Complexidades do Convivialismo à Brasileira – por André Magnelli

Complexidades do
Convivialismo à Brasileira:
Promessas de um
Anarquismo Construtivo Convivial

André Magnelli

O Manifesto nos convida a pensar e fazer um convivialismo à brasileira: por múltiplos caminhos chegaremos à Roma do convivialismo. O universalismo a se construir pela via convivial é pluriversal, que será gestado pelo encontro entre as múltiplas civilizações por meio de seres humanos vivos, empíricos, concretos e sensíveis. O desafio de pensar a possibilidade de um convivialismo brasileiro nos defronta, contudo, com a própria complexidade, histórica e atual, da questão Brasil. Não sendo para principiantes, o país traz consigo, paradoxalmente, os extremos do modelo e do anti-modelo para o convivialismo.

Pregar no Deserto?

Se convivialismo significa uma convivência entre indivíduos com reconhecimento ético e jurídico de “igual-liberdade” (princípio da individuação) e de “igual-dignidade” (princípio de comum humanidade), que diferença em relação à situação brasileira! Vivemos em um dos países mais desiguais do mundo. Nossa cidadania é regulada; reproduzimos estruturalmente uma “ralé”; “convivemos” naturalmente com a subcidadania e a violência; possuímos mecanismos perversos de exclusão ou eliminação de desumanizados… Se convivialismo significa, além disso, a constituição de interações sociais onde as pessoas convivem pacificamente com o conflito recíproco, a que distância estamos! Historicamente temos um Brasil marcado pela violência como forma rotinizada de ajustamento das relações de vizinhança, e vivemos, ainda hoje, em um dos países mais violentos do mundo.1 A ponto de serem diagnosticadas, seja a formação de um padrão de “sociabilidade violenta”2, seja a existência de uma “acumulação social da violência”.3 Estamos em meio a um processo que faz com que alguns lamentem que, de cordialidade mesmo, só nos restou o lado ruim, o da ausência de autocontrole e o da violência epidêmica. Se, por fim, convivialismo significa cuidado da natureza e uma consciência ecológica da finitude dos recursos, nada a falar de muito otimista. Vivemos em um estado de consciência largamente pré-ecológica, entre um modelo desenvolvimentista predatório do nosso velho capitalismo colonial e o modelo neodesenvolvimentista à esquerda, que, valorizando um estilo de vida preso à engrenagem de um “moinho da produção” (Schnaiberg) que facilmente se torna um “moinho satânico” (Polanyi), possui consequências que culminam simbolicamente em uma crise hídrica ocorrida no país de maior recurso hídrico do mundo! Há pouco espaço na política à agenda ecológica e aos modelos alternativos de vida; bem como pouco espaço na cidade – engarrafada, poluída e enervada – para a construção de uma Cidade. Das manifestações de junho de 2013 restaram não muito mais do que os atos espetaculares de violência, o cinismo, o desencanto e o oportunismo político.

Quanta hubris! Urge, portanto, falar de convivialismo no país, nem que seja na forma patética do pregador no deserto. Este cenário desencantado, contudo, não é compatível com nossas promessas. Se oportuno é que se tenha um pessimismo da razão, mais oportuno ainda é ter um convivialismo de coração, que veja, nos signos de putrefação, múltiplas oportunidades de fecundação, transformando a crise em oportunidade, e a crítica em pathos alegres e em práxis transformadora.

