Conexão Ateliê de Humanidades – Encontro da rede de livre-pesquisadores

Apresentação

O Ateliê de Humanidades é um espaço livre e colaborativo de estudo, pesquisa, escrita e formação, visando gerar condições para a formação intelectual e a produção científica em níveis de excelência na interface entre a filosofia e as ciências, em especial as ciências humanas e sociais. Seu cerne é composto por um corpo de livre-pesquisadores que se orientam por nossos valores, dentre os quais a liberdade de pensamento, a ética do trabalho bem feito e o espírito de serviço ao público e à formação democrática.

Fundado no início de 2017, o Ateliê foi lançado oficialmente em maio de 2018; desde o início, o Corpo do Ateliê esteve em crescente expansão, agregando livre-pesquisadores em formação, plenos e parceiros. Dentre eles, há os que participam intensamente de nossas atividades de pesquisa – alguns dos quais contribuindo, inclusive, para nossa construção; e há, também, os que pesquisam em outras instituições, mas que agregaram suas forças ao Ateliê tendo em vista o crescimento da causa comum.

No final deste primeiro ano de existência, chegou a hora de realizar a conexão da nossa rede de livre-pesquisadores, fazendo com que todos se conheçam como humanos, cidadãos e pesquisadores. No dia 08 de dezembro de 2018, das 9:30 às 18:00h, nos encontramos (presencial e virtualmente) na BiblioMaison, para dialogarmos em torno das agendas e dos resultados de pesquisa dos livre-pesquisadores do Ateliê, distribuindo-os por alguns dos nossos Planos de Convergência.

Embora nem todos tenham podido participar, estamos orgulhosos por identificar os primeiros contornos de uma instituição de pesquisa nascente e cremos que se inicia aqui um novo ciclo, em que o Ateliê de Humanidades ganhará carne na sua existência coletiva e gerará não somente sinergias de ideias e agendas, mas também amizades e projetos existenciais empreendidos em uma cidade livre e solidariamente compartilhada.

André Magnelli


Estética, Artes e Afetos:
entre questões eternas e desafios do instante


 

1.Os cuidados no morrer

Lucas Faial Soneghet

O trabalho a ser apresentado tem como tema as formas de modelagem do sujeito no processo de morrer. Busco compreender os sentidos conferidos pelos sujeitos morrentes às suas trajetórias e à sua condição, tomando suas narrativas como formas de construção, reconstrução e significação dos contextos afetivos, institucionais e políticos nos quais transitam. Também são consideradas as rotinas administrativas da instituição hospitalar, bem como a experiência dos profissionais de saúde e entes queridos em torno do sujeito morrente. Como objetivo mais amplo, procuro compreender as formas de modelagem do sujeito na contemporaneidade, apostando que o processo de morrer em hospitais públicos apresenta-se como circunstância privilegiada para acessar as nuances da formação do sujeito na sociedade brasileira contemporânea, as diferentes maneiras pelas quais o corpo emerge em contextos de “cuidado” enquanto nexo das relações sociais, atravessado por poder, fisicalidade e sentido, e as potencialidades e fraturas no processo social de feitura do si mesmo.

2.Caminhos do reconhecimento: das lutas morais aos regimes de paz

Maria das Graças Siqueira da Rocha

O trabalho tem o objetivo de, primeiramente, focalizar o pensamento de Axel Honneth, em seu livro a Luta por Reconhecimento, particularmente no que resulta à falta de reconhecimento intersubjetivo e social; em seguida, partiremos para abordagem de Paul Ricoeur no tocante aos regimes de paz em seu livro Percurso do Reconhecimento. A partir de elementos das questões filosóficas e morais colhidas nesses pensadores, pretendemos verificar se há ou não alguma perspectiva de leitura pela qual se reconheceria a experiência de uma Economia de Comunhão enquanto via possível de um regime de paz, que considere a importância do agir agápico nas relações humanas e, inclusive, na própria ação econômica dentro do mercado.

3.A condição estética: belo como experiência ou dominação

Eliane Soares

Com o nascimento da Estética filosófica no século XVIII, seu campo de investigação se define em duas áreas mais importantes: a filosofia do Belo e a filosofia da Arte. Assumimos a hipótese, de partida – que tentaremos desenvolver ao longo da pesquisa pela filosofia e pela antropologia – de que a experiência estética é inerente à natureza humana; daí o título de meu trabalho: a condição estética, como tema principal desta pesquisa. Contudo, tenho o objetivo subsequente de investigar a experiência estética, em especial a do belo, por uma perspectiva sociológica e histórica, considerada tanto em seu imbricamento com a modernidade, quanto com a contemporaneidade.

