Sob o olhar de Luzia – Ateliê de Humanidades para o Jornal do Brasil

Lindoberg Campos*

Não foi suficiente ser o foco de análises e de reviravoltas nas teses de migração e povoamento do território americano; não bastou ser testemunha inconteste do suceder dos milênios e sobreviver à ação do tempo para tornar-se o fóssil mais antigo que se tem notícia na América do Sul. Nada disso bastou para que Luzia tivesse o descanso merecido de sua árdua experiência de vida; foi preciso ainda sobreviver ao descaso de seus descendentes, no tempo e na linha de “evolução”, que por ignorância e indiferença fez com que a herança e a memória milenar dos povos tivessem conhecido o apocalipse antecipadamente no incêndio do Museu Nacional.

Se não bastassem todas as peripécias da humanidade que Luzia, do fundo de sua sepultura, fora testemunha, a perspectiva que se avizinha não promete grandes probabilidades de ela encontrar-se com a “terra onde correm leite e mel”, ou outra mitologia que tenha sido o horizonte e a esperança de seu povo. Fruto provável da maior onda migratória que o mundo já conheceu, Luzia tem diante de si um mundo marcado pela indiferença, pelo ódio e pelo preconceito. Barreiras, físicas e afetivas, colapsam a possibilidade de um encontro fraterno dos povos; demarcam espaços, direcionam ações, fundamentam políticas públicas, fortalecem preconceitos e divisões.

No ano em que se comemorou os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos e 30 da Constituição Cidadã, vimos frases de ódio e repulsa ganharem as manchetes dos jornais, inflamarem discursos políticos e pregarem abertamente que “aquilo que não entra na minha realidade não tem existência”. O mundo se fechou, o outro se tornou efetivamente o inferno de que falava Sartre. Luzia não se consumiu apenas nas chamas do descaso com o patrimônio, se consumiu na insensatez humana que se diz racional, mas que paulatinamente revela sua mais grave patologia.

Ao lado de Luzia fomos testemunhas de um fechamento absoluto ao diálogo. O passado não mais importou, as heranças foram tidas como malditas, usadas para manipular e ideologizar as mentes. Uma onda de limpeza étnica, ideológica e discursiva varreu o mundo como um tsunami há muito anunciado. Proferir frases totalizantes, vomitar impropérios, buscar explicações simples para problemas crônicos e complexos, louvar a ignorância e desprezar os árduos anos de labuta intelectual tornaram-se regra num mundo cada vez mais bestializado.

Percebemos que “semelhante” não significava mais a condição natural do ser humano; sua tradução está subordinada agora à condição financeira, ao alinhamento de pensamento político, às renúncias a discursos que possuam qualquer cunho social ou parecido. As narrativas altruístas parecem não ter mais lugar num mundo que se diz cada vez mais técnico e marchando para o progresso inevitável. Resta-nos saber o que significa “progresso”.

Fez-se a guerra em outros territórios em nome da “segurança nacional”; especularam-se mercados em nome da “economia global”; mísseis percorreram quilômetros por céus privativos para pousar na terra abrindo covas coletivas. Fez-se a guerra lá, fecharam-se as fronteiras cá. Fingiu-se que a guerra brotou do solo como a água, eximiu-se da responsabilidade proferindo discursos vazios para mentes vazias. Acusou-se, apontou-se o dedo, puxou-se o gatilho, empunhou-se a faca. Arrebanhou-se fiéis para causas escusas e desumanas. E assim o ser humano, de todos os lados, entrou num sono dogmático. As fronteiras hoje, mais do que nunca, delimitam territórios humanos distintos. Fechou-se a possibilidade de trocas, de experiências que não fossem mediadas pelo interesse econômico. O estrangeiro tornou-se uma ameaça, sua aniquilação a solução. A insensibilidade pelo sofrimento do outro se tornou regra.

Sob o olhar de Luzia seguimos o rumo sem prumo; num barco sem mastro, numa estrada sem guia, numa terra onde a lei do mais forte e valente parece ser o norte. Busca-se entender o que é o humano e se ainda Luzia poderá vislumbrar a centelha do último elemento da caixa de Pandora a conduzir-nos por novas veredas.

*É livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades e doutorando em literatura (PUC-RJ)

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