As redes sociais funcionam como parte de uma máquina de polarização política. Mas por que somos presas fáceis de um processo de massificação da participação? Se vivenciamos uma despolitização cívica, isso também ocorre porque os quadros institucionais do espaço público foram esvaziados. E o que podemos fazer diante disso?
É em torno dessas questões que Raphael Castro reflete em seu mais novo texto no Fios do Tempo, que vem depois de “A polarização pelos clichês: como a sociologia pode contribuir para o debate político?” (26 de fevereiro de 2025).
Desejo, como sempre, uma excelente leitura!
A.M.
Fios do Tempo, 14 de julho de 2025
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As redes sociais e
o esvaziamento do engajamento cívico
A crescente polarização política no Brasil tem sido intensificada pelas redes sociais, transformando o debate público em um campo de embates acalorados, muitas vezes superficiais. O que antes se manifestava de forma mais orgânica nas ruas, como nas grandes mobilizações da década passada, agora se desloca para o ambiente digital, onde discussões complexas são frequentemente reduzidas a slogans e ataques pessoais. Diante desse cenário, torna-se essencial refletir sobre os desafios da participação política em uma era marcada pela massificação das informações e pelo esvaziamento do envolvimento cívico autêntico.
As redes sociais têm acirrado e tornado cada vez mais raso a discussão sobre temas importantes do nosso país. Há uma década atrás as ruas do Brasil foram tomadas pelos movimentos de direita, como o Movimento Brasil Livre, que liderou o “Vem pra Rua” (2014), e de esquerda, como o Movimento Passe Livre, que liderou as manifestações da “Jornadas de Junho” (2013). Além disso, houve exemplos internacionais, como o Occupy (Wall Street) (2011) e a Primavera Árabe (2010). Hoje, as plataformas digitais, que serviram para a rápida organização e mobilização desses movimentos, deixaram de ser o meio e o centro dessa discussão, que é alimentada por rancor e ressentimentos entre usuários.
Antes de apontarmos o quão problemáticos e pouco plausíveis têm sido os acalorados debates nas redes sociais, é preciso compreender que a tendência massificadora do debate político na internet está frequentemente desvinculada das experiências políticas autênticas, aquelas que realmente formam a capacidade de ação e julgamento dos cidadãos na esfera pública. Essa esfera, historicamente situada entre o Estado e a sociedade civil, pressupõe vivências concretas de participação, deliberação e responsabilidade coletiva, que dificilmente se constroem apenas a partir do ruído digital.
A esfera pública com quadro institucional de participação
O Estado é o poder institucionalizado, enquanto a sociedade civil é a esfera de ação autônoma dos cidadãos e grupos organizados. A primeira é composta por instituições como governo, parlamento, judiciário e forças de segurança, tem autoridade para criar e aplicar leis, além de garantir a ordem pública; a segunda refere-se ao conjunto de cidadãos, organizações, associações e grupos que atuam de forma autônoma, fora do controle direto do Estado. Inclui ONGs, movimentos sociais, sindicatos, igrejas e outras formas de organização coletiva que buscam influenciar políticas públicas ou atender a interesses comuns.
Existem também os mecanismos de participação democrática no Brasil, onde a população pode influenciar diretamente as decisões políticas e a gestão pública por meio de mecanismos de participação democrática que vão além do voto. Entre eles estão o plebiscito e o referendo, que permitem aos cidadãos aprovar ou rejeitar propostas do governo, e a iniciativa popular de leis, que possibilita apresentar projetos ao Legislativo com um número mínimo de assinaturas. Há também os conselhos participativos, onde sociedade civil e governo discutem políticas públicas em áreas como saúde e educação, e as audiências públicas, que abrem espaço para debates sobre temas importantes. Além disso, a tecnologia ampliou a participação, com petições online e plataformas digitais que aproximam os cidadãos das decisões governamentais.
Com isso, a sociedade civil tem cumprido um importante papel, por um lado, de cobrir lacunas deixadas pelo Estado e, por outro, fiscalizar e exercer influência nas decisões estatais. As organizações da sociedade civil, embora privadas, exercem atividades de finalidade pública e dependem, entre outras fontes, da renúncia fiscal imposta pelo Estado e da doação de indivíduos e empresas privadas para manter suas atividades. Também conhecido como terceiro setor (pois não é nem estatal e nem privada), possuem uma presença significativa na economia, reunindo mais de 800 mil organizações sem fins lucrativos, segundo dados do IBGE. Ele emprega cerca de 6 milhões de pessoas, representando aproximadamente 4% do PIB brasileiro.
O World Giving Index (Índice Global de Solidariedade) é um estudo global que avalia a generosidade dos países com base em três critérios: ajuda a estranhos, doações monetárias e voluntariado. Em 2023, o Brasil ocupou a 89ª posição no ranking, uma queda em relação ao ano anterior. Em 2024, o país melhorou sua colocação, alcançando o 86º lugar, enquanto a Indonésia manteve-se no topo pelo sétimo ano consecutivo. É preciso ressaltar nesta pesquisa que 64% dos brasileiros ajudaram um estranho, mas apenas 26% doaram dinheiro e 22% se voluntariam em alguma coisa, demonstrando que o problema não é especificamente falta de solidariedade, mas uma falta de comprometimento do brasileiro com as organizações civis.