Portanto, nesta pesquisa pretendo a formação de uma reflexão sistemática, filosófica e sociológica, sobre: a) a experiência da beleza nos planos da subjetividade e da intersubjetividade, de um ponto de vista da antropologia filosófica; b) A beleza e sua articulação com a formação de uma ordem social e política moderna, considerando inclusive a perspectiva crítica concernente ao seu uso instrumental com fins de dominação, tendo por referência de partida as contribuições de Terry Eagleton (A ideologia da Estética) e Luc Ferry (Homo Aestheticus); e c) por fim, a localização e a associação desta condição estética e histórica com os diferentes planos da vida e do pensamento no mundo contemporâneo, o que será feito em diálogo com trabalhos como o Gilles Lipovetsky (A Estetização do mundo), Roger Scruton (Beleza) e Arthur C. Danto (O Abuso da Beleza).


Cartografias da crítica:
Fundamentos, Potencialidades e Limites


 

1.A imaginação como pressuposto e como objeto: uma sociologia da imaginação teórico-social moderna

Alberto Luis Cordeiro de Farias 

Farei, no nosso encontro, uma apresentação ao mesmo tempo de uma pesquisa individual e de um plano de convergência do Ateliê: o Cartografias da Crítica. A pesquisa individual é parte de um programa de pesquisa iniciado ainda durante o curso de mestrado, que tem por objetivo pensar, histórica e sistematicamente, as relações entre a sociologia, a faculdade da imaginação – em sua tradução especificamente sociológica – e a modernidade, tendo por objeto os escritos teórico-metodológicos dos clássicos da teoria social. Busca-se determinar: (a) as formas exteriores (históricas) que frequentemente assumiram, diacronicamente na sociologia, as relações entre a sociologia disciplinar e a imaginação; (b) e as configurações, internas à obra e pensamento dos sociólogos clássicos, dos pressupostos e das implicações teóricas, metodológicas e epistemológicas da consideração daquela relação.

Por sua vez, o Cartografias da Crítica nasceu no grupo de pesquisa Sociofilo, atuando desde 2017 no Blog do Sociofilo. O projeto teve o objetivo inicial de fazer uma genealogia das constelações de crítica e de cartografar as atividades de teoria e pesquisa críticas. Agora ele está agora em sua segunda fase, delimitada em quatro linhas de trabalho concomitantes: (1) um esforço genealógico voltado para as relações entre crítica e crise na modernidade; (2) um trabalho genealógico tendo por objeto a tradição de crítica de matriz alemã, aí incluídos os teóricos de Frankfurt, mas também o pensamento social alemão dos anos 20 e 30; (3) um trabalho genealógico em cima do que chamamos de “via francesa da teoria crítica”; e (4) um trabalho propriamente cartográfico sobre a teoria crítica alemã contemporânea e a filosofia política francesa contemporânea. A nova fase tem como partida um diagnóstico da crise da crítica no nosso tempo, que possui, segundo nossa hipótese, alguns traços característicos: (a) o paradoxo da superestimação e dissolução da crítica; (b) o paradoxo da hiperbolização da crise e de sua deflação teórica; (c) o processo de dissociação entre crítica e crise; (d) e a dissolução de um fim da crítica, identificado a um ideal de autenticidade e dissociado de um projeto de autonomia ao mesmo tempo individual e coletiva.

2.Crítica, crise e teoria social

Felipe Maia G. da Silva

Boa parte do esforço dos clássicos das ciências sociais esteve voltado para a interpretação do que poderíamos chamar de crises da modernidade e a partir daí desenvolver uma perspectiva de crítica que pudesse informar públicos variados. Essa ambição de construir “diagnósticos de época” ou de produzir “grandes narrativas” parece ter ficado um pouco fora de moda com o avanço dos processos de institucionalização e especialização disciplinares, remetida talvez à filosofia ou ao ensaísmo ilustrado praticado por grandes intelectuais. Todavia, o avanço do neoliberalismo (ou a sua “estranha sobrevivência”) e os processos sociais identificados com a “crise de 2007-2008” parecem ter reanimado reflexões desse tipo, preenchendo uma necessidade de constituir quadros amplos de entendimento de características globais do tempo presente. Ao mesmo tempo, na esteira dos debates sobre a sociologia crítica de Bourdieu e a teoria crítica frankfurtiana, muitos sociólogos têm procurado compreender de modo mais rigoroso o sentido da “crítica” tanto na atividade intelectual quanto suas possibilidades nas práticas sociais em geral. Se não estivermos muito enganados, esses dois movimentos recolocam a questão das relações entre crise e crítica como um problema presente, cuja investigação pode ajudar a compreender melhor tanto as dinâmicas sócio-históricas quanto as próprias possibilidades do conhecimento e da transformação social.

