Notas sobre um Manifesto Anticonvivialista – por Frédéric Vandenberghe

Notas sobre um Manifesto Anticonvivialista

Frédéric Vandenberghe

O Manifesto Convivialista pertence a todos e a ninguém. Quem quer que deseje espalhar sua mensagem e carregar sua bandeira pode fazê-lo. Trata-se de um empreendimento cooperativo, movido por entusiasmo e generosidade. Para transformar o Manifesto em um Movimento, seriam necessários um empreendedor moral, uma ética da convicção e, sem dúvida, também uma considerável rede de contatos na academia e na sociedade civil. Eu nem sequer tenho um telefone celular! E, no entanto, se fui instrumental em fazer com o que o manifesto fosse traduzido e publicado em português, foi porque me vi capturado pelo seu Espírito (seu hau, se preferirem). Alain Caillé, a força motora por trás do Manifesto, me convidou a juntar-me à iniciativa, e eu assenti.

Sempre que contatei pessoas para solicitar um comentário, elas responderam do mesmo modo, desarmadas. O Espírito é, de fato, contagioso, como Marcel Mauss bem sabia. A Annablume estava a bordo desde o início. Quando o Manifesto saiu, primeiramente em formato de pôster, depois no formato de folheto, não recebeu tanta atenção, pois não havia ninguém para promovê-lo agressivamente. Isto é uma virtude. O convivialismo é um espírito, um ethos, uma prática; não algo que se grite dos telhados, mas algo que se faz na vida cotidiana. Ele é, ao mesmo tempo, moral, político e existencial, e é isto o que julgo mais atraente nele. Ele inverte, mas não cancela, o velho slogan feminista. O político é, de fato, pessoal. Se se quer mudar o mundo, deve-se começar consigo mesmo, pois, como aprendi com Roy Bhaskar antes que ele falecesse, a única coisa que podemos mudar aqui e agora somos nós mesmos.

O Manifesto Convivialista é um manifesto pela Paz; não um chamado à Guerra. Graças à sua falsa ingenuidade, ele desarma – ainda que na academia, é claro, todo movimento seja suspeito e suscetível de ser lido como mais uma manobra na luta por poder dentro do campo da ciência a que se pertence. No campo da ciência ou para além dele, já que, na academia, frequentemente se pensa que qualquer movimento no campo tem repercussões automáticas no mundo. Como as constituições, as revoluções ocorrem primeiramente no papel. Tome-se meu próprio campo, a sociologia, e, na sociologia, a teoria social, a subdisciplina que se especializa em generalidades. No todo, a sociologia é, como diz Luhmann (Luhmann e Ward, 2000: 5), uma disciplina entre outras que são parte do subsistema da ciência, ele próprio um subsistema do sistema social. A ideia de que ela oferece uma perspectiva privilegiada sobre a sociedade no seio da própria sociedade é sugestiva, mas pode ser realmente sustentada? Podemos oferecer uma interpretação total do mundo e indicar caminhos para a emancipação? Considerando que nem sequer conseguimos alcançar um consenso em nossos departamentos, não é absurdo propor uma receita para a emergência de uma sociedade convivialista?

Em vez de responder a estas questões espinhosas, quero virar o Manifesto do avesso, utilizando-o como um referencial crítico para a análise de alguns importantes desenvolvimentos, na Europa e no Brasil, que vão contra o fluxo convivialista. Sou um convivialista de coração e um humanista pós-secular (membro da Internacional Humanista). Minha intenção não é escrever um Manifesto Anticonvivialista. Meu argumento, na verdade, é o inverso. Precisamente porque nós, convivialistas, somos decentes e tolerantes, e subscrevemos de corpo e alma o princípio da esperança, temos de saber quem são nossos inimigos. Eles são os endurecidos, aqueles que lutam somente por lutar e dividem o mundo, em termos do binário mortal de Carl Schmitt, entre amigos e inimigos. Enquanto nós queremos transformar nossos inimigos em adversários e nossos adversários em amigos, eles querem erradicar seus oponentes, derrotá-los e destruí-los, violentamente se necessário. Sua questão não é “Como podemos viver juntos com nossas diferenças sem massacrarmos uns aos outros?”, mas o reverso: “Como podemos derrotar nossos inimigos e realizar o mais alto grau de unidade e intensidade?”.

