Fios do tempo. O anti-intelectualismo diante da figuração moderna do horrível – por Paulo Henrique Martins

O “Fios do tempo: análises do presente” publica hoje um artigo de Paulo Henrique Martins (UFPE) sobre a ascensão do anti-intelectualismo.

Diagnosticando o avanço do desconstrutivismo não apenas como resposta a uma crise da modernidade, mas também como movimento autofágico do capitalismo neoliberal, Paulo Henrique contribui para nossa reflexão, feita nesta semana no Ciclo de Humanidades, sobre o sofrimento psíquico. Ele nos propõe uma análise sobre a forma como o processo de fragmentação em curso abala as estruturas psíquicas e emocionais dos indivíduos e desencadeia os quadros psicopatológicos. A fim de compreender as fontes do anti-intelectualismo, ele recorre à figura do “horrível’, presente em Sartre, propondo uma atitude mais compreensiva sobre as raízes de movimentos como o “terraplanismo”. Com isso, ele demanda uma abertura das ciências sociais às dimensões afetivas dos seres humanos; e nos sugere, em face à Gaia e ao Antropoceno, o fertil caminho de um cosmocentrismo estético.

Desejamos uma excelente leitura!


O anti-intelectualismo diante da figuração moderna do horrível

Recife, 28 de agosto de 2019

A emergência do anti-intelectualismo é uma novidade que vem surpreendendo os cientistas sociais. Bem ou mal, fundamos nossas reflexões teóricas e nossos sonhos numa perspectiva moderna que cultivava a esperança da emancipação pela acumulação progressiva de recursos produtivos e tecnológicos. Mesmo os autores simpáticos a teses que contestam a superioridade cultural do eurocentrismo, aqueles pós-modernos, pós-estruturalistas e pós-coloniais, não abriam mão da hipótese de que a desconstrução das narrativas da modernidade ocidental traria implícito, em potência, a liberação de outras narrativas de sociedade mais plurais, justas e democráticas. Eles não previram o fato que o desconstrucionismo é não apenas um método acadêmico voltado para desmontar narrativas conservadoras, colonialistas e patriarcais. Trata-se também de um fenômeno histórico mais geral relacionado com o esgotamento de uma certa percepção limitada do mundo e que assusta pela sua novidade emocional.

Neste processo de fragmentação desta percepção de mundo, o capitalismo, como agente de produção cultural, devora suas entranhas para parir um programa alucinado de geração de riquezas materiais e fictícias que desbotam a existência do humano. Esta é a face cruel do desconstrucionismo como expressão histórica do capitalismo devorador. Não se trata de um programa que esteja comprometido com a promessa teleológica de um futuro melhor, aquele contido na utopia encantada do protestantismo histórico. Testemunhamos, agora, um movimento autofágico de desorganização das representações evolutivas do humano que conhecíamos e que prospera com a perda de esperanças. Isto nos leva a buscar proteção nos pequenos gozos imediatos e que são impulsionados não pelas pulsões de vida mas pelas de morte. O capitalismo na sua versão neoliberal emergente faz lembrar o famoso quadro de Goya, Saturno devorando o filho, no qual o deus romano devora seus filhos que teve com Reia por temor de ser destronado por um deles, mas sobretudo para cumprir a inevitabilidade do tempo (de nascer e de morrer). 

Os alertas da antropologia ecológica sobre os impactos da era do Antropoceno na sobrevivência da civilização humana não foram ainda levados muito a sério pelas ciências sociais. Não prestamos atenção suficiente sobre a relação entre a deterioração das instituições comunitárias e sociais – que tradicionalmente regulavam nossos modos de vida nos planos primários, da família e dos amigos, e secundários das instituições profissionais, políticas e cívicas -, e a fragmentação das subjetividades coletivas. Este processo de fragmentação reflete o abalo das estruturas psíquicas, emocionais e morais de cada indivíduo e da sociedade, explicando as razões por que as duas enfermidades mais importantes do planeta no momento sejam a depressão e a ansiedade. O aumento dos indicadores de deterioração provoca compreensivelmente um clima de catastrofismo que, no entanto, apenas pode ser solucionado por uma política ampla de solidariedade, do local ao global, e, sobretudo, dos sentidos do ser humano como agente ecológico.

Este clima emocional de negatividades atualiza as reflexões de Jean Paulo Sartre sobre o horrível, um tipo de emoção que nos esmaga: “O horrível não é apenas o estado atual da coisa, é ameaça quanto ao futuro, estende-se por todo  o porvir e o obscurece, é revelação sobre o sentido do mundo”. E ainda: “Para sentir o horrível não basta apenas imitá-lo, é preciso que sejamos enfeitiçados, excedidos por nossa própria emoção, é preciso que o quadro formal da conduta seja preenchido como algo de opaco e de pesado que lhe serve de matéria” . 