Promessas de uma Civilização Convivial

Com Gilberto Freyre, podemos identificar em nosso país tropical e mestiço um solo fértil para germinar o projeto convivialista. Nossa mentalidade tradicionalmente conservadora pode ser vista como um convivialismo avant la lettre. Afinal, se formamo-nos por meio de um “processo de equilíbrio de múltiplos antagonismos”, como não haver um convivialismo brasileiro exemplar, uma vez que o convivialismo não é muito mais do que o aprendizado do conviver dos contrários e, mais ainda, a arte de transformar os contraditórios em contrários coexistentes e em sinergia? A construção de uma civilização moderna em ambiente tropical e uma democracia dinamicamente etno-cultural, como propõe Freyre4, pode atender aos princípios conviviais, construindo uma “comum socialidade” onde o lúdico, a criatividade, a expressividade, o bom humor e o bem viver se afirmem, bloqueando, por sua vez, a degradação, bem ocidental, do “princípio de individuação” em individualismo e do “princípio de oposição mútua” em xenofobia e indiferença. Em um mundo em que as propostas de sínteses absolutas e de unidade reconciliada explodiram, em um mundo tomado por um quê de anarquismo indomável em que o “princípio de comum humanidade” perde espaço às múltiplas afirmações identitárias e aos ódios recíprocos, talvez contribuamos positivamente com um anarquismo construtivo convivial, capaz de construir um “ser-conjunto” sem integrar. Ao invés de uma capacidade integradora, tal como aquela manifesta nos EUA, temos uma capacidade de conviver, por assim dizer, de forma “desintegrada”, sem reduzir as diferenças a um caráter homogeneamente nacional. Além disso, podemos dizer que o brasileiro possui a arte de viver com alto nível de entropia, transformando-a em processo criador; e viver com altos níveis de entropia é a condição humana da nova era. Freyre antevira um processo mundial de chegada a um anarquismo construtivo, em que haveria “um sistema de economia e de convivência, além de predominantemente industrialista, científico”,5 reivindicando, para homens e mulheres livres, uma menor organização ou mesmo desorganização:

menos realidades já formadas e mais realidades em constante formação ou, pelo menos, em constante estado mais plástico do que rígido. Até mesmo em constante predisposição revolucionária. Ora, este estado psicossocial não é senão um começo pós-moderno de ressurgência […] do ideal anarquista, no sentido em que esse ideal parece corresponder ao que há de mais avançado como processo não de estabilização mas de equilíbrio, entre as várias tendências através das quais os homens buscam conviver, menos uniformizando-se que conservando, ao lado das suas naturais semelhanças, suas também naturais diferenças.6

Com a feliz coincidência de encontrar o significante e a própria ideia que nos diz respeito na escrita do Gilberto, podemos buscar em Mangabeira Unger a reafirmação contemporânea da promessa de uma síntese convivial entre ternura, vitalidade, criatividade e rebeldia.7 Se “a justaposição da violência e da ternura é o mistério triste do Brasil”8, então reinventar a ternura é um mote convivialista à brasileira. Considero, com Unger, que “faz parte do sonho brasileiro levar uma vida marcada pela ternura e pela expressividade”.9 Podemos reconciliar o impulso libertador do liberalismo com nosso ideal de ternura e expressividade: não seria isso a carne do convivialismo? Basta para tanto construir os fundamentos práticos que permitam que nosso sonho de ternura e nossos potenciais conviviais sejam reconciliados com a cultura dos direitos. Lembrando, para tanto, que Sérgio Buarque de Holanda não tratou apenas dos desafios da cordialidade à construção de uma sociedade de direitos de cidadania, com a dificuldade de operar pelo universal abstrato da cidadania moderna, mas também das potencialidades do modo de ser cordial para um novo tipo de democracia. Neste ponto, o apelo, feito pelos autores do Manifesto, à mobilização dos afetos e paixões em prol do convivialismo encontra um suporte civilizacional cativante. A proposta convivialista pode adquirir um sabor nacional ao agregar, como o sugere Rubem Barboza Filho, à linguagem moral e cognitivista que tende a predominar no mundo europeu uma linguagem dos sentimentos.10 Tratar-se-ia, aqui, não de consolidar uma forma de ser democrática aos moldes da civilização europeia, mas sim de construir uma civilização democrática com a marca de uma singularidade nada habermasiana: a da linguagem dos afetos e sentimentos.

