Utopia, Cosmopolitismo, Moralidade – por Renato Ortiz

Utopia, Cosmopolitismo, Moralidade

Renato Ortiz

O Manifesto Convivialista é utópico e cosmopolita: raras virtudes. Toda utopia possui duas faces – a insatisfação com o presente e uma abertura para o futuro. Estar insatisfeito com o mundo que nos cerca – ameaças ecológicas, guerras étnicas, desenvolvimento de um terrorismo planetário, pobreza – alimenta uma postura crítica. Não se trata de um mero sentimento de indignação hoje em dia corrente entre aqueles que veem as instituições políticas como uma espécie de retrocesso moral. A indignação tem algo de efêmero, ancora-se na repulsa e privilegia o exacerbamento das emoções, porém, não se distancia do presente tomando-o como matéria de reflexão. O Manifesto nos convida à reflexão, exercício através do qual o pensamento liberta-se das amarras do senso comum planetário e da veracidade aparente das crenças hegemônicas. A crítica adquire assim uma dimensão intelectual. A insatisfação incide sobre os dilemas reais e a maneira como eles são compreendidos e interpretados. Por isso é necessário escapar das malhas de um pensamento de natureza mercadológica. O mercado deixou de ser apenas um espaço no interior do qual se fazem as trocas econômicas, ele tornou-se uma entidade de abrangência omnipresente e omnisciente. Extravazou sua dimensão propriamente material para se constituir numa representação simbólica hegemônica. A ideia de mercado transformou-se em cultura, enraíza-se no cotidiano, daí provém a solidez de sua verdade mineralizada. A insatisfação introduz um distanciamento, um hiato em relação ao presente, com isso abre-se uma janela no tempo. Imaginar o futuro tornou-se uma tarefa árdua no mundo contemporâneo. Não temos mais à disposição uma ideologia do progresso, ela garantia de antemão a sua conquista. No seu enunciado reducionista dizia: os povos ocidentais alcançaram “o fim da história” (tema hegeliano por excelência); “o resto do mundo” seguirá os seus passos. A visão de um tempo linear era falsa e reconfortante. Os que se encontravam “atrás” teriam um devir garantido, bastaria percorrer o caminho realizado pela civilização ocidental (na América Latina a construção da modernidade ergueu-se em torno deste pressuposto). Quanto ao ocidente, não haveria mais dúvidas, o futuro significava a preservação do presente. A ruptura desta temporalidade linear insere os povos no espaço transnacional da modernidade-mundo. No contexto da globalização a metáfora do espaço substituiu a do tempo, pensamos o mundo em termos geo-territoriais. A noção de progresso alinhavava as sociedades segundo suas supostas defasagens temporais, a metáfora do espaço as insere no mapa geopolítico de um mundo hierarquizado e global. Antes, o futuro era incerto para os países periféricos, hoje ele é uma dúvida generalizada, “o fim da história” não se realizou, nem mesmo para aqueles que acreditaram na sua ilusão. Por isso uma abertura “para frente” é importante, o pensamento toma a realidade como um dado, as contradições existem, elas estão “aí”, mas não se conforma com o status quo.

O cosmopolitismo apresentado no Manifesto é salutar e atual. Ele busca por um elemento comum algo que transcenda as fronteiras e os interesses particulares. Neste sentido, afasta-se de uma visão provinciana do mundo. Atualmente o debate sobre as identidades muitas vezes encerra-se em fronteiras que impedem uma perspectiva mais abrangente dos problemas que enfrentamos. Não se trata de considerar a construção das identidades, muitas vezes associada à temática da diversidade cultural, como sinônimo de sectarismo ou particularismo, como diagnosticam vários autores saudosos do universalismo ocidental. A problemática identitária possui muitas facetas, conservadora ou progressista, por isso deve ser sempre considerada em contextos determinados (o tema foi, inclusive, apropriado pelo mercado). Na América Latina ela foi, em parte, re-significada em termos políticos, isto é, enquanto expressão de democracia e cidadania. A defesa dos direitos indígenas, dos movimentos populares, das manifestações culturais na periferia, se faz através da reivindicação do diverso, reclama o direito de “ser diferente”. Um exemplo: a disseminação de políticas públicas em relação às minorias no Brasil. Não creio que devamos opor de maneira dicotômica universalismo e diversidade, na verdade, trata-se de conceitos polissêmicos, dependem do contexto no qual são utilizados. Entretanto, o cosmopolitismo encerra uma virtude que merece ser ressaltada, retira-nos dos enlaces específicos e permite levantar a cabeça para além do horizonte imediato. Olhar e pensar os problemas do mundo nos ajuda a escapar das armadilhas locais. O Manifesto nos convida assim a compreender a política fora do âmbito do Estado-nação mesmo sabendo que este tipo de formação social não está fadado ao desaparecimento e que sua importância nada tem de anacrônica. Entretanto, num mundo globalizado, não é mais possível tomá-lo como único referente de nossas vidas e de nosso pensamento. A ideia de “comunidade de destino”, valorizada por aqueles que pensaram a nação, é uma verdade parcial, parte considerável deste destino realiza-se fora de suas fronteiras. Há ainda um outro aspecto que gostaria de sublinhar. O cosmopolitismo atual não é sinônimo de universal. Estamos distante dos ideais do Iluminismo quando o universalismo das ideias identificava-se a uma natureza humana cujo monopólio de interpretação cabia aos filósofos. As transformações ocorridas durante o século XX deixaram claro que a visão eurocêntrica do mundo ruiu. Não quero dizer com isso que ela tenha desaparecido, permanece como fundamento nas análises de muitos autores, mas a força deste relato feneceu. Ele deixou de ser convincente. A busca por objetivos comuns não significa necessariamente a realização de um princípio universal. Comum e universal são termos próximos mas distintos. Eu diria que este último contém uma dimensão filosófica enquanto comum contenta-se em apegar-se à realidade que nos cerca. O Manifesto quer ser um diagnóstico desta realidade (mesmo tendo sido escrito de maneira taquigráfica) e um chamado para o entendimento comum. É certo que ele contém um sabor europeu, talvez francês, devido a forma como foi elaborado. Algumas questões são mais relevantes do que outras, o que deixa explícito a marca geográfica de seus autores (por exemplo: a questão da desigualdade e da distribuição desigual da riqueza fica em segundo plano diante dos problemas ambientais). Mas a intenção em transcender os lugares é clara, o texto dirige-se a uma intelectualidade que não se identifica apenas com os dilemas de suas próprias províncias.

