Fios do Tempo. Polarização afetiva e as eleições de 2024 nos EUA: uma conversa com Aaron Schneider

No último dia 24 de julho de 2024, os pesquisadores do Na Memória Puc-Rio participaram de um evento organizado pelo programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde apresentamos o grupo. Foi um debate sobre as afinidades entre as linhas de pesquisa em ciência política e sociologia naquela instituição, que contou com a presença do professor visitante Fulbright Aaron Schneider, da Josef Korbel School of International Studies (Leo Block Chair; Director, ICRS; Degree Director, Development). A iniciativa faz parte da internacionalização do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRRJ, do qual a equipe do @namemoria.pucrio fez parte.

Com o apoio do Ateliê de Humanidades, editamos e publicamos a breve entrevista exclusiva que o professor Aaron Schneider concedeu aos pesquisadores do Na Memória. Realizada por Alessandra Maia, Vida Diniz e Álvaro Climaco, ela versa sobre a polarização afetiva na política contemporânea, com atenção especial ao processo eleitoral de 2024 nos EUA.

Alessandra Maia
Fios do Tempo, 03 de agosto de 2024

Quem é Aaron Schneider?

Aaron Schneider é Josef Korbel School of International Studies (Leo Block Chair; Director, ICRS; Degree Director, Development). Suas pesquisas centram-se na intersecção entre riqueza e poder, tendo realizado investigações na América Latina, na Índia e na África Subsariana. Ele dá ênfase, em especial, no estudo das finanças públicas como uma janela para a economia política do desenvolvimento e da democracia. É organizador do livro “Soberania popular na era digital” (editora Hucitec, 2023).

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Polarização afetiva e as eleições de 2024 nos EUA:
uma conversa com Aaron Schneider

Vida Diniz: Como você analisa o tema da polarização afetiva nas eleições de 2024 dos Estados Unidos?

Aaron Schneider: A polarização afetiva nos Estados Unidos me parece que vai definir a eleição. Desafortunadamente, porque temos muita política pública para discutir e que deveria ser a base da disputa. Gastar mais nisso, naquilo ou em outra coisa. E abrir novas estratégias internacionais ou nacionais. Mas, na verdade, muito da disputa vai se definir com a polarização afetiva. E essa polarização afetiva se identifica, no caso dos Estados Unidos, por identidades e “membresia” (filiação) em grupos excludentes. Então o Partido Republicano e Donald Trump são muito hábeis em definir a filiação política do país ao redor de assuntos raciais, nacionalistas e de gênero. Eles definem quem é o cidadão certo ou o ser humano certo para receber a atenção do governo e os benefícios da sociedade através dessas dimensões, criando uma população, uma definição da população, os excluídos da política pública.

Assim, usando essa definição sob a perspectiva da polarização afetiva, eles estão conseguindo forçar a população a optar por uma proposta que os inclui – uma maioria branca – e que exclui os demais. E os democratas estão sendo muito ingênuos em aceitar esse tipo de polarização, porque querem definir Trump e os republicanos como criminosos, como incapazes, como mal-educados. Esse tipo de definição da polarização afetiva vai ter dificuldades para construir uma maioria, e vai deixar o campo aberto para o Trump.

Vida Diniz: E quais as semelhanças que você identifica em relação ao Brasil?

Aaron Schneider: Brasil, obviamente, vocês conhecem muito melhor do que eu. Eu conheço algumas coisas que tenho aprendido no tempo. Mas o paralelo, os paralelos com o Brasil, vem do superficial. Existia um atentado à vida do Bolsonaro, houve um atentado à vida do Trump. Existe um tipo de debate de baixo nível no discurso do Bolsonaro, que é paralelo ao baixo nível de discurso do Trump. Mas eu também sinto que vai mais além disso. Primeiro devo dizer que as diferenças também são evidentes. As dimensões de exclusão nos Estados Unidos incluem uma dimensão de xenofobia contra os imigrantes que não desperta a mesma raiva no Brasil, como desperta nos Estados Unidos. Então as dimensões de exclusões são diferentes, mas a ideia de que se pode excluir uma parte da sociedade, que se pode definir quem merece e não merece “filiação” nos benefícios da sociedade. E esse é o maior paralelo que existe. Há conexão a partir disso, é possível dizer que o mundo, os dois países – Estados Unidos e Brasil – e outras sociedades também, na Europa – vimos na França – e em outros lugares, estão enfrentando momentos muito incertos da geopolítica, da economia, o que desperta preocupações nas populações. Então, Trump e Bolsonaro, Modi na Índia e Le Pen na França, a direita chega com um argumento simplista de como enfrentar essas incertezas. E esse argumento simplista é que a culpa é dos outros, das pessoas que não merecem ser membros dessa sociedade. É uma resposta falsa a preocupações que são verdadeiras. É simplista e direta. E, desafortunadamente, no caso dos Estados Unidos, a esquerda e os democratas não têm chegado com uma explicação simples das verdadeiras preocupações e uma resolução suficientemente inteligível para enfrentar. Então, Trump e Bolsonaro, e outros desse tipo, veem o caos do mundo, reconhecem isso e oferecem soluções simplistas. E é isso que é preciso enfrentar.

Vida Diniz: Você recomenda alguma referência bibliográfica acerca da polarização afetiva?

