Como disse Jeudiel Martinez na proposta de nosso curso sobre “Venezuela, uma catástrofe em quatro lições”, a Venezuela existe no Brasil sobretudo como metáfora, “um simples símbolo dos conflitos entre direita e esquerda”. Por isso, torna-se muito difícil furar as bolhas ideológicas para tratar da realidade efetiva em curso. Certa “vontade de não saber” é fortíssima entre todos, independente das bandeiras político-partidárias.
Na contramão de certo “negacionismo geográfico”, Jeudiel Martinez nos presenteia, neste texto, com uma brilhante análise de geografia política dos “sinais do Caribe Amazônico”. Considero-a uma leitura fundamental para a interpretação da questão venezuelana, que deveria chegar não apenas no debate público, como também nos atores políticos em seus gabinetes e partidos.
O que se joga na região caribenho-amazônica, com seu imbricamento entre o exterior e interior, pode ser decisivo para qualquer política de soberania nacional e de integração latino-americana, fato que se torna impensável quando voltamos as costas ao Caribe real ou quando reproduzimos ad nauseam quadros de pensamento inteiramente inadequados aos tempos atuais.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!
Fios do Tempo, 04 de outubro de 2025,
A. M.

Sinais do Caribe Amazônico:
uma análise de geografia política
Os objetos e as coisas são sinais e, inversamente, os sinais são coisas.
David Lapoujade
“O drone é a mensagem”
Como todo mundo sabe, três contratorpedeiros e um submarino nuclear americanos se deslocaram para a Venezuela nos finais de agosto e, após o término do furacão Erin, a frota foi reforçada pelos navios USS San Antonio, USS Iwo Jima e USS Fort Lauderdale, que transportam a bordo um contingente de 4.000 fuzileiros marinos e por vários aviões P-8 de vigilância marítima. Logo depois, numa ação inédita, em 2 de setembro foi destruída por um drone uma embarcação civil acusada por Trump e Marco Rúbio de levar drogas. Seguiram outros quatro ataques, incluindo um na sexta 03.
Contrário à propaganda da direita, não é provável uma invasão nem é seguro que Trump esteja procurando uma mudança de regime e, mesmo como um bloqueio total das costas venezuelanas, uma invasão precisaria de mais navios e de pessoal. Mas desde o começo ficou claro que, com o sistema Aegis dos contratorpedeiros, é possível monitorar e interromper as rotas da droga – e talvez de outros contrabandos como o ouro –, pressionando tanto o narcotráfico como os governos que colaboram ou coexistem com ele.
Mas a Venezuela é só um caso extremo e não uma situação especial: na realidade, Trump pressiona, agride e tenta submeter a todo mundo e a ofensiva contra Maduro têm muito em comum com as pressões e ameaças sobre o México e inclusive contra o Canadá. Nesse contexto, navios e drones parecem ter uma função análoga à das tarifas: são forças, mas também sinais. De fato, o drone é uma messagem, e o ataque no 2 de setembro à pequena embarcação que, seguindo Trump, transportava “muita droga”, abriu possibilidades inéditas não somente para a Venezuela: depois desse ataque, Trump mudou o nome do Departamento de Defesa ao Departamento de Guerra, drones russos entraram na Polônia e aconteceu o ataque aos representantes do Hamas em Doha, no que parece uma escalada planetária.
No meio do barulho, é fácil esquecer a indiferença do venezuelano comum ao tema da “invasão” ou a ambígua relação da ditadura venezuelana com a administração Trump. Maduro é um aliado para algumas facções do governo americano, como a representada pelo Richard Grenell e especialmente para as petroleiras como a Chevron e para os produtores de asfalto como Harry Sergeant. Mas ele é um inimigo para a facção cubano-americana de Marco Rubio, que precisa da inimizade com Cuba e Venezuela para sua propaganda eleitoral: se, para Sergeant e Grenell, Venezuela é hidrocarbonetos, para Rubio e os “cubanos malucos”, ela é votos; e, para ambos, just business.
Até agora Trump, que precisa da colaboração da ditadura para seu projeto de limpar de venezuelanos o solo americano, parecia jogar com as duas tendências, simultaneamente obtendo acordos migratórios e energéticos favoráveis e enfraquecendo e pressionando o regime de Maduro. Essa duplicidade é inerente à geopolítica do Trump, na qual todos os países – com exceção da Rússia e de Israel – são mesmo inimigos por padrão e também oportunidades de negócios. Essas linhas aparentemente contraditórias combinam-se numa geopolítica de extorsão que, com as tarifas, todos os países do mundo já experimentaram.
