O Manifesto Convivialista é universal? – por Genauto C. de França Filho e Débora Nunes

O Manifesto Convivialista é universal?

Genauto Carvalho de França Filho

Débora Nunes

O Manifesto Convivialista é uma excelente síntese acerca dos desafios humanos atuais. Para além da crítica aos sistemas políticos, econômicos e sociais, que muitos outros manifestos já trazem, ele foca na necessidade de encararmos a barbárie interna de cada ser humano para que possamos ter futuro enquanto espécie. A ideia inovadora defendida é que só enfrentando essa barbárie interna – que tanto é produto do contexto em que vivemos como é modelo que organiza esse contexto – é que se pode esperar que os conflitos não engendrem guerras entre indivíduos e países e que uma humanidade mais madura possa se desenvolver. Com essa perspectiva, o Manifesto é um documento de enorme potencialidade já que é muito claro, bem escrito e busca ser universal.  Sua autoria coletiva constitui um enorme avanço no plano do entendimento das questões propostas, porém sua característica “francófona” e redação apenas de intelectuais, abrem algumas lacunas, o que é natural.

Algumas das lacunas repertoriadas serão discutidas a seguir, a partir de um ponto de vista de brasileiros, e particularmente de baianos, vivendo em Salvador – Bahia. Abordaremos quatro aspectos. Os primeiros três são: o suposto caráter universal da não convivialidade, a não abordagem da questão do corpo no documento e o evitamento da questão espiritual, sendo que a espiritualidade e corporalidade são subtendidas como pertencentes a uma dimensão pessoal. O ponto de vista de dois autores (um homem e uma mulher, o que já pressupõe um olhar complementar), imersos em uma sociedade majoritariamente afável, plurirreligiosa e desinibida corporalmente pode trazer contribuições que tentaremos expor aqui. O último aspecto, a proposta de integração da Economia Solidária no desenvolvimento do movimento convivialista, advém do engajamento dos autores com o tema e a percepção da contribuição que esta pode trazer a um mundo mais convivial.

Sobre o primeiro aspecto, pensamos que o movimento convivialista, em seus desenvolvimentos futuros, precisa relativizar a convivialidade como problema. Isto porque muitas sociedades, particularmente as africanas, mas também latino-americanas e a brasileira têm a convivialidade como valor afirmado cotidianamente. Participando dessa sociedade, identificamos outros desafios. É importante destacar previamente que acatamos questionamentos a essa cordialidade absoluta atribuída historicamente o sujeito brasileiro em face de uma sociedade autoritária e desigual que desvaloriza as lutas de resistência. Do mesmo modo, entendemos que há metamorfoses importantes no comportamento cultural natural dos/das brasileiros/ em face dos níveis crescentes de violência atual. Por vezes a convivência afável parece encoberta pelos mais variados noticiários acerca da criminalidade urbana, mas não perceber as relações de convivialidade singulares no Brasil no cotidiano é “jogar fora o bebê junto com a água do banho”.

Tal situação nos impõe uma reflexão importante, que se formula em meio a um aparente paradoxo: como poderíamos ser tão conviviais se somos tão violentos a julgar pelos indicadores de segurança pública? A dificuldade de afirmação de nosso traço de convivialismo neste contexto esbarra primeiro na impossibilidade de interpretá-lo à luz de indicadores: se o grau de convivialismo no Brasil é elevado, então qual índice o captura para além de percepções subjetivas? De fato, nem tudo que tem valor, e se expressa socialmente, pode ser apreendido em algum indicador quantificável. E nos parece ser precisamente o caso aqui. Isto porque, a questão da convivialidade não apenas permanece muita viva no cotidiano cultural do brasileiro, como podemos inclusive avançar a ideia de que se trata de um elemento estruturante das nossas relações sociais, haja visto a intensidade de sua manifestação nas famílias e nas mais variadas redes de socialidade.

Nesse sentido, nosso maior desafio parece menos o alcance da convivência e mais o fato de preservá-la ou enfrentar os riscos de sua diminuição. Para tanto, a ênfase no convivialismo enquanto uma dimensão política faz muito sentido por aqui neste momento. Torna-se assim relevante reconhecermos intelectualmente e institucionalmente o valor dessa prática que é visível para qualquer estrangeiro que visite o Brasil. Parece que precisamos fazer aquele movimento que nos ensina a antropologia de “estranhar aquilo que nos é familiar” e que justamente por isso mesmo não o reconhecíamos, para assim, justamente, afirmá-lo. Não nos parece que a afirmação de um tal movimento possa inibir nossa capacidade de sermos autocríticos em relação a nós mesmos e nossa própria sociedade. Nos parece, por outro lado, que esse modo brasileiro de se relacionar pode ser vislumbrado como uma contribuição significativa nessa busca do convivialismo. Não estaríamos, com essa propensão brasileira ao convivialismo enquanto forma de relação e envolvimento tão penetrante, afirmando um outro modelo de prática intercultural para além do multiculturalismo?

Sobre o aspecto da corporalidade, que não encontra qualquer diagnóstico ou proposição no Manifesto Convivialista, talvez o ponto de vista brasileiro/baiano possa ajudar a integrar essa dimensão como parte importante na discussão das “questões humanas”. Em geral é com naturalidade e desinibição que nossa sociedade – índia, negra, branca e mesmo amarela – lida com o corpo e isso independentemente da cultura católica culpabilizante que atinge mais a elite do que o povo. Em face ao nosso modo de lidar com o corpo e da importância dessa dimensão no nosso dia-a-dia, o massacre que a sociedade atual vem impondo ao corpo dos indivíduos é uma ameaça ao bem viver que precisa ser apreendida e denunciada no desenvolvimento do movimento convivialista. O sistema socioeconômico vem submetendo a corporalidade a um stress sem precedentes, e isso independentemente da posição social e do grau de escolaridade, entre outras diferenças sociais, e mesmo da localização geográfica em que nos encontramos, particularmente aos que vivem nos centros urbanos.

