Um outro mundo é necessário e urgente – por Chico Whitaker

Um outro mundo
é necessário e urgente

Chico Whitaker

O drama de Manifestos como o do Convivialismo é a perplexidade que sentimos, ao fim de sua leitura. Ele nos apresenta com justeza a dolorida e longa caminhada da Humanidade rumo a valores de justiça, igualdade e respeito à natureza, mas também a complexidade dos desafios que atualmente enfrentamos, que põem em risco a própria sobrevivência da espécie humana no planeta Terra. Ele nos aponta também quais deveriam ser as regras do jogo para construirmos a sociedade que todos desejamos. Vivendo no entanto o que se vive hoje no mundo e em cada um de nossos países, fica evidente a enorme distância que nos separa desse horizonte. E um sentimento de impotência nos imobiliza, diante da gigantesca tarefa de enfrentamento dos Leviatãs que dominam economicamente, militarmente e culturalmente o mundo.

Em 2001 organizações da sociedade civil de vários países lançaram, no Fórum Social Mundial então realizado em Porto Alegre, uma mensagem de esperança: “um outro mundo é possível”. O processo produtivo se mundializava a grandes passos, transformando o planeta numa só praça capitalista de produção e consumo – o chamado Mercado – fora do qual não haveria alternativa de sobrevivência. A maior parte dos países estava rapidamente se inserindo nesse espaço econômico, regido pela lei “racional” da oferta e da procura na busca incessante do lucro, sob o controle de empresas multinacionais e de governos por elas cooptados. A Guerra Fria, que havia terminado dez anos antes, tinha sido também e especialmente uma guerra de comunicação, que procurou inculcar em nossas cabeças a condenação do comunismo/socialismo como sistema político e econômico e a sagração do capitalismo como única opção benéfica a todos e como “fim da história”, na expressão de um de seus defensores quando o Muro de Berlim ruiu.

A mensagem do FSM respondia ao desejo de muitíssimos de recolocar no imaginário coletivo a possibilidade de um “socialismo democrático” que refreasse a expansão da lógica de acumulação do dinheiro. 15 anos depois, vemos que essa lógica conseguiu conquistar mentes e corações em todo o mundo, deixando de fora somente povos e nações primitivos ou ditos atrasados, que preferem o “bem viver” como modo de vida, e diminutos países como o Butão, cujo rei extravagante insiste em buscar, para seu povo, outro padrão de referência: a Felicidade Interna Bruta. Com o aumento ameaçante dos problemas, a mensagem do FSM se tornou então angustiante: além de “possível”, o “outro mundo” passou a ser “necessário e urgente”.

Para termos certeza de que ele é realmente “possível” temos que nos apoiar em outra certeza: a de que a esperança é como uma menininha ultra frágil mas imortal, como disse o poeta francês Charles Peguy em seu poema sobre a terceira virtude que, segundo ele, impressionava até a Deus. E para construir esse mundo temos que nos lembrar do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, que contava a resposta dada por seu amigo argentino Fernando Birri a uma pergunta vinda de um jovem universitário, num encontro de que ambos participavam na Colômbia: “Para que serve a utopia?” A resposta: “Ela está no horizonte. Caminho dois passos para me aproximar dela, ela se afasta dois passos e o horizonte fica dez passos mais longe. Para que serve então a utopia? Para nos fazer caminhar”. (http://www.youtube.com/embed/rpgfaijyMgg) .

O Manifesto do Convivialismo – captando, na grande diversidade de buscas, os consensos possíveis para descrever uma utopia – surge num momento em que estamos absolutamente necessitados de caminhos para superar nossa angustia. Mas ela cresce a cada dia diante da violência e das formas bárbaras com que o poder dominante busca manter-se, e com que procuram enfrenta-lo e destruí-lo os que sofrem ou sofreram as consequências de sua dominação. Assim como cresce a dificuldade para alcançar a utopia, com a lógica da acumulação do dinheiro nos transformando a todos em seus cúmplices, como consumidores contumazes e muitas vezes insaciáveis dos bens despejados em todos os países por uma máquina mundial autônoma, que precisa de nós para não parar de produzir e de lucrar. A cegueira da ilusão do “ter mais”, como caminho para a felicidade, nos tornou incapazes de nos recusarmos a ações que vão totalmente contra valores escondidos em nossas consciências.

A construção do mundo descrito no Manifesto exigirá um enorme esforço coletivo de denúncia da insanidade que orienta a maior parte das atividades econômicas e a ação dos governos cooptados pela lógica do Mercado. Mas esse esforço só será possível se todos seguirem um dos maiores ensinamentos de Ghandi: “seja você mesmo a mudança que você quer no mundo”.

O Manifesto do Convivialismo diz, ao tratar da corrupção, que devemos “nos recusar a fazer o que a consciência reprova”. Ou seja, recusar-nos a nos deixar “desviar do que cremos ser justo e intrinsecamente desejável”. Mas isto deve valer não só para a corrupção, mas para tudo “na vida, no trabalho, nas nossas atividades, na proporção dos meios e da coragem de que dispomos”.

Eu proporia que o Manifesto do Convivialismo terminasse com uma frase do tipo do apelo final de outro Manifesto que quase mudou a história da humanidade:

Ex-cúmplices do sistema que domina o mundo, uni-vos! 

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