Livre-pesquisadores do Ateliê de Humanidades organizam sessão temática no VII Congresso Internacional de Literatura e Teologia ALALITE Rio 2018

Entre os dias 25 e 27 de setembro acontecerá na PUC-RJ o VII Congresso Internacional de Literatura e Teologia ALALITE Rio 2018, com a participação de André Magnelli e Sebastião Lindoberg.

Segue uma breve apresentação da Sessão temática de nossos livre-pesquisadores:

Travessias entre mito- e teo- poética: a secularização do teológico e a teologia da
secularização no advento da literatura moderna

A passagem da literatura clássica à moderna porta os sinais do processo de secularização operado com o advento da modernidade cultural. A relação entre literatura e secularização é ambígua e ambivalente. Se, de um lado, a secularização opera uma aparente marginalização do poético e do mito-teológico, ela pode ser concebida, de outro lado, como um modo de apropriação de ambos. Aqui, emerge a problemática da teopoética, seja vista como apropriação ficcional do conceito de Deus, seja concebida como uma potência narrativa criadora do divino.

O conceito de secularização está envolto em uma querela histórico-filosófica deveras complexa, oscilando entre uma reflexão sociológica sobre o “desencantamento do mundo” e uma reflexão teológico-política acerca das metamorfoses dos esquemas teológicos. Contribui para seu esclarecimento três tipos de investigações:

(1) Em primeiro lugar, aquelas em torno das relações gerais entre o poético e o teológico, que remonta à obra de Platão e suas variações da problemática do que é o poeta e qual o seu lugar na polis, formando aí uma tradição reflexiva que atravessa a história do Ocidente, passando por Santo Agostinho até Heidegger;

(2) Em segundo lugar, aquelas em torno dos esforços poéticos em prol da emancipação da forma literária em relação ao teológico, prevalecentes na passagem da era clássica à moderna, que podem ser encontrados nos mais diversos literatos dos séculos XVII ao XIX, encontrando no tensionamento entre o Voltaire filosófico e o literário uma significativa expressão.

(3) Em terceiro e último lugar, temos as tentativas de refletir, muitas vezes em um contexto já de suposta secularidade realizada, sobre os próprios limites da razão técnico-científica e o espaço do poético – e, com ele, do mito-teológico – na existência humana. Aqui, buscam-se, dentre outras coisas, os traços do teológico presentes, manifesta ou latentemente, na criação literária. Encontrando em Giambattista Vico e no Romantismo alemão dois marcos históricos, há aqui um movimento contrário à absolutização da razão formal-instrumental (ou técnico-científica), propondo-se em contrafluxo uma reflexão que pode chegar a revelar que o próprio da razão é a fábula e a origem da razão é fabulosa. À revelia cartesiana e na esteira da intempestividade poética de Nietzsche, Heidegger fez da poesia (e por conseguinte ficção) seu lugar de pensamento, forma-reflexão de um Dasein no e do mundo feita em tempos indigentes. De seu lado, em sua metaforologia, Hans Blumenberg percorre o trajeto de um mundo moderno que fundou suas bases na potência poética metafórica, no qual a metáfora aparece como forma irredutível e insubstituível do pensamento.

Deste modo, contrariando uma perspectiva racionalista clássica, a poesia possui uma capacidade ímpar de, para além de construtora de simulacros, ser capaz de dizer a verdade imediata. Tendo em vista que a contemporaneidade debate-se, tributária que é do processo de isolamento dos saberes humanos em unidades estanques e incomunicáveis, em uma autoafirmação da secularização que rejeita a questão poética/divina de seu meio, pode-se fazê-la reconhecer-se como permeada por pressupostos mitopoéticos cristalizados. Buscamos refletir sobre as propostas de reversão de tal quadro, feitas por várias vias, seja pelo resgate, como Blumenberg, da “liberalidade metafórica do mito”; pela promoção, como propunha Deleuze, de uma “reversão do platonismo”; ou, enfim, como o quer Heidegger, pelo repovoamento do mundo pelos deuses.

Deste modo, retornamos a plantear algumas perguntas-chave presentes desde a Antiguidade: qual é o lugar da poesia no mundo moderno? O que pode o poeta? Tal elucidação necessita de um longo caminho investigativo que revele um caráter criativo potente, lançando bases para uma nova possibilidade (teo)política. Propõe-se portanto, nesta Sessão Temática, reunir trabalhos que abordem, por uma perspectiva conceitual e/ou histórica, as correlações entre teologia, política e poética operadas no trabalho ficcional existente na literatura clássica à contemporânea, com ênfase na moderna. Como sendo, às vezes ou ao mesmo tempo, um instrumento intelectual de secularização da teologia e um portador inconsciente de uma espécie de teologia da secularização. Assim, seguindo uma perspectiva do conceito do “poeta-revisor” de José Saramago, pretendemos ampliar o horizonte do entendimento da poesia/ficção como instrumento heurístico, capaz de pensar soluções e romper com o estatuto da “realidade absoluta” (Blumenberg) do qual, inclusive, o conceito de Deus tornou-se refém.

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