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Pontos de Leitura. E a Terra se comove! – por Michel Serres

France, Vincennes, 11 avril 2016 Portrait de Michel Serres, French writer, philosopher, epistemologist and member of the French Academie. France, Vincennes, 11 avril 2016 Portrait de Michel Serres, écrivain, philosophe, épistémologue et membre de l’Académie Française. Serge Picard / VU

[…] desde esta manhã, a Terra treme novamente: não porque ela se move em sua órbita inquieta e discreta, não porque ela muda, desde as suas placas profundas até seu envoltório aéreo, mas porque ela se transforma por nossa ação. […] Nós preocupamos a Terra e a fazemos tremer! Novamente, ela tem um sujeito. […] Move-se a Terra imemorial, fixa, com as nossas condições ou fundações vitais, a Terra fundamental treme. Esta crise de fundamentos, não intelectual, não diz respeito às nossas ideias nem à linguagem, nem à lógica, nem à geometria, mas ao tempo e à nossa sobrevivência.

Como não reconhecer então, no processo de Galileu, o debate bíblico imemorial dos profetas e dos reis? Os que se apóiam na lei exigem do recém-chegado que afirma falar de um outro mundo que dê um sinal milagroso, mostrando realmente que ele vem de outro lugar, de Deus ou de um outro mundo.

Então, levantando a mão, o mecânico [Galileu] faz a terra toda se mover [dizendo: Eppur, se muove!]. Citado na justiça, ele cita a Terra, apela a ela e a faz mover-se – sabe-se que o verbo citar significa, nas línguas antigas, abalar. Imenso estupor que vai mudar a história: ela se move!

O que é um milagre? A súbita irrupção da coisa na causa, do mundo no pretório: tremor da terra. De fato, ela se move! Aí está o estatuto original, verdadeiramente milagroso, da mecânica, a nova ciência do movimento. A Terra fenomenológica se abalava!

Ainda estamos em estado de choque. O profeta derrubou o rei. A ciência toma o lugar do direito e estabelece os seus tribunais, cujos decretos de agora em diante farão parecer arbitrários os das outras instâncias. E agora, o que fazer e como decidir, com que direito? Isso em um mundo e por um tempo que não sabe ou não faz senão saber que só faz aquilo que decorre do saber? Em que só a ciência tem plausibilidade? Em que só seus tribunais julgam do modo duplamente competente?

Mas eis algo de novo. Os limites do conhecimento, eficaz e preciso, os da intervenção racional, não se avizinham mais apenas da ignorância ou do erro, mas também do risco de morte. Saber não nos basta mais.

Pois, desde esta manhã, a Terra treme novamente: não porque ela se move em sua órbita inquieta e discreta, não porque ela muda, desde as suas placas profundas até seu envoltório aéreo, mas porque ela se transforma por nossa ação. A natureza era uma referência para o direito antigo e para a ciência moderna porque não havia nenhum sujeito em seu lugar: o objetivo, no sentido do direito e também no sentido da ciência, emanava de um espaço sem homem, que não dependia de nós e do qual nós dependíamos de direito e de fato; agora, depende de tal maneira de nós, este abalo, que nos preocupamos também com este desvio dos equilíbrios previstos. Nós preocupamos a Terra e fazemos tremer! Novamente, ela tem um sujeito.

A ciência conquistou todos os direitos, há três séculos, recorrendo à Terra, que respondeu se movendo. Então, o profeta [Galileu-cientista] tornou-se rei. Por nossa vez, recorremos a uma instância ausente quando exclamamos, como Galileu, mas diante do tribunal de seus sucessores, antigos profetas que se tornaram reis: a Terra se comove! Move-se a Terra imemorial, fixa, com as nossas condições ou fundações vitais, a Terra fundamental treme.

Esta crise de fundamentos, não intelectual, não diz respeito às nossas ideias nem à linguagem, nem à lógica, nem à geometria, mas ao tempo e à nossa sobrevivência.

Pela primeira vez depois de 300 anos, a ciência se dirige ao direito e a razão ao juízo.

Michel Serres, O Contrato Natural, 1990 (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 100-102).

Achado de André Magnelli

Michel-Serres em Vincennes, abril de 2016. Foto de Serge Picard /VU.


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