O convivialismo na clínica psicanalítica e na prática comunitária – por Tereza Estarque

O Convivialismo
na Clínica Psicanalítica
e na Prática Comunitária

Tereza Mendonça Estarque

“A humanidade soube realizar progressos técnicos e científicos fulminantes, mas ela permanece ainda incapaz de resolver seu problema essencial: como gerir a rivalidade e a violência entre os seres humanos? Como incitá-los à cooperar para que se desenvolvam e dêem o melhor de si, permitindo-lhes ao mesmo tempo se opor sem se massacrar” (Manifesto Convivialista: declaração de interdependência, Annablume, vários autores, São Paulo, 2013. p.25)

Em 1992, Axel Honneth formulou a ideia de “luta por reconhecimento” como conflito básico e fundante do laço social. A partir daí, acredita ter encontrado, na teoria psicanalítica das relações de objeto, notadamente em Winnicott, um suporte para ancorar-se empiricamente, deixando seu construto à salvo dos riscos de recaída na metafísica.

Ao levantar as respostas existentes para o problema da violência e da rivalidade, o Manifesto Convivialista apresenta iniciativas contemporâneas que ensaiam saídas para a questão. Gostaria de propor e incluir o dispositivo clínico psicanalítico psicoterápico, concebido como prática ética e política, como um recurso para o exercício do convivialismo. Seja no âmbito da psicanálise estrito senso, realizada no interior do par analista-paciente, seja em seus desdobramentos e aplicações às diversas práticas sociais de cuidado, a experiência clínica cria e reproduz um modelo de convivialidade.

Para compreender a destrutividade e rivalidade entre humanos, a psicanálise se encontra entre dois paradigmas. De um lado, a abordagem psicanalítica freudiana e, de outro, a teoria das relações de objeto, especialmente aquela desenvolvida por D.W. Winnicott.

Sob influência da antropologia hobbesiana, Freud concebe a destrutividade como tendência plantada no cerne da natureza humana. A entrada na moralidade e o exercício da vida em comum são dados pelo recalque e pela sublimação. As maiores realizações da cultura seriam tributárias desse desvio, do desejo de destruir à vontade de criar. Oferecer às crianças, diversificadas possibilidades de expressão para essa destrutividade, é um incentivo à sublimação dos anseios individuais de dominação e podem favorecer uma convivência humana mais harmoniosa. No Brasil, muitos projetos sociais estão fundados nessa premissa, facultando às crianças de classes empobrecidas, o acesso a atividades como música, dança, teatro, esportes, etc… Visam com isso permitir o desenvolvimento de habilidades individuais de controle sobre objetos queridos, seja um violino, uma bola ou seu próprio corpo e, simultaneamente, a prática da convivência no coletivo, seja uma orquestra, corpo de baile, companhia de teatro ou time de futebol. A liberdade dos indivíduos, incluindo sua necessidade de gratificação narcísica e de reconhecimento social podem, então, encontrar sua coesão ética na ação solidária de um grupo com finalidades em comum.

Esse caminho, da domesticação das pulsões, não é desprezível e revela-se bastante eficaz. Porém, para o contexto do convivialismo, a abordagem Winnicottiana aponta um caminho mais convergente. Ao enfatizar o espaço relacional como berço da experiência moral que possibilita a emergência do eu e a constituição do outro, encontra-se melhor situada no interior dos debates contemporâneos sobre a capacidade de doar.

A clínica psicanalítica como lugar convivial experimental.

Há 14 anos, coordeno uma clínica social de psicanálise na cidade do Rio de Janeiro. Funcionando dentro de um Instituto de Estudos da Complexidade é, ela mesma, um projeto piloto que se oferece como inspiração para outras experiências convivialistas. O projeto se esforça por praticar, em sua auto gestão, o sentido de comunidade, evitando as hierarquias e as cristalizações das funções administrativas, fortalecendo os espaços coletivos de discussão e decisão.Das mais simples às mais complexas, todas as tarefas de manutenção do espaço físico são exercidas, voluntariamente, pelos terapeutas que se revezam nestas atividades.

A gestão econômica da Clínica é regida por um forte sentido anti-utilitário. Os recursos arrecadados são revertidos para o pagamento de custos necessários à manutenção do espaço. Para preservar o sentido de comunidade, foi instituído um caixa único, a partir do qual é calculado o valor da hora-mês-trabalhada. Esse dispositivo, bem como a distribuição das funções mais triviais, foi uma solução que emergiu no grupo, a partir de experiências que deixavam a descoberto nossos sentimentos, demasiadamente humanos, de busca de gratificação pessoal, seja no nível financeiro, seja no aspecto do reconhecimento. Socializou-se, portanto, a questão recorrente: quem atenderá àqueles que nada podem pagar? Quem arcará com o ônus de dedicar-se aos despossuídos?

