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Fios do Tempo. Meditações de um gringo involuntário: fragmentos

Publicamos hoje, no Fios do Tempo, um fragmento de escrita do livro Memórias da Grande Solidão: meditações intempestivas de um gringo involuntário (título provisório), que trata das experiências, no Brasil, do escritor venezuelano Jeudiel Martinez.

O autor está fazendo um crowdfunding para voltar a seu país e finalizar o livro. Todo o valor arrecado pelo crowdfuding é para o sustento vital no trabalho de escrita, a compra de novos computador e celular antes de ir à Venezuela (tendo em vista a grande dificuldade de adquiri-los lá) e o custeio da viagem de retorno.

André Magnelli
Fios do Tempo, 10 de setembro de 2026



Meditações de um gringo involuntário:
fragmentos

“Há uma rachadura no meu coração”

A. já não é minha amiga.

Já não era desde muito antes, pero a gente ainda pretendia ser amigos quando ela me informou, ao vivo, sobre os terremotos:

…acaba de temblar salvajemente
Fue horrible
Fue horrible salí como pude pero el apartamento quedó vuelto nada
Me corté con vidrios al salir
Fue horrible Jeudiel, horrible.

Só receber uma mensagem assim, quando quem a escreveu poderia estar morta ou sob os escombros – ou porque a mensagem poderia não ter conseguido sair  –, é uma sorte muito grande. Longe demais do epicentro para ficar traumatizado, fui atingido por uma sensação de irrealidade: mas, pouco a pouco, aceitei que mais uma desgraça aconteceu, e comecei a me ajustar.

O cenário poderia ter sido terrível: minha mãe morta ou ferida, ou sem casa, ou sem eletricidade por semanas. Mas essa catástrofe também foi incrivelmente compassiva com a gente: para mim, a angústia só durou menos de uma hora, porque consegui contactar a minha mãe e constatar que ela estava bem e que seu prédio, antissísmico, construído sobre rocha sólida, estava intacto: nada comparado com os conterrâneos que sabiam que seus parentes estavam sob os escombros sem conseguir resgatá-los, ou que ainda procuravam seus corpos, ou que ficaram mutilados, ou que perderam toda sua família…

Essas diferenças em sorte são produto da repartição das cartas tectônicas e arquitetônicas: a distância do epicentro, que tipo de solo é, que tipo de prédio, onde estava você ou seus entes queridos no momento… Ou simplesmente como caíram as fichas, isto é, os escombros.

Desde o terremoto, toda minha atenção está em fugir em direção à catástrofe: é como se já tivesse projetado minha mente, como os telepatas dos quadrinhos, e ela já estivesse lá, esperando que o restante do corpo a completasse. Por ficar no exílio, fui inútil durante a revolta popular após as eleições, como também fui inútil após o terremoto, e inclusive agora que escrevo, onde muitos estão à procura de cadáveres. Cansado dessa inutilidade, tanto quanto do exílio e da minha Grande Solidão, não acho estranho perceber como uma libertação o retorno a um país dominado por uma ditadura.

Os terremotos foram eventos geopolíticos (porque foi uma dupla sísmica: dois terremotos de MW7.2 e MW 7.5, separados por apenas 39 segundos); eventos tão marcantes como a captura do Maduro: eles não só aprofundaram a intervenção americana, como também, para desconsolo da direita – que é tão, ou talvez mais, iludida do que a esquerda –, eles foram o momento em que a potência tutelar defendeu, e com paixão (!), a ditadura. É que agora ela é boa, porque é sua. Esse terremoto é parte do epílogo – ou do epitáfio – da política do século XX, que a esquerda, a direita e muitos liberais e “centristas” não entendem que já acabou.

A tutela americana não é casualidade, pelo contrário, é produto de décadas de erros políticos e apostas ruins, tanto do governo quanto da oposição. Assim também, essa nova catástrofe não é casualidade. O fato é que a Venezuela é incrivelmente vulnerável diante de qualquer coisa, seja a ataques estrangeiros ou a desastres naturais. Embora parte dessas vulnerabilidades já existiam desde o início do século XX, produto de uma formação nacional precária – e, talvez, inacabada – e de certa incapacidade de se renovar, essa indefesa é produto de catástrofes e colapsos técnicos, logísticos e institucionais, que foram causados neste século.

É verdade que já existiam as cidades improvisadas, as construções sem estudos de solo, a corrupção institucionalizada e solidificada nas infraestruturas, mas, neste século, com um regime que sempre governou em meio à emergência e à exceção, onde tudo – até a fazenda pública – pertencia a um único indivíduo, onde a corrupção não trazia consequências (até porque era necessária para o funcionamento do regime), onde tudo o que o Estado fazia era feito com presas, improvisado e no curto prazo – pois tinha que alimentar o reality show de seu proprietário –, ocorreu, então, um incremento absurdo das vulnerabilidades de todo tipo que deixou o país indefenso e exposto a apagões, inundações, intervenções estrangeiras, facções armadas locais, doenças e… terremotos.

