Fios do tempo. Abrir a sociologia ao mundo e à universalidade – por Stéphane Dufoix e Sari Hanafi

Temos a honra de publicar hoje no Fios do tempo: análises do presente um artigo dos sociólogos Stéphane Dufoix e Sari Hanafi, que defende a abertura da sociologia para uma universalidade que seja do tamanho do mundo. Com isso, eles expressam o esforço da International Sociological Association (ISA) para tornar as ciências sociais mais sensíveis à pluralidade das tradições sociológicas nacionais e não europeias. Com o objetivo de fomentar o debate, seguem-se, também, comentários ao texto feitos por Paulo Henrique Martins, Felipe Maia, Marcos Lacerda e André Magnelli.

Desejamos a todos uma excelente leitura e reflexão!


Abrir a sociologia ao mundo e à universalidade

Fios do tempo, 19 de setembro de 2019*

Setenta anos depois do congresso constitutivo da ISA em Oslo, é preciso ir ainda mais além na abertura da sociologia, especialmente daquela dos países não ocidentais.

Em 1995, o relatório da Comissão Gulbenkian, que foi dirigido por Immanuel Wallerstein (ler as páginas 24-25) – recentemente falecido no último 31 de agosto – fazia um convite para “abrir as ciências sociais” repensando as condições da interdisciplinaridade e a distinção clássica entre as ciências sociais e as ciências naturais. No entanto, o apelo para aceitar o caráter situado – ocidental – da herança sociológica e para ultrapassar a oposição simplista entre o universal e o particular permanecia em grande parte mágico. A partir de então, outros presidentes da Associação internacional de sociologia (ISA), como Michel Wieviorka ou Michael Burawoy, clamaram em favor de um pensamento sociológico mais global e de um apoio às diferentes sociologias nacionais. Setenta anos após a realização do congresso constitutivo da ISA em Oslo (setembro de 1949), parece possível e desejável ir ainda mais longe na direção da abertura da sociologia, particularmente em três direções específicas:

– Antes de tudo, é necessário abrir os olhos de um grande número de sociólogos dos países ocidentais – e não apenas deles – sobre a dimensão global de uma corrente de ideias e de uma disciplina que, já na virada do século XX, não estavam de forma alguma limitadas aos Estados Unidos, ao Reino Unido, à França ou à Alemanha. Provenientes da apropriação dos trabalhos de Comte ou de Spencer, já estavam presentes ensinos, periódicos e autores que reivindicavam a sociologia na Colômbia, na Venezuela, na Argentina, na Rússia, no Japão ou na China. Ainda hoje, nosso conhecimento desta história – e destas histórias – é muito incompleto, assim como a maneira pela qual explicamos, como professores, o passado e o presente da disciplina na América Latina, na Ásia, na Europa Central e Oriental, no mundo árabe, na África Subsaariana e na Oceania.

– O ensino da disciplina limitou geralmente a história da sociologia à história das teorias sociológicas. Os laços históricos entre o desenvolvimento das ciências sociais e a expansão do colonialismo europeu e norte-americano impuseram uma divisão internacional do trabalho epistêmico, na qual o trabalho teórico é a prerrogativa do centro e, portanto, do Ocidente; sendo a lista de autores considerados “clássicos” e a ser lido ou conhecido por estudantes de sociologia quase sempre a mesmo em todos os países, incluindo-se apenas os homens ocidentais. A abertura do cânone deve envolver homens e mulheres sociólogos oriundos de países não ocidentais que produziram grandes trabalhos teóricos, epistemológicos e/ou empíricos (Alberto Guerreiro Ramos, Ari Sitas, Orlando Borda Fals, Irawati Karve, Akinsola Akiwowo, Fátima Mernissi, Fei Xiaotong, Anwar Abdel-Malek, Ali el-Kenz ou Tsurumi Kazuko, para citar apenas alguns). Também deve incluir aquelas e aqueles que, nos países ocidentais, foram submetidos à lei de uma canonização de gênero e racializada (Harriet Martineau, W.E. DuBois, Marianne Weber ou ainda Jane Addams). Esta abertura não pretende substituir um cânone por um contra-cânone, nem mesmo abrir ao infinito a lista de autores a serem conhecidos pelos estudantes: ela visa oferecer, acima de tudo, uma imagem historicamente justa dos nascimentos da sociologia, mas também para reinjetar a dinâmica das relações de poder (geográfica, racial, de gênero) no coração da apreensão das constituições e dos desenvolvimentos disciplinares.

