As casas na favela e os coletivos de cuidados das classes médias – por Camila Fernandes

As casas na favela e os coletivos de cuidados das classes médias:
Sobre tecer mundos possíveis
em realidades desiguais

Camila Fernandes

A abertura do manifesto evoca uma assertiva entusiasta encontrada em outros contextos de luta, a saber: “Um outro mundo possível”. Esse foi o grito das manifestações de Seattle contra as negociações da OMC (Organização Mundial do Comércio) nos EUA ocorridas em 1999. Os protestos contaram com a participação de anarquistas, sindicalistas, ONG´s, black blocks e até bruxas neo pagãs.

Isabelle Stengers e Philip Pignarre escreveram “Capitalism Sorcery” incentivados pelo grito. Contam que um dos sucessos da mobilização fora justamente o fato de que ela não partiu de consensos prévios, tampouco tinham respostas prontas às “alternativas infernais” dadas pelos modos de vida capitalista. Apesar da divergência das forças existentes as manifestações avançaram contra aquilo que criticavam; a degradação ambiental, o trabalho escravo e infantil, a expansão do mercado de transgênicos, as patentes de remédios, enfim, os diversos aspectos que eram parte das deliberações propostas pela cúpula na “Rodada do Milênio”. Essas forças foram mobilizadas contra o fatalismo da urgência, as formas de coibição governamental que sentenciam o absoluto aparentemente incontornável: “É assim!” ou “Não tem outro jeito”. Stengers e Pignarre afirmam que há algo a aprender com os protestos, como praticar uma pragmática, que nas palavras deles: é uma arte das consequências, de prestar atenção.

A escritora e bruxa Starhawk apresenta em “Webs of Power” algumas das táticas e estratégias para mobilizações e protestos. Um ponto em comum nesses dois livros e que gostaria de acionar para comentar o manifesto convivialista na interface com as realidades que evoco é a formação dos possíveis diante da oposição e do conflito, de prováveis flertes criativos e condições de aprendizado entre coisas, gentes e valores antagônicos. Em lugares que não existem consensos e desigualdades de todos os tipos estruturam as socialidades experenciadas.

Das casas que “tomam conta”

Tanto as casas de mulheres que “tomam conta” de crianças na vizinhança das favelas quanto à formação de coletivos de cuidados nas classes médias falam da formação de mundos comuns. Ambos procuram resolver um problema aberto pelo mercado de cuidados a infância e pela insuficiência do Estado em atender as demandas e direitos das pessoas. Apesar de possuírem esse “denominador comum” nos termos do manifesto, estes lugares de acontecimentos se situam em posições sociais distintas. As casas se apresentam como agenciamentos de práticas de longa duração histórica nas camadas populares e que até hoje continuam vivas e fundamentais. Trata-se de mulheres, moradoras das periferias que tomam conta de crianças em suas próprias casas. Nesse trabalho de tempo longo e cotidiano elas se constituem como pessoas de confiança no cuidado das crianças que habitam as favelas.

No complexo do São Carlos onde realizo minha pesquisa de doutorado existem muitas casas como estas. Essas casas se constituem como dispositivos poderosos de conciliação entre vida familiar e profissional, entre tempo de “correr atrás” e tempo de cuidar, uma vez que os trabalhadores podem deixar seus filhos em horários flexíveis que variam conforme a necessidade das pessoas que precisam. Uma criança, por exemplo, pode chegar às 7:00h da manhã e sair às 21:00 da noite. O horário que um trabalhador leva entre acordar, sair de casa, deslocamentos no trânsito, turno de trabalho, vida escolar noturna ou outro turno de trabalho.

Nas casas as crianças são cuidadas por uma mulher que na maior parte do tempo é única pessoa que toma conta dos outros. A maior parte delas é a única responsável pela casa, visto que os maridos foram embora em algum momento da vida conjugal. Mas existem aquelas que vivem na conjugalidade e a renda que ganham é fundamental para o equilíbrio das despesas da família.

