Tecnociências & Sociedade: interflúvios e porvires da máquina, da vida e do (pós-)humano

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O Plano de Tecnociências & Sociedade é aquele que melhor representa a diversidade interna do Ateliê de Humanidades, que poderia muito bem ser denominado, por isso, de Ateliê de Humanidades & Tecnociências. Nele, uma confluência entre pesquisadores de ciências humanas, cientistas de exatas e naturais e profissionais de engenharia ocorre não apenas naturalmente, como também é amplamente estimulada.

A esfera pública mundial está repleta de filósofos, cientistas, jornalistas, cineastas, romancistas, blogueiros, tecnólogos, entre outros, refletindo sobre as revoluções tecnológicas em curso e suas consequências sociais benéficas, maléficas ou catastróficas. O surgimento de novas tecnologias – tais como as de informação e comunicação, a inteligência artificial, as biotecnologias, as tecnologias reprodutivas, a nanotecnologia, etc. – põe desafios que não nos deixam muita margem a dúvidas: as tecnociências geram transformações radicais na vida social, nos expõem a um momento de crise e ruptura e, no limite, nos levam a repensar as noções mais estruturantes da vida humana moderna. Transformações tecnológicas que chegam a associar-se a radicais mutações na compreensão que os humanos têm de si mesmos, como se vê em narrativas que anunciam uma nova era, a do “pós-humano”; ou nas que buscam revelar que jamais fomos humanos, pois sempre fomos ciborgues.

A figura canônica do sujeito abstrato, universal, racional, reflexivo do Iluminismo foi alvo, a partir de meados do século XX, de uma série de operações teóricas e práticas desestabilizadoras que, no mínimo, nos fazem refletir sobre a inexistência de um sujeito fora de relações de poder, de histórias específicas, da linguagem e da cultura; e, no máximo, nos levam a uma série de questões cada vez mais radicais sobre a própria natureza do que é o humano: Quem é o sujeito e quem é o assujeitado? O que é humano e quem é humano e não-humano? O que é uma máquina, um ser vivo, um animal, um ciborgue? Onde encontram-se as fronteiras entre a humanidade, a vitalidade, a animalidade e a maquinicidade? Seriam elas paralelas, tangenciais ou fluidas? “Nós”, um pronome político por excelência, habitamos um mundo onde tanto o “nós” quanto o “mundo” encontram-se em crise absoluta, onde vigora um complexo emaranhado de naturezas e culturas, tecnociências e sociedades. A ambiguidade, portanto, impera.

Como os pilares mais importantes da vida moderna podem permanecer de pé diante deste turbilhão de híbridos tecno-naturais e criaturas tecno-humanas? Assistimos aos Estados, com suas certezas racionais, suas seguranças e seus controles dos mais sofisticados, desestabilizarem face ao surgimento de novas conexões entre os humanos e as máquinas. Como, diante dessas ambiguidades que nos afetam, afrontar tal paralisia do pensamento? Como repensar, atualizar e reinventar os canônicos valores e fundamentos modernos? Nossa navegação pelos interflúvios e porvires da máquina, da vida e do (pós-)humano exige-nos, constantemente, uma cartografia dos fluxos que “nos” interpenetram e dos pontos cardeais pelos quais podemos nos guiar, buscando atuar, assim, no caminho entre a ordem enrijecida antiga e um caos indiferenciado de uma contemporaneidade desesperada e catastrófica. Debruçar-se sobre a produção tecnocientífica recente é, portanto, de extrema importância, uma vez que todos os tecno-objetos que cada vez mais povoam o “social”, alojam-se, exatamente, nesses interflúvios diante dos quais encontramo-nos paralisados. Frente à “Queda do Céu”, para aludirmos a Davi Kopenawa, é preciso, no mínimo, dar prosseguimento à “queda do Cogito” e aprender a habitar estes tempos de mutação.

Um aprendizado que não pode se contentar mais com uma crítica externa das tecnologias, devendo se dispor a pesquisá-las em sua lógica própria de criação, desenvolvimento e uso, aprendendo, com os próprios cientistas, tecnólogos e usuários, como que eles as fabricam e com elas convivem. Afinal, há outra via do que a escolha entre um catastrofismo crítico, comum aos profissionais de Humanidades, e um otimismo ingênuo, imputado, quase sempre erroneamente, aos cientistas, tecnólogos, engenheiros e usuários. Essa via é a de construção de uma agenda em comum que implica a recusa da divisão entre as “duas culturas”, diagnosticada por Ch. P. Snow (1959), e a declaração do fim da guerra entre as ciências.

Tal Plano na interface entre as Humanidades & as Tecnociências pode ser dividida em quatro segmentos. Enquanto os dois primeiros abordam a problemática com uma sensibilidade histórica e teórica sobre a complexidade do fenômeno tecnológico, os dois outros enfrentam o desafio de pesquisar empiricamente as consequências sociais das mutações tecnológicas contemporâneas e pensar, ficcional ou normativamente, nossa crise em toda a sua ambivalência, plena de eminentes perigos e catástrofes, assim como de oportunidades e utopias.

* Imagem: Releitura da Criação de Adão de Michelangelo. Composição via Deep dream.

Em breve será disponibilizado aqui o delineamento completo do Plano.


Projetos em andamento:

A História Antropológica de um Ponto de Vista Tecnológico: fundamentos clássicos e contemporâneos de antropologia das técnicas e dos objetos técnicos

Repercussões da Inteligência Artificial: sobre o social, o individual e o relacional – no humano e na máquina

A virada ontológica na antropologia das tecnologias

Robôs como artistas ou como obra de arte? Reflexões sobre a arte contemporânea a partir de uma etnografia dos usos da robótica na arte

A Carne do Maquínico: Uma Cosmopolítica das Relações IA-Humanos

Teoria Crítica das Tecnociências: gêneses históricas e fundações teóricas


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