A relação entre o sistema capitalista e a forma como o corpo, nossos corpos, vivem as consequências de sua organização não pode ser ignorada, e afirmamos mesmo que essa é uma questão maior do mundo atual. Todos/as sofrem o stress que vem da competição onipresente no ambiente de trabalho, de consumo, de estudos e nas relações familiares e sociais em geral. Além do desgaste físico devastador do stress no corpo humano, todos/as são vítimas, por exemplo, na deterioração das condições de vida nas cidades pela violência, pela poluição e pelos engarrafamentos. Em termos psicológicos, uns mais e outros/as menos, somos todos submetidos a uma superexposição da pessoa na sociedade do espetáculo, que se impregna no corpo, torturando-o em busca de uma homogeneidade antinatural.

Podemos observar que a intimidade e boa relação que os brasileiros em geral tem com seus corpos, e que se manifesta também na desinibição de suas vestimentas, nos milhares de corredores/as, caminhadores/as nas praias a e parques, na expressão das emoções através do corpo com naturalidade, não tem podido evitar o sofrimento que o contexto atual tem provocado. Além das doenças do stress, a obesidade tem crescido de forma alarmante no Brasil, deformando, aqui, como em todo o mundo, a naturalidade que seria a saúde vivida no cotidiano. Do mesmo modo, o culto ao corpo apenas como forma, o uso de anabolizantes e alimentos para hipermusculação, constituem uma deformação, pois integra uma relação deturpada com a saúde, na qual os caminhos naturais do corpo são destruídos, às vezes de modo irrevogável. Do mesmo modo, e aqui atingindo mais os pobres que não podem consumir produtos de melhor qualidade, a exposição a fontes alimentícias venenosas, que ameaçam sua saúde, ou ao uso de medicamentos de modo indiscriminado que sabotam a capacidade da Natureza a reagir aos desequilíbrios internos que se manifestam como doença.

O terceiro aspecto diz respeito à urgência na construção da tolerância e de uma espiritualidade “laica” em face do crescente integrismo religioso. A questão espiritual sempre foi um tema político maior na história humana, até porque ela é a expressão de uma relação pessoal com o mistério e os porquês da existência, com o sagrado, e por isso é incontornável. A questão espiritual foi historicamente submetida à dimensão religiosa e isso deu origem a imensos conflitos – como acontece ainda hoje – pelo dogmatismo que orienta cada religião e com isso o comportamento dos fiéis. A saída para um desafio dessa ordem não nos parece ser deixar o tema para uma abordagem apenas pessoal. A construção de uma abordagem não religiosa da espiritualidade, democrática, integradora nos parece ser mais produtivo do que deixar a espiritualidade como questão secundária numa abordagem tão ampla dos desafios da sociedade atual como nos trás o Manifesto Convivialista.

A Bahia tem uma experiência transcendente particular, na qual o sincretismo da religião católica com as práticas espirituais africanas deu origem a uma forma extremamente aberta de se praticar a religião. Nas festas religiosas sincretizadas cada um saúda seu “santo” com o nome que lhe agrada e na mesma procissão de rua haverá pessoas dando vivas a Santa Bárbara e outras louvando em yorubá “Eparrei Iansã”. Essa dualidade de interpretação é tão corriqueira que não causa qualquer estranhamento e todos ou louvores são igualmente respeitados em clima de comunhão, embora nos últimos anos se possa encontrar atitudes persecutórias de evangélicos contra práticas de religiões africanas. Os rituais sagrados, particularmente do candomblé, são tão integrados no cotidiano da Bahia que católicos vestem cores de santos nos dias específicos da semana sem mesmo parecer se dar conta de que se trata de um ritual de outra vertente espiritual. Essa abertura integradora e a integração da espiritualidade no cotidiano pode ajudar no enriquecimento de uma abordagem convivialista sobre a dimensão espiritual da vida.

Finalmente, como quarto e último ponto, nos parece necessário enfatizar o papel de uma outra lógica de economia enquanto plataforma de ação propositiva no Manifesto. É verdade que o Manifesto revela-se bastante cuidadoso neste quesito, a fim de evitar intolerâncias. Ele afirma o princípio de uma economia plural no modo de entendimento do funcionamento econômico, permitindo a valorização de diferentes formas muito criativas de relação com a riqueza. Se, a tônica do convivialismo tem sido aquela do combate às desigualdades produzidas a partir de um descolamento entre economia financeira e economia real, no contexto de uma crítica necessária às formas de desmesura operadas pela lógica econômica de mercado, por outro lado, nos parece salutar apontar caminhos a seguir em termos de processos de auto-instituição socioeconômica. Em contextos territoriais marcados por profundos processos de exclusão, as formas de organização e arranjos institucionais baseados em práticas de economia solidária que são marcados por processos de auto-organização locais tem revelado grande potencial de sustentabilidade pelo seu caráter de enraizamento territorial e finalidade multidimensionais. Vistas como soluções de inovação social, tais práticas não podem ser consideradas como as únicas soluções possíveis, entretanto seu elevado potencial de transformação pode ser mais claramente afirmado quando pensadas a partir de reflexões necessárias sobre a efetividade das diferentes lógicas de regulação das demandas sociais em seus respectivos contextos de práticas.

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