As casas são mundos compostos com outros mundos, que são as creches municipais da prefeitura. A creche pública enquanto dispositivo fundamental para a inserção do trabalhador no mercado de trabalho e para a guarda e cuidado da criança possui um horário incompatível com a rotina de um trabalhador da periferia. Ela abre suas portas as 7:00h da manhã e encerra seu turno as 17:00h. Nesse tempo, muitas pessoas ainda não conseguiram voltar do trabalho à favela para buscar seus filhos. Por isso, as casas ainda são acionadas pelos poucos familiares que conseguiram o acesso a creche, uma vez que todos os anos cerca de 200 crianças que solicitam vaga em cada unidade da prefeitura não são contempladas. Isso quer dizer que o fato de ser atendido por uma política pública como a creche municipal não descarta a necessidade de recorrer às casas que tomam conta. Aqui temos claramente um serviço de bem estar que é propiciado pelas mulheres da favela. A fonte do bem estar emana do trabalho subalterno, sem reconhecimento e mal pago de mulheres faveladas.

Dos coletivos de cuidados nas classes médias

Em outro mundo, assistimos a formação dos coletivos de cuidados feitos por classes médias. Tais iniciativas são uma realidade contemporânea e crescente na cidade do Rio de Janeiro e partem das mesmas necessidades que as casas: a demanda de tempo para ficar com crianças em conciliação com vida laboral e escolar. Por valores diversos relativos à criação de crianças esses coletivos situam-se num espaço lógico fora e em oposição ao mercado das creches privadas e dos serviços oferecidos pelas creches públicas. Opõe-se também a contratação de babás e empregadas domésticas para os cuidados dos filhos, seja por uma recusa em reproduzir o padrão de domesticidade brasileira no qual o emprego doméstico é desvalorizado em termos econômicos e sociais e\ou seja porque o salário resultante da saída da mulher-mãe (a personagem majoritariamente mobilizada pra ficar com o filho) de casa para trabalhar fora “não compensa” uma vez que será utilizado para pagar o salário de outra mulher-mãe-empregada.Em relação às creches públicas a maioria das pessoas engajadas nos coletivos considera este dispositivo como ideal num horizonte ideológico, uma vez que valorizam algo que sirva para benefício de todos sem distinções. Entretanto, afirmam que na realidade atual os serviços são “precários”, seja pelo pouco número de profissionais por turma, pela falta de vagas, entre outros motivos que “desanimam” as famílias 1.

Nesse duplo desencantamento com as creches privadas e com os serviços oferecidos pelo Estado, essas famílias buscam se reunir em grupos para cuidar dos próprios filhos. A maioria desses coletivos são encorajados e apoiados pelos homens, entretanto, as mulheres são as principais mobilizadoras desse feito, ainda que alguns contem com a participação masculina. Ainda que a participação masculina seja pequena ela não deve ser desprezada em termos de aprendizado, visto que os homens que participam dos coletivos estão em grande dissonância do padrão cultural hegemônico de paternidade.

Os participantes dos coletivos buscam sanar tanto uma questão pragmática “quem vai ficar com as crianças?”, como, num pano de fundo, buscam contestar a organização dos serviços à infância. Muitos acreditam que essas experiências podem servir como formas de crítica, protesto e resistência aos serviços existentes e para que o Estado apoie iniciativas familiares e comunitárias de auto gestão popular.

Mundos possíveis?

Essas duas experiências de composição de mundos são alternativas empreendidas diante de um problema em comum. Parece que existe aí uma convergência das problemáticas. Entretanto, apesar da confluência de necessidades as duas proposições não são equivalentes, cada uma ao seu modo exprime resistências e potências específicas tanto para pensar as políticas existentes quanto para tensionar as barreiras cotidianas relativas à classe, raça e desigualdade. Mas haveria interesse de diálogo entre esses mundos? E se acaso houvesse, ambos poderiam ser afetados por algum tipo de troca efetiva que gerasse o enriquecimento das habilidades existentes?

Bruno Latour afirma que não há mundo comum, mas “é preciso compô-lo”. As diversidades de pensamentos, políticas, afetos fazem parte e os desacordos estão por todos os lados. É a partir de desacordos que um mundo comum pode ser composto: “Ele deve ser feito, deve ser criado, deve ser instaurado. E, portanto, pode ser perdido” (2011). Pois as formas dessa composição estão em disputa, as conexões se abrem e se fecham e possuem intenções, aberturas e ontologias diversas. As casas são esses mundos que já acontecem há muito tempo. Sendo compostos todos os dias nas margens do Estado. Esses lugares são dispositivos políticos abertos, elas agregam diferentes pessoas, idades, demandas e valores de criar e cultivar. As pessoas que se beneficiam delas não possuem as mesmas concepções, prioridades e jeitos de criar, mas ainda assim existe espaço para “se opor sem se matar”, para rivalizar e cooperar e enfim habitar um possível.

