Fios do Tempo. A quem interessa esquecer Fabrício Queiroz? – por Marcos Nobre

O Fios do tempo: análises do presente traz hoje um artigo de Marcos Nobre (Unicamp). Sendo um dos principais analistas contemporâneos, Nobre lança uma provocativa pergunta: a quem interessa esquecer Fabrício Queiroz? A ela responde de modo inesperado, fazendo uma fina análise de conjuntura política, esquivando-se de uma costumeira interpretação partidária. Constatando como Bolsonaro “vive do apagão das instituições democráticas que vivemos”, Nobre analisa como ele se tornou “o adversário ideal” do establishment político de direita e de esquerda; e mostra quais são os equívocos e perigos da atual tática de “oposição”.

Com a republicação deste artigo, que saiu originalmente na revista Época, propomos difundir análises exemplares do tempo presente que contribuem para compreender o que se passa por meio de um “pensamento alargado”. Agradecemos a Marcos Nobre pela gentil autorização desta publicação e pelo generoso apoio a nossa empreitada.

Só quem não está confortável com a situação são justamente os dois outros terços do eleitorado que não aprovam Bolsonaro. Dentro do sistema político, quem deveria estar articulando a oposição instrumentaliza o medo, a angústia e a rejeição a Bolsonaro da maioria da população para manter sua posição de “último recurso” para deter o atual presidente. (Exatamente, aliás, como Bolsonaro usou o medo, a rejeição e a angústia generalizados para se eleger).


A quem interessa esquecer Fabrício Queiroz?

Fios do Tempo, 03 de outubro de 2019

Todo mundo sabe que Bolsonaro tem um enorme telhado de vidro. E todo mundo sabe que esse telhado tem nome, Fabrício Queiroz. Só o que não se sabe é o paradeiro do telhado.

A pergunta que realmente importa é, então: por que nenhuma força política de oposição a Bolsonaro chama uma manifestação para exigir que Fabrício Queiroz apareça? É uma pergunta fácil de responder: porque interessa ao sistema político a manutenção de Bolsonaro nos exatos moldes em que ele se apresenta hoje.

O que é difícil é aceitar essa resposta. É triste e paradoxal, mas o fato é que o comportamento e a maneira de operar de Bolsonaro é hoje confortável e funcional para as forças políticas que não apoiam seu governo. Mesmo que, em público, todas essas forças digam exatamente o contrário.

Muita gente já percebeu que a história de que indivíduos e instituições iriam “amansar” ou “domar” Bolsonaro é conversa fiada. Por palavras e atos, Bolsonaro atenta contra a democracia dia sim outro também. Todos os candidatos a amansador e domador que se apresentaram desde o ano passado estão hoje na coleira da fera que deveriam controlar.

Paulo Guedes não só não amansou ninguém como ele mesmo tem de ser amansado agora. Por seus colegas de mercado financeiro, inclusive. Se implementar metade de seu programa de abertura econômica liberal, arrebenta de vez um país que já se encontra em estado de calamidade.

As instituições estão sem chão, funcionando de maneira disfuncional. O STF, paladino da contenção institucional de Bolsonaro, toma atitudes manifestamente contrárias às normas vigentes. Como é o caso da investigação sobre as “fake news”, apenas para citar um exemplo. E por aí vai.

E, no entanto, continuamos a ouvir essa ladainha das amarras institucionais dia sim e outro também. Que Bolsonaro uma hora vai entender que é presidente, o que significa a cadeira que ocupa etc. E é disso que vive Bolsonaro. Vive do apagão das instituições democráticas que vivemos.

O que o impede de consumar desde já seu projeto de destruição da democracia não são pessoas nem instituições. O que ainda segura Bolsonaro é o fato de que ele não conseguiu ainda ampliar o apoio que tem, limitado até o momento a cerca de um terço do eleitorado. Ou seja, quem ainda segura Bolsonaro é a maioria da população brasileira, e não instituições políticas ou indivíduos com capacidades especiais para lidar com bestas feras.

Ao contrário do que pode parecer, o sistema político está muito confortável com a situação. Aposta que Bolsonaro continuará restrito, quando muito, ao apoio desse terço do eleitorado. Porque ficou claro que Bolsonaro não tem pretensão de governar para todo mundo. A prioridade número 1 do atual presidente é manter esse seu núcleo de apoio mais fiel. Para isso, precisa continuar a ser um paradoxal presidente anti-establishment. Além disso, o sistema político aposta que não virá real crescimento e que o atual governo terá quando muito um desempenho medíocre na economia.