Por um Oikos do convivialismo

Não há espaço no século XXI de um convivialismo que não seja ao mesmo tempo uma ecologia generalizada. Falta-nos, portanto, no Manifesto, um princípio que estabeleça o modo da relação entre os seres vivos e os meios em que eles vivem, composto de um biótopo (o meio geofísico) e de uma biocenose (o conjunto da interação entre todas as espécies de seres vivos que habitam o biótopo). Sugiro chamá-lo, com Morin, de princípio do oikos, ou da ecologia generalizada. Uma consciência ecológica global, que é uma “consciência da finitude” tanto dos recursos materiais quanto da própria espécie humana e do planeta Terra, está em plena gestação e apela a uma transição ecológica da economia global. Precisamos ingressar, como diz Caillé, em uma era “pós-crescentista”.11 Ora, podemos ver nos indígenas, como sugere Viveiros de Castro, não o nosso passado, mas sim o nosso futuro; a cosmologia indígena, assim como aquelas de matriz africana, tem muito a contribuir para a construção de uma Paidéia convivialista para a sociedade civil mundial emergente. O convivialismo à brasileira pode ser construído pela subversão da visão de Pero de Magalhães Gândavo da forma de viver dos índios. “Sem Fé, sem Lei, sem Rei” seria, para nós, a civilização definida não pela ausência dos determinantes civilizacionais, mas sim pela libertação dos grilhões impostos à humanidade na sua Era de Ferro, como qualifica Morin, e a entrada na era da hipercomplexidade. Uma civilização que, de forma rebelde, construiria, pelo engrandecimento do humano popular, um convivialismo biocêntrico, pan-espiritualista e multinaturalista.

Neste caso, o caminho à Roma do convivialismo terá escalas certas pelo Brasil tropical. Ou talvez esta Roma esteja em algum lugar, ou em múltiplos, ainda a ser descoberto, entre o Oiapoque e o Chuí.

Notas

1 WAISELFISZ, J. J. Mapa da Violência 2014. Os jovens do Brasil. Rio de Janeiro: FLACSO/BRASIL, 2014. Para somente falar na violência mais nua e crua, mas que não é a única – os homicídios –, em 2012 chegamos ao maior número absoluto e a maior taxa de homicídios desde 1980: 56.337 em um ano.

2 SILVA, Luiz Antonio Machado da. “Sociabilidade violenta: por uma interpretação da criminalidade contemporânea no Brasil urbano”. Soc. estado. 2004, vol.19, n.1, pp. 53-84. A transformação recente da qualidade das relações sociais no Brasil foi captada, de forma extremamente pessimista, pela noção de “sociabilidade violenta” para designar “uma ordem social cujo princípio de organização é o recurso universal à força” e onde a paz não é mais obtida pela referência aos valores, mas sim pela força: a metáfora da “paz armada” expressa o estado do desastre.

3 MISSE, Michel. Sobre a acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Civitas. v. 8, n. 3 (2008).

4 FREYRE, Gilberto. Novo mundo dos trópicos. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.

5 FREYRE, Gilberto. Além do apenas moderno. Rio de Janeiro: Topbooks, 2001 [1973], p.152 (grifo meu).

6, ibid, p.57.

7 UNGER, Roberto Mangabeira. “A transformação da experiência: ideias, atitudes, emoções”. In: Depois do Colonialismo Mental – O Brasil no Século XXI.

8 UNGER, Roberto Mangabeira. A segunda via: presente e futuro do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2001, p.94.

9 Ibid, p.95.

10 BARBOZA FILHO, Rubem. Sentimento de democracia.Lua nova, 59, 2003.

11 Ver entrevista acima.

Referências Bibliográficas

BARBOZA FILHO, Rubem. “As linguagens da democracia”. RBCS, vol.21, no. 67, junho/2008.

_______. “Sentimento de democracia”. Lua nova, 59, 2003.

CARVALHO FRANCO, Maria Sylvia. Homens Livres na Ordem Escravocrata. São Paulo: UNESP, 1997.

CLASTRES, P. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2000.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1994.

MISSE, Michel. “Sobre a acumulação social da violência no Rio de Janeiro”. Civitas. v. 8, n. 3 (2008).

MORIN, Edgar. La Méthode, 6 vol. Paris: Seuil, 2008.

SOUZA, Jessé. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade periférica. IUPERJ/UFMG, Rio de Janeiro, 2006.

UNGER, Roberto Mangabeira. Depois do Colonialismo Mental – O Brasil no Século XXI. Disponível em: http://www.law.harvard.edu/faculty/unger/portuguese/artigos.php.

_______. A segunda via: presente e futuro do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2001

WAISELFISZ, J. J. Mapa da Violência 2014. Os jovens do Brasil. Rio de Janeiro: FLACSO/BRASIL, 2014.

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