Assim, essa apresentação versa sobre as relações entre crítica e crise na teoria social contemporânea, inserindo-se em um projeto de pesquisa sobre o tema que está em seus primeiros passos. Nesse primeiro momento vamos enfatizar modalidades de compreensão da “crise”, deixando uma reflexão mais sistemática sobre a “crítica” para um segundo momento, mas tendo sempre em conta que diagnósticos de crise contém, inescapavelmente, uma perspectiva de crítica, que não será descurada na avaliação dos textos e autores.

3.A Colonialidade do pensamento brasileiro

Paulo Henrique Martins 

Faremos uma breve exposição sobre a necessidade de pensar uma redefinição da ação intelectual. Em um contexto social como o que vivemos, nosso desafio hoje é de conceituar a reorganização do mundo do trabalho e do mundo social, que assegure um processo de diferenciação fundamental para a existência das minorias atuantes. Estamos em um novo movimento histórico que desencadeia uma série de crises, dentre elas a dos saberes e das práticas. Isso nos demanda, de um lado, uma conceituação mais ampla, cultural e simbólica, da sociedade; e, de outro lado, a construção de novas práticas metodológicas e de um novo papel para o intelectual, mais como intérprete do que como legislador. Para isso, precisamos descolonizar os saberes, as práticas e as instituições. Proporei então que abramos uma agenda para 2019 voltada a uma crítica teórica da colonialidade no pensamento brasileiro.


Mutações da Democracia / Individualidade nas suas relações:
existência, convivência e vida ética no passado, no presente e no porvir


1.A Guerra Interna da Cidade: um encontro entre Platão e Maquiavel

Aldo Tavares

O que me seduz em meus estudos é o que me escapa ou, pior ainda, o que me engana, pois exige de mim o sempre desconforto diante do que vejo na face do poder político. Quando posso saber com o devido cálculo que o rosto político diz a verdade? À luz do dia, a face e a palavra postas de quem governa guardam, no limite da claridade, no limite do visível, algum engano, que nem percebemos; pois a luz, porque retém a face e a palavra políticas, não ex-põe, ainda que tudo esteja posto.

Para Platão, a mais elaborada guerra ocorre no interior da Polis, onde sempre se trava o combate no campo da representação. O que hoje o senso comum chama de fake news, Platão conceituava de mentira nobre, visto que, para o filósofo grego, não é o falso que emerge no real como engano, mas o próprio real que é engano na condição de mentira nobre. O que mente é o real, porém nunca se sabe com precisão quando mente por ele ser engano. A materialidade da mentira nobre só pôde ser vista, para além dos conceitos platônicos, muitos séculos depois do pensador grego, no caso, no rosto-palavra de O príncipe, de Maquiavel. Nessa obra, se o poder é mentira nobre, é pela razão de ele ocultar o falso por meio do engano, que é o real.

Se o povo é levado pelas aparências como observa Maquiavel, o poder contra os homens comuns se apresenta enquanto rosto a ser visto como a verdade da palavra. Os comuns só concebem a palavra como verdade quando sua sonoridade materializa-se na aparência do rosto. Assim, por encarnar a palavra, o rosto é palavra com quem os homens comuns se identificam melhor. Então, uma vez o povo sendo levado pela aparência do rosto-palavra, o que é a aparência em Maquiavel? Ela é a linha imperceptível entre a virtude e o vício, entre o traidor e o fiel, entre o íntegro e o astuto ou entre o religioso e o incrédulo no rosto-palavra do príncipe; ele, porém, deve ser tão prudente que saiba fugir por meio da aparência à má fama dos vícios. Por isso, o governante precisa agir de tal forma com quem é governado que este veja no rosto do governante as expressões da palavra virtude, ainda que o governante saiba que, seguindo só a virtude, será sua ruína. Por essa razão, o príncipe não deve temer a má fama dos vícios; pois, sem ela, não pode salvar o estado, visto que o vício garante segurança e bem-estar ao poder, desde que não faça do príncipe desprezível e odioso ou desde que não gere uma má fama com ódio. Se o rosto é a imagem da palavra que emite confiança, esse rosto, que representa a palavra, é o mesmo que esconde.

