Pontos de leitura. Processador ou humano? Como a transparência nos conduz a um “corredor vazio” – por Byung-Chul Han

Em minhas leituras de Byung-Chul Han, encontrei uma passagem que pode esclarecer a questão das ansiedades e da síndrome de pânico. Ao tratar da sociedade da aceleração, ele trata da diferença entre processador e procissão. Esta última está ligada à narração. Quando ele fala da importância da narração para a densidade semântica, Chul Han evidencia a tendência da sociedade da transparência em gerar um “corredor vazio”. Isso porque o pânico – que tem sua origem etimológica associada à figura mítica do Deus Pan – é uma travessia perigosa. Estando relacionado com o espaço, seu  perigo está envolvido com uma sensação de vazio semântico ocorrido em meio a uma travessia, como se flutuasse no vazio. Sabemos que a sociedade depressiva é também uma sociedade ansiosa. Inclusive, a psiquiatria coloca a depressão e a ansiedade como sendo constitutivas uma da outra; mas ela não diz o porquê. Esta passagem pode ajudar a entender a razão.

Marco Aurélio de Carvalho Silva


 

“Em sua última etapa, as peregrinações e romarias acabam formando, via de regra, uma procissão. Em um mundo desprovido de narrativa e de ritual, o fim só pode ser visto como uma ruptura que dói e perturba. Somente no contexto de uma narração que o fim pode ser visto como conclusão. Sem uma aparência narrativa ele sempre será uma perda e uma falta absolutas. Mas o processador não conhece narração, por isso não é capaz de narração.

A peregrinação é um evento narrativo. Fundamentalmente, o caminho da peregrinação não é uma passagem que deva ser atravessada o mais rápido possível; ao contrário, trata-se de um caminho repleto de semântica. O estar a caminho é carregado de significados como penitência, cura e gratidão. Em virtude dessa narratividade, a peregrinação não pode ser acelerada. Além do mais, o caminho da peregrinação é uma passagem para um lá. Do ponto de vista do tempo, o peregrino está a caminho para um futuro no qual se espera encontrar cura, salvação. Nesse sentido, o peregrino não é um turista, que se mantém preso no presente, no aqui e agora. Ele não está a caminho, pois este não tem significação própria, não podendo ser visto. Ao turista, a riqueza semântica, a narratividade do caminho, é algo estranho. Para ele, o caminho perde toda e qualquer força narrativa e de relato, transformando-se em corredor vazio. Esse empobrecimento semântico e essa falta de narratividade de espaço e tempo se tornam obscenos. Por outro lado, a negatividade em forma de empecilho ou de transição é constitutiva para a tensão narrativa. A coação por transparência derruba todas as cercas e umbrais, sendo que o espaço se torna transparente quando é nivelado, alisado e desinteriorizado. O espaço transparente é pobre em semântica, já os significados surgem apenas por meio de umbrais e passagens, de resistências”.

Byung-Chul Han, Sociedade da Transparência, Editora Vozes, 2017, p. 73-75.

Achado de Marco Aurélio de Carvalho Silva

Fonte da imagem: sistema de tunel subterrâneo construído pelo governo nazista na II Guerra Mundial. Foto de JANEK SKARZYNSKI


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