Há mais de 20 anos, Chávez rejeitou as recomendações do engenheiro Carlos Genatios, que era a Autoridade Única de um estado da venezuela, Vargas – onde fica La Guaira –, que o advertiu a não construir sobre solos instáveis, compostos essencialmente de areia; da mesma forma, ele ignorou as recomendações de uma equipe japonesa, que alertou sobre a necessidade de reformar as estruturas de milhares de edificações em Caracas e outras cidades. Essa foi a última das muitas atualizações e renovações que a Venezuela não experimentou, causas evidentes de sua fragilidade.

Essa irresponsabilidade, como a corrupção estrutural do regime, se solidificou literalmente, cimentou-se: “Não fazíamos análises do solo. Estávamos com muita pressa para entregar as moradias”, falou em 2021, com orgulho, mas não com vergonha, Farruco Sesto, que foi, ao mesmo tempo, ministro da Cultura e ministro de Estado para a Reconstrução Urbana de Caracas (2010-2013), de Hugo Chávez. Farruco estava em Madrid, fazendo propaganda para a ditadura, promovendo a Gran Misión Vivienda Venezuela, numa conversa promovida pela “Plataforma de Afectados por la Hipoteca de Madrid y Leganés”.

Empolgado pela situação, Farruco fez praticamente uma confissão sobre como os planos habitacionais foram feitos e completados com pressa, seguindo instruções arbitrárias de Chávez. Na época, dois complexos residenciais, OPPE-26 e Hugo Chávez, foram improvisados e apressados para estar prontos para a campanha presidencial de 2012. Seus moradores, que habitavam numa escenografia há mais de uma década, morreram ou ficaram feridos quando os complexos foram destruídos pelo terremoto.

As ruínas mostraram a precariedade das construções que materializaram a chavezpolitics e a chaveznomics: suas alianças geopolíticas (com a Turquia, por exemplo), a corrupção de seus agentes e sócios, o perpétuo estado de emergência e a arbitrariedade com que tudo era governado.

O fato é que a história do chavismo está marcada pelas catástrofes e pelos colapsos: apagão, hiperinflação, inundações e deslizamentos, explosões em refinarias e derramamentos de petróleo, incêndios florestais, incrementos absurdos na violência e nos homicídios, hiperinflação, motins e saques, migrações massivas. O terremoto pode ser contingente, mas, para o chavismo, o desastre e a catástrofe são necessários e o acompanham desde o começo, desde o mesmo dia em que foi aprovada a nova Constituição, que foi, em igual medida, o dia da Tragédia de Vargas, a catástrofe com a qual iniciou o século XXI para a Venezuela.

Poder e Catástrofe

Obviamente não lembro onde estava na noite do 15 de dezembro de 1999.

Esse foi o dia do referendo que aprovou a nova Constituição venezuelana. Eu estava, seguramente, atento ao resultado e o celebrei com meus amigos. Veinteañero, eu bebia com eles todas as noites, de segunda à sexta, das sete até meia noite, ouvindo rock em espanhol num bar chamado Cordon Bleu, num ambiente cheio de mulheres muito bonitas onde um monte de jovens profissionais da Geração X, como eu, experimentamos situações vergonhosamente parecidas com as de Friends e How i met your mother, embora tropicalizadas.

A emigração era, então, só um projeto acadêmico ou uma aventura pessoal, coisa que algum amigo fazia para fugir da chatice da Venezuela da época. Muito longe de ser boa, o país era bem mais otimista, e a gente era meio otimista também, embora fingíssimos certo pessimismo. Talvez Morpheus tenha a descrito bem, em Matrix, quando apresentou o “deserto do real” ao Neo: 1999, ápice da civilização na beira da catástrofe. Só que o ápice e a catástrofe, que se vinham misturando desde o século anterior, viriam a se tornar indistinguíveis no século seguinte.

Enfim, era apenas quarta-feira, e acho que não fomos a outros bares, esses que tinham salsa brava toda a noite, num ambiente bem mais forte, e talvez questionável, cheios de poetas fracassados, filósofos medíocres, policiais disfarçados de civis, malandros, bandidos, viciados em drogas e boêmios com a idade que tenho agora. Toda aquela gente que, desde os anos 1980, nunca haviam logrado se livrar da noite, do álcool e da cocaína.

Eu não lembro como foi essa noite, mas é um fato que choveu, choveu muito, como poucas vezes choveu na história de Caracas; e seguramente peguei um táxi até San Bernardino, um bairro muito parecido com Santa Teresa onde eu alugava uma habitação num enorme casarão, que, como acontece neste continente, estava em frente a uma favela que fazia equilíbrio acima de uma ravina. Mas me lembro sim da manhã seguinte, olhando pela janela, à direita da minha cama. A favela já não estava mais: uma marca, como o dedo de um deus, passava pelo que tinham sido as casas.