2.A psicanálise e a Individuação psíquica: um diálogo com Marcel Gauchet

Marco Aurélio de Carvalho e Silva

Quando a psicanálise foi primeiramente pensada, ela se deparava com questões oriundas de uma sociedade moderna que buscava dar à razão um estatuto especial não somente no tocante o pensamento científico como um todo, mas também no tocante a formas de subjetivação. O sujeito era o objeto de estudo dessa cultura. O pai da psicanálise descreveu uma sociedade dividida entre a força das moções pulsionais e outra força que se opunha a tais pulsões. Portanto, Freud investigou como a sexualidade recalcada poderia dar vazão a sintomas psíquicos.

De acordo com o filósofo francês Marcel Gauchet, a psicanálise se depara, hoje em dia, com um cenário diferente e, como ele mesmo descreve, ameaçador a seus construtos. Além do crescimento das teorias cognitivas que imperam no meio científico com a promessa de tratar o mal-estar humano, Gauchet aponta que estamos diante de uma mutação antropológica, cujo resultado poderá dar luz a uma nova humanidade. Tal mudança significativa no âmago da constituição social e psíquica da humanidade decorre de um processo de “saída da religião” e a ascensão de uma democracia baseada na autonomia. Para fazer frente a tais desafios da contemporaneidade, ele propõe um retorno a Freud com o intuito de repensar o arcabouço teórico que norteia a ética e prática da psicanálise, assim revisitando e atualizando conceitos importantes tais como: a economia psíquica da cultura vigente; o conceito de narcisismo e as formas de subjetivação no século XXI; a questão edípica numa sociedade com configurações familiares diversas; e, principalmente, a individuação psíquica como objetivo do tratamento psicanalítico.

3.Como o Estado reprime o comércio de drogas?

Emmanuel Rapizo 

O objetivo desta apresentação é informar os termos e sentidos da pesquisa que realizo no meu doutorado. A questão principal, que intitula esta apresentação, se relaciona com quatro grandes grupos de pesquisa.

O primeiro trata das pesquisas sobre políticas públicas. A partir da compreensão clássica do ciclo, que se inicia com a formação de agenda e termina na avaliação de impacto, aqui é sugerido focar atenção na fase da implementação. As consequências metodológicas e mesmo teóricas desta decisão serão discutidas.

A segunda literatura versa sobre segurança pública, polícia e justiça. Questões  principais que aparecem na pesquisa se referem à forma como as forças policiais se organizam e os efeitos do desenho institucional constitucional e legal. O debate sobre a organização dos grupos criminosos somente está presente de maneira lateral, dado o viés de perspectiva, focado no Estado.

A terceira linha de debates está relacionado com questões gerenciais e de organização. A pergunta que surge aqui é: como se dá a relação entre decisões estratégicas e ações operacionais? Ou, em uma forma mais sociológica, a uma práxis estatal é possível atribuir uma racionalidade estratégia?

Uma quarta linha de estudos é aquela da sociologia das estatísticas. Aqui, o estudo abre espaço para pensar como a construção estatística e matemática dos sucessos e fracassos das políticas públicas retorna para dar forma e coerência a toda as ações discutidas pelas outras vertentes. Ou seja, como as estatísticas permitem a captação de uma ordem coerente de ações legais de atores organizados previamente que são implementadas estrategicamente para alcançar resultados identificados por estes estudos.