Porém, parece que, desde o ataque do 2 setembro, temos uma nova variável: mesmo como Putin, parece que Trump quer virar um presidente de guerra ou, pelo menos, simular ser um, e a Venezuela oferece uma oportunidade incrível para isso. Desde o começo do ano, puxar e submeter a Venezuela e seus habitantes virou um espetáculo permanente que começou com as deportações de venezuelanos a El Salvador, continuou com as revogações dos paróles humanitários e as autorizações de proteção temporária, e se acrescentou com a destruição desse pequeno navio que, parece, estava recuando.
Embora, com sua burrice característica, a direita venezuelana interprete as agressões como um sinal de amizade e aliança, o fato é que a ditadura não virou um bode expiatório por ser ditadura ou por ter ligações com o narcotráfico (a quantidade de droga que passa pelo Caribe é nada diante da que passa pelo Pacifico e o “Cartel de los Soles” – como já mostrou insightcrime – é na realidade uma rede fluida e frouxa de células de tráfico inseridas nas forças de segurança venezuelanas). Mas se a Venezuela e os venezuelanos viraram bodes expiatórios é porque é possível usá-los para demonstrar força e fazer demagogia militar e securitária sem enfrentar nenhuma consequência seja política ou militar.
É a geografia, estúpido!!
Longe do Caribe – mas não tão longe, como vamos ver –, o assessor para assuntos internacionais do Palácio do Planalto, Celso Amorim, tinha expressado seu desconforto com a situação: vejo, com preocupação, o deslocamento de barcos de guerra americanos para a Venezuela. Acho que a não intervenção é fundamental. Como explicando, sob pressão, a ambiguidade do governo Lula diante do Maduro, o assessor também tentou distanciar-se, embora fosse tardiamente, da ditadura: quando houve as eleições, tivemos dúvidas, evitamos o cumprimento, mas mantivemos a relação, que é de Estado a Estado.
É verdade que a geografia impõe lidar com exigências contraditórias que – só até certo ponto – explicam a ambiguidade de Lula e Amorim diante do “regime desagradável”. E são exigências inescapáveis, pois, embora a maioria dos brasileiros não o entenda, de fato o Caribe começa em Pacaraima, talvez, até na Amazônia.
A orinoquia vincula a Amazônia com o Atlântico e o Caribe numa rede de rodovias acuaticas: os holandeses usaram os Caraíba para capturar escravos Arawak para suas plantações nas Guianas e, séculos antes, os rebeldes de Lope de Aguirre, após matar ao governador Ursua, tomaram o rio Negro e usaram o canal do Casiquiare para passar da bacia do Amazonas para a do Orinoco. Após uma longa viagem, Aguirre e seus homens, “los marañones”, os primeiros independentistas do continente, chegaram ao Atlântico, e logo depois à Ilha de Margarita, na costa da Venezuela.
Mas o vínculo entre Caribe e Amazônia é ainda mais antigo: os ancestrais dos Tainos, habitantes pré-colombianos das Antilhas, saíram do Saladero na bacia do Baixo Orinoco, e nos séculos seguintes, os Caraíbas os seguiram, que surgiram do fundo do labirintos de rios e percorreram, como eles, uma rota que vai desde o Orinoco ao Atlântico e do Atlântico ao Caribe, que, não por casualidade, tem um nome amazônico.
De fato, a mitologia que nutre um romance brasileiríssimo como Macunaíma, é a dos Pemones, um povo caraíba dos quais a maioria mora na Venezuela, um fato que fala da realidade geográfica cujo reconhecimento é o troço mais sensato da fala do Amorim: Ter boas relações (com a Venezuela) não é uma escolha, e sim uma imposição da geografia. Mas talvez seja mais correto dizer que o que não é uma escolha é ter relações com a Venezuela, que sejam boas, é outro tema.