Ainda que existam divergências, as formas de acolhimentos são porosas e múltiplas. Quando não há dinheiro para pagar no final do mês a criança continua sendo cuidada porque se entende que o valor da relação é superior ao valor econômico. Nesse aspecto, cabe questionar se o dilema maussiano: “se dar, sem se sacrificar” não faz sentido aqui. O que observo é que essas mulheres tem no sacrifício – cuidar dos outros – o reconhecimento de que através desse trabalho um inventário de outras vidas e relações tornou-se possível. Através da existência delas outras existências se fazem. Aqui temos um claro exemplo de como a racionalidade econômica e o interesse individual é algo inferior e bem particular diante de outras lógicas que privilegiam uma ética do cuidado e da alteridade.

Ana Vièle escreve que “Capitalism Socery” trata de herdar o grito de Seattle, “fazer qualquer coisa com ele, prolongá-lo”. Para ela, uma das formas de romper com a paralisia consiste em: “Começarmos localmente com pequenas propostas, experimentações, ações em menor escala”. Segundo Vièle, não precisamos partir de uma “bela teoria antes da técnica”, um plano anual, um grande partido, um cronograma de ações. Podemos partir do que já existe, do fazer e de feitos que já acontecem. O manifesto nesse sentido é mais uma dessas “belas teorias” cheia de proposições gerais e universais. E não precisamos começar por belas teorias, sobretudo quando elas ainda acreditam que há algo de comum nos humanos per se.

O manifesto não deixa de ser algum tipo de interrogação sobre: E o que fazemos a agora? O que a Europa faz com isso agora? O que a França em crise faz diante do resto do mundo que a atormenta? E se essa é uma forma de aprendizado do “nós” ocidental em relação aos pensamentos alternativos abaixo da linha do Equador, o que está presente aqui são algumas das práticas cotidianas que ousam outros mundos possíveis no cotidiano das periferias urbanas e de algumas poucas pessoas que buscam reinventar grandes esquemas mercantis e estatais.

Finalmente, os coletivos de cuidados são bons para pensar, porque além do fato de realizarem um esforço pequeno em termos quantitativos, mas considerável em relação a grande classe média que adere as ofertas dadas pelo mercado e pelo Estado, eles possuem eloquência. A voz dos coletivos circulam em meios de prestigio, como redes sociais, artigos de jornais, meios universitários. Essas vozes são eloquentes justamente porque partem de outro lugar de fala: o de classes escolarizadas, profissionalizadas e majoritariamente brancas. Possuem o vocabulário que reúne as condições de serem ouvidos e de fissurar algo da “feitiçaria capitalista” atualizada cotidianamente pelos dispositivos de Estado e Mercado. Entretanto, ao mesmo tempo, apesar da força em realizar a diferença e por agir diante de critérios de afinidade de valores, podem muitas vezes estar vulneráveis a captura do sistema, e se constituir em outros mercados predadores, ao encapsulamento classista, ao fechamento da alteridade e a permanecerem como grupos de diferenciação.

Mas não se sabe ainda se esses mundos poderiam enriquecer uns aos outros e prolongar as saídas das alternativas infernais. Mas o fato de que ambos, cada um ao seu modo, atua longe e contra as normas regulatórias impostas pelo Estado e o Mercado de serviços à infância não é algo pequeno e deve ser contado e continuado.

Referências

Latour, Bruno. Il n’y a pas de monde commun: il faut le composer. In.: Multitudes. N. 45. Special, été 2011. Disponível em: http://www.multitudes.net/il-n-y-a-pas-de-monde-commun-il/ (Tradução: Vinícius N. Honesko)

Pignarre, Philippe & Stengers, Isabelle. 2005. Capitalist Sorcery. Breaking the Spell. New York: Pallgrave Macmillan.

Starhawk. 2002. Webs of Power: Notes from the Global Uprising. Gabriola Island: New Society Publishers.

Vièle, Anne. Posfácio: Potência e generosidade da arte de “prestar atenção”! Ponto Urbe. Tradução. Disponível em: http://www.pontourbe.net/edicao7-traducao

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