“Marighella” tem algo a dizer às esquerdas de hoje?

Aldo Tavares*

Se uns dizem revolução e outros, ditadura, a história registra que, de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985, militares governaram esta Pátria Amada por longos 21 anos, sem os devidos conflitos naturais da democracia. Para o baiano Carlos Marighella, o que houve em 64 foi um golpe militar fascista e, para ele, só havia uma forma de combatê-lo: pegar em armas.

Em 1934, aos 23 anos, Marighella abandonou o curso de Engenharia Civil para ser militante profissional do Partido Comunista Brasileiro, tendo sido expulso em 1967. Um ano depois, funda o grupo armado Ação Libertadora Nacional (ALN) e, em 4 de novembro de 1969, seu corpo tomba dentro de um Fusca, na alameda Casa Branca, no Jardins, rua próxima ao Centro de São Paulo, após ter sido traído pelos frades dominicanos Ivo e Fernando.

Após 34 anos do último militar governar o Brasil, o diretor Wagner Moura projeta na tela do cinema brasileiro Marighella, filme que surge no momento em que ideologias se extremam e no período histórico em que as esquerdas necessitam rever suas formas de luta política diante da sociedade civil. Não há dúvidas de que um homem que abandona a vida pessoal para se entregar à luta armada em nome da justiça social merece todo respeito. Entretanto, se sua vida deve permanecer na memória desta Pátria Amada, é para que percebamos que lutar contra o poder é muito mais profundo do que pegar apenas em armas. Quero dizer com isso que o filme só se torna importante neste momento do Brasil para nos mostrar que a ideia revolucionária de Marighella é inútil para a complexidade política do século 21, não passando essa ideia, portanto, de peça de “museu de grandes novidades”.

O filme encantará jovens que defendem a violência como único meio de destruir o capitalismo, pupilos inocentes de um marxismo maniqueísta, cuja inglória utilidade se reduz a azeitar a engrenagem social. Jovens revolucionários, porém, não leem Platão, por isso ignoram que o poder “não-é o que é” e “é o que não-é”, explico: tanto no governo getulista quanto nos governos pós-64, o poder inventou inimigos políticos a fim de que esse mesmo poder propagasse a imagem de que ele combateu adversários. Há nesse jogo ambíguo uma liturgia política a fixar a luta entre o bem e o mal. Em O Príncipe, Maquiavel evidencia isso na relação entre César Bórgia e Ramiro Orco, onde o poder do príncipe Bórgia necessita da violência de Ramiro para aquele ser amado por seus súditos. A ideia de luta política de Marighella é a violência de que os militares necessitavam a fim de que, em sua propaganda ideológica (Brasil, ame-o ou deixo-o!), a aparência do governante fosse querida como aquela que luta contra o mal.

Se o filme de Wagner Moura seduzirá jovens que defendem “a violência contra o sistema opressor”, saibam que a violência da extrema-direita é bem mais elaborada pela simples razão de ela se apresentar como ato estético nacionalista. Sobre o conceito de estética, vale lembrar, o Minimanual do guerrilheiro urbano, escrito em 1969 por Carlos Marighella, não concebe o guerrilheiro como “artista numa obra”. Já os militares, no entanto, conceberam que seus homens fossem atores em um palco chamado região do Araguaia, teatro escrito no livro Xambioá, de Pedro Corrêa Cabral, na época capitão-aviador e piloto de helicóptero. Se Marighella não podia admitir a arte como luta política, os militares a admitiram, a ponto de se transformarem, na fronteira entre Tocantins e Pará, em “artistas numa obra”. A narrativa Xambiá é exemplar aula de como o poder militar soube fazer uso da arte da representação – arte que Platão chamou de “mentira nobre”.

Exilado o artista de seu Minimanual, jovens herdaram de Marighella um dos modelos de ação política, qual seja, o de ocupação, tendo influenciado outros manuais, entre eles, o de Ocupação das Escolas. Ao ler o Minimanual, um jovem, sem fundamentos teóricos para entender que a luta política atual não é lida em manuais, pode defender, conforme Marighella, que “ser ‘violento’ ou ‘terrorista’ é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta armada” contra o vergonhoso capitalismo e suas atrocidades. Após 50 anos de sua morte, muitos revolucionários de manual ignoram que o capital tornou-se estético.

O filme de Wagner Moura é muito bem-vindo à democracia, e assistirei por duas razões: importância para a história recente da Pátria Amada e profunda importância de não ter nada a dizer de criativo como luta política para a atual realidade das esquerdas brasileiras.

* É livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades e professor de filosofia

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