Só quem não está confortável com a situação são justamente os dois outros terços do eleitorado que não aprovam Bolsonaro . Dentro do sistema político, quem deveria estar articulando a oposição instrumentaliza o medo, a angústia e a rejeição a Bolsonaro da maioria da população para manter sua posição de “último recurso” para deter o atual presidente. (Exatamente, aliás, como Bolsonaro usou o medo, a rejeição e a angústia generalizados para se eleger).

Nas contas do sistema político, Bolsonaro se revelou um ótimo negócio. O establishment fez do limão uma laranjada. De posse de sua certeza de que Bolsonaro não consegue ampliar sua base de apoio, o sistema político entende que Bolsonaro é o adversário ideal.

Para quem pretende implementar uma agenda liberal (mesmo que não seja a agenda desvairada de Paulo Guedes), basta usar a desarticulação política deliberada do governo para impor sua pauta. E basta aguardar a próxima eleição presidencial para recompor as forças centristas e derrotar um candidato que consegue chegar ao segundo turno, mas não consegue agregar votos adicionais para ultrapassar a barreira de um terço do eleitorado. Esse é o raciocínio de quem, à direita, está parasitando o governo Bolsonaro para implantar sua própria agenda. Da mesma forma como Bolsonaro se utiliza da direita para se manter presidente. A relação entre Rodrigo Maia e Jair Bolsonaro não é de oposição, é de simbiose.

O mais espantoso é que quem faz oposição à esquerda faz exatamente o mesmo raciocínio eleitoral – apenas a relação não é simbiótica, é de conveniência. Bolsonaro seria o candidato ideal para ser derrotado em um segundo turno. Sem a facada, não teria como ter ganho a eleição de Fernando Haddad, é essa a ideia. Basta deixar que a implantação da agenda liberal traga efeitos nefastos e apostar que os mais de vinte por cento que votaram em Bolsonaro e já se arrependeram venham para uma candidatura de esquerda capaz de chegar ao segundo turno. O PT aposta em uma tática semelhante à de Bolsonaro: consolidar o apoio que já tem para se garantir em um segundo turno. Ciro Gomes aposta em já fazer acenos ao eleitorado que abandonou Bolsonaro, mas que não quer votar no PT.

É claro que é difícil avaliar previsões econômicas na confusão econômica internacional de hoje. Ainda mais no Brasil, em que a crise de 2008 teve efeitos não apenas tardios, mas complicados de entender. Mas por isso mesmo é que essa não deveria ser uma aposta firme de quem não quer ver Bolsonaro reeleito.

Do outro lado da mesma aposta, a de que Bolsonaro não consegue ampliar sua base, há pelo menos duas considerações que deveriam fazer o sistema político ficar pelo menos intranquilo. A primeira é que Bolsonaro não está parado, apenas consolidando a base que lhe é fiel. Está tentando ampliar essa base, está tentando de fato converter uma porção maior do eleitorado a teses de extrema direita. Neste momento, a gente sempre ouve que a população brasileira “é de centro” e que não há chance de a extrema direita ter apoio majoritário em disputas democráticas. Invocar a metafísica da centralidade política do povo brasileiro em um momento tão grave não é apenas um insulto à inteligência. É irresponsabilidade política em nível máximo.

A segunda consideração que deveria fazer com que o sistema político ficasse menos tranquilo está na tática bolsonarista, emulada da tática utilizada por Trump não apenas para vencer a eleição presidencial, mas também nas eleições legislativas intermediárias de 2018. Em momentos críticos, como, por exemplo, as disputas eleitorais, a tática consiste em produzir inimigos odientos o suficiente para conseguir uma ampliação forçada da base fiel até conseguir conquistar a maioria.

O risco é simplesmente grande demais para ser corrido. E, no entanto, nada indica que o sistema político vá mudar sua postura. Pelo contrário, Bolsonaro significou para o sistema político a restauração de um poder que o sistema tinha perdido: o de representar as pessoas, o de representar grande parte do eleitorado – dois terços, digamos – contra a terra arrasada do governo atual. Bolsonaro devolveu à política oficial o que ela tinha perdido desde pelo menos Junho de 2013.

E, do ponto de vista do sistema político, isso vale deixar Fabrício Queiroz esquecido. Onde quer que esteja.

*Marcos Nobre é professor de filosofia da Unicamp

O texto foi originalmente publicado na Revista Época na edição de 22/08/2019

Fonte da imagem: Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia (Foto: Fátima Meira/Futura Press/Folhapress)


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