Um mastro para as bandeiras de esquerda: o convivialismo como uma ética das diferenças – por Marcelo de Oliveira

Um mastro para as bandeiras de esquerda:
o convivialismo como
uma ética das diferenças

Marcelo de Oliveira

Para além do liberalismo, do socialismo ou do comunismo, devemos, portanto, inventar um convivialismo, uma convivialidade, dito em outras palavras, a arte de viver juntos mesmo nos opondo, mas sem nos massacrarmos e levando em conta a finitude e a fragilidade do mundo
(Alain Caillé)

Quem não desejaria viver em uma sociedade convivialista? Se não basta reconhecermos a nossa incontornável interdependência para, no instante seguinte, deixarmos de nos massacrar, talvez, não seria exagerado dizer que o manifesto convivialista se esforça para transformar o grito dos oprimidos, dos devastados e dos destruídos no canto de uma ética porvir.

Quando recebi o convite dos editores para escrever esse breve comentário sobre o manifesto convivialista confesso que fiquei um pouco desorientado. Pois, se me parecia obvio – uma espécie de truísmo – que todos os seres racionais desejariam viver em um ambiente convivialista, no qual as diferenças poderiam aflorar livres da violência destrutiva; de outro lado, me parecia, também, que as ambições do manifesto eram excessivamente moderadas para o meu paladar político. No entanto, passadas as primeiras leituras, pude notar que a cautela nas formulações não era resultado de uma espécie de moderação inveterada, característica de certos movimentos de “extremo centro”. Mais do que isso, pude perceber que aquilo que me parecia constituir o ponto mais fraco do manifesto se revelava como o ponto nodal no qual eu poderia me engajar e, dessa maneira, me filiar aos convivialistas. Pois longe de derivar os seus postulados de uma certa covardia pratica aliada a um certo conformismo teórico, o manifesto convivialista, tal como o leio, parece se esforçar para criar uma espécie de terreno comum – um grande plano de composição – através do qual as mais diversas e combativas formas de luta podem se aglutinar, sem diluir as suas diferenças, para combater um inimigo comum: a aniquilação da vida planetária.

É dessa maneira que leio o manifesto e me filio aos convivialistas. Isto é, acreditando que, mais do que um grupo que professa um conjunto de valores que se opõem ao devir cruel do mundo, trata-se de um conjunto de pessoas que se esmera em construir um terreno comum onde os mais diversos investimentos (práticos, teóricos, políticos, éticos) possam vibrar a sua potência mais digna contra esse inimigo comum. Afinal, não é esse o lema do manifesto, tão bem colocado sob a égide de Marcel Mauss: Como podemos conviver com as nossas diferenças sem nos massacrarmos?

Com isso, quero afirmar que, para mim, o convivialismo é, antes de tudo e de mais nada, uma espécie de defesa intransigente da vida planetária, uma arte de proliferação das diferenças que, mesmo na ausência de harmonias preestabelecidas, tenham a capacidade de encontrar uma composição feliz, pulsante e potente. Mais do que isso, tal composição, sem amarras nem capturas – ainda que por vezes estreita, exigente e comprometida – não é, nem pretende ser, mais um avatar para o velho laissez faire laissez passer. Muito antes, trata-se de posicionar-se como uma grande máquina de guerra que, para além de todo e qualquer sectarismo, tem como compromisso último a contenção das linhas de morte que pululam no nosso tempo.

E, adianto, não são poucas. Quando a tarefa que se impõe é a da construção de linhas de fuga – verdadeiras linhas de mutação diante dos riscos cada vez mais efetivos da hecatombe planetária – o perigo de engendrarmos verdadeiras linhas de morte se apresenta com toda magnitude. Seja na figura das correntes revolucionarias – para citar um caso referente aos conjuntos molares – que, no afã de contrapor o fluxo caótico e injusto da globalização neoliberal à força do seu cajado, acabam arrastando multidões ao ímpeto desesperado da destruição pela destruição – como se a máquina de guerra se voltasse contra si mesma, num movimento que tem por moto e motivo apenas a aniquilação; seja na figura dos dilemas éticos infinitesimais pelos quais o sujeito, em busca de um devir autônomo da sua constituição moral, experimenta através do seu próprio movimento constituinte.

Pois se as multidões em devir revolucionário, sob o pathos do desejo de martírio, eventualmente devém máquinas de guerra em regime de aniquilação; o devir autônomo do sujeito, vivenciado através da ruptura ou mutação dos códigos estandartizados dos processos de subjetivação, pode, também, eventualmente ensejar o surgimento de uma espécie de negatividade abstrata diante da codificação vigente. Nesse caso, como no outro, o risco da autodestruição é brutal. Constituindo-se como o oposto simétrico do estabelecido – o avesso da norma – o sujeito se deixa capturar com tanta ou mais facilidade do que se simplesmente se deixasse levar pelo padrão médio estabelecido – homem branco ocidental hetero e remediado. Numa espécie de fetiche do banditismo, da drogadição e de toda sorte de subversões disponibilizadas pelo “mercado negro”, o devir autônomo do sujeito – na sua luta perpétua contra uma subjetivação estimulada, incentivada e, por vezes, imposta, ainda que desejada – corre o sério risco de ver a sua vontade de mutação convertida, malgré lui, em desejo de aniquilação, pulsão de morte.

