Museu Nacional: um réquiem para a nossa memória cultural

(Foto: Agência Brasil/Tânia Rêgo)

Por: Lindoberg Campos*

Ó pobres políticos que em vão dizeis: “no meu governo será diferente, investiremos em cultura e educação”; vinde e contemplai as cinzas nas quais se transformaram milênios de história coletiva. Contemplai a irreparável perda e lamentai vossa ignorância que brinda a posteridade com frases prontas, vazias e que atestam apenas a incapacidade de compreender o valor cultural inestimável do que foi consumido pelo fogo.

Ó míseros políticos! Poupai a inteligência humana de vossos vômitos fraseológicos. Deixai que lamentemos nossa dor diante do trágico, mas anunciado espetáculo de danças das chamas. Guardai para si o oportunismo barato e pragmático que faz das tragédias coletivas escadas de beneficiamento particular. Apenas observai os olhos banhados em lágrimas daqueles que em vão constroem castelos de ventos para posteridade e aprendei um pouco sobre a contribuição dos antepassados.

Ó pobre político que estupidamente falas em recompor cada detalhe do acervo! O fogo que consumiu o bicentenário palácio não é como a sarça ardente que queima, mas não se consome. Diferentemente do relato bíblico, o fogo que se levantou nessas plagas cariocas consumou o vaticínio “do pó vieste, ao pó retornarás”. Em horas, fez-se pó uma milenar história. Diferentemente da Fênix, o acervo paleontológico e arqueológico não ressurgirá das cinzas. Tampouco poderemos esperar o som da trombeta a anunciar o Juízo Final para sermos testemunhas oculares do ressurgimento de uma cultura que agora jaz o sono eterno do esquecimento. Não se recompõe um acervo dizimado pelas chamas, assim como não se constrói um futuro que faz do seu passado um mero apetrecho alegórico.

Ó ignorantes humanos que insensatamente dizeis: “quem vive do passado é museu”, silenciai vossas línguas e escutai o crepitar das chamas que se alimenta da vossa estupidez. Venham todos, contemplem vosso futuro a exibir-se calorosamente nesse fogo que eleva ao alto vossas retóricas vazias de práticas. Vislumbrai nessa fachada, em lume, vosso futuro marcado pela indiferença ao passado. Respirai as cinzas fúnebres de vossa pútrida racionalidade incapaz de alçar voos mais audaciosos na seara sedutora do conhecimento.

Ó inextricável existir de ossos e carne, incapaz de preservar vossa memória e de teus antepassados, enxergai nessas labaredas vossa limitação e atestado de incompetência. Contemplai, como Narciso, vossa indiferença à alteridade e egoísmo que reproduzem cadáveres culturais. Percebei o quão és incapaz de sonhar.

Lamentemos, como no passado fizeram com o fogo que fez ruir Lisboa, o incêndio no Museu Nacional. Mas saibamos, no entanto, que não foi acidente, antes um minucioso e elaborado plano de sucateamento da memória histórica nacional. Há anos que áreas relacionadas à formação humana e cidadã são um entrave à nossa sanha consumista que se apodera das mais distintas esferas sociais e políticas. A tragédia do Paço de São Cristóvão, antes de ser culpa do governo A ou B, é responsabilidade de uma coletividade que há muito conheceu seu crepúsculo civilizacional. Nossas mãos, as mesmas que escolhem os governantes, estão manchadas com a fuligem que consumiu a Vida (essa é a palavra correta) de um museu que tinha por missão preservar nossa memória.

Se não conseguimos preservar nosso passado, o que legamos ao futuro? Ignorância, estupidez e descaso. O Museu Nacional é apenas mais um bem público a sucumbir à nossa implacável indiferença e inércia perante nossa própria memória e que já fez inúmeras vítimas: a Capela Imperial no campus da praia vermelha da UFRJ; o Palácio Monroe; o Museu do Índio ao lado do Maracanã; o Morro do Castelo; o Memorial da América Latina e o Museu da Língua Portuguesa.

O incêndio que acometeu o Museu Nacional na semana de Independência do Brasil apenas revelou a incapacidade de preservamos nossas heranças. Revelou nossa dificuldade em construir cidadãos críticos e cientes da importância de determinado legado, seja para preservá-lo ou transformá-lo em ações de consciência coletiva. Talvez agora possamos definitivamente celebrar, sobre os escombros da milenar história feita cinza, as exéquias de nossa indiferença perante nosso passado. Celebremos, pois, nossa tarefa sisífica do eterno construir e esquecer. Façamos um réquiem para nossa memória. Choremos mais uma vez aqueles mortos mumificados que outros povos choraram e lamentemos nosso futuro fadado ao limbo eterno da negligência. Celebremos nossa estupidez e ignorância que faz da Vida cinzas.

*Livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades e Doutorando em Literatura pela PUC-RJ

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