É importante considerar que o Brasil possui uma das cargas tributárias mais altas do mundo e ainda conta com poucos mecanismos eficazes de renúncia fiscal que incentivem o engajamento dos cidadãos em causas políticas e sociais. Em países com tributos mais baixos, como os Estados Unidos, existe uma cultura de doação mais consolidada. No Brasil, embora exista a possibilidade de doações dedutíveis no Imposto de Renda para pessoa física, esse recurso é pouco conhecido e raramente utilizado. Em 2024, por exemplo, apenas R$ 387 milhões foram doados por meio desse mecanismo, de um potencial estimado de R$ 14 bilhões, segundo dados da Receita Federal
É preciso, portanto, fortalecer os espaços de participação política direta do cidadão na vida democrática; pois sem essas “escolas de formação” do cidadão, o que restará é o surgimento das massas incultas e facilmente manipuláveis por grupos políticos organizados. Antes mesmo da politização das redes sociais, as massas já eram movidas pela mídia social (TV, Rádio, Jornal) pelo qual buscam se informar. Hoje as fontes de informação e desinformação são as mais variadas e cada vez menos seguras, como os grupos do Whatsapp.
O atual modelo de democracia onde o cidadão está atomizado e cada vez mais restrito aos seus assuntos privados tem gerado um clima generalizado de insatisfação política devido ao altíssimo nível de instabilidade social e econômica vivida nos dois últimos governos; a inflação e a alta do dólar tem precarizado o poder de consumo da classe média e dos mais pobres. Sem saber ou poder como agir politicamente resta somente expressar ressentimento e hostilidade em relação a uma esfera que não faço parte e que toma decisões que não participo. Nesse contexto, publicar ou reproduzir qualquer coisa, sendo mentira ou não, que faça sentido ou não, não faz a menor diferença, pois o cidadão perdeu a referência do qual é real ou não no cenário político.
As redes sociais e a massificação da política
Segundo o relatório Digital 2023, os brasileiros passam, em média, 3 horas e 46 minutos por dia em redes sociais, bem acima da média global de 2 horas e 31 minutos, ocupando o segundo lugar no ranking mundial, atrás apenas das Filipinas. Trata-se de um tempo expressivo, especialmente para um país que enfrenta desafios sociais tão profundos. Esse contraste evidencia o quanto o tempo dedicado ao engajamento cívico, como o voluntariado e as doações, ainda é limitado. Parte desse tempo poderia ser redirecionado para ações comunitárias que impactam diretamente a vida cotidiana das pessoas. Embora as redes sociais sirvam como espaços de expressão política e debates, seu alcance difuso e natureza fragmentada exigem, antes, uma vivência cívica concreta e cotidiana. Sem essa base, elas pouco contribuem para formar uma cidadania ativa e transformadora.
Além dos mais, é necessária a intervenção do cidadão cobrando, intervindo na esfera administrativa do Estado por meio de proposta de criação de leis, referendos e plebiscitos. Esses mecanismos poderiam ser utilizados para mobilizar e pressionar mudanças na estrutura do Estado que beneficiam os cidadãos. A insatisfação em relação a determinadas condutas e privilégios do Legislativo, Judiciário ou do Executivo são conhecidas. O aumento de salários e benefícios, que contrasta com os baixos salários da população média e mais pobres brasileiras, sempre foram pautas que causam amargor no brasileiro. O movimento Pessoas à Frente lidera uma campanha contra supersalários com baixíssimo engajamento popular, mesmo pesquisas mostrando que 93% dos brasileiros são contra esse abuso na remuneração de alguns poucos servidores.
O clima niilista tem promovido uma descredibilização das instituições políticas e o perigoso crescimento da extrema direita, que em seu discurso defendem abertamente golpes de Estado e o retorno do regime militar como uma maneira eficaz de restabelecer a ordem política no país. O Brasil tem pago um preço alto pela despolitização de sua população. É preciso pensar novas formas de formação e participação política que evite radicalismos e polarizações. As redes sociais podem sim ser espaços de interação política desde que não esteja desvinculada de uma participação cidadã efetiva.
São os próprios brasileiros que elegem os líderes do Executivo e todo o Legislativo. E, no contexto de uma democracia representativa, o papel da população é exercer influência indireta nas decisões do Estado e não apenas canalizar insatisfações e ódio pelas redes sociais. Para além da crítica virtual, é essencial cultivar formas mais consistentes de participação, como o acompanhamento das políticas públicas, a atuação em conselhos, o engajamento em iniciativas comunitárias e a cobrança ativa por transparência e resultados. A democracia se fortalece quando os cidadãos compreendem que seu papel vai além do voto: envolve presença, vigilância e construção coletiva.
Raphael Castro é formado em ciências sociais pela UENF e mestre em filosofia pela PUC-RJ. É também livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades.











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