nascer  algo ou alguém: um bebê, uma gentileza, o amor, a vida social. Aqui, generosidade não se restringe a um estado sublime de bondade, mas se movimenta a favor do esclarecimento coletivo.

Generosidade é uma dinâmica subjetiva “gerada” pela escuta gentil dos próprios afetos. Nas sociedades antigas, a generosidade se manifesta por dádivas voltadas para ritualizar os pactos comunitários. Nas sociedades atuais algo se perdeu neste movimento de invenção das comunidades solidárias. A perda da generosidade gera indiferença e discriminação, ampliando a desigualdade e a injustiça. A ignorância emocional projeta o medo como ameaça no mundo real e alimenta a vitimização. Cria enfermidades psíquicas, transforma amigos em inimigos e onde deveria brotar a paz, explode a guerra. As crenças fundamentalistas alimentadas pelas fake news exaltam a bandeira da intolerância e da punição, amortecendo a bondade. A escravidão do medo e do ódio desconstrói a esperança de libertação. No lado contrário, o exercício da generosidade gera inclusão, acolhimento e alegria de viver. O desafio está em transformar o medo obsessivo em coragem de comungar juntos à vida. Quanto mais treinamos a observação consciente do nosso universo interior mais podemos organizar uma cidadania saudável. É preciso reaprendermos a cultivar o desprendimento e a solidariedade radical nas relações entre próximos e estranhos. É urgente cuidar das crianças em nós e fora de nós para exaltarmos a bandeira da generosidade.

É professor titular da UFPE, ex-presidente da ALAS e autor de “Itinerários do dom: teoria e sentimento” (Ateliê de Humanidades Editorial, 2019)


ph

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