O que o Brasil esquece, desprecia e, de algum jeito, nem consegue cogitar, é que o Caribe é um fato. Como falei em outro momento, não espero corrigir isso. Mas as consequências do Brasil ter uma sorte de costa Caribe no norte vão além de uma hipotética guerra da Venezuela com a Guiana ou com os Estados Unidos, ou de um novo fluxo massivo de refugiados. O que é mais importante é o novo desdobramento do problema amazônico: não só o desmatamento, a queimada e o garimpo, com todas suas implicações, mas o surgimento de poderes novos, inclusive novos tipos de soberanias locais e regionais que corroem a soberania nacional por baixo, por exemplo, o ELN, um grupo armado, que é um agente importantíssimo na fragmentação do território colombiano e venezuelano e protagonista no tráfico do ouro e a cocaína no Arco Mineiro do Orinoco.
Essa fragmentação está gerando uma onda de destruição ecológica e fragmentação territorial que, embora mais grave na Amazônia e Orinoquia venezuelanas, envolve também a Colômbia, as Guianas e outros países amazônicos, incluído o Brasil, onde começam a se expandir e prosperar soberanias criminosas como as que já repartiram entre si o sul da Venezuela.
Além e aquém da soberania
No Brasil, embora haja a obsessão amazônica, bem pouco se fala do que acontece no sul do Orinoco. Não adianta que o Edgardo Lander, um dos fundadores do movimento decolonial, tenha denunciado desde há vários anos a situação: as esquerdas e os progressistas, incluídos os decoloniais, resistem em incluir a distopia na floresta venezuelana nos seus mapas cognitivos. De fato, Enrique Dussel foi um propagandista entusiasta da ditadura e Ramón Grosfoguel ainda o é.
Tudo ocorre como se, para o progressismo, o colonialismo não é importante quando é interno. É pouco importante, para grande parte dos progressistas, a existência de uma colonização e destruição no sul do Orinoco – embora seja o Arco Mineiro –, além do cenário de um ecocídio. No eixo de novas ligações entre a Amazônia, o Caribe e o Atlântico, o ouro, extraído ilegalmente e com métodos artesanais, circula por rotas que já incluem o Brasil e a República Dominicana em atividades de contrabando. Embora sejam, às vezes, interrompidas pela Polícia Federal, elas chegam até a Turquia e a Líbia.
Na realidade, o “desagradável” regime da Venezuela, mais do que a realização de um projeto ideológico, é simplesmente um cenário onde as piores tendências da política latino-americana não tiveram contenção nem contrapartida: coalizão de militares autoritários, políticos fisiológicos, empreiteiros vorazes e redes criminosas, tudo isso encontrou simplesmente no chavismo – e mesmo na anacrônica retórica castrista e na demagogia nacionalista, ufanista –, o meio ótimo para se legitimar e expressar. Foi a esquerda mundial a que acreditou, ingênua e mansamente, nas narrativas inacreditáveis do partido civil-militar venezuelano.
É verdade que Venezuela é uma espécie de “Estado-Máfia”, onde se combinaram, da pior forma possível, a patrimonialização da coisa pública, a concentração de poder político e a fragmentação do território: mas é muito duvidoso que os Estados Unidos, que sob governos bem melhores, só conseguiram piorar a situação em países como Iraque e Afeganistão, teriam a capacidade ou o interesse de interromper essa espiral destrutiva. Na verdade, há muito tempo existe no Departamento de Estado a proposta de acelerá-la…
Para o Brasil e os países amazônicos, o problema é complexo: não basta uma resposta soberanista, pois não se trata simplesmente de potências estrangeiras que ameaçam a nação desde fora, mas sim de poderes locais que enfraquecem a soberania do país desde dentro, gerando até mesmo problemas que vão além das fronteiras nacionais. Portanto, eles não admitem soluções nacionalistas, mas sim novas circunscrições legais e políticas nas linhas da proposta utópica de um MIT da Amazônia do Carlos Nobre.
Não sabendo muito sobre o Brasil – ou simplesmente não querendo pregar sobre o país dos outros com a irresponsabilidade com que se prega sobre o meu – só posso falar sobre os problemas evidentes e comuns da região: a questão não é somente a preservação da floresta amazônica, mas também a integração das comunidades e regiões fronteiriças, evitando a fragmentação territorial e, portanto, o inevitável surgimento de soberanias locais, criminosas, cujo poder e influência só aumenta e se retroalimenta com a política fisiológica e patrimonialista e com uma visão simplória e cortoplacista da economia baseada na extração. De fato, esses são os três fatores que, junto ao militarismo, causaram o colapso logístico-institucional na Venezuela.