Há, entretanto, algo que me incomoda neste Manifesto: a questão moral. Este é um tema antigo, durante todo o século XIX (na esfera do chamado mundo ocidental) ela foi debatida pelos filósofos, sociólogos e religiosos (a intelectualidade francesa, penso em Durkheim entre outros, tinha uma obsessão pelo tema). O que se encontrava em disputa eram justamente os valores, como eles poderiam, ou melhor, deveriam, ser partilhados por todos. Somente assim a ordem, o consenso, se instauraria entre os membros de uma mesma comunidade (a nação). Diante da revolução industrial, da emergência de uma sociedade de classes, do fim dos privilégios aristocráticos e tradicionais, diversos intelectuais encontraram na valorização da ética uma forma de minorar as contradições reais. Inquietações semelhantes re-surgem diante do processo de globalização. É comum encontrarmos textos de ecologistas que buscam na questão moral a solução dos problemas gerais. Cito um exemplo, Edgar Morin e Anne Brigitte Kern (2003) no livro-manifesto “Terre Patrie”. Eles partem de um dilema: como vincular a diversidade de culturas, povos, ideologias, no interior de uma mesma concepção de mundo. Para isso seria necessário valorizar o que seria comum a todos os homens: a Terra. Deveríamos reconhecê-la como a pátria dos humanos. Entretanto, a ideia de pátria pressupõe valores compartilhados por aqueles que a habitam, como isso não existe, é preciso que esses homens “tomem consciência” desta ausência e reconheçam a necessidade de atuarem “juntos”. O argumento desdobra-se desta maneira: os valores planetários seriam o fundamento de uma ética capaz de superar as contradições existentes em escala transnacional. Moral e ética seriam faces da mesma moeda. Garantir-se-ia assim o alicerce dos princípios compartilhados e uma ação orientada por eles. O mesmo tipo de perspectiva encontramos em propostas a respeito de uma ética global. Teólogos e religiosos (penso nos textos de Hans Küng, por ex. 1993) procuram pelas regras básicas do comportamento humano. Comparando as máximas religiosas em diferentes tradições religiosas (catolicismo, protestantismo, confucionismo, islamismo, judaísmo) conclui-se que elas foram sempre guiadas pelos mesmos princípios de justiça e moralidade. Caberia no mundo atual retomar esses princípios e transformá-los no fundamento de uma ética planetária. Um mundo melhor somente poderia existir a partir da universalização desses princípios. Minha leitura faz-me desconfiar disso. O Manifesto Convivialista muitas vezes envereda por um caminho que me parece duvidoso. A distinção proposta entre “ameaças entrópicas” e “ameaças antrópicas” lembra um pouco a dicotomia entre matéria e espírito. As primeiras seriam de ordem “material, técnica, ecológica e econômica”, as outras contemplariam a “ordem moral e política”. Seria este tipo de oposição realmente convincente? A ideia que para se viver juntos é necessário um conjunto de valores que orientem a ação é no mínimo questionável. As ações realizam-se não apenas por causa dos valores eu diria que os interesses muitas vezes predominam sobre eles. Parece-me que a insistência sobre a questão moral encobre um problema: onde há muita ética há pouca política. Como os problemas são de monta, desafiam o pensamento e nossas vidas concretas, a dimensão ética se impõe como uma resposta paliativa. Isso já ocorria no século XIX. Diante das guerras, fome, desastres ecológicos, discriminação étnica, o pensamento afasta-se da “matéria” e refugia-se no “espírito”. Na verdade, na solidão do planeta azul, “já vivemos juntos”, o movimento de globalização torna isso uma verdade a cada dia que passa. Porém, a insatisfação reside no “como” isso se realiza. O como, isto é, “o modo como vivemos” (para utilizar a metáfora proposta), projeta-nos para a realidade, suas contradições e adversidades. Ele envolve as histórias de cada lugar, cada país, determina contextos específicos, configura uma “situação” que envolve interesses, conflitos, disputas. Certamente devemos ter objetivos comuns para enfrentar os dilemas atuais, eles são imperativos na construção de um amplo consenso, não creio, entretanto, que eles tenham necessariamente de buscar por um fundamento único (o Manifesto chega a falar em “doutrina”) que nos serviria de guia.

Referências

Morin, E e Kern, A.B. (2003): Terre-Patrie. Paris: Seuil.

Küng, H. (1993): Declaration. Towards a Global Ethic.[http://www.parliamentofreligions.org/_includes/fckcontent/file/towardsaglobalethic.pdf]

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