Como uma agenda de boa vontade para o século vindouro, o convivialismo concebe a si próprio como uma ideologia sintética que incorpora o melhor do liberalismo, do socialismo, do comunismo, do anarquismo e – por que não? – do feminismo em uma visão nova, otimista, da “boa vida com e para os outros em instituições justas” (Ricoeur, 1990: 202) e – acrescento – em um ambiente sustentável. Como utopia reconstrutiva para um mundo à beira da autodestruição, o convivialismo é o sonho que incentiva a humanidade a acordar do seu pesadelo. Ele é tido como implícito ou, como fraseariam os jovens hegelianos, “imanente” às práticas dos novos, mais novos e novíssimos movimentos sociais de protesto moral que contestam o cinismo, a indecência, a corrupção e a arrogância dos poderosos e dos ultrarricos. O anticonvivialismo é o seu oposto. Trata-se da ideologia implícita em todos os movimentos reacionários, xenofóbicos, homofóbicos e populistas do mundo, os quais rejeitam a diferença e desejam fazer o relógio retornar à hora sombria dos anos 1950. Antes de 1968, quando os trabalhadores, os negros, as mulheres, os homossexuais, os subalternos sabiam seu lugar e mantinham sua boca fechada. O anticonvivialismo combina o pior do liberalismo, do socialismo, do comunismo e do anarquismo em um agressivo fermento de luta violenta contra o conflito de classes, o protesto étnico e a contestação contracultural da ordem. Embora o discurso da reação mal tenha mudado desde a Revolução Francesa, ele é fraseado de diferentes modos no Ocidente (o Centro) e no Sul (a periferia e a semiperiferia, com os países emergentes rapidamente tornando-se pericêntricos).

Pior do que o liberalismo é o neoliberalismo. Trata-se do espectro que assombra a esquerda. Ele nasceu como uma ideologia de pequenos comerciantes, como Margaret Thatcher, e cowboys do Velho Oeste, como Ronald Reagan, que promovem a livre empresa e detestam o Estado. Ele terminou por instrumentalizar o Estado para defender e implementar os interesses de grandes empresas e bancos internacionais contra os interesses da maioria. Devido à maciça mudança na correlação de poder, o arranjo neocorporativo da social-democracia foi desfeito. Com a queda do Muro de Berlim, o capitalismo tornou-se global e selvagem. Sem quaisquer contraforças, o capitalismo financeiro se expandiu, submeteu a economia real ao seu comando e assumiu uma agressividade fora de controle. O resultado do crescimento e da ganância desenfreados foi a crise financeira de 2007-2008, que começou nos Estados Unidos como uma “crise do subprime” (crédito hipotecário)e se metamorfoseou em uma crise fiscal do Estado quando, dois anos depois, chegou à Europa. Primeiramente, a crise parecia anunciar o fim do neoliberalismo, mas este afinal retornou vingativamente como uma política de austeridade. O que Thatcher não teve sucesso em desmantelar ao longo de 20 anos está, agora, sendo desfeito em tempo recorde. Enquanto este texto é escrito, não é sequer certo que a União Europeia sobreviverá (Grexit? Brexit?).

Na América Latina, o capitalismo é ainda mais brutal, pois, quando a arrogância do dinheiro se funde com a violência do colonialismo, da escravidão e da ditadura militar, o poder disciplinar do passado continua a ser usado contra aqueles que não têm direitos e estão, portanto, excluídos da humanidade em comum, enquanto aqueles que têm direitos, mas nenhuma obrigação, lucram desavergonhadamente com o fato de que podem explorar sem terem de se legitimar e justificar. Quem pode, pode. Contanto que não se seja pego em flagrante, não há nenhuma necessidade de mostrar decoro ou ter escrúpulos morais. Em todo caso, a imprensa é tão seguramente controlada por um punhado de famílias que defendem, não importa o que aconteça, suas práticas iliberais e seus interesses neoliberais em nome da liberdade que bem poder-se-ia nacionalizá-la em nome do povo.

Pior do que o socialismo é o Nacional-Socialismo. Desde os anos 1980, os trabalhadores manuais têm desistido crescentemente do sindicalismo. Eles pararam de votar no Partido Comunista e começaram a votar na extrema direita. A Frente Nacional na França e o Partido da Liberdade na Áustria estavam na linha de frente, mas, com a exceção da Alemanha e da Espanha, todos os países europeus viram um surto de crescimento dos partidos populares e populistas bastante à direita. As últimas eleições europeias foram desastrosas. A Frente Nacional de Marine Le Pen e a UKIP de Michael Farage tornaram-se os maiores partidos em ambos os lados do canal. A extrema direita mudou seus inimigos. Não são mais os judeus, pelo menos não em primeiro lugar, mas os muçulmanos, os negros, os estrangeiros que se tornaram os principais alvos. E a União Europeia também. Os partidos direitistas querem trazer de volta o Estado-nação. Diferentemente da extrema direita dos anos 80 e 90, a extrema direita contemporânea desistiu do livre mercado e da globalização. Ela quer um forte estado de bem-estar social, mas apenas, é claro, para os nacionais, e definitivamente não para os estrangeiros e turistas de benefícios.

Na América Latina, como na Europa no início dos anos 80, a hegemonia vem da esquerda. Seu socialismo é esmagadoramente nacionalista e desenvolvimentista. No Brasil, o PT está solidamente no poder desde 2002. Como um velho navio petroleiro, ele está lentamente mudando o curso da história. A pobreza extrema foi quase erradicada (Fome Zero), mas a desigualdade permanece chocantemente alta. Até recentemente, o PT teve sucesso em cooptar a maior parte dos movimentos progressistas (como o MST, os movimentos feministas, afros etc.) sob as suas asas através da maciça distribuição de dinheiro (ONGs) e poder (em ministérios e secretarias). Como um velho navio petroleiro, ele está enferrujando e sofrendo inundações (escândalos seriais do mensalão, do petróleo etc.) Se Lula retornar em 2017, o PT seguirá o mesmo caminho do Partido Revolucionário Institucional (PRI) mexicano – sem dúvida no poder, controlando o aparato, mas sem crédito (embora, no que me concerne, qualquer coisa seja melhor do que a direita brasileira).