Eu sei que não cheguei tão bêbado para não escutar nada. Não me permitiria isso, por muitas razões, desde a possibilidade de contato com as jovens profissionais até a possibilidade de ser assaltado ou extorquido pela polícia: a noche caraqueña não era brincadeira, você tinha que estar ligado mesmo com a proximidade do muito bonito e do muito feio. Então, não sei porque não escutei as casas caindo, os gritos, os sons da catástrofe. Foi a arrendatária, uma senhora galega incrivelmente doce, que me informou na manhã seguinte e me falou que até teve que receber feridos em casa.

A chuva incrível durou mais dois dias, enchendo a lama do Ávila, o Kami que fica entre Caracas e La Guaira. E o deus se derramou como um arma cinética, arrasando muitas das mesmas zonas que o terremoto agora destruiu. Foi a marca de seu dedo, ou de seu tentáculo, o que vi nas ruínas do que foi aquela favela.

Assim foi o rebatismo da nova Venezuela, a chavista.

Eu não sabia disso, obviamente, como não sabia que apenas restavam mais dois anos dessa espécie de idade de ouro que estava vivendo. Poderia inserir aqui o enredo de um mangá, ao estilo de um bairro distante do Jiro Taniguchi. É como imaginar que acordo nesse corpo e miro, com olhos velhos, para esses amigos que viraram depois corruptos, burocratas ou até agentes da polícia política, e também para aquelas belezas, agora maduras, que moram em quem sabe qual canto do planeta.

Foi após “La Tragedia de Vargas”,, quando a natureza do novo poder demonstrou sua afinidade com a catástrofe e com as vítimas submetidas à arbitrariedade dos militares nos abrigos, que tive meu primeiro vislumbre do que muito em breve se tornaria a realidade de todos os venezuelanos sob o poder de Maduro: mais desabrigados do que cidadãos. Desabrigados de muitas catástrofes.

Há mais de uma década, a antropóloga Paula Vasquez Lezama publicou Poder y Catástrofe, um clássico onde fala sobre o encaixe original entre o chavismo, a catástrofe e a emergência: “a militarização compassiva…  estabeleceu as bases para a normalização institucional da precariedade, da discriminação e do esquecimento”, falava em 2013, e, em 2019, antes de sua prematura morte, falava da sujeição dos venezuelanos a “uma ordem afetiva baseada em uma espécie de compaixão discricionária e não em uma ordem institucional baseada na justiça social”.

Era verdade: nessa primeira versão deste meta-regime chamado chavismo (Chavezato, o Madurato e o Rodriguezato), você tinha direitos, sim, mas só porque o Comandante os garantia. Sem Chávez ninguém teria direitos e, portanto, tudo era “gracias a Chávez”. Porém, não só o fim do poder carismático do Chávez e das riquezas petrolíferas, mas a degradação das forças militares em uma espécie de gendarmerie sem capacidade nem de defender o país de ataques exteriores nem de manter a integridade territorial, acabaram com essa compaixão ou caridade militar: só ficou uma indiferença e crueldade inacreditáveis de uma força cujas principais ocupações são a extorsão, o tráfico de qualquer coisa e a repressão.

Se, após a primeira tragédia de Vargas, a arbitrariedade e a violência dos militares combinava-se com as operações de grande escala, onde se desdobrava a caridade militar disfarçada de “justiça social”, nesta segunda e ainda mais devastadora tragédia, o militar venezuelano, humilhado pelos Estados Unidos e quase sem capacidades operativas, aparece como um simples repressor e depredador, objeto da ira coletiva: não só o Estado se mobilizou lentamente, como também os militares e policiais recusaram participar nos trabalhos de resgate, assediaram aos resgatistas nacionais e internacionais e interditaram ruas e rodovias para interceptar as pessoas que tentavam levar ajuda (inclusive, em alguns prédios proibiram os resgates).

A fusão da pesada burocracia com a repressão – as filas para tudo, as esperas intermináveis, as decisões absurdas e arbitráriasforam experimentadas por resgatistas de todo o planeta, que esperavam, por dias, a permissão para entrar na Venezuela. Após um quarto de século no poder, o chavismo não pára de nos surpreender: sua depravação não tem limite e parece que tampouco sua capacidade de sobrevivência através das catástrofes que ele mesmo causa.

Mas o fato é que o chavismo, que sempre muda e se transforma tal como os vilões do Anime, é um sintoma e um sinal do século XXI, e todos os saudosistas que tentaram fazer dele uma personagem numa narrativa do século XX (guerra às drogas, luta contra o comunismo, anti-imperialismo) não só erraram: passaram o ridículo… 

Jeudiel Martinez é sociólogo e escritor colombo-venezuelano, refugiado no Brasil. Foi professor convidado da Universidade Central de Venezuela e coordenador do projeto Biblioteca Ayacucho Ilustrada, adaptando a literatura clássica latino-americana aos quadrinhos. É autor do livro A rebelião obediente: sobre o colapso da Venezuela.

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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