As crises vividas no percurso desses 14 anos nos indicaram caminhos de constituição de um ethos grupal que resulta, de forma espontânea e recursiva, no reconhecimento e crescimento pessoal daqueles que mais investem no coletivo. Individualmente, na convivência grupal, todos parecem compreender que o crescimento pessoal está intrinsecamente ligado à dedicação voluntária de uma parte de si, ao serviço do outro. O lucro do enriquecimento humano, para cada um de nós e para nossos pacientes, é inestimável.

Em muitas ocasiões, os impasses ligados à questão do desenvolvimento do projeto, colocam-no em situação de risco. Não apenas de sua subsistência mas, especialmente, daquilo que alimenta seu espírito e que, como tudo que vive, pode se corromper. Em 14 anos de trabalho, o número de terapeutas engajados e pacientes atendidos quintuplicou. Ainda assim é um projeto pequeno, que oferta uma alternativa – nos moldes de um Pensamento do Sul – à visão produtivista e quantitativista.

Diríamos com Edgar Morin: “antes melhor do que mais e por vezes mesmo menos, porém melhor.” ( Morin, E. Para um Pensamendo do Sul, Anais do Encontro Internacional para um Pensamento do Sul, SESC/Departamento Nacional, 2011, Rio de janeiro RJ. p.25) Por este motivo, nossa clínica vem se esforçando por privilegiar o melhor atendimento à um número menor de pessoas, opondo-se à lógica que promove uma ideologia da quantidade em detrimento da qualidade. Porém, “quando se trata dos despossuídos, o mais deve caminhar junto com o melhor”(Id.Ibid). Como solucionar os desafios do crescimento, sem adulterar essas premissas?

O Convivialismo de Winnicott e o acesso à moralidade

Winnicott considera a moralidade como um fator inato. Não se trata aqui de um fator genético, mas de uma predisposição humana que impulsiona o indivíduo em direção ao cuidado do outro. Para que esse impulso encontre seu pleno desenvolvimento, é necessário um ambiente facilitador, ou seja, bom o bastante para não atrapalhar o curso natural do processo maturacional. Haveria, em nossa natureza, um impulso à integração, que se encarrega de tornar suportável ao ser humano amar e odiar, simultaneamente, a mesma pessoa. Esse estado de maturidade só pode ser atingido se o ambiente puder acolher os impulsos agressivos da criança, sem retaliação. Quando o adulto pode “sobreviver” (o que significa não retaliar) aos ataques direcionados a ele, está permitindo que o infante comece a percebê-lo como um ser que tem autonomia e que não sucumbe ao seu desejo onipotente de dominá-lo ou aniquilá-lo. Sempre que o adulto pode ajudar a criança a colocá-lo fora de sua área de controle onipotente, Winnicott diz, é como se a civilização começasse de novo, em cada uma dessas crianças. O ganho para o convivialismo é precioso.

Essa agressividade do bebê, não é um equivalente do ódio. Está mais próxima da energia motriz, da carga de vida que o impele a conhecer sua força, usá-la de forma potente para criar e saber os limites que não pode ultrapassar, sob risco de ferir o adulto que dele se encarrega e de quem ele se sabe dependente. O reconhecimento recíproco da interdependência que os une é um dado fundamental do processo de maturação. Conduzir um bebê ao convívio ético, por outra via que não a repressão dos impulsos agressivos, requer um sentimento de devoção por parte dos adultos encarregados, devoção essa mais frequentemente encontrada quando há o vínculo de filiação. Do ponto de vista de uma política civilizatória, é notável a precariedade das políticas públicas no Brasil, direcionadas aos cuidados primários relacionados ao vinculo mãe-bebê (e/ou mãe substituta-bebê). Na falta de creches nos locais de trabalho, mulheres de todas as classes sociais e níveis de escolaridade vêem-se forçadas a deixar seus filhos com outras mulheres que, por sua vez, colocam suas crianças aos cuidados de outras ainda mais pobres. Fecha-se assim, um ciclo de terceirização de bebês onde todos saem prejudicados. A pouca consciência da importância dos primeiros vínculos para a constituição da Humanidade do Homem é visível. Perdem o indivíduo, a dupla e a sociedade como um todo.

A experiência clínica-convivial

Ao chegar para o tratamento, o paciente traz as marcas daquilo que o ambiente não pode prover de forma satisfatória e que sua criança não pode elaborar sozinha. Muitas vezes, é esse seu infantil, desassistido e incompreendido, que é trazido para ser cuidado nas idades subsequentes. No ambiente protegido da cena analítica, com um profissional preparado para dar continência, resistir e não retaliar, os aspectos mais regredidos do paciente têm a chance de comparecer para serem revividos e ressignificados: ataques, demandas de amor, rivalizações e toda sorte de tentativas de controle onipotente, podem aparecer se esse ambiente logra constituir-se como espaço de confiança. Projeções sobre o analista, de aspectos ruins internos insuportáveis, são passíveis de serem reintegradas sem risco de destruição do mundo interno ou do outro. Trata-se de um espaço privilegiado de interações onde estamos confrontados com os antagonismos pulsionais e aprendemos a apaziguá-los para melhor conviver, com eles e com os outros. É, por assim dizer, um poderoso instrumento que nos conduz a gerir a rivalidade e a violência entre os seres humanos, incitando-os a cooperar para que se desenvolvam e dêem o melhor de si, permitindo-lhes ao mesmo tempo se opor sem se massacrar.