Nada mais atual que esta verdade emocional para definir o que vivemos neste momento no Brasil: imagens dolorosas de destruição ambiental, social, econômica e moral que degradam as imagens que tínhamos de nós mesmos como povo pacífico.

O anti-intelectualismo nos convida para refletir sobre onde nos equivocamos com relação à modernidade. Nesta discussão sobre a crise moral a respeito das fronteiras entre a verdade e a mentira vale lembrar o valor heurístico da narrativa recente do terraplanismo (que propõe ser a terra plana e não redonda), contrariando  as teses do do racionalismo científico. A afirmação de que a Terra não é redonda, mas plana, é cômica. Mas há algo mais profundo neste debate absurdo na medida em que ele revela a falência do projeto iluminista europeu de fundar o domínio da Razão. Este foi um programa ambicioso que se inspirava na perspectiva de generalização de uma atitude racionalista e científica da sociedade humana com vistas a um futuro de bem-estar material generalizado. Neste sentido, as tentativas dos revolucionários franceses do final do século XVIII de destruir as imagens dos santos católicos para erigir a estátua da Deusa Razão como vimos na igreja de Saint Paul, em Paris, não funcionaram a contento. Algo deu errado no projeto iluminista que não soube – ou não pôde – entender que a realidade humana é fabricada por uma complexidade dos elementos culturais tradicionais e de condicionantes emocionais e afetivos que não podem ser contidos no universo intelectual do racionalismo científico.

Assim, antes de ridicularizarmos os terraplanistas e de todos que estão proclamando a verdade da ficção, devemos nos perguntar sobre o que deu errado nas previsões de racionalização geral da modernidade ocidental. O que fazer com a crescente onda de anti-intelectualismo que ameaça tragar o edifício das Ciências e das Humanidades? A crítica intelectual precisa superar seus preconceitos cientificistas para treinar um entendimento compreensivo das emoções que não as situe como um mero objeto ou um acidente, como sugeriam os antigos tratados de psicologia. Como explica ainda Sartre, é importante entender que as emoções têm significação própria que somente pode ser compreendida se a aceitarmos como “o ser da realidade humana, isto é, enquanto é constitutivo para nossa realidade humana ser realidade-humana afetiva”.

A expansão do fundamentalismo, em geral, e do terraplanismo, em particular, tem então que ser entendida como reação anti-intelectual e “humana” que leva às últimas consequências a ambição dos modernos de domesticar as emoções de culpa e de medo para promover um ritual de dominação apolíneo, festejado pelas armas, pelo fogo e pelos banquetes. Este programa do progresso histórico e científico não funcionou a contento. Precisamos entender, então, que a narrativa terraplanista não se apoia no plano da evidência cognitiva e científica, mas de narrativas psicológicas de recusa de um mundo que oferece a retórica da liberdade mas que, na prática, impõe um programa de dor, de rejeição, de horror. Estas emoções geram, logicamente, ressentimentos e defesas afetivas que estão presentes nas narrativas terraplanistas e em outras que contribuem para o encantamento mundano da ficção que se apresenta como real, por mais absurdos que possam parecer.

A perda de sentido sobre um futuro idealizado de progresso irreversível e ilimitado coloca necessariamente o desafio de se pensar na importância da auto-responsabilidade de cada um na organização da vida. Isto começa pelos modos afetivos como nos relacionamos com os mais próximos: os cuidados com nossas famílias, com os jovens, com os idosos, com os desvalidos, com os abandonados e humilhados; o cuidado com o meio ambiente, com as florestas, com os animais, com as plantas. Temos uma lição a aprender como cientistas sociais, a começar com a meditação sobre a realidade humana-afetiva em cada um de nós, e no modo como organizamos nossas ideias, valores e interpretações do mundo. Este é um desafio árduo para os que ainda alimentavam a esperança de organizar as ciências sociais pelo empírico objetivado das ciências “duras”. A saída do horrível do Antropoceno exige uma outra atitude de vida. Talvez devamos abrir mão definitivamente da esperança de redenção pela evidência científica para descobrir o cosmocentrismo estético representado pela figura de Gaia, no interior da qual somos apenas um grão de areia. Isto exige muita humildade mas certamente é o caminho para repensar  o que fazer com a ciência, com a imaginação e com a vida.

Paulo Henrique Martins (UFPE)

Professor titular da UFPE, ex-presidente da ALAS e autor de “Itinerários do dom: teoria e sentimento” (Ateliê de Humanidades Editorial, 2019)

Fonte da imagem: Francisco de Goya, O voo das bruxas (1798)


ph

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