Aaron Schneider: Eu posso mandar uma lista de artigos. Existe uma produção bastante ativa no momento sobre esse conceito, porque vemos que estão aparecendo muitas disputas políticas. Essa dimensão afetiva da política é um tema de uma edição do Latin American Politics and Society (LAPS). A Latin American Politics Society traz uma coleção de artigos sobre a polarização afetiva.1 Uma das observações que eu acho interessante dessa coleção é que a dimensão da polarização afetiva em alguns lugares é coincidente com a dimensão de política pública de esquerda-direita tradicional que organiza a política. Em outros lugares é ortogonal. Então, tanto pode ser uma distração como pode estar separada da dimensão ideológica esquerda-direita. Ou seja, essa diferenciação entre os sistemas partidários da América Latina é algo que eu acho bastante útil para entender por que em alguns lugares caímos em uma disputa política que realmente é afetiva, que exclui outros assuntos da política e em outros lugares. Como são coincidentes, é possível manter um debate sobre a política pública dentro da política, mesmo quando entra esse assunto afetivo.

Álvaro Climaco: Eu tenho uma pergunta que na verdade é uma reflexão que acho que perpassa um pouco pela politização afetiva, que é sobre o avanço tecnológico e o quanto isso impacta. Acho que perpassa por vários assuntos que a gente debateu aqui antes. Você traz esse discurso do quanto as respostas simplificadas estão sendo determinantes agora. Quando a gente estuda Hannah Arendt e outros filósofos, outros sociólogos também, a gente percebe que é um pouco… eu não posso chamar isso de fascismo, mas tem traços fascistas, né? A gente pega o tempo hábil da população em buscar conhecimento. A gente vê que ele está cada vez menor e as respostas simples são cada vez mais eficazes. E aí acho que intensifica um pouco a polarização efetiva. E aí, eu me pergunto como que, na sua opinião, tanto a esquerda quanto os democratas, ou todo o movimento contra essa extrema direita que vai crescendo no mundo – articulada talvez até um pouco pela crise do liberalismo e um protecionismo –, como a gente poderia pensar que essa esquerda ou esse movimento que está aí, vamos dizer que estão mais desse lado, poderia utilizar da internet, utilizar da inteligência artificial. Coisa que a extrema direita vem fazendo de forma eficaz. Como a esquerda também poderia responder dessa mesma forma? Que tipo de movimento, que tipo de estratégia poderia ser adotada para combater isso de igual para igual?

Aaron Schneider: Então, isso é uma ótima pergunta que ainda não está muito bem estudada. Temos pessoas que alegam que a direita tem uma vantagem nisso por utilizar respostas simplistas. Então, sim, eles são capazes, vemos no Brexit, na Inglaterra. Não que a Cambridge Analytica e a eleição de Trump também não fossem um uso dos dados digitais para dividir, para segmentar a população e chegar a populações que eram vulneráveis ou suscetíveis a esses argumentos simplistas, que podem chegar a eles com um argumento simplista e puxar o voto deles para o Brexit ou para o Trump em 2016. Agora já evoluiu e o perigo com a inteligência artificial é que até a resposta simplista pode ser criada com o computador, não é? Não é somente segmentar a população, mas a mesma resposta simplista pode ser criada através do learning da aprendizagem, da computação. Então, existe ainda mais possibilidade de incluir as pessoas com argumentos desenvolvidos para eles. Para cada pessoa um argumento específico e esse tipo de aprendizagem e impacto na democracia vai ser o de que podemos estar elegendo candidatos computadorizados, basicamente. Um candidato que tem uma mensagem produzida por uma máquina que encontra o algoritmo ideal para conseguir seus 50% mais um. Sim, sem qualquer campanha.

Alessandra Maia: Por isso que é tão importante o debate presencial?

Aaron Schneider: Sim. Sim.

Alessandra Maia: E uma das questões aqui no Brasil, quando Bolsonaro foi eleito, é o fato dele ter sofrido atentado, porque acabou que ele não participou de debates. Então, como diminuir a eficiência das mensagens prontas? Ainda o debate presencial é insubstituível nesse sentido, porque ele expõe o que foi exposto inclusive por Biden. Sem ser, claro, né? A incapacidade de transmitir através da linguagem, de comunicar e elaborar. Eu acho que isso importa, ainda fará a diferença, sim. O presencial é insubstituível.

Aaron Schneider: Sim. Então, mas eu não respondi exatamente à sua pergunta, que seria a resposta da esquerda. Eu não tenho certeza de que os mesmos instrumentos não sejam disponíveis para a esquerda, mas o que é certo é que a esquerda não tem aproveitado igual à direita. E, ao mesmo tempo, eu sinto que existe a combinação de irracionalidades, que está disponível para a direita construir uma coalizão, combinando um racista com um “afrobrasileiro liberal”, não? Então eles conseguem construir esse tipo de coalizão mesmo que não faça muito sentido no racional. E então existe esse tipo de possibilidade para a direita, que não existe para a esquerda. E a esquerda vai precisar desenvolver outro tipo de uso dessas tecnologias para construir uma coalizão que ainda não tem feito.

Transcrição de Vida Diniz, revisão Equipe Na Memória

Nota

1 O professor Schneider se refere à recente publicação sobre o tema da polarização e governança na América Latina, ver a introdução ao mencionado dossiê de Sarsfield R, Moncagatta P, Roberts KM. Introduction: The New Polarization in Latin America. Latin American Politics and Society. Published online 2024:1-23. doi:10.1017/lap.2024.15. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/latin-american-politics-and-society/article/introduction-the-new-polarization-in-latin-america/6627880462D46753E3A0C7E7B716A24D. Acesso em 29/07/2024.

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