Pois não basta negar e destruir, é necessário desenvolver toda uma arte da resistência e da mutação. É ai que o convivialismo pode ser interessante. Como uma arte da resistência e da mutação, o convivialismo nos ensina a conviver com as diferenças, molares ou infinitesimais, sob o imperativo da contenção das linhas de morte. Afinal, o seu lema: aprender a conviver sem massacrar, me parece condensar as duas máximas mais importantes de um devir transformador, a saber, de um lado, a aprendizagem e o incentivo da mutação e, de outro, a contenção intransigente da aniquilação e da pulsão de morte.

Com isso, e dado o pluralismo que se apresenta tanto na formulação do manifesto quanto na orquestração dos manifestantes, o convivialismo adquire uma transversalidade capaz de engajá-lo em mais de uma luta. Afinal, anarquistas, comunistas, feministas, militantes do meio-ambiente e outras tantas forças comprometidas com a detenção do processo vertiginoso que vem transformando o nosso mundo num hibrido de depósito de recursos e aterro sanitário, sempre foram convivialistas, e (se) quando deixaram de ser abandonaram, ao mesmo tempo, as bandeiras que lhes conferia o nome.

Para mim, o convivialismo antes de ser uma bandeira é uma espécie de mastro – isto é, um pré-requisito, ou mesmo uma base na qual as bandeiras possam vir a se fixar. Mas não qualquer bandeira, pois se, para parafrasear um escritor famoso, todo mundo é convivialista menos quem não é, esses que não são precisam ser compreendidos na sua positividade. Pois, se o convivialismo é transversal e tudo, hoje, se transversa Liza, devemos lembrar que a transversalidade não é tudo.

Mesmo declarando a nossa interdependência incontornável, possivelmente haverão aqueles dispostos a fazer da transversalidade e da interdependência os princípios básicos da assimetria. E como quem aspira a totalidade flerta sempre com o vácuo, o convivialismo precisa afirmar os seus contornos. Ainda que o seu pluralismo declarado, somado ao antissectarismo militante seja a sua força mais digna, quando se trata de reconhecer as forças às quais se opõem, o movimento não pode poupar esforços.

Seria redundante afirmar que o manifesto se opõe às correntes globais do neoliberalismo, à concentração de renda para alguns e de lixo para outros, às forças de contenção da democracia como regime global, e etc. É claro que ele se opõe. Mas faz mais do que isso. A meu ver, o convivialismo persegue e se opõe a toda e qualquer linha de morte e destruição, não importa onde ela se apresente. Dessa maneira, além de se posicionar como uma declaração forte de oposição à tragédia da globalização neoliberal, o convivialismo ainda pode vigorar como uma espécie de terapêutica dos movimentos de resistência, trabalhando para que o anseio inquebrantável por transformação – que sempre pautaram as lutas da esquerda, em sentido amplo – não devenha em niilismo e destruição pela destruição.

A passagem mais bonita e mais sintética do manifesto – e que faço questão de citar – não poderia ser outra senão essa: “Em uma palavra, é preciso fazer do conflito uma força de vida e não de morte. E da rivalidade, um meio de cooperação, uma arma para dissipar a violência destrutiva”.

Eis o ponto alto do manifesto. A expressão mais condensada de um movimento forte, que ele parece encorajar de ponta a ponta. Em suma, trata-se de instaurar uma ética capaz de dissociar o conflito e a diferença de todo e qualquer vínculo com a violência destrutiva das linhas de morte. Por isso, subscrevo com muito gosto a formulação dos convivialistas. Ainda que não sem reticências, afinal estamos tratando de diferenças.

Nesse sentido, se o manifesto apresenta mais de um ponto no qual eu me sinta mais do que à vontade em me filiar, também reconheço algumas dificuldades das quais me dissocio, sem, contudo, abandonar o barco. Mesmo evitando todo e qualquer moralismo e ainda que se apresente como dimensão terapêutica para toda e qualquer luta de resistência diante da globalização neoliberal, o manifesto também possui uma dimensão de captura. Refiro-me explicitamente aos momentos nos quais os convivialistas assumem deliberadamente a posição do legislador e passam a distinguir o legítimo do ilegítimo.

É mais do que claro que o terreno da legitimidade – corolário da soberania – sempre foi um campo de batalha no qual muitos avanços foram e seguem sendo conquistados. Foi assim, entre outros, que a modernidade política angariou as suas conquistas históricas. Contudo, eu seria tentado a dizer que esse terreno não é capaz de arvorar as demandas de (para) uma sociedade convivial. Afinal, quando alguém se arroga o direito de distinguir o legítimo do ilegítimo – ainda que suas demandas sejam as mais “legítimas” e esse alguém seja a comunidade do povo soberano – imediatamente salta por cima da esfera do convívio e passa a regulá-lo. Seria como se da imanência do convívio passássemos, em virtude da chegada do legislador, para a transcendência da regulação. E, a meu ver, de nada adiantaria afirmar que tudo não passa de uma transcendência dentro da imanência – pois dentro ou fora é o acima que vem se afirmar.

Essa oposição a posição do legislador, todavia, não pode servir para obliterar os pontos através dos quais o manifesto se baliza para se contrapor ao “ilegítimo”. São pontos fortes, dignos e, sim, são pontos legítimos cujo desdobramento, em sua órbita, constitui um dos modos através dos quais podemos avançar na busca por uma sociedade positivamente desejável. Apenas acredito que a imaginação teórica e prática desse coletivo capaz de expressar uma ética que dissocia diferença e violência destrutiva pode ser capaz de fazer o mesmo no terreno da filosofia política e dissociar a organização de uma sociedade convivial de todo e qualquer compromisso com a soberania. Pois se todos desejam viver numa sociedade convivial, nem todos desejam conviver com o soberano.

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