Entre professores e caminhoneiros, o que é greve? – Artigo de Aldo Tavares para o Jornal do Brasil

Às margens do rio Sena, na França, trabalhadores retiram de embarcações madeira, feno, trigo; descarregam não só objetos, mas objetos necessários ao corpo social, que ocupam, conforme suas funções, um grau de importância orgânica na sociedade. Caso deixem de ser desembarcados, a sociedade francesa entra em colapso, pois o corpo social necessita de madeira, de feno, de trigo para viver conforme seu hábito.

Às margens do curso de água, um terreno plano, porque composto de cascalho e de areia, chama-se grève. Nele, um espaço onde desempregados concentram-se, La Place de Grève, lugar em que homens ficam desocupados não por causa de alguma greve, mas por causa do desemprego. Greve, portanto, tem o sentido de mão de obra desocupada, que, entretanto, não causa nenhum colapso na economia, permitindo que parisienses sigam sua rotina, pois aqueles que trabalham continuam a retirar das embarcações objetos necessários ao corpo de cada francês, enquanto homens desocupados permanecem na Praça da Greve sem incomodar a produção.

Se La Place de Grève representou o lugar em que se concentraram homens desempregados, sem que a cadeia produtiva fosse interrompida, a ideia de greve, desde a sua origem, nasceu a fim de parar a produção. A finalidade do grevista é, uma vez desocupado, colapsar a economia, e essa relação entre causa e efeito da greve obteve aprofundamento teórico-prático com o anarcossindicalismo. 

No século passado, dois religiosos simpatizaram-se com esse pensamento anarcossindical, sendo que um, para libertar a Índia da opressão inglesa; e o outro, para libertar os negros do poder dos brancos norte-americanos: Mahatma Gandhi e Martin Luther King. O religioso negro apoiou a desobediência de Rosa Parks quando ela se recusou a ceder um dos primeiros assentos do ônibus a uma branca. Como havia em Montgomery, Alabama, lei que regulamentava essa segregação, Rosa foi presa. Como resposta, os negros, cantando, passaram a andar a pé ao trabalho. Antes de a falência empresarial ser branca, a Corte Superior do Estados Unidos aboliu a segregação racial nos ônibus de Montgomery. Quanto ao religioso indiano, ele paralisou a produção das fábricas inglesas de tecido ao pedir aos indianos que tecessem em suas casas as próprias roupas.

De 3 de outubro de 2017 a 17 de janeiro de 2018, os professores da Uerj pararam suas atividades e, assim como os desempregados franceses reunidos na Praça da Greve, não interromperam a atividade econômica do Rio de Janeiro; não afetaram o cotidiano ou a vida orgânica de cada domicílio, pois, na Praça da Greve, trabalhadores continuaram a descarregar madeira, feno, trigo das embarcações. Sem força para a economia entrar em colapso e sem poder de pressionar o governo, a maioria dos professores universitários votou para sair do que eles chamam de greve. 

Podemos chamar de greve o que não causa colapso econômico? Podemos chamar de greve horas de aula interrompidas como horas de aula repostas? Se a reposição de aula prejudica o ensino-aprendizagem, podemos chamar de greve o que se vira contra os professores e alunos, e não contra a economia e governantes? Tem sentido original chamar de greve quando aulas são repostas?

O sentido atualizado da greve é ficar desocupado na Praça da Greve a fim de interromper a cadeia produtiva e afetar os governantes. Mas de que forma professores podem interromper e afetar se a natureza do seu trabalho é proferir a palavra pensada em sala de aula? Quando a palavra do professor entra em “greve”, sua ausência em sala tem força de paralisar a cidade ou de afetar a necessidade do corpo social? Deixar de falar em sala de aula põe a palavra do professor equivalente à utilidade da madeira, do diesel, do trigo? Nós, professores, nem chegamos a arranhar as necessidades do corpo social, visto que não transportamos combustível, leite, carne, arroz, remédio; nós “apenas” transportamos a palavra de livros a salas de aula, e tal palavra não pode dar resultado imediato e muito menos se igualar à utilidade dos bens materiais.

Embora essa diferença seja tão óbvia, por que professores há anos paralisam suas atividades como se fossem caminhoneiros? Talvez, quem sabe, seja muito difícil ver os limites do próprio hábito de sempre reafirmar a mesma “verdade” há muitas décadas.

E os caminhoneiros? Concentraram-se na Praça da Greve para interromper a cadeia produtiva: bens não são transportados e descarregados. Em menos de uma semana, o país foi parado. Isso tem nome: terreno plano composto de cascalho e de areia, grève.

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