Tecnociências & Sociedade:
interflúvios e porvires da máquina, da vida e do (pós-)humano


1.Repercussões da Inteligência Artificial sobre o social, o individual e o relacional, no humano e na máquina

Renato Magnelli 

As tecnologias de Inteligência Artificial (IA) estão em moda. A disciplina foi reconhecida e nomeada ainda na década de 50, sob o ambicioso objetivo de simular todo aspecto do aprendizado e da inteligência. Após meio século de expectativas e obstáculos, os desenvolvimentos tecnológicos vertiginosos dos últimos anos nas áreas das redes neurais de aprendizado profundo, da robótica (drones e veículos autônomos), do processamento de língua natural (chatbots) e da ciência dos dados fazem proliferar suas aplicações práticas, assim como as análises sobre suas potencialidades e ameaças. Com as promessas incertas e os riscos imprevistos de cada invenção, nossos afetos oscilam entre a ansiedade por descobertas, a surpresa por novidades e um medo diante do desconhecido. Ameaças generalizadas à segurança, armas de guerras (reais e virtuais), desaparecimento súbito de postos de trabalho, fake news automatizadas disseminando instabilidade política, sofisticação do sistema de controle dos Estados, algoritmos mapeando e classificando todos nossos passos, formando uma bolha ideológica e de consumo – não faltam sinais de que os autômatos dos novos tempos prometem nos deixar em constante sinal de suspense.

Diante deste cenário, proponho duas vias de investigação a respeito das repercussões das tecnologias de IAs sobre o social, o individual e o relacional: (1) investigar quais são as incertezas, os riscos, as ameaças e as potencialidades decorrentes das inovações em curso; (2) a partir da abertura de um horizonte possível de máquinas capazes de atributos tidos até então como exclusividade humana, refletir sobre quais são as implicações das IAs para a própria compreensão do que é o humano, o vivo e a máquina, bem como quais são as consequências sociais de tais inovações tecnológicas.

No encontro realizarei uma breve reflexão sobre as repercussões das inteligências artificiais em nosso tempo. Primeiramente, será feito um panorama do cenário tecnológico da inteligência artificial; em seguida, tratarei das maiores preocupações suscitadas por tais tecnologias e fazendo um levantamento das divagações atuais sobre seu futuro. O objetivo será introduzir ao projeto de estudo em inteligência artificial desenvolvido no plano de convergência do Ateliê de Humanidades.

2.Na Carne da Máquina: Uma Cosmopolítica das Relações IA-Humanos

Rafael Damasceno

Minha pesquisa, atualmente, está sendo desenvolvida dentro do que podemos chamar de antropologia das ciências e das tecnologias. No entanto, mais do que isso, tenho buscado trabalhar na interface dela com a filosofia contemporânea e com a linguística. De modo geral, meus últimos escritos têm proposto algumas reflexões, em perspectiva, de modo a repensar os tipos de pessoas, de coisas, de fluxos de pessoas (e coisas) que os cientistas humanos usaram para descrever as sociedades modernas. Tenho feito um esforço para reunir um maquinário conceitual oriundo, principalmente, da etnologia: minha investigação é sobre a socialidade, a personitude (personhood), o regime causal e a temporalidade que emergem da interação entre humanos e máquinas. Inteligências artificiais, softwares inteligentes, algoritmos, economia de metadados, tecnologias de data science, todos esses (e outros) formam um conjunto de tecnologias que integram de fato – e progressivamente – o que, ao longo do século XX, costumou-se chamar de social; sem contar que, cada vez mais, elas ameaçam os brasões distintivos do humano.

Não pretendo, no entanto, fazer uma antropologia do “ciberespaço”, muito menos evocar um estudo da cibercultura, uma vez que não se trata nem de estudar a cultura no “ambiente virtual”, nem o “impacto da internet sobre as culturas humanas”. Encaro a divisão entre o mundo online e o offline como teoricamente obsoleta, e proponho pensar na chave daquilo que a sociologia da cultura tem chamado de culturas algorítmicas, transpondo, no entanto, a discussão para o campo da antropologia – em especial a que podemos chamar de pós-estrutural. Tal empreitada, ao meu ver, é urgente, visto que vivemos um momento de desgaste das várias fronteiras e divisões categóricas do pensamento moderno, simultaneamente a um esforço hercúleo de mantê-los.