– Finalmente, o questionamento da história da sociologia e da constituição do cânone tem a pretensão abrir o sentido do universal. A busca por leis gerais da evolução social, o desejo de calcar a sociologia sobre o modelo das ciências naturais, bem como o eurocentrismo dos teóricos clássicos, levaram muitas vezes à confusão de duas formas de universalismo: a busca positivista de conceitos amplamente trans-históricos e trans-espaciais e o postulado de uma ciência do social para a qual a produção do saber seria desconectada das disposições culturais e sociais dos produtores de saber. Para seguir este postulado, o conhecimento sociológico não podia ser explicado e compreendido sociologicamente! Por tudo isso, renunciar a essa forma de universalismo sobressaliente em favor da ideia de que a produção de conhecimento está sempre situada não leva à proclamação de um relativismo absoluto, mas sim à transformação do estatuto da universalidade. O universal nem sempre está aí: ele é sempre um produto histórico das lutas pela definição do que é a sociologia. Portanto, pode muito bem ser concebido e conceituado – talvez mais sob o termo de universalidade do que por um universal de algum lugar – na tensão entre o geral e o particular, entre o global e o local. A universalidade está sempre por construir, no debate, no combate, no diálogo, para hoje e para amanhã.

Stéphane Dufoix é professor de sociologia da Universidade Paris-Nanterre.

Sari Hanafi é professor da Universidade americana de Beyrouth e presidente da International Sociological Association (ISA)

* Publicado originalmente em francês: “Ouvrir la sociologie au monde et à l’universalité”, Le Figaro, 5 setembro de 2019.


Comentários sobre o artigo

Paulo Henrique Martins (UFPE)

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A divulgação pelo Ateliê de Humanidades deste artigo que constitui quase um pequeno manifesto a favor de uma sociologia pluriversal, é muito oportuna para o debate que emerge na América Latina e no Brasil sobre a necessária reciclagem das ciências sociais e da sociologia. No artigo, os autores convidam os sociólogos a renunciarem ao modelo epistêmico universalista dominante durante os séculos XIX e XX que reproduzia uma divisão internacional do trabalho (no qual os autores clássicos a serem lidos eram sempre europeus ou norte-americanos ou homens do sexo masculino e branco) e que ficou desatualizada face os novos acontecimentos mundiais. A crítica a este universalismo fortemente marcado pelas cores do positivismo abstrato que desconsiderava o contexto empírico da produção da vida deve ser substituída, segundo os autores, por um outro entendimento que valoriza a produção “situada” e que “não conduz à proclamação de um universalismo absoluto, mas à transformação do “estatuto da universalidade”.

A proposta da contextualização do conhecimento, como o sabemos, é uma das exigências metodológicas da crítica pós-colonial na sua busca de assegurar o pluralismo de campos sociológicos igualmente legítimos. Mas o debate ganha coloração particular quando é proposto por dois autores bem localizados nas associações internacionais de sociologia. Mais que um texto teórico, o artigo é uma declaração a favor de uma sociologia mundial que responda ao convite feito por I Wallerstein, recentemente falecido (e homenageado pelos autores do artigo), para a abertura necessária das ciências sociais a uma visão interdisciplinar, nacional e internacional, e que ressignifique a relação entre homem e natureza. Repensar o universalismo não significa substituir uma visão de universalismo abstrato (central) por outra (periférica), igualmente abstrata, mas sim abrir a construção mental do tempo e do espaço para uma experiência real do viver juntos com sabedoria individualizante.

Este é o desafio que nos faz o artigo-manifesto escrito por Dufoix e Hanafi. Trata-se de um convite oportuno no momento em que o deslocamento do imaginário da modernidade ocidental nos abre a percepção para a experiência fascinante de reinventar a sociedade humana plural, universal, nacional e situada.

Felipe Maia G. da Silva (UFJF)

felipe-maia

É muito bem vindo o movimento que vem fazendo a ISA em direção a uma sociologia global; e o potencial que se abre para alterar a concepção que a sociedade e os sociólogos têm de seu trabalho é imenso. Pluralizar os cânones da disciplina é certamente parte importante desse esforço, bem como integrar as histórias das sociologias nacionais à história global da disciplina, especialmente se atentos à pluralidade interna, por vezes muito pouco canônica, desses movimentos.

Muito há a fazer ainda neste reenquadramento da disciplina. Se hoje a imagem de modernidades múltiplas vem se estabelecendo em terreno mais firme, há muito a fazer a respeito da integração do “encontro colonial” e suas consequências em nossas concepções de modernidade, incluindo aí o estudo dos colonialismos internos que marcam o desenvolvimento dos estados nacionais modernos. Há também que se pensar as experiências diversas e heterogêneas de crise e as condições em que o trabalho intelectual se desenvolve nesses contextos. Esta consciência do caráter situado do conhecimento não deve contudo nos levar ao particularismo, sobretudo quando atraído pela força gravitacional dos estados nacionais. A heterogeneidade das experiências de crise e do conhecimento que podemos ter sobre elas não deve ofuscar o caráter global dos problemas mais decisivos e mais estratégicos que desafiam a imaginação sociológica e as capacidades de ação das instituições e dos movimentos sociais, pois é no plano global que se jogam os destinos da democracia, da ecologia, ou dos direitos humanos. Se uma das tarefas centrais de uma sociologia crítica é o autoesclarecimento de movimentos e capacidades transformadoras existentes na vida social, a pluralização do conhecimento pode ser um caminho para sua melhor universalidade.