Após a catástrofe do único petroestado do continente, não adianta pensar a situação no arcabouço de dicotomias como nacionalismo/imperialismo ou democracia/autocracia: pensar que Maduro representa algum tipo de “anti-imperialismo” (ou que poderia mobilizar milhões de reservistas) é tão absurdo como acreditar que a intervenção de Trump tem algo a ver com a democratização da Venezuela. A defesa passiva da ditadura não tem superioridade intelectual ou moral frente à propaganda da direita, independentemente se a defesa é feita falando que as sanções norte-americanas causaram o colapso econômico-institucional venezuelano (o que não é verdade, como mostro na primeira aula do meu curso sobre Venezuela, pois iniciou anos antes da primeira sanção americana), ou acreditando num discurso de resistência popular (que na Venezuela só causa risadas).
Diante dessa nova fase – final? – do colapso da Venezuela, a América Latina – da qual o Brasil é parte, embora às vezes o esqueça – encontra se diante desafios heterogêneos:
– Por um lado, o desafio exógeno do neo-imperialismo de Trump. Ele recicla o velho imperialismo, desde as tarifas até a diplomacia do canhão (agora do drone), com o objetivo de criar uma zona de influência norte-americana que, abandonando o projeto de hegemonia global e de policiamento planetário, está se contentando em criar um bunker norte-americano, do qual a América Latina seria, novamente, a periferia e o quintal, el patio trasero. A esse respeito, apesar das mitologias extrativistas da esquerda, esse “quintal” latino-americano sempre foi, para eles, mais uma fonte de riscos e perigos do que de recursos naturais;
– Por outro lado, o desafio endógeno do avanço de formas novas de autoritarismo através dos quais as elites do continente procedem à captura e privatização do Estado. Além das diferenças ideológicas, os pontos em comum entre os regimes de Nicarágua, El Salvador, Venezuela e inclusive Estados Unidos falam de fenômenos autoritários independentes das ideologias e retóricas, fenômenos que, no caso da América Latina, são favorecidos não só pelos resíduos do autoritarismo do século XX – dos quais bolsonarismo e chavismo são exemplos claros –, mas também pelo patrimonialismo, pela política fisiológica e pela fragmentação territorial nas periferias urbanas e rurais (que, como uma doença da pele, estende-se afetando os centros).
O que aconteceu na Venezuela não foi só uma deriva autoritária mas uma verdadeira privatização do Estado, que é a realidade por trás do mito do “Cartel de los Soles”, do colapso logístico-institucional e da fragmentação territorial pelo qual o oriente e o sul da Venezuela estão quase totalmente controlados por atores armados não estatais. É natural que, para as velhas mentalidades socialistas e neoliberais do século XX, o fato de usar estratégias de governança socialista para privatizar a coisa pública seja incogitável por falta de um quadro capaz de interpretar esses processos, mas, para pensar corretamente a nossa atualidade, incluindo a coleção de fenômenos belicistas e autoritários que estamos testemunhando, é preciso mudar os problemas que estamos colocando.
Isso inclui acabar com a ideia de que a geopolítica é um simples jogo de xadrez dos Estados, para passar para uma concepção de geografia política na qual consideremos as relações entre todos os agentes incluindo vírus, inteligências artificiais, facções criminosas, fluxos de narcóticos e emigrantes. Enxergando a Venezuela desse jeito, dissipam-se a imagem simplória do “governo-cartel”, que alimenta a ridícula ilusão de que militares pretorianos, e políticos corruptos, junto com seus operadores financeiros, teriam realizado uma segunda revolução cubana na “Abya Yala”.
No caso do Brasil, talvez seja bom lembrar duas coisas mais: primeiro, que o Brasil é parte deste continente e tem, de algum jeito, suas costas no Caribe; e segundo, que não adianta ter bandeiras duplas sobre os direitos humanos, usando retóricas antiautoritárias dentro do país mas apoiando regimes autoritários no exterior. Essa duplicidade não é, obviamente, um vício apenas da esquerda, mas isso é outro tema, a ser abordado em outra análise.

Jeudiel Martinez é sociólogo e escritor colombo-venezuelano, refugiado no Brasil. Foi professor convidado da Universidade Central de Venezuela e coordenador do projeto Biblioteca Ayacucho Ilustrada, adaptando a literatura clássica latino-americana aos quadrinhos. É autor do livro A rebelião obediente: sobre o colapso da Venezuela.

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial

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