Casas de Solidariedade

Em âmbito mais ampliado ainda, para além da esfera psicanalítica, strito ou lato senso, inclui-se a proposta de Morin para a criação das “Casas de Solidariedade” (Morin, E. A Via: para o futuro da humanidade, Bertrand Brasil, 2013). Distribuídas por bairros das grandes cidades, seriam lugares de acolhimento e escuta, centros de fomento à amizade e à atenção ao outro, espaços de iniciativas, mediações e mobilização permanente. Sobretudo, como penso, pontos de encontro para a recriação do espírito de comunidade, redescoberta do prazer da ajuda desinteressada e da possibilidade de perceber-se enlaçado com o outro. Lugares de acolhimento e escuta, centros de fomento à amizade e à atenção ao outro, espaços de iniciativas, mediações e mobilização permanente. Sobretudo, como penso, pontos de encontro para a recriação do espírito de comunidade, redescoberta do prazer da ajuda desinteressada e da possibilidade de perceber-se enlaçado com o outro. Como no modo de vida dos povos primevos estudados por Marcel Mauss, os indivíduos contemporâneos necessitam reencontrar o sentido de interdependência e de autonomia, enlaçados pela tríplice obrigação: dar, receber e retribuir. É importante destacar, pelo menos no que concerne ao contexto brasileiro, que é no convívio do homem urbano, especialmente nas grandes cidades e entre aqueles com maior poder aquisitivo, que o espírito de comunidade encontra-se mais diluído. Em algumas zonas rurais e favelas urbanas, a prática de mutirões solidários fazem parte da tradição e são ainda bastante frequentes. Não por acaso, essas favelas urbanas são igualmente nomeadas comunidades. Nem por isso representam uma visão do paraíso. Muito ao contrario, são palco das disputas sangrentas pelo poder do crime organizado, revelando manifestamente o aspecto agonístico do laço social.

Considerando-se a pouca vontade política para financiar investimentos como esse, proponho que a implementação desse dispositivo fosse ensaiada pelas universidades. Acredito que o papel da universidade, na vida societária, deva estar para além de sua função como espaço crítico, produtor de pesquisa e conhecimento. Não que essas atividades deixem de ser relevantes, mas as urgências postas pela agonia planetária ao mundo contemporâneo, exigem não apenas mudanças de pensamento e de postura. As soluções requerem experimentos práticos que, recursivamente reverberem sobre o pensamento e as posturas. Assim, as casas de solidariedade, lugares exemplares de exercício do convivialismo, poderiam ser testadas a partir de um projeto piloto universitário, envolvendo professores e estudantes de diferentes departamentos e graus de formação, visando compor um serviço solidário transdisciplinar a ser oferecido às populações vizinhas.

Fica aqui lançada a ideia de um encontro convivialista em torno dessa proposição de Edgar Morin.

Referências:

HONNETH, A. (2003) “Luta por Reconhecimento” Ed.34, São Paulo. Tradução Repa, L. (Trabalho originalmente publicado em 1992)

Manifesto Convivialista: declaração de interdependência, Annablume, vários autores, São Paulo, 2013

MAUSS, M. (2003). Ensaio sobre a Dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas.. In Sociologia e Antropologia. Ed Cosac Naify, São Paulo. Tradução, Neves P. ( Trabalho originalmente publicado em 1923-24)

Morin, E. Para um Pensamendo do Sul, Anais do Encontro Internacional para um Pensamento do Sul, SESC/Departamento Nacional, 2011, Rio de janeiro RJ.

Morin, E. A. Via: para o futuro da humanidade, Bertrand Brasil, 2013

WINNICOTT, D.W. (2005) Sobre o Significado da Palavra Democracia, in A Família e o desenvolvimento individual. Ed Martins Fontes, São Paulo. Tradução Cipolla, M.B. ( Trabalho originalmente publicado em 1965.)

___________(2005) Crescimento e Desenvolvimento na Fase Imatura, In A família e o desenvolvimento individual. Ed Martins Fontes, São Paulo. Tradução Cipolla, M.B. ( Trabalho originalmente publicado em 1965)

___________ (1982)A Moralidade Inata do Bebê In A Criança e seu Mundo, Ed. LCT, Rio de Janeiro. Tradução, Cabral, A.( Trabalho original publicado em1957).

____________(1983) Moral e Educação In O ambiente e os processos de maturação. Ed.Artes Médicas, Porto Alegre.Tradução Schuch Ortiz, I.C.(Trabalho original publicado em 1963).

___________ (1999)O Desenvolvimento do Sentido de Certo e Errado de uma Criança in Conversando com os pais. Ed. Martins Fontes, São Paulo. Trad. Cabral, A. ( Palestra na BBC transmitida em 11 de junho de 1962)

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