Marcos Lacerda (UERJ / Ateliê de Humanidades)

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Um dos aspectos mais decisivos do artigo, a meu ver, diz respeito ao fato de se afirmar que o impulso para se ampliar o quadro de sociólogos e sociólogas para além da produção sociológica associada ao cânone Ocidental não significa necessariamente negar o cânone. É, em parte correto, mas também discutível associar pensadores da envergadura de Marx, Weber ou Durkheim a um suposto “eurocentrismo”, como se suas análises estivessem necessariamente reduzidas ao contexto histórico, político e social de sua criação. Não estavam. No entanto, ainda assim, ampliar o escopo da perspectiva sociológica incluindo autores e autoras de outros espaços culturais, sociais, históricos e políticos é fundamental para que a própria ciência do social possa avançar e desenvolver teses sobre as diversas formas sociais que compõem a vida moderna, concentradas no conceito, sociológico por excelência, de sociedade. Não se trata nem de uma negação do cânone, tampouco da adesão a um relativismo particularista autorreferente, mas de um desejo de alargamento do estatuto de universalidade incluindo trabalhos teóricos e epistemológicos de grande envergadura feito por sociólogos e sociólogas de países não-ocidentais e que estão por ser melhor conhecidos, analisados e, por que não o dizer?, questionados e repensados, como todo e qualquer trabalho teórico.

André Magnelli (Ateliê de Humanidades)

28383447_2003436263205822_1301840944_nEste texto é de fato um quase manifesto. Ele reforça a importância de que a sociologia passe pelo aprendizado da crítica pós-colonial e decolonial. De fato, a desnaturalização da divisão internacional do trabalho epistêmico demanda uma reconstrução descolonizada da história das ciências sociais nas respectivas tradições nacionais e regionais. A questão é importante para o Brasil, tendo em vista que a experiência da intelectualidade em nossas terras está em permanente tensão com o solo nativo. Sabe-se o quanto nos guiamos em função das modas intelectuais europeias e americanas, o que nos conduz a um trabalho (sisífico) de esquecer e recomeçar sempre os esforços sistemáticos e interpretativos de gerações anteriores. Isso se expressa na própria dinâmica do mercado editorial, que deixa obras clássicas esgotarem ou serem relegadas ao esquecimento. 

Por esta razão, o texto aponta para dois caminhos entrecruzados. De um lado, ele demanda a recusa de uma separação entre teoria social e pensamento social brasileiro, incitando-nos a um esforço em busca de uma ciência social “no Brasil, do Brasil e/ou à brasileira”. De outro lado, ele nos convida a se abrir para constelações sociológicas não europeias (latino-americana, árabe, africana, asiática, etc.). Ou seja, precisamos, ao mesmo tempo, nos desprovincializar em relação ao mundo e reconhecer nossas potenciais universalidades. 

Contudo, é preciso ressaltar que o esforço só é legítimo caso se evite fechamentos em “nacionalismos sociológicos”, “patriotismos teóricos” ou “xenofobias científicas” (qualquer desprezo pela sociologia européia e americana seria um desserviço). Vale lembrar que se um Lévi-Strauss denunciava o humanismo etnocêntrico, onde o “humano” era o homem branco, adulto e europeu, ele demandava um humanismo efetivamente universal e ampliado (etnográfica, científica e filologicamente instruído). Eis o espírito científico que Dufoix e Hanafi reivindicam, dizendo que o que está em jogo é o sentido do universal. Desta forma, creio que há contribuições importantes oriundas do Movimento anti-utilitarista em ciências sociais (M.A.U.S.S.), da histórica filosófica do político de Pierre Rosanvallon e da nova retórica de Chaïm Perelman, todos projetos universalistas que reconhecem que não há universal que não seja plural e experimental. Neste sentido, a recusa de um positivismo abstrato pode ser associada a uma sociologia histórica do político, onde a reconstrução das tradições permite não apenas revelar relações de poder e dominação, mas também pensar os esforços de pensamento de forma positiva, como emergências de representações, instituições e práticas diante de problemas concretamente estabelecidos.


Fios do Tempo

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