Pior do que o comunismo é o estalinismo. Estalinismo com uma face humana, dogmatismo de uma extrema esquerda que repisa continuamente as mesmas linhas: taxa declinante de lucro, luta de classes, colapso final do sistema, revolução. Quando o materialismo histórico é reafirmado sem pensar, ele recai no (devo dizer?) materialismo pré-histórico. Luxemburgo, Lukács, Lênin, Trotsky, Pannekoek, Mao, Marcuse, mesmo São Paulo, todos esses dinossauros podem ser, de algum modo, ressuscitados em nossos dias com uma dose de pós-colonialismo: teoria dos sistemas-mundo e colonial idade do saber, pós-estruturalismo e estudos subalternos, Escola de Frankfurt e Mariátegui, mesmo Foucault e Shariati podem ser combinados, desde que a indignação encontre um canal. Para justificar o próprio radicalismo, basta sacrificar quaisquer nuanças de positividade e fechar o sistema em uma gaiola de ferro sem janelas e sem saída. Dominação total, alienação total, estado permanente de exceção; apenas o intelectual que descreve o estado de exceção é capaz de escapar ao seu próprio diagnóstico.

Enquanto, na Europa, a filosofia hegeliano-marxista da história entrou em colapso em algum momento dos anos 1980, na América Latina ainda é possível achar barbudos impenitentes esperando pelo Proletariado (ou por um de seus substitutos temporários: os trabalhadores, os camponeses sem terra, o Fórum Social etc.). Para evitar quaisquer mal-entendidos: nessa região, o anticomunismo é ainda pior do que a perversão e paródia do comunismo (bolivarianismo, chavismo etc.). Coup d’Etat, golpe dentro do golpe, ditadura militar e tortura sistemática, tudo em nome do anticomunismo. O fato de que a tortura tenha se tornado agora global não justifica a luta contra o comunismo como tampouco justifica a guerra contra o terror. Poder-se-ia muito bem fazer uma guerra contra a guerra.

Pior do que o anarquismo é o niilismo. Nietzsche (1970: 14) fez a famosa pergunta: “O que é o niilismo?”. E respondeu: “O fim está faltando. Não há resposta à pergunta: Por quê?”. Há niilismo quando não há futuro e prefere-se destruir a construir. A Europa sabe que não tem futuro. Não há como voltar atrás, mas também não há como seguir em frente. O horizonte político está bloqueado para os próximos 15 a 20 anos. Não espere nada positivo do Museu! No Brasil, o anarquismo está pujante. Entretanto, há Bakunin demais e Kropotkin de menos. As Jornadas de Junho foram entusiasmantes, mas também desmobilizadoras. O espetáculo da violência tomou a frente, e foi preciso algum tempo para que se percebesse que o black-blockismo não é uma técnica de movimentos sociais, mas uma técnica de deformação usada durante protestos – uma técnica de defesa e ataque, proteção e projeção contra a polícia. Participei de muitos protestos no centro do Rio e, em todas as vezes, retornei com lágrimas nos olhos (e sem máscara de gás ou vinagre). Juntos, os black blocks, a polícia militar e a imprensa formam um triângulo da morte. Ainda que as análises mais agudas do estado presente venham da intelligentsia da multidão (os doutorandos e mestrandos que encontro nas ruas e, mais tarde, na universidade), não estou inteiramente satisfeito com o foco restrito sobre os protestos. Os protestos são como a espuma das ondas. O que importa são os próprios oceanos. Infelizmente, eles estão morrendo. Por baixo da visibilidade dos protestos, há milhares de projetos subterrâneos de destruição co-criativa e transformação co-construtiva. A internet oferece uma janela para eles. A questão inteira é como podemos transformar as linhas de morte em linhas de fuga, as forças de destruição em formas de construção, fazendo com o que o movimento se mova de novo. Temos a resposta: convivialismo. Uma resposta que é, ao mesmo tempo, construtiva e convivial, existencial e social, política e experimental. É a energia que opera em todos os níveis da sociedade e que transforma, como diria Gramsci, os corações e mentes de todos e de cada um, não apenas nas estradas e nas praças, mas também nas comunidades, nas escolas e no local de trabalho.

Referências

Luhmann, N. e Ward, S. (2000): “Die Gesellschaft der Gesellschaft”, The German Quarterly, Vol. 73, No.2, pp. 1-15.

Nietzsche, F. (1970): “Nachgelassene Fragmente. Herbst 1887 bis März 1888, in Kritische Gesamtausgabe (Colli/Montinari) II.8 Berlin: de Gruyter.

Ricoeur, P. (1990): Soi-même comme un autre. Paris: Le Seuil.

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