3.Os (des)enlaços inesperados das tecnologias: contribuições da virada ontológica para os estudos das mediações tecnológicas contemporâneas

Maryalua Meyer 

As tecnologias contemporâneas geram inesperadas transformações em nosso mundo. O computador, as telecomunicações, a inteligência artificial, a  biotecnologia, inúmeros são os casos suscetíveis à investigação antropológica; talvez, diante disso, seria interessante olhar para composição tecnológica do mundo enquanto um lócus privilegiado para o avanço do projeto da antropologia de compreender as sociedades humanas. Até porque ficamos comumente perplexos diante da apressada demanda de respostas teóricas e práticas criadas pelas novas tecnologias. A cultura high-tech apresentada por Donna Haraway é um exemplo disso, na medida em que não se faz claro os limites entre o humano e a máquina, o que faz com que nos descubramos como sendo ciborgues, híbridos, mosaicos, quimeras. Diante desse cenário, as oposições estruturantes da modernidade, tais como natureza / cultura, sujeito / objeto, ciência / política, moralidade / tecnologia parecem ter esgotado sua capacidade de dar conta da realidade. Nesse sentido se faz necessário elaborar outras estruturas conceituais capazes de renovar o entendimento sobre o que é tecnologia e qual o seu papel na composição do nosso mundo.

Já nos deparamos com tal movimento de transformação conceitual, pois uma ampla renovação dos estudos de ciência e tecnologia é operada hoje pela chamada “virada ontológica” na antropologia contemporânea. Segundo Eduardo Viveiros de Castro, essa virada no campo antropológico propõe uma passagem da “crítica epistemológica da autoridade etnográfica à determinação ontológica da alteridade etnográfica”. Digamos, da antropologia pós-moderna de James Clifford e seu argumento sobre a necessidade de construção da autoridade etnográfica por meio do método polifônico e da interpretação dialógica, para uma investigação ontológica que foge de qualquer derivação epistemológica. Ela se realiza, segundo Viveiros de Castro, por ao menos três “estímulos históricos”: começando pela “crise de representação”, passando pelos estudos da ciência e tecnologia e chegando ao Antropoceno. Sendo assim, pretendo discutir brevemente cada um desses estímulos, trazendo contribuições transversais de autores que são referência no campo antropologia da ciência e tecnologia.

3.Por uma antropologia da arte (robótica): um breve percurso da antropologia clássica à virada ontológica contemporânea

Liz Ribeiro 

A proposta desta pesquisa, que faz parte do projeto de mestrado Robôs como artistas ou como obra de arte? Reflexões sobre a arte contemporânea a partir de uma etnografia dos usos da robótica na arte, é a de fazer uma espécie de genealogia das teorias antropológicas da arte a fim de investigar os usos da robótica na arte e seus desdobramentos teóricos. Esta análise será composta de três momentos que sustentarão o argumento em prol de uma antropologia da arte robótica. O primeiro trata das teorias clássicas pós-evolucionistas de Mauss, Lévi-Strauss e do surrealismo etnográfico, os quais definiram as bases para a teoria que viria a elaborada posteriormente. Num segundo momento, analisamos o debate atual acerca da arte calcado na virada ontológica. O objetivo final será o de fazer uma “defesa” da análise antropológica da arte robótica sempre em relação com uma teoria geral.

4.Tecnologia e Educação: entre conceitos e práticas

Thiago Cabrera

As pesquisas em filosofia e educação em que tenho me envolvido nos últimos tempos procuram pensar a relação entre visões de mundo (significados, valores) e modos de vida, relação essa considerada sempre em sua historicidade. No momento atual, a nossa preocupação principal tem sido refletir sobre como se constituem os discursos e práticas hegemônicos nas ciências duras e nas novas tecnologias, e que possibilidades de interpretação e crítica elas abrem, em especial no que toca os papeis presente e futuro da filosofia e da educação.


(Re)Pensando a Secularização:
o mitológico, o teológico e o político


1.Para quê (teo)poetas? Figuras de uma abertura ficcional das hermenêuticas teológicas

Lindoberg Campos 

Ainda que a tese inicial de Karl-Josef Kuschel seja interessante, a saber, uma separação entre literatura e religião que seria efetivamente consolidada a partir do processo de secularização e da “autonomia” da arte literária, ela não corresponde a uma realidade que mostra seus pontos nevrálgicos desde o estabelecimento da verdade por Platão e levada à cabo pela Patrística. Aquilo que se convencionou chamar de Teopoética põe em evidência uma questão para além da problemática ingênua de uma ficção que se apropria de questões teológicas. O que se está em jogo ultrapassa uma mera virtualidade poética para se lançar numa efetividade política. Esse jogo leva a uma reflexão aprofundada dos pretendentes; poetas e legisladores, teólogos e poetas: quais lugares ocupam na criação de valores necessários a uma sociedade? A pergunta kierkegaardiana – o que pode um poeta? – conjugada à heideggeriana – para quê poetas? – fornece, sob uma avaliação contemporânea, novas perspectivas para uma valoração e um entendimento substancial do papel heurístico desempenhado pelo universo da ficção no seio de uma efetividade política.

Revigorando, ou restabelecendo, o senso de poiesis tal como entendido pelo Platão de Íon, as reflexões de Kierkegaard e de Heidegger parecem corroborar para definir o espaço que o poeta (ficcionalista) ocupa na sociedade, revertendo o estatuto ético platônico substancializado na República e nas Leis. Ao afirmar, com razão, que a cada dia mais temos o desejo recôndito de fazer da literatura vida (numa espécie de apropriação do dasein heideggeriano), o escritor lusitano Saramago parece oferecer veredas para um entendimento da poesia não apenas como criadora de novos valores, mas como uma constante revisora, fazendo do poeta, à revelia platônica, aquele que busca transcender sua própria existência não apenas como consciência de si, mas no conhecimento da alteridade.

“Poetas em tempos indigentes”, como afirma Heidegger, para além de identificar os vestígios dos deuses perdidos, fornecem o campo propício para a ruptura da dogmatização que “petrifica” o mito em termos categoriais, como propunha Hans Blumenberg. Permitir a repovoação do mundo pelos deuses faz do poeta o legislador platônico por excelência que, rejeitando o estabelecimento de uma perspectiva totalitária, busca abarcar a existência humana numa profusão de possibilidades.

2.A ética no candomblé: revisando um debate e propondo uma abordagem

Lucineide Costa 

A questão da ética no candomblé é pouco estudada na literatura e não possui grande consenso. Alguns autores consideram-no como possuidor de uma ética, outros como aético. Uma breve relação mostra o cenário.

Bastide assinala que o candomblé é marcado pela reciprocidade, sendo um sistema baseado na dádiva. Prandi sustenta que ele seria uma religião aética por não apresentar normas para o cotidiano e por ser uma forma de ascensão pelo atendimento a uma clientela sem ligação com a religiosidade. Beloti considera que o trânsito religioso dos praticantes leva a uma influência mútua de umbanda e candomblé. Lins assevera que o Xangô de Pernambuco apresenta características mágicas ou sacrificiais e aéticas. Cossard entende que os laços construídos no barco de iaôs transformam-se em solidariedade mútua, cooperação e assistência moral. Carneiro, Jorge e Rivas trataram da ética pelo consumo de bens religiosos e pelo pertencimento religioso de pesquisadores. Rabelo argumenta que haveria uma conduta baseada no cuidado, e posteriormente, como sendo um problema vinculado às práticas em contextos concretos, com a construção de uma sensibilidade para agir eticamente no cotidiano do terreiro. Dias descreve o caráter renovável e a-ético do axé. Berkenbrock concebe uma ética relacional a partir de uma cosmovisão baseado na ideia de dois níveis de existência, o Orum e o Aiyê, e também pela relação de filiação dos indivíduos com os seus Orixás.

Farei uma breve reconstrução do debate e proporei uma outra abordagem da eticidade no candomblé, buscando-a além dos muros dos terreiros, como sendo uma ética relacional e incorporada.

3.A comunidade, a carne e a trindade: o desafio gnóstico no cristianismo primitivo

José Augusto Adler

Os primeiros séculos do Cristianismo – o período da Igreja Primitiva e o Período inicial da Patrística – foram de decisiva importância civilizatória, devido às profundas modificações que determinaram na ordem política e na ordem social, pela experiência de novos modos de vida e de organização comunitária. Em um período de cerca de 400 anos estava constituído um corpo doutrinário cujo núcleo persiste, apesar de cismas, reformas e as divisões ocorridas. Em momento seguinte às assimilações de conteúdos filosóficos gregos clássicos pelo cristianismo, estabeleceram-se concepções que podemos denominar “gnósticas”, que cresciam e se disseminavam no interior da própria Igreja, daí serem consideradas como “gnosticismo cristão”.

Buscamos atingir uma abordagem crítica fundamentada na literatura, a partir da hipótese de trabalho de que, de forma decisiva, o Cristianismo se constitui como doutrina pela construção de uma teologia capaz de refutar o gnosticismo. Isso será feito mostrando, primeiro, como se constituia a comunidade cristã primitiva e qual seu papel na construção da Igreja católica; e, em seguida, como se desenvolveram, em contraposição a interpretações gnósticas, o conceito de carne e a doutrina da trindade.

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